quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Fomos campeões: Redenção na Mooca

Foto: Por onde anda? (VAI, MILTÃO)
Moleque Travesso ergue seu principal título, na segunda divisão nacional e vira mais do que um simples arteiro: com Candinho no banco, Carlos Pracidelli na meta, Nelsinho Baptista na zaga e Gatãozinho na meia esquerda o Juventus fez a festa em cima do CSA

O amor pelo time mais fraco do que os gigantes da capital é algo que poucos em toda a história conseguiram explicar. São Paulo é lar de quatro titãs, uma namoradinha e um moleque, dos mais travessos. Fundado em 20 de abril de 1924, o Clube Atlético Juventus não vive o seu auge e ainda luta para retornar à elite paulista. Contudo, sem sombra de dúvida desperta o interesse de muitos amantes do futebol, até mesmo de fora do estado.

Desfilando na Rua Javari, um dos locais mais carismáticos de se receber uma partida, o clube da Mooca é uma clara homenagem aos imigrantes italianos no início do século passado. O que já é claro vira óbvio com o próprio nome da agremiação, sem falar nas cores. Sim, o uniforme casado com o escudo é uma forma de homenagear os dois rivais de Turim, além da Fiorentina, que cedeu sua coloração violeta durante algumas boas décadas.

E assim seguiu, se estabeleceu dentro do coração dos que não vivem de vitórias, títulos ou ações megalomaníacas. Acima de tudo, o Juventus é uma paixão para poucos, os que enxergam a esperança e um amor correspondido na camisa grená, através dos anos. 

Perto do seu aniversário de 60 anos, o Moleque Travesso, já com esta alcunha incorporada por atormentar Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos em compromissos válidos por competições regionais, deu um dos maiores presentes para a sua fervorosa torcida: um título que o colocaria em condição de se tornar uma das forças locais. 

Do inferno ao céu em dois meses
Ao vencer a Taça de Prata em 1983 (conhecida hoje como Série B), a equipe da Rua Javari conquistou o direito de disputar a Primeira divisão brasileira no ano seguinte e ganhou espaço nas manchetes esportivas da época. 

Eliminado na repescagem da primeira fase da Taça de Ouro de 83, o Juventus beliscou uma vaga na Taça de Prata. Como a sua participação no torneio anterior se encerrou em 9 de março, após derrota na prorrogação para o Goiás, três dias depois um novo desafio estava marcado com outro goiano: o Itumbiara. No dia 13 de março, o Moleque estreava na Segundona, já no estágio de oitavas de final. 

Em casa, venceu por 3-1 e na volta apenas segurou um empate por um gol para assegurar seu progresso na competição. O próximo adversário seria o Galícia, da Bahia, que hoje vive na segunda divisão estadual. Seguro e destemido, o Juventus venceu no Pituaçu por 3-2 e tornou a triunfar em São Paulo, na Javari, por 2-1. 

O sonho se aproximava e a sensação era de que os bons anos eram aqueles, em que o Moleque teve elencos competitivos. Sob o comando de Candinho, os onze da Mooca tinham como craques o meia Gatãozinho e o beque Nelsinho, mais conhecido como Nelsinho Baptista, sem falar no arqueiro Carlos. Carlos Pracidelli, respeitado preparador de goleiros com passagem pelo Palmeiras.

Encarando o Joinville para trás na semifinal, com um empate suado em 0-0 fora de casa, os paulistas tiveram de resolver a questão no seu terreno, diante de sua torcida. A vaga na final foi sacramentada com um 2-1 e pitadas de drama. Sofrido, mas perto do objetivo final, Candinho trabalhou bem a moral dos seus pupilos para o desafio que estava por vir, o CSA.

Se de um lado havia a experiência do beque e do treinador, do outro, o carisma de Jacozinho. O baixinho ficou famoso graças ao repórter Márcio Canuto, da Globo, por meio de algumas matérias, sempre brincando que ele merecia uma vaga na seleção brasileira de Evaristo de Macedo.

Para levantar o caneco, a turma da Javari teria de se superar. A viagem até Maceió trouxe algumas preocupações para Candinho. No placar, 3-1 para os alagoanos com gols de Rômel, Josenilton e Zé Carlos. Remando contra a maré e uma imensa desvantagem, o Moleque Travesso mostrou poder de reação e deu o troco jogando no Parque São Jorge, uma semana depois. 3-0 com contribuição de Gatãozinho, Ilo e Bira. Empatados em pontos, os oponentes foram forçados a disputar um jogo extra, três dias depois, no mesmo local. 

No dia 4 de maio de 1983, a Fazendinha lotou para receber a massa grená. Naquele dia, a caravana da Mooca sairia em festa. No entanto, o CSA não veio de longe para vender barato o título. A forte marcação e a vontade dos alagoanos marcou o ritmo da decisão, que permaneceu empatada até os 25 da segunda etapa, quando foi marcado um pênalti a favor do Juve. Paulo Martins foi até a bola e converteu, garantindo o caneco.

Tal como nas grandes lendas que envolvem o Juventus, a façanha na Taça de Prata foi testemunhada por quase toda a totalidade dos moradores do bairro da zona leste paulistana, diz a lenda. Foi dessa forma no gol mais bonito de Pelé e até mesmo na conquista da Copa FPF em 2007. Quem estava vivo, certamente dirá que presenciou aquele momento no Parque São Jorge, isso quando não detalhar algum evento específico dentro daquela sucessão de acontecimentos.

Fato é que o futebol mudou muito desde então. Numa era em que a prioridade se torna a disputa de vagas em competições mais gabaritadas, e não a pura e poética disputa por uma taça, histórias como essa seguem como motivação a um maior empenho em ter seu nome na peça que simboliza o triunfo, a dedicação transformada em ouro, prata e bronze, sobretudo quando a importância desse campeonato é reconhecida no futuro.

Fica o desejo que a Mooca seja tomada pela alegria outra vez, em nome da mais sincera felicidade de ver o seu time campeão. E que nesse dia o bairro compareça em peso para prestigiar e escrever mais uma página no livro repleto de lendas do Estádio Conde Rodolfo Crespi.

Juventus: Carlos, Nélson, Deodoro, Nelsinho, Bizi, César, Paulo Martins, Gatãozinho, Sidnei, Ilo (Bira) e Cândido. Téc: Candinho

CSA: Adeildo, Café, Humberto, Dequinha, Zezinho, Ademir, Jorginho, Rômel (Josenilton), Américo, Zé Carlos e Jacozinho. Téc: China

Campanha: Nove jogos, seis vitórias, dois empates e uma derrota. 16 gols marcados, nove sofridos.

Jogos
Oitavas de final
Juventus 3-1 Itumbiara
Itumbiara 1-1 Juventus

Quartas de final
Galícia 2-3 Juventus
Juventus 2-1 Galícia

Semifinal
Joinville 0-0 Juventus
Juventus 2-1 Joinville

Final
CSA 3-1 Juventus
Juventus 3-0 CSA

Jogo extra, 4 de maio de 1983 - Parque São Jorge, São Paulo
Juventus 1-0 CSA

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