segunda-feira, 11 de julho de 2011

É difícil ser Marta

Marta é marcada de perto pela americana Shannon Boxx,
 em partida épica deste domingo (GloboEsporte.com)
Por Felipe Portes

Em partida dramática nesta tarde de domingo, na cidade de Dresden a Seleção feminina de futebol foi eliminada da Copa do Mundo, pelas mãos e pés das meninas dos EUA. Um gol contra madrugador de Daiane aos dois minutos da primeira etapa, enervou as atletas brasileiras que com muito custo igualaram o marcador. Foi numa penalidade cobrada por Marta, na segunda tentativa (a primeira cobrada de forma displicente por Cristiane) que o Brasil conseguiu empatar a peleja. 

O segundo tempo foi conturbado e cheio de oportunidades para o lado amarelo, mas tivemos de assistir a mais meia-hora de um bom (e cansado) futebol. Seguia a igualdade no placar e a apreensão da torcida. A goleira/fenômeno/mulher maravilha Hope Solo fechou a meta e apesar de sofrer um gol besta no início da prorrogação, mais um de Marta, impediu dezenas de ofensivas tupiniquins. 

É justo se dizer que além da camisa 10 brasileira, apenas Érika, Fabiana e Cristiane estavam lúcidas em campo. A última, nem tanto, abusando demais das jogadas individuais. Rosana também tentou decidir a parada sozinha e por fim saiu pela linha de fundo com bola e tudo. Tudo ia muito bem, muito lindo, Brasil sonhando com o título -já que as donas da casa, as alemãs foram eliminadas pelo Japão- até que Megan Rapinoe (Luciano do Valle experimentou dizer Rapinói, Rampino, Rapini, Rampini, Rapinoé, Rapino) acertou cruzamento milimétrico na cabeça da grandalhona Abby Wambach. Wambach se aproveitou do momento "caça-borboletas" da ótima Andréia e empatou, restando dois minutos para o final do tempo extra. 

Depois disso, você já sabe que as Yankees venceram por 5 a 3, pênalti perdido por Daiane, em inferno astral. Mas vamos ao que realmente interessa neste texto, a protagonista desta competição e quiçá do esporte em si: Marta. Nunca foi tão insuportável ser ídolo no país quanto agora. 

Numa modalidade pouco vista pelo público mundial (salvo EUA, e alguns países europeus) Marta é a referência de bom futebol, talento e mágica como nem Mia Hamm, ex-estrela americana um dia conseguiu ser. Birgit Prinz era uma das rivais da brasileira, mas se aposentou após esta Copa. Como se não bastasse a falta de apoio que as meninas recebem, (não se iluda que futebol feminino "pegou" no Brasil) a forma como elas são menosprezadas chega a dar enjôo nos verdadeiros amantes do esporte.

Quem gosta de bom futebol, deveria no mínimo admirar Marta, assim como as outras equipes top. Alemanha, Noruega, Suécia e EUA praticam bom futebol, é fato. Mas o desconhecimento de quem assiste leva a comentários exagerados e equivocados de que quando o Brasil atropelou as norueguesas na primeira fase, o adversário era fraco. As nórdicas venceram o primeiro Mundial feminino...

Uns dizem que futebol feminino só pode ter atletas bonitas. Outros dizem que é quase uma aula de educação física transmitida para o mundo todo. Baita bobagem. Após esta derrota para os EUA, ouviu-se uma pequena quantidade de pessoas minimizando os feitos da nossa protagonista, que pode não ser tão bonita quanto Alex Morgan, Jonelle Filigno (musa eterna do colega Daniel Leite, @dsleite), Hope Solo, Alex Krieger ou Marita Lund. Mas a sua capacidade de destruir a marcação adversária, definir confrontos e carregar a bola sem ser desarmada é algo fascinante, encantador, de outro mundo.

Desde 2004, porém, Marta vem colecionando insucessos (importante que esta palavra seja usada, ao invés de fracasso). Foram duas Olimpíadas e duas Copas do Mundo. Mesmo ganhando prêmios e mais prêmios, grande parte da "torcida" taxa a atleta e suas companheiras como "campeãs do quase". Cruel, desnecessário e pejorativo para quem tanto briga pela exposição da modalidade no país. 

Marta sofre do mal de "sumir em decisão"? Não. Melhor em campo, melhor do torneio e contribuiu muito com o restante das companheiras que infelizmente não estavam em bom dia. Assim como Zico, mas de uma forma mais ativa, ela ainda é marcada para muitos brasileiros como "a jogadora que não ganha Copas", quando deveria ser ídolo.

É difícil ser a melhor jogadora do mundo, talvez de toda a história do futebol feminino. É difícil ser a melhor em campo em quase todos os jogos, mas ter um time que simplesmente não acompanha o ritmo ou não tem poder de decisão. É difícil ser Marta...

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