segunda-feira, 21 de maio de 2012

Craques: Jari Litmanen

Foto: Yellow affair
Você certamente nunca ouviu falar de um jogador finlandês tão bem sucedido quanto Litmanen. Idolatrado por onde passa, o meia brilhou demais numa das melhores equipes da história do futebol: o Ajax de 1995

No futebol, é o maior finlandês que já existiu. No geral, deve ser o terceiro, somente atrás de Mika Häkkinen e Kimi Räikkonen. Para os torcedores do Ajax, sem dúvida o grande homem vindo das terras geladas e cobertas por neve da Escandinávia. Ele, que não era viking e vivia de fazer sorrir, mas não era palhaço, começou sua jornada dentro do esporte no já longínquo ano de 1987, pelo Reipas Lahti. 

Três anos e disparado era a maior joia do futebol na Finlândia, que nunca teve nada de bom mesmo, antes ou depois de sua era. Simplificando as coisas, podemos dizer sem medo de cometer injustiças, que a modalidade no país teve seu período de ANTES de Litmanen e DEPOIS de Litmanen. Quase um messias que carregou as esperanças de um povo que sonhou ser relevante, tanto quanto as vizinhas Suécia e Noruega. 

O Prodígio 
Já em 1989 foi convocado para a seleção nacional, que nunca havia ido a uma Copa do Mundo (continua não tendo participado até hoje) e muito menos a uma Eurocopa. Foi cavando um lugar na história para ser uma exceção entre os muitos que fracassam. Era mais difícil se projetar para o resto do continente, mas Jari era persistente. Em 1991 foi contratado pela maior força local, o HJK Helsinki. No lugar certo para crescer, aproveitou a chance e teve desempenho fantástico: 29 jogos, 16 gols. Assediado pelo MyPa, da cidade de Kouvola, venceu seu primeiro troféu como profissional: a Taça da Finlândia em 1992. Era o bastante para que olheiros do Ajax se vissem seduzidos pelo potencial do jovem.

(Foto: MTV3.fin)
O Ajax de Litmanen e o Litmanen do Ajax
Aos 22 anos, Jari era o primeiro nativo finlandês a jogar pela equipe alvirrubra de Amsterdã. E lá construiria um futuro brilhante, ultrapassando os limites dos contos de fada. Em sua temporada de estreia, começou no banco, mas logo veria uma brecha para tentar convencer o turrão Louis Van Gaal que era um bom valor para a formação inicial. A chance apareceu com a venda de Dennis Bergkamp para a Inter. A partir daí, só glórias. 

Primeiro a KNVB Beker (Copa holandesa), em 1992-93, depois a Supercopa holandesa em 1993, a Eredivisie em 1993-94, mais uma Supercopa e então o grande prêmio, aquele que não era visto nos Países-baixos desde a década de 1970 quando um furacão chamado Johann Cruyff mandou e desmandou com o seu futebol total, ao lado do coronel Rinus Michels: a Liga dos Campeões.

O Milan não anotou a placa
No Grupo D, ao lado de Milan, AEK e Casino Salzburg (atual Red Bull), a primeira colocação. Com 10 pontos, três a mais do que os italianos que viriam ter uma revanche na grande final, os holandeses avançaram com moral para a fase eliminatória. Primeiro o Dinamo Zagreb, que sofreu um 3-0 no agregado. Nas semifinais a vítima foi o Bayern, que encontrou um Ajax sedento pela vitória. 0-0 em Munique e a pressão estava sobre o time da casa, no Olímpico de Amsterdã. Pressão? Avisem aos alemães que a base da seleção laranja é formada pelos rapazes que estarão em campo. 5-2 Ajax e o novo confronto contra o Milan (em casa, ainda por cima) estava marcado.

Jari ergue a taça com o plano de fundo emocionado de Seedorf,
Kluivert e Rijkaard (Foto: MTV3.fin)
Num desfecho tenso, os donos da casa foram superiores, mas a forte marcação dos italianos impediu um espetáculo. Foi aos 85 que Patrick Kluivert achou o espaço necessário e balançou as redes milanistas para resolver a parada e consagrar um fabuloso elenco que do gol até o ataque era incontestável. Edwin Van der Sar, Michael Reiziger, Danny Blind, Sonny Silooy e Winston Bogarde; Ronald de Boer, Frank Rijkaard, Clarence Seedorf, Finidi George e Edgar Davids, Patrick Kluivert, Marc Overmars, Nwankwo Kanu e claro, o próprio Litmanen. 

Jari era daqueles jogadores completos. Veloz, habilidoso, se posicionava bem e sabia finalizar como os grandes atacantes. Não a toa fez 135 gols pelos Godenzonen em 253 aparições no total. Novamente campeão holandês em 1994-95, 1995-96, 1997-98 e 2003-04, no seu retorno, defendeu o título europeu frente a Juventus, num encontro não menos dramático do que o ano anterior, desta vez em Roma. O empate por 1-1 resultou em penalidades, vencidas pelo esquadrão bianconeri

Por pouco no ano anterior não venceu o Bola de Ouro de melhor jogador da Europa. A terceira colocação no prêmio, atrás de George Weah e Jürgen Klinsmann, Litmanen teve seu esforço reconhecido. Líder dentro de campo, permaneceu no Ajax até a leve decadência que o time sofreu nos anos que sucederam a conquista da Europa. 

Foto: Culés.dk
Infelizmente não deu no Camp Nou
Na mira do Barcelona, destino comum de craques holandeses naquela década, aceitou o convite de outros companheiros que lá já estavam em 1999-00. Não menos capaz que Kluivert e outros nomes que figuraram no Camp Nou na época do centenário blaugrana.

Constantemente lesionado e encarando um novo desafio na sua carreira, não conseguiu atender às expectativas e na janela de inverno de 2001, acertou com o Liverpool. 29 aparições e quatro gols soaram satisfatórios no Camp Nou, tendo em vista o início do histórico de visitas ao departamento médico. Livre de contrato, tomou o rumo de Anfield Road.

Outra vez campeão europeu
Só ao fim de 2001 foi se recuperar de seus problemas que agora seriam crônicos. Integrante de um plantel que marcou época, ajudou os Reds no título da Copa UEFA, a FA Cup e a Copa da Liga inglesa em 2000-01. Levou ainda a Supercopa europeia antes de conseguir um cobiçado retorno ao Ajax em 2002-03. Lá se sentiria tão em casa quanto nos tempos de Lahti e HJK. Era querido por todos que tinham qualquer mínima ligação com os Ajacieden, contudo, já não tinha mais a mesma resistência de outrora. Aos 31, sofria para conseguir uma sequência de jogos. Mesmo assim, foi crucial na campanha que acabou nas quartas de final da Liga dos Campeões, contra o Milan, em 2002-03.

Em 2004 partiu pela última vez de Amsterdã, com rumo ao Lahti. Meia temporada e já havia se ajeitado para retornar aos grandes centros. Pelo Hansa Rostock, é verdade, mas Jari queria provar que ainda tinha lenha para queimar. Rebaixado com a equipe alemã, sentiu o pior revés de sua vida esportiva. Já não decidia mais, não conseguia se sobressair. Mudou de ares outra vez, voltando para a Escandinávia, escolheu o Malmö e foi preciso três temporadas para que a possibilidade de pendurar as chuteiras começasse a aparecer no horizonte. Mas vocês mal conhecem o homem...

Foto: Daily Mail
Jari, o Cottager
De malas prontas para o Fulham, teve sua última chance em uma grande liga. Virou um cigano da bola, um veterano absoluto, pena que nunca chegou a vestir oficialmente a camisa dos Cottagers. Passando por um período de experiência, teve de abdicar da transferência por problemas médicos: a preocupação girava em torno do seu coração. Com 36 anos nas costas e muita história pra contar, Jari foi forçado a optar por um estilo de vida menos tumultuado. 

Foram mais três anos jogando no Lahti, antes de receber novo convite para envergar o manto do HJK, aquele que o projetou anos antes. De 2008 a 2010 vestiu a camisa dos alvinegros e de 2010 até os dias atuais, pasme, é titular da agremiação em Helsinki. Abandonando a seleção nacional em 2010, Litmanen pode dormir sossegado que jamais terá seu posto como maior futebolista finlandês ameaçado. Peter Simpson, da Four Four Two, diria que Jari "teve uma carreira que não esteve à altura de seu talento".

A lata maldita
Em sua passagem pelo Malmö em 2006, Litmanen estava perto de um dirigente sueco ao assinar o seu contrato. Acontece que o cartola estava abrindo uma lata de Coca-cola, quando o anel da latinha escapou e voou bem no olho do finlandês. Melhor causo possível.

Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é redator na Trivela, além de ser o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

Um comentário:

Douglas Muniz disse...

Jogava demais o Litmanen!!!