sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Por que contratar, por que não contratar?

Vargas tanto chamou a atenção dos clubes brasileiros que assinou com o Napoli (UEFA)
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

O futebol brasileiro tem uma nova tradição nos períodos de transferências: as especulações infindáveis sobre jogadores de países vizinhos que podem ser trazidos por clubes brasileiros. A maioria não se concretiza (até porque os clubes e representantes frequentemente inventam interesse de clubes brasileiros para valorizar seus atletas, sem que haja qualquer negociação em andamento), mas várias de fato acontecerão. Algumas resultarão em sucesso, mas outros jogadores inevitavelmente irão fracassar em sua temporada brasileira.

Aqui vão duas dicas para diminuir a possibilidade de contratações mal-sucedidas. São muito simples, tão simples que nem deveriam ser necessárias. Mas como os clubes brasileiros mostram uma incrível persistência em não seguí-las, sempre é bom lembrar.

Jogar bem contra clube brasileiro não é atestado de qualidade
Por incrível que pareça, a maior parte dos clubes brasileiros parece convencida do contrário. Todo ano é a mesma coisa: algum jogador de clube sul-americano faz boa partida contra clubes brazucas em alguma competição continental. E de desconhecido se transforma em objeto de desejo de vários dos nossos clubes. Ninguém sabe nada sobre o jogador, mas como jogou bem contra clube brasileiro, deve ser craque.

O último exemplo foi o chileno Eduardo Vargas. Até a metade do ano, era um completo desconhecido por aqui. Mas suas boas partidas pela Universidad de Chile na Sul-Americana o transformaram em objeto dos sonhos de vários clubes brasileiros. Vargas de fato é bom jogador e seria um ótimo reforço.

Mas a questão é outra: não é um jogador recém saído das divisões de base. Aos 23 anos já tem cinco temporadas como profissional, convocações pela seleção chilena e foi eleito o melhor jogador do Apertura 2011, vencido pelo seu clube. Deveria ter sido notado há tempos pelos clubes brasileiros. Mas isso só aconteceu após seu ótimo desempenho contra Flamengo e Vasco. Tivesse La U estado em outra chave do torneio e seguiria desconhecido por aqui.

Um exemplo mais claro é o de Martinuccio. Jogador sem nenhum destaque na Argentina, onde atuou por um clube da 2ª divisão, acabou no Peñarol, onde fez uma bela partida contra o Internacional no Beira-Rio, e passou a ser visto no Brasil como um grande jogador. Acabou disputado a tapa por Palmeiras e Fluminense, e terminou 2011 lutando para sentar no banco de reservas tricolor. Bastava os cartolas terem perguntado por ele na Argentina, e ouviriam que é um atleta sem projeção. Ou aos uruguaios, onde ouviriam que os destaques daquele time carbonero eram o volante Aguiar e o meia Mier.

Outro exemplo é o Damian Escudero. Jogador talentoso, mas de carreira errática, foi contratado pelo Grêmio no início de 2011. Pessoalmente, como gremista que tem contatos em Porto Alegre, tentei alertar que o jogador não tinha um histórico recente que justificasse a contratação. Não adiantou: para todos os com quem conversei, Escudero era apenas “aquele cara que fez dois gols no Inter na Libertadores 2007”.

2) DVD não substitui a observação
Essa não vale apenas para estrangeiros, mas se aplica particularmente a eles, pois DVD’s de jogadores brasileiros podem ser complementados por indicações de conhecidos em que cartolas e treinadores confiem.

O caso mais notório recentemente foi Defederico (conhecido por muitos como DVDrico). Não que tenha sido propriamente uma contratação ruim: o jovem jogador havia sido peça destacada do Huracán na campanha do vice-campeonato do Clausura 2009 e despontava como promessa. Mas foi contratado para o lugar de Douglas, uma função bem diferente da sua. E com a expectativa de que chegaria ao país um “novo Messi” (Defederico disputava com Toranzo e Bolatti o posto de segundo melhor jogador da equipe; o melhor, indiscutivelmente, era Pastore). Contratado para jogar fora de sua posição com expectativas irreais, o fracasso era inevitável.
           
Por pouco não aconteceu um caso semelhante, quando um clube grande brasileiro esteve muito perto de contratar Patrício Toranzo, do Racing, julgando tratar-se de um clássico enganche. Na verdade o jogador atua em uma função que não existe há tempos no Brasil: é um “8” à moda antiga, um segundo volante que organiza o jogo a partir do campo de defesa, e é ótimo no passe e no arremate a gol. Já jogou mais perto da área adversária (como no Huracán do Apertura 2009), mas sem maior sucesso. Se tivesse vindo, dificilmente teria sucesso, pois chegaria para desempenhar uma função que não é a sua.

Esses problemas poderiam ser minimizados de forma simples. Bastaria que os clubes brasileiros fossem de fato profissionais e tivessem alguém acompanhando as ligas dos países vizinhos. Poderiam identificar talentos antes de eles se valorizarem muito, evitar erros de avaliação e escapar do cerco dos empresários e seus DVD’s mágicos. E seria um momento perfeito para isso, pois o Brasil tem moeda mais forte e economia mais sólida que a dos vizinhos, além dos clubes terem aumentado sua receita de TV. Mas aparentemente preferem desperdiçar essa possibilidade, contratando sem cuidado e rezando para dar certo.

Um comentário:

Anônimo disse...

Texto interessante, mas sempre há excessões! O maldito do Montillo só ficou "famoso" após o jogo contra o Flamengo! Na Argentina ninguém o conhecia até o jogo contra o Estudiantes em que o cruzeiro goleou! Chegou aqui no Brasil e jogou o fino da bola.

Estava empolgado com a possibilidade do Escudeiro vir pro meu Galo... Depois de ler o que vc escreveu, desiludi!