segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O capitão

Totti, nas categorias de base da Roma
O sonho de qualquer garoto que se preze é vestir a camisa do time amado. Para a maioria deles, ser ídolo é uma utopia, algo restrito ao mundo da imaginação. Não para o menino Francesco, que mostrou a quem quisesse ver que seu talento era algo raro. Não à toa, integrou as categorias de base da Roma logo aos oito anos de idade

Em 1989, ainda bem menino, desembarcou em Trigoria para quiçá ser mais um entre os escassos astros romanistas no início da década que viria. Fã de Giuseppe Giannini, maior craque do clube na época, ao lado de Bruno Conti, Francesco estreou no plantel principal apenas em 1993, após o voto de confiança de Carlo Mazzone. Eram tempos difíceis e inglórios. A luz no túnel giallorosso só acendeu no fim dos anos 90 com a chegada de nomes de impacto como Antonio Carlos (Zago), Cafu, Emerson,Walter Samuel, Vincent Candela, Vincenzo Montella e Gabriel Batistuta, que conquistaram o scudetto tão esperado em 2000-01.

Foi preciso muito pouco tempo para que o tímido menino se tornasse referência, capitão, bandeira e lenda. Sendo um dos principais responsáveis pelo ressurgimento de La Maggica no cenário italiano e europeu, o camisa 10 cansou de desfilar seus dribles, passes e gols no Olimpico, elevando a Roma ao patamar de forte concorrente ao título por alguns bons anos na década de 2000. 

Escrevendo uma história de dedicação, como outros grandes homens da Serie A (Paolo Maldini, Giacinto Facchetti, Franco Baresi e Alessandro Del Piero), Francesco virou sinônimo do clube. Fora da Itália, Roma era Totti e Totti era Roma. As partidas que disputou pela seleção também refletiam a genialidade dele, que foi um dos maiores do seu tempo.

Figura constante na Squadra Azzurra, sofreu grave lesão no início de 2006, virando dúvida na convocação para a Copa de 2006. Era hora de se recuperar afim de participar de um dos momentos mais fantásticos do futebol italiano: a ressurreição após o calciopoli (escândalo de apostas que rebaixou a Juventus e chacoalhou as estruturas do futebol no país) foi coroada com o título em cima da França de Zinedine Zidane. Pois então os quatro meses de molho passaram rápido e lá estava o bambino d´oro, Il Rei di Roma, Il Gladiatore, apto para mais uma batalha.

Titular durante a primeira fase, foi poupado e só entrou ao fim do duelo contra a Austrália, nas oitavas, para decidir o futuro italiano na competição. Um gol de pênalti resultante de uma descida marota de Fabio Grosso, derrubado pelo inocente Lucas Neill, colocou o capitão romanista na marca da cal para selar a vaga nas quartas. Do instante em que levantou a taça até o retorno à Roma, sua mitificação estava completa.

Pouco tempo depois e já era o atleta com mais partidas e mais gols pela agremiação romana. Em 20 de março de 2011 anotou seu 200º tento na Serie A, virou o quinto maior goleador na liga apenas atrás dos dinossauros Silvio Piola, Gunnar Nordahl, Giuseppe Meazza e Mazzola.

Completo como armador (trequartista), segundo atacante e até centroavante, Francesco consolidou sua imagem no Olimpico ao recusar várias propostas de clubes de fora da Itália, manifestando seu desejo de encerrar sua carreira no clube que lhe deu a primeira chance, que foi seu berço no esporte. A gratidão veio por meio de taças e a acomodação como o "dono do time". Nem a quase falência, o quase rebaixamento e a humilhação contra o Manchester United na Champions League abalaram a moral do gladiador.

Com muita força nos bastidores, Totti é a maior forma de poder que se tem notícia dentro da Roma. Tem força política suficiente para mandar treinadores embora, como ficou claro após longo desentendimento com Luis Enrique, uma aposta infrutífera da diretoria em busca de renovação. Os mandos e desmandos lembram outros ícones com forte influência, como Raúl e Zlatan Ibrahimovic. (Exemplos aqui no Brasil tornam a citação desnecessária, risos).

Aos 35 anos e ostentando sua faixa no braço esquerdo, Il Capitano chega com classe ao fim do seu ciclo. Aos que diziam que ele já não está mais em forma ou sem a mesma técnica de outrora, a finesse apresentada contra a Inter no primeiro dérbi desta temporada evidenciou o contrário. Há muito o que sair dos pés do eterno camisa 10 romanista.

Saboreando seus últimos momentos como protagonista, Totti vai ensaiando o seu sucessor. Menos talentoso, é verdade, mas não sem a garra característica de quem veste a camisa giallorossa. No momento em que a faixa laranja for passada, uma geração ficará para trás, deixando marcas que o tempo jamais poderá apagar.

E aí, na Curva Sud, os cantos darão conta de exaltar um tal de Daniele. Em outro setor das bancadas, bandeiras tremularão com a imagem do grande Francesco, ao lado de Conti, Falcão, Giannini, Giacomo Losi, Agostino Di Bartolomei e Roberto Pruzzo.

Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é redator na Trivela, além de ser o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

Nenhum comentário: