quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Craques: Carlos Valderrama

Maior estrela colombiana de toda a história do futebol, Valderrama também
será lembrado pelo seu estilo ovelha de ser (Colombia link)
Valderrama fez de tudo o que podia para ser um dos maiores ícones da geração dourada do futebol colombiano: grande craque, carismático e herói de um país que teve seu esporte quase que totalmente içado pelo dinheiro do tráfico, fez também sua carreira fora da Colômbia

Carlos Valderrama é uma daquelas figuras que você não leva a sério quando se vê pela primeira vez. Ao avistar um cidadão com aquele cabelo que mais parece uma peruca de ovelha, descarta-se a hipótese de que ele, logo o maior colombiano de todos que já pisaram num gramado de futebol, ser um real talento na sua profissão.

Ao longo de 21 anos de carreira, Valderrama tratou de mostrar o contrário do que os leigos poderiam sugerir. Alguém que ostenta um visual tão exótico poderia sim chamar a atenção pelas suas capacidades e feitos à frente de um clube ou seleção nacional. Sendo o jogador mais convocado para o selecionado colombiano, Carlos foi por mais de uma década o capitão e principal nome de um grupo alegre como o dos rapazes da terra do café.

Começou sua trajetória em 1981 na equipe de sua cidade natal, o Unión Magdalena, de Santa Marta. Criador de jogadas e organizador da meia cancha, foi um dos melhores do continente na sua geração. Ficou até 1984 no Unión até acertar com o Millonarios, tradicional clube de Bogotá que outrora contou com os serviços do lendário Alfredo Di Stéfano. A passagem pelos Embajadores serviu para lhe colocar na seleção colombiana, à época longe da visibilidade que teria nos anos 90.

Do Millonarios, o salto para o Deportivo Cali, em 1986. Los Azucareros entravam num período de boas campanhas sul-americanas (nada comparado a aquele que perdeu a final da Libertadores em 1999, valeu Zapata) e estes tempos significaram um grande passo na carreira de Valderrama. Envergou o manto alviverde até 1988, quando foi transferido para o futebol francês, no Montpellier. Ganhou a honraria de Rei da América em 1987, prêmio dado ao melhor jogador do continente.

El Pibe no Montpellier Foto: After Foot
Parlez-vous français?
Pelos lados do Stade de la Mosson, Carlos encontrou com um certo zagueiro chamado Laurent Blanc, e outro camaronês lendário com o qual encontraria anos depois pelos Mundiais da FIFA: Roger Milla. Por La Paillade, fez partidas memoráveis e era presença constante em publicações locais como a France Football.

Les Bleus entravam em decadência e Valderrama foi ícone de bom futebol, de um estilo refinado ao conduzir a redonda. Venceu a Copa da França em 1990, além de ter alcançado a fase de quartas de final da Taça das Taças naquele ano.

Ganhou a condição de astro internacional com atuação exuberante no Mundial de 1990, na Itália, onde os colombianos foram até as oitavas de final, perdendo para o lendário grupo liderado por Milla. Exímio armador e habilidoso, Carlos era o mais procurado pelos companheiros dentro de campo. Quem não lembra daquele lance contra a Alemanha, em que ele fez tabelinha magnífica com Rincón para deixar o colega livre e empatar o jogo? Este jogo daria a credencial para as oitavas aos sul-americanos.

Voltando ao Montpellier, permaneceu até a metade de 1991, quando tomou os rumos do Valladolid, onde teve baixo número de atuações e retornou para a Colômbia em 92, para vestir a camisa do Independiente Medellin. Encarando mais um naufrágio profissional, resolveu então assinar com o Júnior Barranquilla, em 1993, tendo reconhecimento e finalmente os tão almejados títulos nacionais. Logo em sua chegada, ganhou mais uma vez o prêmio de Rei da América, além do Colombianão. 

1994 nos EUA: uma Copa para esquecer, em
todos os sentidos (Foto: Who ate all the pies)
Apostas frustradas e tiros
Naquele primeiro semestre de 1994, a Colômbia havia montado um belíssimo esquadrão para a Copa nos EUA. Meses antes, uma goleada inacreditável de 5-0 em cima da Argentina, em setembro de 1993 pelas Eliminatórias. Diria um outro El Pibe, mas este pelo lado albiceleste da história, que aquela foi a derrota mais vergonhosa que ele teve como jogador. 

Córdoba, Herrera, Andrés Escobar, Rincón, Serna, Lozano, Álvarez, Valderrama, Asprilla e Aristizábal. Para muitos da crítica especializada, aquela formação da Colômbia era uma das favoritas ao título de um tedioso Mundial em terras norte-americanas. Na visão de Pelé, o maior candidato a levantar o caneco. (Ok, Pelé, senta lá) Para todos os outros amantes do esporte, era a chance de ver uma histórica Bulgária, uma memorável Romênia, a competente Suécia, uma viúva Argentina e a surpreendente Arábia Saudita. Os finalistas vocês já estão carecas de saber.

No papel, favoritos. Na prática, um desastre. E um desastre tão grande que até resultou na morte do zagueiro Escobar. Acontece que esta seleção incentivou incontáveis apostas no sucesso de Los Cafeteros, tendência que envenenou o futebol local na década de 1990. Até hoje se diz que as equipes do país que chegavam às finais continentais utilizavam de suborno dos grandes cartéis para serem campeãs. Que dirá o Atlético Nacional de Pablo Escobar em 1989 na Libertadores.

Quis o destino que Andrés Escobar marcasse gol contra no duelo frente os EUA e tirasse as chances colombianas de passar de fase. Num desses desentendimentos de bar, coisa absolutamente casual aqui pelos lados latinos, um torcedor (ao menos é o que as reportagens sobre o assunto dizem) mais exaltado provocou o zagueiro, que retrucou e foi morto com uma série de disparos por arma de fogo. Foi exatamente dessa forma que o futebol no país teve seu maior auge e decadência em curto espaço de tempo.

Brilhando na MLS pelo Mutiny Foto: The Endline
Aposentadoria nos States
Coincidentemente, a carreira de Valderrama também chegaria a um momento de transição. Lá em 1995, levantou mais uma vez a taça do Shakirão, pelo Júnior Barranquilla e preparava terreno para uma última partida, desta vez para a MLS, onde seria soberano e encerraria toda uma caminhada como ícone que foi. 

Em solo yankee, Carlos desfilou pelo Tampa Bay Mutiny, Miami Fusion e Colorado Rapids, este último onde pendurou suas chuteiras. Em 2002, teve seus derradeiros compromissos como profissional até ganhar uma despedida de gala em 2004, com direito a presenças de Diego Maradona, Enzo Francescoli e José Luis Chilavert. 

Ficou o legado da camisa 10, que não encontra um dono realmente merecedor na seleção nacional. Enquanto aos gloriosos e alegres tempos de El Pibe e Cia; as lembranças hão de permanecer no coração daqueles que viram os feitos heróicos na década de 90.

Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é redator na Trivela, além de ser o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

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