terça-feira, 29 de maio de 2012

Fomos campeões: Aberdeen 1982-83

Foto: Staff.stir.ac.uk
Felipe Portes, @portesovic
De Éadinbárrgh-ESC

Tempos atrás, quando Sir Alex Ferguson ainda não era a imagem da vitória e do sucesso do Manchester United, lá em 1983 (três anos antes de deixar a Escócia para assinar com os Red Devils), o treinador obteve sucesso absoluto com o Aberdeen. Considerado como quarto poder na terra do kilt e da gaita de fole, Fergie levantou a Taça das Taças UEFA, contando apenas com atletas escoceses na formação titular.

Já em 1980, mostrou a que veio fez a proeza de interromper o domínio de Celtic e Rangers na liga local. Não contente com apenas uma taça, se acostumou a colecioná-las. Ferguson conduziu seus pupilos ao título da F.A Cup escocesa e conquistou o direito de disputar a Taça das Taças UEFA, que reunia todos os ganhadores de copas nacionais.

Foi então que na primeira jornada do torneio, estavam Aberdeen, Swansea, Sion e Braga. The Dons, como são conhecidos os rapazes protagonistas desse post, encararam o Sion. No Pittodrie, um sonoro 7-0 pra cima dos helvéticos, que assustados, certamente pensaram em não disputar o jogo seguinte em casa. Cumprindo tabela, os visitantes britânicos ainda acharam gás para mais um banho de bola. 4-1. Tudo começou muito bem para aquele plantel que era a espinha dorsal da seleção escocesa até o fim da década. 

Começando pelo guarda metas Jim Leighton, passando pelos beques Alex McLeish e Willie Miller, os laterais Doug Rougvie e John McMaster, os meias Neale Cooper, Neil Simpson, o genial Gordon Strachan e três atacantes de boa chegada, Mark McGhee, Eric Black e Peter Weir. Como antecipado no primeiro parágrafo, eram 11 jogadores naturais da Escócia, um trunfo para o orgulho que moveu o futebol do país.

Strachan: peça chave no meio campo dos Dandies 
O estilo marcante de passe e pressão do meio campo dos Reds era uma das principais características e até hoje se faz presente nas táticas de Ferguson. A defesa forte e de boa estatura não dava espaços, o meio campo fluía com velocidade e os atacantes, de mais movimentação, recebiam sempre em boa condição em relação à retaguarda adversária.

A primeira rodada após a qualificação frente o Sion aconteceu contra o Dinamo Tirana e o ferrolho albanês fez o Aberdeen suar frio para anotar apenas um tento sobre os quase anônimos rivais. 1-0 em casa e 0-0 fora deu a chance aos Dons de avançarem às oitavas de final. Ainda havia muito o que melhorar, como o sofrimento para vazar um simples esquema como o do Tirana. 

Na sequência, mais retranca, desta vez por parte do Lech Poznan. Com muito mais talento que os oponentes anteriores no caminho dos Dandies, os polacos se permitiam sair mais um pouco ao ataque, esbarrando em Miller e McLeish, extremamente seguros na cabeça de área vermelha. Nem dez homens colocados poderiam evitar o zigue zague por parte de Strachan, que abriu espaços e permitiu que os comandados de Sir Alex marcassem duas vezes. Feita a vantagem no Pittodrie, restou apenas um morno 1-0 na Polônia, no qual os Reds tiraram de letra, se resguardando e avançando para ter o Bayern adiante.

A sabedoria de Ferguson foi de grande importância e impulsionou a ótima
campanha dos Reds naquela Taça das Taças (Who ate all the pies)
Atirados aos leões
Evidente que os alemães iriam ser osso duro de roer. Sabendo disso, o elenco sentia calafrios e tinha de fazer a disparidade técnica ser superada pela determinação e o envolvimento. Para eles, o empate em 0-0 no Olímpico de Munique serviu como primeiro alívio. Alívio que só voltou a ecoar no vestiário do Aberdeen após o apito final na batalha seguinte, num elétrico 3-2 a favor dos escoceses, que de fato predominaram sobre a burocrática formação bávara. Fazendo da posse de bola e dos contragolpes sua principal arma, Ferguson seguia inabalável e invicto rumo ao troféu mais importante do seu clube.

O primeiro leão estava morto. Restavam ainda Waterschei da Bélgica (hoje extinto), Austria Viena e Real Madrid. Ao que interessava aos rapazes de kilt, os belgas não seriam lá grande problema se comparado ao poderoso esquadrão germânico derrotado na fase anterior. Sem dificuldades e tentando reprisar a atuação estonteante daquele já longínquo massacre contra o Sion, os Dons emplacaram 5-1 em casa, na sua semifinal. Não que tenha muita importância motivacional ou impacto no feito que Sir Alex e seus aprendizes realizaram, mas na segunda perna daquele estágio o rival impôs o primeiro revés da equipe avermelhada. 1-0 e a perda da invencibilidade que no fundo nem devia fazer (tal como não fez) tanta diferença.

O último e mais alto degrau
O dia 11 de maio de 1983, a chuvosa noite em Gotemburgo marcou um evento histórico. O confronto em terreno sueco colocou frente a frente o sempre temido Real Madrid versus os modestos rapazes britânicos que certamente estiveram acima de suas mais otimistas previsões de chegada no torneio. Rolou a bola e a objetividade do Aberdeen resultou em grande jogada de Strachan, cruzando para o meio da área onde Black não pensou duas vezes antes de acertar um voleio... na trave. O susto para o arqueiro Agustín foi grande. 

Instantes depois, em escanteio cobrado pelo elétrico Strachan achou McLeish vindo de um pique do meio campo. O zagueiro testou, contou com desvio da retaguarda madridista e só aguardou o rebote por Black, que desta vez só tinha o gol em sua frente. 1-0. Contra ataque violento do Real Madrid aos 14, e Santillana foi ao solo em falta de Leighton. Pênalti claro para o ídolo merengue Juanito cobrar. 1-1.

McGhee é acompanhado de perto por marcador do Real: batalha foi
resolvida na prorrogação (Site oficial Aberdeen)
Segurando a pressão vermelha, o Real passou a sobreviver dos erros de passe e cobertura. Dominados pela rapidez na intermediária por parte dos escoceses, sempre com Strachan, McGhee e Black, os espanhóis agradeceram algumas boas vezes ao iluminado Agustín, que evitou boas finalizações de balançarem as redes do gigante de Madrid.

Weir decidiu tentar acabar com o jogo e partiu driblando quem encontrava pela frente. Foram três atletas de branco superados na arrancada até que camisa 11 optasse pelo cruzamento visando o miolo da área. Bonet tentou afastar e a bola caiu na frente de Black, que cabeceou com força, pelo alto. A tendência de perder gols aos montes quase custou caro a Ferguson e sua patota.

Impaciente e sabendo que a vitória não viria do céu, o treinador escocês mudou e tirou Black para dar uma chance a John Hewitt. O resultado não foi imediato e já eram redondos 112 de duelo, sete da etapa final da prorrogação, quando o movimento crucial foi feito. McGhee arrancou pela esquerda, chamou o oponente para dançar, fez o breque e cruzou. Alguns gritos eufóricos já antecipavam o que viria: Hewitt estava livre e quase sem goleiro para tocar de cabeça e colocar o Aberdeen na frente. Apavorado, o selecionado de Di Stéfano se afobou e teve uma única chance real, com Salguero, de falta. 

Ao lado de Archie Knox, seu assistente, Fergie comemora o primeiro
de muitos títulos europeus (Who ate all the pies)
Trilhou então o apito para consagrar uma equipe aguerrida, com bons valores e o mais importante que só o futuro iria dizer: um brilhante manager. Sir Alex ainda levantaria duas ligas escocesas, duas F.A Cup e uma Taça da liga pelo Aberdeen. Em 1986, treinou a seleção do seu país no Mundial da Espanha e pouco depois escolheu o seu destino, no cargo que ocupa até hoje: lenda absoluta no Manchester United.

Aberdeen: Leighton, McMaster, Rougvie, McLeish, Miller, Cooper, Strachan, McGhee, Simpson, Weir e Black (Hewitt).

Real Madrid: Agustín, Juan José, Metgod, Bonet, José Antonio Camacho (San José), Ángel, Gallego, Stielike, Isidro (Salguero), Juanito e Santillana.

Campanha: Oito vitórias, dois empates e uma derrota, 25 gols marcados, seis sofridos.

Jogos:
Pré-eliminatória
Aberdeen 7-0 Sion 
Sion 1-4 Aberdeen

Primeira rodada
Aberdeen 1-0 Dinamo Tirana
Dinamo Tirana 0-0 Aberdeen

Oitavas de final
Aberdeen 2-0 Lech Poznan
Lech Poznan 0-1 Aberdeen 

Quartas de final
Bayern 0-0 Aberdeen
Aberdeen 3-2 Bayern

Semifinal
Aberdeen 5-1 Waterschei
Waterschei 1-0 Aberdeen

Final - 11 de maio de 1983, Gotemburgo - Nya Ullevi
Aberdeen 2-1 Real Madrid


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