quarta-feira, 13 de julho de 2011

Fomos campeões: PSV Eindhoven 1987-88


Atletas do PSV levantam a taça após final dramática contra o Benfica (UEFA)
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

É sempre bom ter um campeão inédito, em qualquer competição que seja. A edição de 1987/88 da Liga dos Campeões viu o PSV Eindhoven erguer o caneco mais desejado da Europa em cima do Benfica, no Neckar Stadion, em Stuttgart. Se você tem simpatia por equipes "copeiras" ou "sofridas", este selecionado holandês certamente contará com a sua simpatia. Saiba as razões e algumas curiosidades sobre o grande vencedor da LC em 1988.

Elenco sem grandes estrelas

Ao se ter uma olhadela nos atletas que compuseram o PSV naquela gloriosa temporada, podemos notar que não era um plantel recheado de grandes nomes estelares. Fato é que mesmo na condição de "azarão" na caminhada até a final, o pavilhão de Eindhoven trazia consigo cinco atletas que integraram a Holanda da Euro-88. Hans Van Breukelen, Ronald Koeman, Gerald Vanenburg, Berry Van Aerle e Wim Kieft foram peças fundamentais no título do torneio de seleções, e apenas Kieft não foi titular na grande decisão contra a União Soviética (2-0 para a Laranja Mecânica, gols de Marco Van Basten e Ruud Gullit).

Além dos jogadores holandeses, chamavam a atenção os dinamarqueses Frank Arnesen (hoje dirigente do Hamburgo, responsável pela contratação de Ronaldo junto ao PSV em 1994), Soren Lerby e Jan Heintze, e Eric Gerets, importante meia belga das décadas de 1980/90. 

Os passos até a conquista

Até 1993, era preciso ser campeão nacional para se obter uma vaga na LC. Com o título doméstico de 1986/87, o PSV entrou como um dos clubes do pelotão intermediário, longe de Real Madrid, Bayern, Porto e Steaua Bucareste (campeão dois anos antes). Para que se tenha uma idéia da dificuldade, veja os oito que chegaram a fase de quartas de final: Benfica, Bordeaux, Anderlecht, Real Madrid, Bayern, Steaua, Rangers e o próprio PSV.

Na vitoriosa trajetória da Eredivisie, os rapazes de Eindhoven bateram o Ajax pela diferença de seis pontos (59 a 53) e a marca invejável de 99 gols em 34 jogos, com média de 2.91 gols por partida. Os duelos contra o rival de Amsterdã na liga foram complicados. Uma derrota por 3-0 e o troco no segundo turno, com triunfo simples, 1-0. Ao longo do certame, foram muitos os placares elásticos como o 7-0 sobre o Excelsior (R17), 6-1 Groningen e Den Bosch (R13 e 27 respectivamente) e as duas saraivadas no Den Haag (6-2 na rodada 16 e 7-3 na rodada 33). Não só foi o melhor ataque da época, como também se sagrou a melhor defesa, sofrendo apenas 21 tentos. 

Já valendo pela LC, o PSV encarou o Galatasaray de Didier Six, Fatih Terim, Bulent Korkmaz e Zoran Simovic na primeira rodada. Uma vitória no Philips Stadion por 3-0 praticamente selou o avanço para as oitavas, não fosse a derrota em Istanbul por 2-0, que os holandeses seguraram até o limite para evitarem as penalidades. 

O próximo adversário foi o Rapid Viena, que contava com Andreas Herzog, lendário meia austríaco. Com dificuldades, o Eindhoven perdeu a primeira mão do combate em Viena, por 2-1. A superioridade do plantel holandês fez valer na volta, onde o PSV bateu o alviverde vienense por 2-0. (Importante lembrar que ainda nesta temporada vigorava outra fórmula de disputa da LC. Todas as fases eram eliminatórias até o ano de 1993, quando foi instituída a nova Champions)

Na fase de quartas de final, nossos protagonistas tiveram de encarar o Bordeaux de Jean Tigana, Jean-Marc Ferreri, René Girard e treinados por Aimée Jacquet. Páreo duríssimo para o PSV, que empatou em território inimigo por 1-1 e segurou mais um empate -desta vez sem gols- na Holanda para assegurar a passagem para as semis. 

O grande desafio

A semifinal colocou o Real Madrid ante o PSV, numa fase não tão áurea da equipe espanhola, como se viu no passado ou até mesmo na década seguinte, na famosa "Era Raúl". Ainda sim, Camacho, Sanchís, Milan Jankovic, Martin Vázquez, Michel, Gordillo, Gallego, Santillana, Hugo Sánchez, Jorge Valdano e a lenda Emilio Butragueño dominavam a Espanha. 

O roteiro para os dois embates foi escrito pelo mesmo autor. Um autor de drama, de suspense, daqueles de te fazer ficar com frio na barriga e imaginando o que acontecerá a seguir. Mais uma vez a estratégia do "esforço mínimo" permitiu ao Eindhoven deixar o adversário para trás. 1-1 no Santiago Bernabéu e 0-0 no Philips Stadion: PSV pela primeira vez numa final de LC. 

Por fim, os encarnados

Vencedor do outro duelo da semifinal, o Benfica passou pelo Steaua e tinha a chance de conquistar por mais uma vez a taça desta competição. A história dos Encarnados em disputas internacionais é no mínimo curiosa. Dizem as lendas da bola que o mítico treinador Béla Guttmann, descobridor do talento de Eusébio e multi campeão nacional no comando das águias, amaldiçoou o clube em sua saída conturbada no ano de 1962. O folclore em torno desta maldição dá conta de que Guttmann pediu um aumento à diretoria, mas não foi atendido. Como resposta, o húngaro profetizou: Nem daqui a 100 anos o Benfica conseguirá vencer uma Copa Européia!

O mais engraçado é que depois da praga de Béla, os lisboetas ainda foram à final por cinco oportunidades. A última delas em 1990, disputada em Viena, terminou em vitória do Milan. Corre também o relato de que Eusébio teria comparecido ao túmulo de seu ex-treinador antes da peleja frente os italianos para pedir que o feitiço fosse desfeito. Vivo estivesse, dificilmente negaria ao pupilo este pedido. Mas como todos bem sabem, um jazigo não pode fazer nada por quem está na superfície.

Quis o destino (e Guttmann) que mais um insucesso benfiquista fosse perpetuado nas páginas do futebol europeu. Como o PSV também não foi brilhante em nenhum momento da disputa da LC, o óbvio seria mais um empate. Choque do time que não ganha contra o que não pode ganhar, por motivos de força maior.

E assim foi, um 0-0 nervoso e que refletia os dois complexos citados no parágrafo acima. Ficamos então com as penalidades para definir qual dos dois combatentes deixaria o relvado com a taça devidamente personalizada com as tradicionais faixas coloridas, de acordo com o uniforme do vencedor. 

Com um desesperador 6-5, os holandeses ergueram o caneco pela primeira vez em sua história, deixando o Benfica e o seu feitiço a ver navios. Os portugueses seguem até os dias atuais sem vencer novamente a sua tão venerada copa européia. Já o PSV, também passa longe de repetir o feito, mesmo conquistando bom número de Eredivisies nos últimos anos. 

PSV: Van Breukelen, Van Aerle, Heintze, R. Koeman, Nielsen, Gerets, Vanenburg, Linskens, Lerby, Jannsen (Gillhaus) e Kieft.

Benfica: Silvino, Antônio Veloso, Mozer, Dito, Álvaro, Shéu, Elzo, Pacheco, Chiquinho, Magnusson (Hajry) e Rui Águas (Wando).

Jogos:
Primeira Rodada
PSV 3-0 Galatasaray
Galatasaray 2-0 PSV

Primeira Rodada
Rapid Viena 1-2 PSV
PSV 2-0 Rapid Viena

Quartas de final
Bordeaux 1-1 PSV
PSV 0-0 Bordeaux

Semifinal
Real Madrid 1-1 PSV
PSV 0-0 Real Madrid

Final - 25 de maio de 1988, Stuttgart
PSV 0-0 Benfica (6-5 pênaltis)


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