terça-feira, 27 de novembro de 2012

Fomos Campeões: Uma noite em Munique

Francis e a taça da Copa dos Campeões: façanha inigualável do Forest
Foto: Equaliser blog
Nottingham Forest do lendário Brian Clough ergue sua primeira taça europeia, dois anos depois de ter conseguido a promoção da segunda divisão inglesa, feito até hoje imbatível dentro do futebol

As badaladas do relógio naquela noite de 30 de maio de 1979 mudaram o curso da história do futebol. Em Munique, no Olympiastadion, a lenda de Brian Clough e seu Nottingham Forest escreveu o terceiro capítulo de um conto que até hoje muita gente que desconhece esses títulos, duvida. 

Quem diria, em 1977, que neste curto prazo de tempo os comandados de Clough chegariam no ponto máximo de qualquer equipe europeia. Fica no ar o mistério de como o treinador trabalhava nos vestiários, as palavras que ele dizia no intuito de motivar os seus pupilos. Existem muitos mitos em torno disso, tal como ao redor de outros grandes mestres do banco de reserva, como Béla Guttmann e Ernst Happel, campeão europeu por Feyenoord e Hamburgo, que diz a sabedoria do futebol, apenas chegava diante dos jogadores e pedia: "senhores, dois pontos". Naquela época, a vitória valia apenas dois pontos, como os colegas devem saber.

No filme (incrível, diga-se de passagem) "The Damned United/Maldito Futebol Clube", o relato dá conta de que Brian ficava dentro de sua sala no City Ground durante partidas decisivas. Verdade ou não, ele se tornou vencedor, muito vencedor. Em 77, subiu para da segunda divisão, em 78 venceu a primeira e em 79 foi até a final europeia diante do Malmö, deixando Liverpool, AEK, Grasshoppers e Colônia para trás.

Predestinados, aqueles atletas ainda eram quase todos perfeitos desconhecidos para maioria do grande público. Peter Shilton, Viv Anderson, John McGovern (preferido de Clough), Trevor Francis, Martin O'Neill, John Robertson e Archie Gemmill brilharam como nunca naquele Forest, que se tornou então uma das mais heroicas esquadras que o esporte já viu.

Jogo a jogo, o Forest foi surpreendendo, até que chegou para encarar os suecos. Todo o caminho traçado foi um capítulo à parte. Era a primeira participação dos Reds na competição. E foram longe, muito longe. De peixe pequeno a tubarão.

Quando aquele mesmo relógio lá de cima marcou 20h15, a noite rapidamente caiu em Munique. As luzes vindas dos refletores eram ofuscadas pelos ingleses em campo, mostrando um estilo de jogo que muito lembrava a seleção campeã do mundo em 1966, contra a Alemanha.

Passaram por certo perigo no início, quando Burns recuou mal para Shilton e Kinnvall tentou encobrir o arqueiro, sem sucesso. Privilegiavam a posse e os contragolpes ligeiros como um boxeador experiente, usando reflexos rápidos e a astúcia para encontrar espaços na defesa rival e na hora do direto, armava um daqueles socos potentes em que a luva dá de encontro com o centro da face oponente.

Pouco antes do intervalo, Robertson arrancou na esquerda como um guepardo e cruzou a bola para o outro lado da área. Francis estava desmarcado e pulou de cabeça para fazer o gol mais importante de sua carreira, do seu clube. O Malmö queria coroar uma campanha impecável: tinha sido vazado apenas três vezes em nove partidas. O dia especial não chegou, e ao invés disso veio o castigo.

Dominando sem problemas o adversário, o Forest sufocou os escandinavos na defesa e gastou seus cartuchos em busca do segundo e definitivo gol. Ao apito final de Erick Linemayr, outro nem foi preciso, o 1-0 era satisfatório e agora coroava o incrível trabalho em equipe dos ingleses, que assombraram todo um continente com a sua força. Com aquela cabeçada de Francis, a esperança e os sonhos da pequena cidade de Nottingham foram além do imaginário, balançando as redes de Jan Möller, em delírio absoluto.

Desatinado, o futebol nunca mais foi o mesmo. Três anos depois deste evento, uma das melhores seleções que se tem notícia fraquejou perante uma Itália elétrica e ligada no 220v. Em 1992, uma Dinamarca despretensiosa e convidada venceu uma Eurocopa, em 2004 a Grécia fez Portugal chorar, entre outras histórias de azarões que chegam e conquistaram seu espaço.

Que o esporte tenha mais dessas histórias de superação e união, e que nem sempre o mais forte vença, pois cada vez mais o poder tem sido concentrado em poucas mãos, as mãos dos que monopolizam os títulos mundo afora. Muito embora haja a consciência de que nunca haverá outro Brian Clough e que lamentavelmente o Forest de hoje luta para ter novamente o seu lugar ao sol, no local de onde deu o seu primeiro salto para a fama.

Nada como um dia após o outro, em que o torcedor de Nottingham ainda carrega com o coração pesado as lembranças daquela noite em Munique. Olhando o presente ficar cada vez mais longe de um passado dourado.

Forest: Shilton, Anderson, Burns, Clark, Lloyd, Bowyer, McGovern, Francis, Robertson, Birtles e Woodcock. Téc: Brian Clough

Malmö: Möller, Roland Andersson, Erlandsson, Jönsson, Magnus Andersson, Tapper (Malmberg), Ljungberg, Prytz, Hansson (Tommy Andersson), Cervin e Kinnvall. Téc: Bob Houghton

Campanha: Seis vitórias e três empates. 19 gols marcados, sete sofridos.

Jogos
Primeiro round:
Nottingham Forest 2-0 Liverpool
Liverpool 0-0 Nottingham Forest

Segundo round:
Nottingham Forest 5-1 AEK Atenas
AEK Atenas 1-2 Nottingham Forest

Quartas de final:
Nottingham Forest 4-1 Grasshoppers
Grasshoppers 1-1 Nottingham Forest

Semifinal:
Nottingham Forest 3-3 Colônia
Colônia 0-1 Nottingham Forest

Final:
30 de maio de 1979, Munich - Olympiastadion
Nottingham Forest 1-0 Malmö

Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 22 anos e é estagiário no Trivela, além de ser o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

Um comentário:

Joannis disse...

Parabéns Sérvio, belo texto