quarta-feira, 30 de maio de 2012

Fomos campeões: Steaua Bucareste 1985-86

Foto: Okazii.ro
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

Pouco antes das façanhas da seleção romena comandada pelo gênio Gheorghe Hagi, o futebol local teve sua grande glória no cenário europeu. O Steaua, tradicional agremiação de Bucareste, conquistou em 1986 a Copa dos Campeões da Europa, vencendo o Barcelona nos penais. Para muitos, aquele foi o início de um período de ouro. 

A esquadra ros-albastrii (rubro azul em romeno) conquistou a liga local em 1984-85 após seis anos de jejum, beliscando assim a vaga para a CCE. De forma inesquecível, o elenco partiu para desafiar os seus próprios limites e ambições. 

O primeiro desafio daquela edição foi contra os dinamarqueses do Vejle, fora de casa. Na Escandinávia, os cárpatos conseguiram sair com um empate em 1-1, graças a Marin Radu, que fez o gol rubro azul pouco antes do apito final. Julian Barnett havia marcado o tento inaugural, para a equipe que ainda contava com a lenda Allan Simonsen no seu elenco. Não era dos adversários mais fáceis de se encarar logo no início de uma campanha, mas o conjunto do Steaua falou mais alto perante o talento do nanico danês.

Piturca, ao centro, comemora um dos gols contra o Vejle (Cupa de legenda)

Em Bucareste, não houve nenhum tipo de piedade por parte dos mandantes. Um sonoro 4-1 marcado por Victor Piturca, Laszlo Bölöni, Gavril Balint e Tudorel Stoica (Simonsen marcou para os pobres visitantes) denotou que os romenos não estavam para brincadeira. O domínio foi estabelecido sem muita resistência, num confronto em que só deu Steaua durante os 90 minutos.

Nas oitavas de final, mais dificuldades jogando longe dos seus domínios. Agora o rival era o Honvéd, conhecido em outros tempos como aquela potência onde Ferenc Puskas desfilava seu feroz ataque. Vivendo tempos de ostracismo, ainda que com alguma competência, os húngaros conseguiram vencer a primeira perna, com gol de Lajos Détári. Valeu a máxima da parede defensiva somada a contragolpes, e num desses que a vitória foi definida.

Sabendo que a inspiração e o apoio da torcida estariam em campo no retorno, o grupo romeno repetiu a atuação brilhante que lhe valeu a vaga na jornada anterior. Mais um 4-1 para a galeria, com a marca de Piturca, Marius Lacatus, Ilie Barbulescu e Mihail Majearu. Restou ao Honvéd apenas diminuir, novamente com Détári, na etapa final, quando a vaca já havia deitado.

A escola de futebol iniciada pelo Steaua tinha algumas características interessantes: a rapidez e a precisão. Na grande maioria das ofensivas, eram trocados poucos passes e a velocidade dos pontas e dos meias prevalecia sobre as defesas adversárias. No caso dessa formação vencedora, Balint (meia direita) era o homem que conduzia a bola até a frente e ligava com Piturca, um excelente centroavante que foi essencial no vitorioso trajeto até a final.

Duckadam foi o grande nome da decisão contra o Barça
(Foto: World Academy of Records)
Na defesa, o herói Helmuth Duckadam era o responsável por guardar a meta. Stefan Iovan, o capitão, tomou conta da lateral direita e fazia boas descidas, além da troca de passes e cobertura da retaguarda. No miolo da área, Adrian Bumbescu, uma rocha. Ilie Barbulescu mandava na ala esquerda, Miodrag Belodedici era o líbero perfeito, Lucian Balan e Laszlo Bölöni organizavam a região da meia, apoiando e fazendo passes longos. Mihail Majearu e Gavril Balint saíam pelas alas esquerda/direita, sempre com agilidade e inteligência. Fechando a formação, Marius Lacatus e Victor Piturca se encarregavam de finalizar, sendo Piturca o homem de área, a referência na frente. Outros nomes reservas, mas não menos importantes eram Angel Iordanescu (atacante), Tudorel Stoica (meia) e Marin Radu (meia).

Dando sequência ao torneio, o próximo adversário nas quartas de final era o FC Lahti, até então Kuusysi. Forçados a pensar nova tática para furar a excelente marcação por parte dos finlandeses, o treinador Emerich Jenei certamente perdeu algumas centenas de fios de cabelo. Ao contrário dos embates anteriores, a tendência de golear em Bucareste e só empatar fora deixou a torcida em estado de alerta.

O sufoco foi grande em Helsinki, diante de 32.000 torcedores. Tudo levava a crer que mais um empate duríssimo (de assistir) levaria à disputa de penais. Ainda não era a hora de testar o talento de Duckadam, então restando quatro minutos para o fim, Piturca aproveitou um bate-rebate na área adversária e entre dois zagueiros mandou para as redes, sepultando a esperança dos locais de seguirem adiante no certame.

Piturca faz dois e classifica o Steaua à final (Supporters Steaua)
Restando três jogos para a conquista, o Steaua ainda tinha o Anderlecht antes da grande final. Os belgas contavam com Morten Olsen, Juan Lozano, Enzo Scifo e Arnor Gudjohnsen (sim, pai daqueeele Gudjohnsen). Inicialmente a coisa ficou feia quando em Bruxelas o time da casa endureceu a resistência e saiu para enfrentar os rivais na segunda perna com vantagem. Scifo recebeu belíssimo lançamento na direita, matou no peito e jogou por cima de Duckadam, que ficou sem reação. 1-0.

Com a sabedoria de que no Ghencea não poderia cometer mais erros, o plantel romeno deu o seu máximo para reverter o prejuízo. Piturca foi letal ao completar troca de passes e recebeu de Majearu para vencer o marcador e jogar no cantinho do goleiro, aos quatro minutos. Escanteio na área visitante, a bola quicou e Balint, livre, mandou de primeira. 2-0, aos 23. Completamente refém do dono da casa, o Anderlecht recuou e constantemente via Piturca e Lacatus com liberdade.

Foi numa dessas bobagens que a zagueirada desviou mal um passe de Balint, que subiu e encontrou Piturca de frente com Dirk Vekerman. O arqueiro não conseguiu evitar o toque de cabeça, que sacramentou a vitória dos ros-albastrii, com vaga em Sevilla. Do outro lado do emparelhamento, o Barça sofreu, mas passou pelo Göteborg, campeão da Copa UEFA em 1982 e em 1987. Foi numa decisão por pênaltis que os catalães conseguiram progredir na competição.

Duckadam voa na bola para salvar o Steaua, de branco (Foto: ProSport)
A hora da verdade para Duckadam
70.000 pessoas estiveram presentes no Ramón Sánchez Pizjuán, em Sevilla, no dia 7 de maio de 1986 para ver quem seria o campeão. Steaua e Barcelona decidiriam quem seria o novo vencedor após a fatídica vitória da Juventus, um ano antes em Heysel. Travado demais, o cotejo derradeiro da Copa dos Campeões de 1986 não teve grandes momentos e se arrastou até as penalidades, com muitas faltas e pouquíssimos chutes a gol.

Liderados por Bernd Schuster, Steve Archibald e Ángel Pedraza, o selecionado blaugrana não esteve muito superior aos rivais da noite, não chegando a assustar a retaguarda romena. Até o apito final, poderíamos chamar facilmente aquela decisão de insossa, não fossem os sempre emocionantes penais. Para o azar dos cárpatos, não mais teriam uma segunda chance em seus domínios para tentar a vitória.

Foi aí que entrou em cena aquele que seria considerado "O herói de Sevilla", Helmuth Duckadam. O guarda redes que já havia esbanjado segurança em outros compromissos, se apresentou como principal destaque daquela noite andaluz. Trágico para a maioria dos atletas que tomaram distância para fazer suas cobranças, brilhante para quem sempre está acostumado ao lado inverso do reconhecimento.

Lacatus converteu a primeira penalidade e abriu caminho
para a vitória (Fan base)
Majearu foi o primeiro a cobrar. Telegrafada, a cobrança saiu rasteira e fraca para a defesa de Urruti. Alexanko bateu firme e Duckadam voou para a esquerda, espalmando. Da mesma forma que Alexanko, Bölöni correu e também desperdiçou. A consagração dos homens de luva estava próxima, mas só um levaria consigo o título e o lugar ao lado dos grandes campeões.

De repente todos resolveram cobrar no mesmo canto e Pedraza também permitiu ao camisa 1 romeno mais uma defesa no seu cartel. Lacatus, o primeiro sortudo da noite, mandou um canhão no alto, a bola tocou no travessão e entrou. 1-0 Steaua. Pichi Alonso correu e mandou novamente no canto esquerdo. Aí vocês já sabem: Duckadam defendeu. A previsibilidade do Barça favoreceu o oponente, que preferiu outra opção nos seus tiros. Balint foi até fora da área para tomar distância e chutou rasteiro na esquerda. Urruti errou o pulo e não conseguiu salvar. Marcos então teria a chance final de reverter a trágica série dos seus colegas.

Finalmente o lado escolhido mudou. Um traque foi disparado até a direita, onde Duckadam teve a mínima agilidade de saltar e agarrar a bola. Steaua campeão, catalães sequer balançaram as redes. Aos trancos e barrancos, os romenos tiveram a sua vez, graças a um goleiro em noite inspirada.

Capitão Iovan ergue a tão sonhada taça da UEFA: eternos heróis em Bucareste
Foto: The Guardian
Steaua: Duckadam, Iovan, Belodedici, Barbulescu, Bumbescu, Balan (Iordanescu), Bölöni, Majearu, Balint, Piturca (Radu) e Lacatus.

Barcelona: Urruti, Gerardo, Migueli, Julio Alberto, Alexanko, Muñoz, Schuster (Moratalla), Pedraza, Marcos, Archibald e Carrasco.

Campanha: Quatro vitórias, três empates, duas derrotas. 13 gols marcados, cinco sofridos.

Jogos:
Primeira rodada
Vejle 1-1 Steaua
Steaua 4-1 Vejle

Oitavas de final
Honvéd 1-0 Steaua
Steaua 4-1 Honvéd

Quartas de final
Steaua 0-0 Kuusysi
Kuusysi 0-1 Steaua

Semifinal
Anderlecht 1-0 Steaua
Steaua 3-0 Anderlecht

Final - 7 de maio de 1986, Sevilla - Ramón Sánchez Pizjuán
Steaua 0-0 Barcelona (4-2 nos pênaltis)



Um comentário:

Anônimo disse...

Um timaço, o selecionado militarii marcou época na Europa, e acabou por consagrar 2 lendas....LACATUS E DUCKADAM!!!