quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Os bons, os maus e os feios, parte III

Foto: Mirror Football




Feio, chorão, encrenqueiro e carismático. Poucas palavras podem definir Paul Gascoigne, um dos maiores ícones do futebol inglês nos anos 1980 e 90. Nascido em Gateshead, na Inglaterra, Gazza marcou época não só por suas jogadas brilhantes e por seu temperamento duvidoso, mas sim por ser uma figura que dificilmente pode ser enquadrada como boa ou ruim, sem maniqueísmos. 

Assim foi começando a ganhar fama, no Newcastle, em 1985. Já naquele tempo se envolvia em confusões, se perdendo no álcool e na farra. Problemático e talentoso, criava rusgas com a diretoria dos Magpies pelo seu comportamento inconsequente, sendo multado por dirigir bêbado, entre outras histórias bizarras, como o episódio em que jogou um trator na parede do vestiário, saltando antes da colisão.

Negociado com o Tottenham, em 1988, quase chegou a desembarcar no Old Trafford e ainda hoje é motivo de lamento para Alex Ferguson, que queria ter treinado o meia no United. Nos Spurs, Gazza despontou para o estrelato e também para a seleção inglesa, onde protagonizaria um dos momentos mais marcantes do Mundial de 1990, na Itália. Contra a Alemanha, na semifinal, deu um carrinho na lateral e levou um cartão amarelo que o  tiraria da decisão, caso a Inglaterra avançasse. Assim que José Roberto Wright mostrou a punição, o inglês pensou, fez uma careta... e caiu no choro. A imagem de Gary Lineker tentando consolar o companheiro fica gravada na memória dos que testemunharam, seja na arquibancada ou na frente da TV.

Em 1992, arrumou as malas e foi para a Lazio, onde se adaptou rápido, mas sofrendo com lesões constantes. Com a irregularidade na Itália, três anos depois mudou para os Rangers, e os problemas não diminuíram. Apesar de voar em campo, decidir clássicos e fazer média com a torcida dos Hoops, ao provocar o Celtic, teve vida curta em Glasgow. A vida de alcoólatra constantemente conflitava com os momentos de paz e de afirmação no futebol.

Agressividade, muita técnica, precisão, garra e finesse definiam o estilo de Gazza, que encantou grande parte dos treinadores com quem trabalhou. Dino Zoff dizia, em seu período de Lazio, que ele "desperdiçou seu talento com a maneira que comia e bebia. Mas em campo, era maravilhoso. Absolutamente maravilhoso", confessou o italiano ao Daily Mail.

Brilhou demais durante a Euro 96, na Inglaterra. Em grande forma, fez atuação impecável contra a Escócia e marcou um gol de placa, quando chapelou Hendry fora da área e mandou um canudo no ângulo do arqueiro Leighton. A irreverência ainda estava lá. Eternizando a cômica comemoração do "dentista", Gazza se deitou como um paciente enquanto seus colegas lhe jogavam água no rosto e simulavam usar o temível motorzinho.

O próprio Gascoigne define como um dos seus gols mais importantes, em entrevista ao Mirror: "Em questão de significado daquele gol, realmente foi insuperável para mim. Eu estava furioso com a partida, pois estava no Rangers naquele momento e jogando contra os escoceses, então foi maravilhoso marcar daquela forma. Ter 70.000 pessoas gritando seu nome no Wembley é simplesmente inacreditável", comenta.

A luta contra a balança também tirou muito do brilho de Paul, que passou a viver de lampejos em seu retorno à Inglaterra, pelo Middlesbrough, em 1998. Novas confusões fora das quatro linhas e uma lesão grave no braço durante o duelo contra o Aston Villa, fizeram com que ele entrasse nos anos derradeiros de sua caminhada como atleta. Entregue aos dramas particulares, nunca mais rendeu a mesma coisa. No Everton, pouco colaborou e já anunciava seus passos finais. Acima do peso e sem motivação, ainda passou por Burnley, Gansu Tiannu e Boston United, só para desfilar.

Inevitavelmente surge aquela pergunta, que serve para muitos outros craques que tiveram sua carreira podada por lesões e problemas pessoais: o que será que Gazza teria ganho se tivesse contornado seus demônios?

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