terça-feira, 11 de setembro de 2012

Um homem de família

Gerrard em 1998, durante sua estreia contra o Blackburn
 Foto: Guardian
Steven Gerrard é até hoje o maior ídolo formado no Liverpool e criado desde seus primeiros chutes como torcedor do clube que aprendeu a amar; com uma perda familiar em Hillsborough, o menino deu a volta por cima e venceu tudo que poderia para honrar a memória do primo

13 de abril de 1989 marca uma data negra e inesquecível para qualquer inglês amante de futebol, especialmente para os torcedores do Liverpool. Naquele dia, em Sheffield, no Hillsborough, 96 pessoas perderam suas vidas num dos maiores desastres em estádios que se tem notícia no esporte. Tudo começou com um tumulto nos portões de entrada, e quando a confusão parecia não ter como piorar, 766 foram feridos. Entre eles, Jon-Paul Gilhooley, de apenas oito anos, o mais jovem entre as vítimas.

Com dez anos, o jovem Steven já fazia parte da Liverpool Academy e tomou aquela perda como muito mais do que uma simples fatalidade. Alto e magro, o menino da região de Whiston resolveu tentar a sorte. Lutando sem jamais se entregar, assinou em 1997 um contrato com a equipe de Anfield Road. A partir daí seu mundo viraria de cabeça para baixo. Era o início de um casamento que dura até hoje e está longe de terminar.

Em 29 de novembro de 1998, contra o Blackburn, Gerard Houllier ordenou que o garoto se preparasse para o aquecimento. O time da casa vencia e a The Kop aplaudiu os reservas que estavam na linha lateral, menos o anônimo magricela que teria sua primeira chance. Como titular, sua estreia veio contra o Tottenham, em White Hart Lane, partida na qual foi engolido na tarefa de marcar David Ginola, astro francês. Deslocado de posição, o meia comenta que "esperava que seus pais não estivessem em casa durante o Match of the day" [programa com os destaques da rodada, na BBC]. A decepção foi grande, porém não preocupante.

Contemporâneo do prodígio Michael Owen, seu colega de Liverpool e queridinho no English Team, Gerrard teve de encarar um caminho mais duro até o reconhecimento pela sua torcida. Dois anos depois marcou seu primeiro gol, contra o Sheffield Wednesday, em 2000. 2001 veio e com ele o título da Copa UEFA. Aos 23 anos era o capitão de um gigante, de um monstro inglês que estava se aproximando de mais uma grande conquista. 

Referência no meio campo, Steven foi fundamental ao conduzir um elenco excelente comandado por Rafa Benítez. Jerzy Dudek, Sammy Hyypia, Jamie Carragher, Jon-Arne Riise, Steve Finnan, Djimi Traoré, Xabi Alonso, Milan Baros e Luís Garcia protagonizaram a virada mais memorável de toda a história da Champions League, ao igualar o placar em 3-3 com apenas quinze minutos no segundo tempo. Do outro lado, o Milan provavelmente deve ter aberto a champagne no intervalo. Não esperavam a ressurreição vermelha, nem o hilário jogo de pernas do arqueiro polonês, desconcentrando quem batia as penalidades. Foi uma vitória saborosa, colorida com a entrega de Gerrard e seus companheiros.

Tímido, calado e 100% comprometido com a camisa que se acostumou a vestir. Nas bancadas, The Kop delira quando ouve na escalação o nome dele. Ao som de Let it be, o eco em Anfield enaltece: let it be/ let it be/ let it be/ Stevie G/ The local lad turned hero/ Stevie G. Volante de raça, extremamente técnico e incansável, o capitão do Liverpool é o dono absoluto da meia cancha dos Reds. Capaz de distribuir o jogo como poucos no planeta, é convocado para o English Team regularmente desde 2000. Ostentando três Copas no currículo, poderá dizer aos seus netos que em todas elas teve atuação louvável, ainda que a má sorte britânica impeça que essa competência levante a taça.

Se por um lado ser campeão do mundo lhe faz falta (pela seleção e pelo clube), na Inglaterra ainda busca restabelecer o domínio na Premier League, com um campeonato que não vem desde 1990, fechando o círculo de uma geração incontestável. Passando por três fases distintas na equipe, Gerrard é o elemento motivador para as grandes mudanças, inspiração para os jovens que surgem no plantel profissional. Tido como maior ídolo na agremiação ao lado da lenda Kenny Dalglish, pode ser considerado como o cidadão mais honrado de Liverpool depois daqueles quatro garotos que mudaram o rock.

Nesses tempos de vacas magras, prova ser o único motivo de alegria pelos lados vermelhos de Merseyside. Ao completar 400 partidas na liga, entrou em campo para liderar seus camaradas contra o Everton no dérbi local, em 12 de março deste ano. Três gols serviram como prelúdio para uma reação que a massa que nunca anda sozinha tanto espera. 

Durante anos melancólicos, a esperança veste o número 8, trazido por um honrado homem que não abaixou a cabeça perante suas maiores provações. E que desde aquele 13 de abril de 1989 perseguiu o status de herói, para dignificar sua família, machucada pela perda do pequeno Jon-Paul. De acordo com o próprio Steven, todos esses anos em Anfield são dedicados ao falecido primo que partiu de forma cruel.

Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é redator na Trivela, além de ser o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

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