terça-feira, 20 de novembro de 2012

A injustiça em um sorriso

Foto: Metro.co.uk
Matt Le Tissier nunca venceu nenhum troféu pelo Southampton, mas se consolidou como um dos maiores astros da história do clube; veja perfil do talentoso meia inglês que ainda é pouco lembrado por aqui

Com a boca cheia de dentes tortos, Matt Le Tissier exibia sem nenhuma vergonha o seu sorriso imperfeito. Maestro da meia cancha pela Premier League, especialmente pelo Southampton, equipe a qual defendeu por toda a sua carreira, o inglês foi um dos mais importantes atletas ingleses da década de 1990. 

Nascido em Guernsey, uma ilha perto do Canal da Mancha que não faz parte do Reino Unido, Matthew  jogou por 16 anos como profissional, acumulando algumas boas conquistas pessoais para o seu currículo. Entre elas, a de primeiro meio campo a marcar 100 gols na Premier League, segundo maior artilheiro da história do Southampton e mais eficiente batedor de penais da Inglaterra, tendo marcado 47 vezes em 48 oportunidades, um aproveitamento notável. A única falha veio pelas mãos de Mark Crossley, do Nottingham Forest, em 1993.

Em 1986, aos 18 anos, estreou pelos Saints. Não demorou a se adaptar ao elenco e ao estilo de jogo, fazendo parecer como se tivesse nascido para tal finalidade. A teoria de fato se concretizou e ao fim da temporada, o menino já era tratado como joia no clube. Alto, magro e com reflexos rápidos, Le Tissier era o talento que há tanto esperavam ver vestindo a camisa alvirrubra.

Habilidoso, excelente chutador e com faro de gols, fazia do meio campo seu quintal, onde ia e vinha, muitas vezes caminhando com a bola sem pressa, driblando quem porventura aparecesse em sua frente. Tem uma das reputações mais impecáveis dentro da Inglaterra, apesar de nunca ter ganho nenhum título e defendido o English Team por três anos, de 1994 a 1997.

Desde sempre sabia que nunca iria deixar o Southampton. Cobiçado por grandes equipes britânicas no início da década de 1990, quando começou a estourar, Matt deixava claro que não vestiria outro uniforme que não o dos Saints. Um dos poucos craques que nunca trocaram de lar no futebol, Le Tissier virou deus para a tão fervorosa torcida que o acompanhava protagonizar lances icônicos e plásticos. Um chapéu, um passe de calcanhar, um chute de fora da área, todos com uma precisão singular.

Presença frequente nos programas esportivos locais com os gols da rodada, o meia era um dos que elevava o nível de competição, muito embora nunca tivesse um plantel à sua altura. Seu auge veio em 1994-95, quando anotou 30 tentos naquela temporada. Cada vez mais considerado um artista pelas suas "pinturas" com a bola nos pés, Matt ganhou a alcunha de Le God pelos torcedores do Southampton, tamanha intimidade com a pelota, consolidada em seus gols repletos de magia.

Precisava de poucos toques na bola para completar sua jogada. Decidido e com categoria, buscava sempre o ângulo superior das metas adversárias, destino quase certo de seus chutes. Contra o Wimbledon, em fevereiro de 1994, por exemplo, recebeu a bola numa falta ensaiada, levantou e acertou com o peito do pé um canhão no alto do arqueiro Beasant. O movimento lembrou o futebol de areia, como em várias outras ocasiões que Le Tissier esbanjava seu controle sobre a redonda.

Outra vítima de um dos seus mais inesquecíveis gols  foi o Newcastle, em outubro de 1993. Matt recebeu no meio campo, dominou com o calcanhar, tirou dois zagueiros com chapéus e bateu no canto, tranquilamente, como se estivesse tomando um cappuccino na praça. O reflexo rápido também permitiu outros gols de placa, sempre em batidas de primeira, fora da área, quase do círculo central. 

Especialista em surpreender os arqueiros do meio da rua, marcou um tento épico contra o Blackburn, em dezembro de 1994: carregou desde o grande círculo, fintou duas vezes um marcador e puxou para o pé direito. Mandou um chute traiçoeiro e colocado bem na gaveta de Tim Flowers, que saltou desesperado em cima da hora afim de evitar o desastre, sem sucesso.

O que mais frustrou o jogador foi justamente nunca estar em um time realmente competitivo. Longe de decisões, por menos importantes que fossem, Le Tissier nunca teve a chance de erguer um troféu durante sua trajetória. Reconhecido muito mais por seus feitos particulares, gera aquela pergunta desconfortável: o que teria sido ele numa agremiação de maior destaque no futebol inglês? A fidelidade pode ser uma resposta satisfatória em torno desse tema. Matthew não chegou nem perto de querer sair de The Dell durante seus anos como astro da Premier League.

Dono da louvável estatística de 162 gols em 443 partidas ao longo de uma década e meia no Southampton, Le Tissier tem como marcas registradas o seu sorriso fácil e os lances de pura técnica e classe, tal como Zidane, um dos maiores. Injustiça mesmo é não ter visto um desses nas páginas dos jornais como um grande campeão. Fosse aqui por essas bandas, seria lembrado como mais um Dodô, o "artilheiro dos gols bonitos". 
Le God foi muito mais que isso. Pergunte a qualquer inglês que acompanhou o futebol na década de 1990.

Sua última temporada foi em 2002, quando sofrendo com lesões mais severas, resolveu pendurar as chuteiras, aos 34 anos. Herói no St. Mary Stadium, inaugurado um ano antes de sua aposentadoria, Le Tissier foi um dos maiores nomes que já passaram pelo Southampton. Toda essa idolatria veio mesmo sem um único troféu no salão nobre dos Saints...

Um comentário:

Anônimo disse...

Um dos melhores! E o mais legal, é o amor que ele sentia pelos Saints.