quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Intervalo: Paixão correspondida?

Últimos instantes do grande Palmeiras - Libertadores 2009 v Nacional (Terra)
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

Vocês vivem dizendo que o Palmeiras adora passar anos e anos inglórios à espera de novas conquistas que possam significar algo no hall de troféus e batalhas míticas no salão nobre da Turiassu. Nesta atual fase, já somamos três longos anos sem uma mierda de una taça. Na minha concepção, conto como 11, já que a Libertadores é que é competição de verdade, não um campeonato regional.

Alguns amigos sempre discordam, alegando que comemorei loucamente aquele triunfo sobre a Ponte Preta num Palestra Itália lotado, lá de longe da pequena Ourinhos. Comemorei, claro, como haveria de fazer. Fruto de uma vitória brilhante sobre o São Paulo nas semifinais, o Verdão (em um dos últimos atos que de fato mereceu esta alcunha) passeou em Campinas e deu show na Capital para o embate derradeiro. 

Comemorei loucamente sim, um grito de é campeão após nove anos insossos em que vi um rebaixamento, algumas goleadas vexatórias (queime no inferno, Vitória) e nem posso dizer que brigamos por alguma competição neste meio tempo, pois estaria mentindo. Me acostumei a ver elencos patéticos, com jogadores lamentáveis e desculpas pouco aceitáveis de dirigentes asquerosos que só afundaram a instituição. 

Naturalmente, viramos a quarta força do estado. Foi preciso a chegada da obscura Traffic para que um plantel DECENTE fosse construído, trazendo também a onda de piadinhas como "ah, o Palmeiras se fosse uma banda, seria o Aerosmith, só aparece quando tem uma boa parceria", Palmeiras/Parmalat da década de 1990 e outras anedotas incitadas por hereges que certamente verão seus amados pavilhões caírem em desgraça um dia. 

Voltando a 2008, falhamos vergonhosamente na tarefa de buscar o Brasileirão após 14 anos, mas ao menos poderíamos contar com um grupo equilibrado. Um bom Kléber, o paredão Cavalieri, o Mago Valdívia, até mesmo um Alex Mineiro, um Diego Souza e um Léo Lima, reflexos de uma torcida desesperançosa. Para 2009, voltaríamos à Libertadores com um esquadrão "redondinho" e com chances reais, sem os vexames corriqueiros contra o São Paulo, nêmesis palmeirense no certame sulamericano. Que pensar além de um "chegaremos lá"?

Deixamos de ser chacota por alguns bons meses e a campanha sofrida na América atestava este fato. Claro que nos aproveitamos do fato do querido Corinthians ter provado do descenso, apesar de ter sido difícil permanecer futebolisticamente são durante a hegemonia tricolor. Torcedor que é torcedor de verdade não se irrita quando seu time perde sempre. Perde a paciência quando os jogadores não demonstram empenho, o que pode sim acabar com paixões pelas cores ou até mesmo pelo esporte. Os bons resistiram, os bons acreditaram em novos tempos.

A melhor fase do Palmeiras coincidiu com a até então melhor fase da minha vida. Entrei na faculdade, conheci uma porrada de gente da melhor qualidade (e também da pior, como os inesgotáveis Marcelos que surgiam), aprendi uma porção de coisas pra levar até a terceira idade e mais do que nunca, descobri dois dos grandes amores da minha vida: o jornalismo e a cerveja. Estava ciente de que seria um período inesquecível da juventude, a cada dia que passava. O Verdão colaborava, com muito esforço.

Primeiro momento memorável: fui ver o embate decisivo da primeira fase contra o Colo-Colo numa padaria na cidade onde estudei, a gloriosa Assis. Fugi da aula devidamente uniformizado e me juntei a um bom número de palestrinos fanáticos e evidentemente tensos com os 90 minutos que viriam. Do lado chileno, caras como Lucas Barrios, Macnelly Torres, Sanhueza, Figueroa (que posteriormente ocupou de forma lazarenta a lateral esquerda alviverde, desgraçado) nos davam a impressão de que a tarefa de sair de Santiago com a vaga nas mãos era mais difícil do que o esperado. E assim foi...

Tive de ir embora antes do apito final e já estava crente que estávamos fora, quando chega uma mensagem no celular avisando do milagre operado por Cleiton Xavier. Petardo de longa distância, golaço, oitavas, chupa essa manga, chilenada. O próximo adversário era o encardido Sport de Magrão, Durval, Ciro e a temível Ilha do Retiro.

Lá fui eu fugir da aula pra viver aquele amor doentio. Cerveja atrás de cerveja e na partida de volta meu coração parecia que sairia pela boca. Os gritos inflamados a cada ataque desperdiçado do Leão da Ilha eram o prenúncio de que se tudo terminasse bem aquela noite, seria no alto da ebriedade e da rouquidão. Pênaltis. Puta que pariu. Em Libertadores e com Marcos na meta, confiamos. Confiamos tanto que no fim foram três penalidades salvas pelo santo palestrino, que injustamente ainda não foi canonizado.

Pressentia que aqueles tempos de criança, quando nós dominávamos algo no Brasil e na América, voltariam. Nas quartas, um Nacional sem grandes estrelas. Com um empate medonho dentro do Palestra, por 1-1, o alviverde se viu obrigado a vencer em Montevidéu para avançar e enfrentar o Estudiantes que viria nas semis.
Teria de passar por mais alguns momentos de tensão adiante. Pois é...

Quarta-feira, 17 de junho de 2009: o dia em que o Palmeiras deixou de ser grande. Com a formação titular, não soubemos passar pela barreira uruguaia característica na defesa. Nem preciso dizer que fugi da faculdade outra vez pra sofrer com o meu time. Uma noite fria, lembro bem. Tive de acompanhar pela internet a peleja, não tinha TV a cabo. Quanto mais difícil fosse pra ver o jogo, maior seria a recompensa e a emoção. Entretanto, naquela noite em especial o alviverde resolveu se acanhar, se apequenar diante dos frágeis mandantes.

A prova de que tudo iria por água abaixo cedo ou tarde foi o sumiço de Keirrison (apareceu e sumiu para o futebol mais rápido que o rapa na feira, pipoqueiro de merda) e a quase consagração de Obina, que perdeu um gol na frente da trave direita do Nacional.

Desde então, tudo que tenho visto foi covardia, dentro e fora dos gramados. Perdemos um título nacional que estava mais fácil que tomar doce de criança, investimos milhões em caras que não valiam nem o meu desodorante, tomamos goleadas significativas e perdemos a esperança no sucesso. Não adiantou nem trazer Felipão, tão ídolo quanto São Marcos. Hoje o Palmeiras é um filme triste que insisto em assistir, uma novela que tem um capítulo positivo para cada cem de total desgraça.

Já tentei deixar essa paixão de lado, mas esse troço que me consome. Estamos carentes de ídolos que façam por onde, de atletas que valorizem mais a história que podem ter do que os cifrões. É um amor tão ingrato e doído, mas depois de um ou dois fins de semana de dor, lá estou eu no estádio torcendo outra vez. Outra vez vi um comercial da fornecedora de uniformes que falava sobre o Palmeiras ser "uma paixão correspondida". Analisando friamente num momento isolado, discordo.

Especialmente nos últimos 10 anos, tem sido como amar alguém que você sabe que nunca vai te ligar, que dificilmente vai olhar no seu olho e dizer tudo o que você quer ouvir. Mais do que um "eu te amo", Palmeiras, eu quero ouvir um "É campeão". Enquanto isso não acontecer de novo, considere nosso relacionamento como em espera. Você e as outras garotas que deixam o amor em segundo plano.

3 comentários:

Caio Dellagiustina disse...

Cara...perfeito o post. A Liberta de 2009 me marcou demais tbm. O gol de Cleiton Xavier foi o melhor presente de aniversário que já tive (o jogo foi dia 29 de abril, véspera do meu aniversário), o jogo contra o Sport vi na facu, e nos pênaltis foi emocionante a corrente que os palestrinos fizeram para ver o Santo defender os pênaltis. Me lembro de sair da faculdade chorando, tambem achando que os bons tempos voltariam. No jogo contra o nacional, lembro que tava algo em torno de 10 graus, mas as unicas coisas que me aqueciam eram a camisa e a bandeira. Enquanto todos estavam de blusa eu suava apenas com o manto verde.

Max disse...

Olha... quase chorei lendo esse post...

Elson Miguel (Piro) disse...

Felipe,
Com certeza os tempos de glória acabaram, mas tem uma coisa que não tiram do Palmeiras nunca!!! Títulos foram ganhos no futebol, sem anulação de jogos, pernaltis 'macabros', ou com ingressos para show de Madonna.

Piro