segunda-feira, 14 de maio de 2012

TF História: O mais fraco também triunfa

Gol de Sparwasser derrubou por um dia a Alemanha que seria campeã do mundo
contra a Holanda de Johann Cruyff (Foto: Superillu.de)
Felipe Portes, @portesovic
De Belgrado-SRB

Um gol em Copas do Mundo significa mais do que uma medalha, um baú repleto de ouro para um jogador. Um gol em clássico de Mundiais, um tanto a mais. Um gol com significado libertador e que representou todo um conflito entre países irmãos, no caso duas partes do mesmo país, não há riqueza que se iguale.

É o caso de Jürgen Sparwasser, ex-atacante da Alemanha Oriental (parte comunista do país) e que marcou o gol de seu lado da pátria contra a poderosa irmã ocidental e futura bicampeã mundial em 1974. Numa época em que as mazelas políticas e a Guerra fria ecoavam em todos os cantos do globo, o tento marcado por Sparwasser (77 minutos) foi o marco de uma batalha travada dentro do gramado e fora dele.

Com a Revolta de 1953 em território germânico, milhares de alemães do lado oriental tiveram de se refugiar do outro lado do Muro de Berlim, para evitar a repressão que havia contra os ideais comunistas.  E é neste cenário de luta pela soberania que o duelo entre as duas irmãs ocorreu no mundial sediado em seu país.

Era 22 de junho de 1974, no Volkspark Stadion, em Hamburgo. Pelo selecionado azul oriental, alinhavam: Croy, Kurbjuweit, Bransch, Weise, Waetzlich, Kische, Kreische, Lauck, Irmscher, Sparwasser e Hoffmann.

A Alemanha Ocidental, de branco, escalou Meier, Vogts, Schwarzenbeck, Beckenbauer, Breitner, Cullmann, Overath, Hoeness, Grabowski, Müller e Flohe.

O domínio dos ocidentais era completo. Breitner passeava em campo, e Müller trazia muitas preocupações ao goleiro Croy. Um dos bons lances azuis na peleja, foi com Kreische, que desperdiçou chance vital debaixo das traves de Meier. A pressão se manteve até que o camisa 14, Sparwasser, recebeu passe pelo alto, matou no peito, tirou o marcador e entrou na área. Com espaço mínimo, ele fuzilou o arqueiro Meier, que nada pode fazer.

Com cambalhotas, Sparwasser não sabia ao certo como externar a sua alegria de ter marcado num jogo tão desigual. Antes de ser um confronto entre duas faces de uma Alemanha, era um jogo entre um gigante e uma equipe mais acanhada, sem brilho. Num dos raros casos em que a vontade sobrepõe ao talento, a DDR (denominação para o lado oriental germânico) viu o futebol como válvula de escape aos terríveis anos que se passaram por questões políticas e ideológicas.

O gol de Jürgen foi quase como um grito de liberdade. Contam os mitos do mundo da bola, que ele recebera prêmios do governo comunista da DDR, como um carro e uma propriedade. Os atos, vistos como manobra governamental para explorar o seu feito. Sensato e sem intenção de se alinhar ao movimento, Sparwasser sempre negou com veemência que tivesse sido “agraciado” pelos chefes de estado, tendo inclusive deixado o seu país em 1988, pouco antes da queda do Muro de Berlim. 


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