domingo, 30 de setembro de 2012

Que venha o homosapiens

Um dos protestos palmeirenses pelas eleições diretas para presidente
Foto: IG




Queria começar um daqueles textos dizendo que o resultado do jogo de ontem pouco importou se comparado a atrocidades democráticas, mas (in)felizmente, como sofredor e vendo meu time respirar por aparelhos, não usarei o chavão. Sim, na noite deste sábado o Palmeiras venceu a Ponte Preta por 3-0 com dois de Barcos e um de Assunção para tentar espantar o fantasma do rebaixamento. Entretanto, não é bem esse o foco do post (mais para pincelada do que qualquer coisa).

Pois bem, caros, era primeiro tempo de jogo, o Pacaembu estava lotado para o jogo das 21h, cerca de 30.000 pessoas estavam presentes para ajudar o Verdão a escapar de mais esse pesadelo. Para quem estava na arquibancada laranja central (eu, Portes, Felipe Portes, 22 anos, estudante de jornalismo e dono desta casa chamada Total Football), era possível ver uma porção de faixas da torcida. Elas apresentavam as facções, homenagens e algumas boas lembranças. Traziam ídolos como São Marcos, como no trapo que estava esticado debaixo do Tobogã, sem falar em escudos do Palestra Itália.

Além dos costumeiros pedaços de tecido que sempre colorem as bancadas, se destacou uma que ficou pregada na grade que dá de frente para as imagens da televisão: S.E.P DIRETAS JÁ e mais alguma mensagem que não consegui ler, pois ela ficou pouco tempo exposta, ora só.

Um movimento que ficou bem conhecido na década de 1980 neste país, aterrorizado por anos de chumbo da Ditadura militar, e que acima de tudo queria ter autonomia para decidir quem seria o novo governante. Sim, estamos em 2012, e pode parecer bizarro, mas ainda é preciso protestar para que a tão falada democracia se faça exercer. 

Aparentemente os clubes de futebol que contam com investimento quase que direto da massa que fica nestas mesmas bancadas citadas lá em cima, parecem  não entender o conceito do regime. Um regime que acima de tudo consiste em tomar grandes decisões (inclusive as de quem irá determinar o futuro de uma população) através do voto. Não preciso explicar toda a semântica da palavra DEMOCRACIA, preciso?

Então vá lá, parte desse direito democrático é sim protestar, desde que forma civilizada (não preciso explicar o conceito de civilização também). Eis que aquela bela faixa que pedia DIRETAS JÁ na presidência palmeirense foi covardemente arrancada da grade, como se fosse fim de festa e os policiais responsáveis fossem as tias da limpeza. Mais eficientes que copeiras, no alto de suas fardas cinzas e impositoras, caminhavam recolhendo o trapo, lembrando os anos 70, ainda que sem nenhuma truculência. Censura, censura clara. Provavelmente estampando sorrisos em suas faces, Arnaldo Tirone e Roberto Frizzo permaneciam inabaláveis nos camarotes do estádio.

Mais cedo, no Estádio dos Aflitos, em Recife, o sr. Leandro Pedro Vuaden recusou-se a iniciar o cotejo entre Náutico e Atlético-GO, como conta mais detalhadamente o amigo @brunobonsanti (que também cita outros fatos lamentáveis da rodada do BR-12) aqui neste link ó. Um ultraje a qualquer representação por parte dos torcedores, que não fizeram nada além de colocar em palavras um sentimento que toma todo um campeonato, assolado por péssima arbitragem. E diga-se, que quem quer que seja a externar seu descontentamento, não importa a camisa que vista, estará com razão.

Só no sábado, foi possível ver que além do constante desrespeito, agora os responsáveis por conduzir o espetáculo resolveram regredir não dez, nem vinte, talvez trinta anos no tempo. Com simples e descaradas opressões como essas, caminhamos para o lado oposto do que chamam de crescimento. Como estado e como povo, já que quem comanda não deixa de ser parte dele. 

Já no domingo, atitudes pouco racionais de torcedores do Coritiba (que tentaram agredir uma garota de 12 de sua própria torcida por receber uma camisa do sãopaulino Lucas) e do Corinthians (que forçaram um turista escocês vestido de verde e branco a ser retirado da área VIP do mesmo Pacaembu ao som de xingamentos) só servem para imprimir uma espécie de atestado. Um atestado que nossa espécie ainda precisa evoluir um bocado se quiser ser reconhecida como homosapiens. 

Foi só um fim de semana, dois dias, 48 horas, mas parece que voltamos séculos no calendário.

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