quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O seriado no qual o protagonista é o juiz

Foto: UOL
Sem hipocrisias, a série (FdP) (isso mesmo que você está pensando) teve apenas uma temporada pela HBO, mas deixou boa impressão. A produção conta uma história do ponto de vista do árbitro Juarez Gomes da Silva, mostrando como algumas situações no futebol podem interferir no trabalho do homem que apita.

É realmente uma pena que (FdP) tenha sido cancelada após uma só temporada. Foi uma das poucas séries boas que trataram o futebol sem aquela necessidade de romantismo ou finais felizes. Entretanto, você ainda pode ver os episódios do seriado nestes sites especializados. Há algumas boas razões para fazer isso.

Primeiramente, os textos são muito bons. Não há aquele medo dos redatores em usar os palavrões, e muito menos fazer deles um refúgio para buracos no roteiro. Criada por José Roberto Torero, Adriano Civita, Giuliano Cedroni e Marcus Aurelius Pimenta, (FdP) foi uma iniciativa corajosa, já que pouca gente se interessaria por uma trama em que o protagonista é um árbitro. 

Juarez Gomes da Silva (Eucir de Souza), pai e separado de sua esposa, Manuela (Cynthia Falabella), começa o enredo se arrependendo de ter traído a mulher e estragadp o seu casamento. Lutando contra a resistência da ex-esposa e de seu advogado (com o qual ela tem um caso) para ver o filho Vini, o juizão segue com a sua carreira num momento delicado. Assim como Hank Moody, em Californication, o personagem tenta consertar os seus erros, mas se mete (muitas vezes sem querer) em encrencas.

Apesar de não ser exatamente carismático e nem um pouco engraçado, Juarez é complementado pelo seus assistentes Romeu Carvalhosa (interpretado por Paulo Tiefenthaler, esse com textos hilários) e Sergio Roberto de Paula. Outro bom personagem é o argentino Bartolomeu Guzmán, parceiro de sua mãe Rosali., um homem sem muito pudor. Todo episódio termina com alguém xingando Juarez de filho da puta, ainda que com diferentes entonações. 

Nesse contexto de separação, redenção e afirmação na carreira, Juarez precisa conseguir conciliar todos os problemas com a sua atuação em campo, o que sempre gera certo suspense quando as partidas acontecem. Não espere ver os grandes paulistas retratados na obra. Os jogos geralmente acontecem no Morumbi, Moisés Lucarelli, entre outros estádios em São Paulo, mas os times são fictícios e as torcidas são meticulosamente colocadas em alguns cortes, como parte da ficção. 

É engraçado ver pela primeira vez a torcida do São Paulo sendo abafada por alguns gritos de 'Pauliceia! Pauliceia!" no primeiro capítulo. Isso não tira a graça de (FdP). Apenas Juventus e Red Bull Brasil aparecem em certo ponto, com suas marcas devidamente expostas. Um dos episódios mais dramáticos se passa justamente na Rua Javari em que o Juventus luta para evitar o rebaixamento.

Além do futebol, o sexo tem peça chave em (FdP). É dele que parte a problemática no casamento de Juarez e em várias oportunidades gera desconforto entre o ex-casal. O enredo é cuidadoso ao não deixar nada muito fora da realidade e até fez questão de incluir uma bandeirinha formosa (coloquemos assim) na história. Alguns trechos de episódios se passam no prédio da Federação Paulista de Futebol, já que o chefe da arbitragem, Ladislau Camponero também é um dos personagens importantes.

Sabendo dosar bem o drama e o humor, os diretores conseguem prender a atenção do expectador ao longo de 30 minutos de um episódio. Tudo isso sem apelar para clichês do esporte ou diálogos tacanhos como vemos na teledramaturgia brasileira. Só por isso, (FdP) merecia ter mais uma chance de continuar na grade da HBO. O fato da obra ser mais plausível do que fantasiosa é um trunfo que deveria ser mais reconhecido.

O problema é que a legislação brasileira emperrou a sua sequência, como conta Patrícia Kogut em coluna datada em novembro de 2012.

Felipe Portes ainda é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é o dono e criador da Total Football

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

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