terça-feira, 15 de maio de 2012

Descraques: Marco Materazzi

Foto: Greenobles.co.uk
Felipe Portes, @portesovic
De Helsinki-FIN (tá frio pra caraco aqui, mas tá bacana)

A arma secreta de um bom beque é a aptidão para descer o sarrafo e não levar cartão vermelho por isso. Outros diriam que é o bom desarme que faz um zagueiro ser reconhecido mundialmente. Para qualquer outro atleta as duas alternativas anteriores são válidas. Mas não para Marco Materazzi, que em seu momento mais célebre, conseguiu esquentar o temperamento de Zinedine Zidane a ponto do francês, já campeão do mundo e coroado como melhor da sua geração, lhe acertar uma cabeçada no peito, nos minutos finais de uma Copa.

Bem, a história de Marco é cheia de momentos inusitados. Como o futebol corria em suas veias (é filho de Giuseppe Materazzi, que jogou por Lecce, Reggina e Bari na década de 1970), logo foi se familiarizando com o esporte e aos 17 já integrava os elencos juvenis do Messina, em meados de 1990. Demorou até alcançar o profissional, em 1993, pelo Marsala. Tão logo demonstrou uma de suas principais características: o faro de gol. Aparecia bem na área adversária em bolas paradas para marcar. Vários foram os tentos providenciais que marcou de cabeça, de canela, salvando as equipes que defendeu.

Depois do período de Marsala, desfilou no Trapani por uma temporada e foi contratado em 1995 pelo Perugia, onde ganharia fama no cenário italiano. Com força incomum e talento para marcação (e anulação de adversários), virou referência defensiva no grifoni. Emprestado ao Carpi em 1998, retornou ao Perugia e passou uma época no Everton. Sua imagem de caneleiro foi construída a partir daí.

Cena comum de Marco em sua passagem pelo Goodison Park
Foto: The sun
Conhecido como "The Butcher" pelos ingleses (nenhuma referência ao zagueiro Terry Butcher, o termo no caso de Materazzi era açougueiro mesmo), foi expulso quatro vezes em menos de trinta jogos pelos Toffees. De volta à Itália, defendeu o Perugia por mais dois anos. Em 2001 selou seu destino ao acertar com a Internazionale. Todo aquele papo de fazer muitos gols e baixar o cacete nos atacantes ficou ainda mais sério: Marco agora era convocado pela Squadra Azzurra. Ou seja, um ranca toco internacional. 

Seu principal alvo na Serie A era sem dúvida Andriy Shevchenko. Rei da pancadaria nos clássicos contra o Milan, o beque sempre se desentendeu com o ucraniano dentro das quatro linhas. Evidente que não podemos classificar o camisa 23 como apenas um doido varrido e bom de briga. The Matrix também tinha certa técnica. Não era seu ponto forte, claro, mas enfim.

Presença constante na seleção italiana, disputou as Copas de 2002 e 2006, as Eurocopas de 2004 e 2008. Foi na Alemanha, em 2006, que ficou gravado na memória dos amantes do futebol como um dos maiores vilões (para todo o mundo, exceto para a Itália, que se beneficiou de sua peripécia). Assumiu a vaga de titular após a lesão de Alessandro Nesta e ficou no posto até a dramática decisão contra a França.  

Eram sete minutos do primeiro tempo, quando Marco derrubou Florent Malouda dentro da área. A imprudência resultou em pênalti, cobrado com extrema classe e ousadia por parte de Zidane. 1-0. 12 minutos depois, a redenção: Pirlo bate escanteio e Materazzi, que havia feito bobagem pouco antes, testa para vencer Fabien Barthez. 1-1. O clima tenso se seguiu e o empate prevaleceu até a prorrogação. Foi aí que a malandragem do zagueirão fez a diferença.

A famigerada cabeçada de Zidane (football wallpapers)
Provocando o capitão francês até o limite, o italiano em determinado lance levou uma cabeçada no peito e conseguiu causar a expulsão de Zidane, que se aposentadoria minutos depois, sem arrependimento algum pelo que fez. De acordo com Marco, o entrevero com Zizou aconteceu por causa de um simples pedido de  troca de camisas. Após recusa do capitão rival, ele então retrucou dizendo que "preferia a vadia da irmã" de Zinedine, que se enfezou e levou o cartão vermelho. A França teve de permanecer focada na partida por mais dez minutos, antes dos penais. O restante desse episódio todos sabem o final.

Conduzindo uma carreira cheia de botinadas e de títulos pela Inter, foi em 2010/11 que o zagueiro experimentou como era o outro lado da moeda. Em determinado clássico contra o Milan (no qual ele distribuía pontapés sem dó), ficou frente a frente com Zlatan Ibrahimovic, encrenqueiro mundialmente conhecido por também ter lutado taekwondo quando jovem. Seria uma dividida normal se o sueco não tivesse entrado com a sola por cima da pelota e acertado a cintura do adversário nerazzurri. Ironicamente, Ibra saiu só com um cartão amarelo.

Ídolo às avessas da torcida interista, Materazzi disputou sua última temporada justamente em 2010/11, quando o Milan saiu vencedor do scudetto, interrompendo o reinado da outra grande torcida milanesa. Aos 38 anos não se encontra aposentado, de acordo com o colega @arthurbarcelos_, que confirmou o fato do camisa 23 ainda estar ponderando sobre jogar mais uma ou duas temporadas, trabalhando com a possibilidade de assumir algum cargo técnico dentro da Inter.




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