sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O matador

Foto: Folha de São Paulo
Evair foi um dos maiores ídolos palmeirenses de toda a história; artilheiro e com gols decisivos na fase mais gloriosa do Verdão, o atacante ganha uma homenagem especial aqui na TF

Existem apelidos que se encaixam perfeitamente na pessoa que os recebe. Alguns outros, mostram a dualidade de um ser, por mais que ele não tente parecer alguém diferente. No futebol, temos casos como o "Animal", o "Fenômeno", o "Rei", entre outros. Diversos jogadores encarnam suas alcunhas até fora de campo, o que definitivamente não aconteceu com Evair Aparecido Paulino. 

Conhecido como "Matador", começou sua carreira no Guarani, em 1985. Fora das quatro linhas, um cara tímido e reservado. Dentro da área, um regista, um franco atirador, um agente de elite. Não era dos mais ágeis, mas compensava isso com uma técnica invejável. Dono de dribles curtos, finalizações precisas e inteligência ímpar, fazia jogadas em curto espaço como se estivesse num tempo diferente dos rivais. Lembrando um atleta de futsal, seu raciocínio era objetivo, visando o gol, quase sempre o destino final de suas passadas e arremates.

Vendido para a Atalanta em 1988, fez sucesso durante três anos em um período de ouro da Serie A italiana. Ao lado de Cannigia, colocou a equipe de Bérgamo no mapa do futebol local. Em 91, decidiu retornar ao Brasil para jogar no Palmeiras, onde construiu toda uma história de títulos e reconhecimento. Não que isso tivesse acontecido de forma imediata, afinal, o momento não era propício para o surgimento de um novo ídolo. A fila alviverde era longa e Evair era um dos alvos da enfurecida torcida que clamava por resultados decentes. Hostilizado algumas vezes durante estes "anos de pedra", esperou a hora certa para responder aos críticos, e quando isso acontecesse, provaria o seu valor. Foi um 1991 difícil, um 1992 frustrante sem a vaga na fase final do Brasileirão, até que o ápice veio em 1993. 

12 de junho de 1993
O fim de um período medonho foi no Paulistão, diante do Corinthians. 16 anos depois da última conquista.  Derrotados no primeiro jogo, em 6 de junho, os comandados de Wanderley Luxemburgo foram torturados com um gol de Viola, que tripudiou em cima dos arquirrivais ao festejar o seu tento. Seis dias depois, o troco veio no Morumbi. 

Zinho marcou e viu Edmundo acertar uma tesoura em Paulo Sérgio na lateral, sendo punido apenas com um cartão amarelo. Tonhão então lançou Edilson, que saiu livre na direita. O capetinha levou uma chegada duríssima de Ronaldo, que saiu para fazer a falta e matar a jogada, sendo expulso juntamente com Tonhão, que revidou a entrada do arqueiro alvinegro. Na transmissão, Sílvio Luiz observava: "Matador hoje não está em um de seus melhores dias".

Instantes depois, Edilson desceu sozinho pela esquerda e só rolou para o cantinho. Lá estava o camisa 9, livre para balançar a rede e sair de braços abertos para comemorar. Gastando tempo com o 2-0, o Palmeiras tocava a bola com calma, até que Evair de novo completou um passe e bateu colocado no canto de Wilson, que se esticou para tirar com os dedos. Edilson pegou o rebote e o Morumbi tremeu. Forçado a jogar a prorrogação pois o saldo de gols não era considerado, o Verdão encerrou a festa com chave de ouro. 

Ricardo tanto segurou e puxou Edmundo que conseguiu cometer o crime. Pênalti marcado no Animal. Trotando lá de fora da área, vinha o Matador. Com toda a frieza do mundo ele chutou no canto oposto de Wilson e correu até a bandeirinha de escanteio, onde se ajoelhou de braços abertos. O resto vocês já sabem.

A camisa 9 tinha dono. Fazendo mais de 100 gols em 220 jogos, aquele mineirinho de Crizólia se consagrou no Parque Antárctica e caiu nas graças da torcida. Com ele, o Palmeiras foi de caça a caçador, de chacota a mais temido, de faz-me rir a esquadrão. Sob o comando de Luxemburgo, as conquistas viraram rotina, e na boca do palmeirense, a frase que tanto se repetia: Uh, terror, Evair é matador! 

Obson Almeida, também conhecido como meu pai aqui por essas bandas, diria que Evair e César Maluco foram os que mais ficaram na lembrança com a camisa do Palmeiras. "Era esperto, habilidoso, não era fominha. Tinha o mesmo prazer quando dava assistências ou fazia seus gols. Para sempre na nossa história graças a aqueles dois gols contra o Corinthians", lembra.

Outro relato interessante é o do amigo Fabio Chiorino (@FChiorino), que certamente deve ter transpirado pelos olhos ao dizer as seguintes palavras: "Em 1993, quando Evair se preparou para bater aquele pênalti contra o Corinthians, não havia um palmeirense no mundo que não acreditasse naquele gol. Evair tinha a frieza e a paixão necessárias para momentos como aquele. Apesar de ser Campeonato Paulista, naquele 12 de junho o Palmeiras ganhava um dos títulos mais importantes de sua história. E eu, ainda garoto, descobria o primeiro ídolo da minha vida".

Peça chave de um dos mais fascinantes elencos do Palestra, o atacante sempre estava lá para finalizar os ataques com classe e sem afobação. Na final do Brasileiro de 93, contra o Vitória, mostrou serviço e só botou o pé para fazer o gol em cruzamento de Roberto Carlos. Um ano depois, mais uma colaboração vital: Matador recebeu na área, girou e só tocou para Edmundo, no lance do terceiro gol diante do Corinthians, o mesmo Timão do Paulistão anterior. 3-1 e uma vantagem imensa para o domingo seguinte. O dia de 19 de dezembro marcou novo clássico paulista em que o Palmeiras só administrou o empate para renovar seu caneco do Brasileirão. Nem mesmo o gol de Marques em falta caprichada de Marcelinho abalou a moral palestrina. 

Bicampeão e consagrado, foi parar em terras japonesas, no Yokohama Flügels (atual Yokohama FC), onde  jogou de 1994 a 1996. Aos 31 anos, assinou com o Atlético-MG, e também passou pelo Vasco (onde foi fundamental na caminhada ao título nacional de 1997, em cima do alviverde do Palestra Itália) e Portuguesa antes de mais uma vez defender o Palmeiras. Importante ressaltar que no cruzmaltino, em 97, fez belos gols e teve como parceiro de ataque Edmundo, reeditando a dupla dinâmica de três anos antes. Em 1999, se juntou ao grupo de Luiz Felipe Scolari para dar sequência ao projeto vitorioso da Copa do Brasil.

Festa no chiqueiro
O regresso do ídolo coincidiu com a maior glória de todas no Verdão, que ergueu a Libertadores de 99 em cima do Deportivo Cali. Jogo tenso, pegado, elétrico. Pênalti da defesa colombiana quase na metade da segunda etapa. O Palmeiras precisava da vitória, nada menos que a vitória. 19 minutos e Evair colocou a bola na marca. Respirou fundo e foi devagar, colocando uma bola rasteira e mortal na esquerda de Dudamel. O contratempo gerado pelo gol de Zapata (que no tempo normal fez seu dever sem problemas) era uma tensão necessária para a importância que a noite de 16 de junho teria na memória do palestrino.

Expulso no fim do segundo tempo, quando o Palmeiras vencia por 2-1 e levava a decisão para as penalidades, viu de fora uma festa inesquecível na casa alviverde. Como última despedida, participou da final do Mundial Interclubes, onde não conseguiu fazer nada para evitar a vitória do Manchester United por 1-0, gol de Roy Keane.

Era hora de fazer a alegria de outra torcida. Campeão paulista pelo São Paulo em 2000, ainda jogou por Goiás, Coritiba e Figueirense, antes de encerrar sua carreira em 2003. No Coxa, foi capitão e surpreendeu aqueles que pensavam que a sua idade (36 anos em 2001) seria um obstáculo para o bom rendimento.

Depois do apito final de sua derradeira partida pelo alvinegro catarinense, ficou a saudade de cantar os seus gols, que a partir daí viraram parte do passado, do imaginário de quem se rendeu ao talento do esguio, cuja alcunha de Matador refletia com perfeição o seu papel com a bola nos pés. Calmo e de poucas palavras, Evair traz consigo o sorriso de quem pode ser imortal no esporte depois de ter cumprido sua missão. "Matador, gênio, libertador. Maior ídolo possível", dirá outro amigo, Fernando Cesarotti (@cesarotti).

Que fosse possível terminar esse texto com mais um gol de Evair. Aliás, por que não?


Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é redator na Trivela, além de ser o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

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