sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Descraques: Oleg Salenko

Salenko na partida lendária contra os Camarões: ficou só nisso (Betfair)
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

Artilheiro do Mundial de 1994, Oleg Salenko foi o único jogador soviético a alcançar a chuteira de ouro em Copas. Aos que já se antecipam no pensamento de putz, então quer dizer que ele era craque de bola? - digo, NÃO. Não era. Evidente que não se pode menosprezar o potencial de um camarada que marca cinco gols num jogo na fase de grupos, quer dizer, pode sim. 

Nascido em Leningrado, ainda em período URSS, Salenko começou sua carreira em 1986 no Zenit Leningrad (hoje St. Petersburg) e por lá prometia um futuro brilhante, mostrando faro de gols, competência na finalização e bom posicionamento. Em dois anos nos bomzhi anotou 10 tentos em 47 aparições, olha lá, uma média até boa pra um novato. Em 1989, sua vida mudaria. Convocado para o Mundial sub-20 pela União Soviética, foi o artilheiro do certame com cinco gols marcados.

Para o ano de 1989, assinou com o Dinamo Kiev, alinhando com Onopko e Luznhy nos bilo-syni. Lá conquistou o Sovietão em 90, além da Copa da URSS. Sua melhor temporada em Kiev foi em 1991, quando fez 39 partidas e 21 gols. O reconhecimento para as suas boas atuações veio em 1993, com as primeiras convocações ao selecionado nacional russki. 

Em 1992 chegou a fazer uma partida pela seleção ucraniana, mas resolveu por só aceitar chamados da Mãe Rússia a partir de 1993. Contratado pelo pequeno Logroñés, da Espanha, que na época disputava La Liga, teve a honra de dividir o mesmo espaço de vestiário do lendário zagueiro CLEBÃO, ex-Palmeiras, Figueirense e São Caetano. Com um semestre no clube da cidade de Logroño, teve 16 participações, balançando as redes sete vezes.

O auge (entenda último momento de brilho) veio no biênio 1993-94. Escalado em 37 duelos pelo pequeno clube espanhol, anotando 21 gols, arrebentando a boca do balão, quebrando tudo, fazendo a diferença e sendo mito (não).

Lance da inesquecível temporada 1993/94 no Logroñés (AS.com)
Chegava a hora do maior momento para a discreta existência de Oleg. A Copa de 1994. Terra do Tio Sam, abertura de Diana Ross e Jon Secada (pffff), calor infernal, jogos ao meio-dia, AAAAAH, que alegria. Os russos caíram num grupo com Brasil, Suécia e Camarões. A estreia foi frustrante, derrota para os canarinhos por 2-0.

Na jornada seguinte, #sóderrota e a Suécia passeou sobre os sovietes também. 3-1. Deixou sua marca, num penal aos quatro minutos. A Rússia estava virtualmente eliminada, mas ainda lhe restava o último jogo contra os camaroneses, liderados pelo ancião Roger Milla, o homem mais velho a marcar em Mundiais.

28 de junho de 1994, Stanford Stadium, na Califórnia. Salenko estava em chamas e foi às redes africanas aos 15, 41, 44, 72 e 75´. Seria o maior artilheiro de uma só partida em Copas, tal qual o Chuteira de Ouro daquela edição, ao lado de Stoichkov, terceiro colocado na ocasião.

Com um esplêndido Mundial contando a seu favor, chamou a atenção dos dirigentes do Valencia, que contava com um elenco interessante. Mazinho, Penev, Zubizarreta, Mijatovic e Mendieta. Em 31 jogos apenas 10 gols e começavam as suspeitas de que aquele cracaço não era lá tudo isso, poderia vir a ser uma farsa, teoria essa que os escoceses do Rangers comprovaram.

Chegando para 1995/96 com pompas de estrela em recuperação, Oleg não enganou os dirigentes de Glasgow e atuou 17 vezes antes de ser dispensado, em seis meses. "Este homem é um falsário, uma cópia malfeita de Salenko! Devolvam-no aos russos ou joguem-no aos leões", vociferavam os britânicos. Era hora do tímido Istambulspor apostar numa lenda em decadência.

Somou 18 aparições em três temporadas. Ficou incrivelmente fora de forma e mostrou que aquele ano de 1994 era só um brilho distante de uma perna direita sem lembranças. Nada mais conseguia fazer, imprestável ficou, acumulando lesões e comentários sobre o quanto perdeu rendimento em curto espaço de tempo. Um clássico caso de exposição por apenas quinze minutos, onde os holofotes se cansaram de iluminar um cara que nunca teve nada demais para continuar no topo.

Uma última tentativa séria em 1998 no Córdoba, na Segundona espanhola e absolutamente sem ninguém especial no elenco. Quadro deprimente, em suma. Adentrou os relvados mais quatro vezes por lá e resolveu se aposentar. "Num guento mais, véi! Chega disso, peço desculpas ao papai e a mamãe por ter falhado, desculpa ae pessoal de Leningrado, St. Petersburg e região, não deu", deve ter dito numa de suas coletivas derradeiras. Fato é que o tempo foi cruel, muito cruel com Salenko.

Retornou para apenas um compromisso no Pogon, antes de desistir de vez da carreira futebolística que lhe foi tão ingrata. Nem seis anos depois do épico Mundial nos EUA ele havia caído em total esquecimento. No afã de se desvencilhar de memórias que nunca mais viriam, negociou a venda de seu troféu da chuteira de ouro ganho em território yankee, muito por sua façanha contra Camarões. Dizem as más línguas que conseguiu 500 mil dólares pela peça.

Ah, danado...


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