quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Fomos campeões: Dois pontos, senhores

Foto: Sport10.au
Ernst Happel leva o Hamburgo ao seu primeiro título europeu e é o pioneiro de um trio de treinadores campeões continentais por duas equipes diferentes, ao lado de José Mourinho e Ottmar Hitzfeld

Logo que se fala em grandes treinadores europeus, é impossível não citar o austríaco Ernst Happel, que foi pioneiro numa façanha até hoje repetida apenas por dois outros comandantes: vencer a Copa (Liga) dos Campeões por duas equipes distintas. A história de sucesso começou em 1970, com o Feyenoord, e tornou a acontecer em 1983, com o Hamburgo. Happel foi um dos técnicos mais cerebrais que o futebol já revelou.

Gênio tático e homem de poucas palavras, o austríaco venceu por onde passou. Em sua trajetória, sentou no banco de ADO Den Haag, Feyenoord, Sevilla, Brugge, Holanda, Harelbeke, Standard Liège, Hamburgo, FC Tirol e Áustria, deixando de conquistar troféus apenas por Sevilla, Holanda, Harelbeke e Áustria (incluindo o vice mundial com a Laranja mecânica em 1978).

Garantia de títulos, Ernst chegou ao Hamburgo em 1981 para o que seria seu trabalho mais bem sucedido. Vencendo duas Bundesligas em 82 e 83, uma DFB Pokal em 87, a "menina dos olhos" dos torcedores rothosen na Era Happel foi a Copa dos Campeões de 83 em cima da Juventus de Platini, Rossi e Boniek. Antes desse duelo de titãs, precisaram eliminar Dynamo Berlin, Olympiakos, Dynamo Kiev e Real Sociedad afim de competir pelo caneco no Olímpico de Atenas, em maio daquele ano.

Atenas foi tomada pelo vermelho
Com o seu discurso mundialmente conhecido na preleção, o famoso "dois pontos, senhores", Happel instaurou no HSV um sistema eficiente de jogo: a disciplina e a paciência, que tornavam a contemporização da equipe lenta, na velocidade ideal para avaliar as possibilidades na defesa adversária.

Fortalecido após as pedreiras nas fases anteriores à final contra os italianos, o Hamburgo desembarcou em Atenas com a dura tarefa de bater um dos melhores elencos daquela época. Base da Squadra Azzurra um ano antes, a velha senhora escalava sua força máxima para o embate com os germânicos. 

O início foi totalmente controlado pelo HSV de Magath, Hrubesch, Rolff e Kaltz. Tocando a bola de um lado para o outro, os alemães gastavam tempo e faziam a marcação bianconera correr. Foi então aos nove minutos que Magath dominou, carregou e fingiu cortar o zagueiro. Mais dois passos e uma bomba no ângulo de Zoff, que saltou à toa para tentar executar a defesa.

Combalida e talentosa, a Juventus não se entregou e devolveu a pressão, barrada no paredão defensivo formado por Wehmeyer e Hieronymus. Era mesmo o dia de lançarem Happel aos ares na comemoração. A segunda equipe tedesca a conquistar o troféu da Copa dos Campeões, depois do Bayern de Beckenbauer. Com o encerramento da decisão, apagou-se o cigarro da boca do inveterado fumante austríaco, que provavelmente encontrou no tabaco uma forma de aliviar a tensão das constantes finais que se envolvia.

Da prancheta do mestre, saíam formações históricas, vencedoras, obstinadas. Das narinas, a fumaça de alguém que respirava ao mesmo tempo as toxinas letais de um vício e o ar puro e tranquilizante da glória. Uma DFB Pokal, duas Ligas e uma copa austríacas depois, em 1992, morria Happel, como treinador de sua seleção nacional. O boné do comandante ficou no banco de reservas durante todo o amistoso entre Áustria e Alemanha, dias depois do velório. 

E nunca mais se ouviu aquela sentença pragmática, objetiva e sonora: "dois pontos, senhores".

Hamburgo: Stein, Kaltz, Wehmeyer, Hieronymus, Rolff, Milewski, Groh, Hrubesch, Magath e Bastrup (Van Heesen). Téc: Ernst Happel

Juventus: Zoff, Gentili, Cabrini, Bonini, Brio, Scirea, Bettega, Tardelli, Rossi (Marocchino), Platini e Boniek. Téc: Giovanni Trapattoni

Campanha: Nove jogos, seis vitórias, dois empates e uma derrota. 16 gols marcados, dois sofridos.

Jogos
Primeira rodada:
Dynamo Berlin 1-1 Hamburgo
Hamburgo 2-0 Dynamo Berlin

Segunda rodada:
Hamburgo 1-0 Olympiakos
Olympiakos 0-4 Hamburgo

Quartas de final:
Dynamo Kiev 0-3 Hamburgo
Hamburgo 1-2 Dynamo Kiev

Semifinal:
Real Sociedad 1-1 Hamburgo
Hamburgo 2-1 Real Sociedad

Final, 25 de maio de 1983, Olímpico - Atenas
Hamburgo 1-0 Juventus


Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 22 anos e é estagiário no Trivela, além de ser o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

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