segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Roteiro das 4 linhas: Maldito Futebol Clube (The Damned United)

Sheen foi perfeito como o mito Clough (Blog Cinephilia)
Julia Mariano, @Diaba
De São Paulo-SP

*Obrigada ao Arthur Chrispin, @achrispin, pela sugestão no nome da coluna.


Qualquer apaixonado por futebol (principalmente futebol inglês), já ouviu falar em Brian Clough, um notório técnico dos anos 70, conhecido por resgatar times quase na terceira divisão do campeonato nacional e levá-los ao topo da primeira divisão e à Liga dos Campeões. Entre eles o Derby County e posteriormente o Nottingham Forest, onde ficou por 18 anos. O roteirista Peter Morgan retrata a passagem relâmpago de Clough no Leeds United. São mostrados os 40 dias (20 de julho a 13 de setembro de 1974) do técnico como comandante do então melhor time inglês da época.

O filme começa com Clough chegando ao Leeds e constrói em paralelo os acontecimentos de seis anos antes, quando ainda treinava o Derby além de mostrar o começo do ódio dele por Don Revie, o treinador dos whites na época. É interessante a abordagem da construção da crescente tensão entre ambos, deixando claro até onde o ódio pode chegar.

Revie era ídolo do Leeds e deixava o time após onze anos, para treinar a seleção inglesa. Seu comando foi bastante vitorioso, mas segundo Clough, seu futebol era agressivo e não passava de um mau técnico, que instruía seus jogadores a chegar duro em seus adversários e pressionar a arbitragem. Clough assumiu a equipe do Elland Road com uma postura de salvador, declarando que não toleraria agressividade por parte dos jogadores, afirmando que o que eles jogavam até então, não era futebol e que seus títulos não valiam de nada.

O grande trunfo de Maldito Futebol Clube é o fato de ele saber surpreender o público, mostrando uma narrativa nada óbvia.

A montagem paralela comentada acima mostra o início da carreira de Clough, sua amizade com Peter Taylor, até a ascensão de ambos como coringas no Derby County (da lanterna da segunda divisão para lutar pelo título da primeira divisão do campeonato nacional) e sua admissão no Leeds, onde ele tenta aplicar sua técnica e visão sobre o futebol. Acompanhamos sua empreitada aparentemente de sucesso, mas acaba se tornando um grande fracasso.

Michael Sheen interpreta incrivelmente Brian Clough, conseguindo dosar sua ambição, deslumbramento e muitas vezes sua raiva. Com apenas dez minutos de filme, os espectadores já tem uma visão exata de como é Clough. Nos deparamos com um personagem narcisista, egoísta, falastrão, encantado por si mesmo e seus feitos, que chega para dirigir um time ofendendo os jogadores e o ex-técnico, ídolo da torcida por anos a fio. Em um determinando momento do filme, vemos Clough como um vilão, que repudia qualquer coisa fora de sua doutrina.

Timothy Spall incorpora o ponderado Peter Taylor, mostrando um ponto de equilíbrio entre os dois personagens.

Tom Hooper soube dirigir o filme brilhantemente, dosando entre os momentos vitoriosos e o declínio de Clough. Vemos que o futebol não é o foco principal do filme, ele é apresentado apenas como motor da narrativa. Os jogos que poderiam ser apresentados com maiores detalhes, nos são mostrados apenas em momentos chaves. Um exemplo disso é uma cena em que o jogo é apenas ouvido do vestiário, onde vemos o técnico expulso, ouvindo a manifestação da torcida.

Maldito Futebol Clube foge do estereótipo de filmes sobre superação. Vemos uma lição de humildade e redenção sobre um personagem irritantemente inteligente e terrivelmente arrogante, que instrui o espectador a pensar sobre as expectativas, nos fazendo reconhecer que nem sempre tudo o que parece que vai ser, será.

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