terça-feira, 25 de outubro de 2011

Os cinco grandes argentinos: uma ideia ultrapassada?

Independiente pode entrar no mesmo turbilhão do River no próximo ano? (4-4-2)
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

Quem está familiarizado com o futebol argentino sabe a dificuldade de convencer um brasileiro médio de que os cinco clubes tidos como “grandes” no país vizinho são Boca, River, Independiente, Racing e San Lorenzo. E nesse caso, há motivos para entender porque tantos acham estranha a composição dessa lista.

A questão é que no período clássico do futebol argentino esses cinco clubes tiveram uma predominância avassaladora. No período em que o futebol argentino profissional teve um único campeonato nacional por ano (1931 a 1966), o quinteto conquistou TODOS os títulos disputados. Uma hegemonia incontestável.

Em 1967 o futebol argentino incluiu mais clubes, dividindo-se em dois torneios: o Metropolitano e o Nacional. A mudança foi fulminante: no primeiro ano o Estudiantes venceu o Metropolitano, em 1968 o Vélez conquistou o Nacional e no ano seguinte o Chacarita Jrs. levou o Metropolitano. E em 1971 o Rosário Central venceu o Nacional, levando a primeira taça para o interior do país. Nos dez primeiros anos do novo sistema, os grandes levaram 13 títulos mas perderam sete.

Aos poucos o desenho do futebol argentino começou a mudar. E o primeiro a sentir os efeitos seria o Racing, que nos últimos 45 anos levantou apenas um título nacional, o Apertura 2001, passando pela 2ª divisão no início dos anos 1980. Depois foi a vez do San Lorenzo, que sustentou sua grandeza até meados dos anos 1970, mas no fim daquela década começou a perder força, vendeu o estádio e caiu para a Nacional B. Nos últimos 37 anos conquistou apenas três títulos nacionais, e é o único do quinteto a não ter título de Libertadores.

O declínio relativo dos grandes seguiu, e a próxima vítima seria o Independiente, o lendário “Rey de Copas”. Maior vencedor da história da Libertadores, o Rojo conquistou apenas dois títulos nacionais nos últimos vinte anos, o último deles em 2002. Durante muito tempo esse processo passou relativamente despercebido, até porque Boca e River, os dois gigantes, seguiram firmes em sua trajetória de títulos na Argentina e fora dela. Ao menos até 2008. Naquele ano cada um dos dois levou um título nacional. Mas mal sabiam que conheceriam dias negros logo em seguida.

Nos últimos cinco torneios, Boca e River não conseguiram ficar entre os três melhores nenhuma única vez. Na verdade, nenhum do quinteto de grandes chegou lá: o melhor desempenho do grupo foi a 4ª colocação do Independiente no Clausura 2010. Na verdade, a realidade recente dos grandes tem sido a metade debaixo da tabela. O Racing chegou a disputar a Promoción em 2008, e escapou por pouco de repetir a dose no ano seguinte. E nesta temporada entrou mal posicionado na tabela de promedios assim como Boca e San Lorenzo.

Com boa campanha no Apertura, os dois primeiros se afastaram de qualquer risco, mas o Ciclón está no limite da zona de promoción. O Independiente corre o risco de ter sérios problemas a partir do meio do ano que vem, quando deixará de contar com os pontos da ótima temporada 2009/2010, e poderá se converter em protagonista da luta contra o descenso. Algo que já atingiu o River, para escândalo nacional, deixando Boca e Independiente como únicos a disputar todas as edições dos campeonatos nacionais sob o profissionalismo.

No entanto, pode ser que algo esteja mudando nesse cenário sombrio. Boca e Racing lutam pelo título, o que merece ser lembrado como uma novidade nos últimos anos, em que os grandes nada mais foram que discretos figurantes no cenário nacional. O River lidera a Nacional B, mostrando que tem tudo para voltar rapidamente a primeira e virar a página mais negra de sua história. Ainda que em má fase técnica, o Independiente voltou a conquistar um título internacional, com a Sul-Americana 2010. Falta o San Lorenzo mandar um sinal de vida.

No entanto é evidente que há um notável afastamento em relação aos tempos do futebol clássico argentino. Fica difícil pensar no Vélez Sarsfield, que disputa a 1ª divisão de forma ininterrupta desde 1944 e tem um sólido histórico de títulos nos últimos 20 anos, como um time “pequeno”. Algo semelhante vale para o Estudiantes, que tem mais títulos de Libertadores que River Plate, Racing e San Lorenzo somados. Para se ter uma imagem mais adequada do futebol argentino, é preciso reconhecer: a configuração do cenário futebolístico local mudou muito nas últimas décadas.

River e Boca são gigantes incontestáveis, por todos os critérios possíveis. Mas abaixo de ambos, seria melhor pensar em um conjunto mais amplo de equipes, algumas das quais tem mais torcedores, outros tem mais títulos em períodos antigos, e outros ainda tem um desempenho mais sólido nas últimas décadas. Independiente, Racing e San Lorenzo teriam lugar cativo no grupo, mas ganhariam novos companheiros. Pois está claro que a ideia do “quinteto de grandes” parece ter perdido todo o sentido.

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