sábado, 24 de dezembro de 2011

Por que contratar, por que não contratar? - Parte II

Martinuccio: flop tricolor em 2011 após chapéu no Palmeiras (Lancenet)
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

Segue a continuação do último post, com dicas teoricamente óbvias (mas quase sempre ignoradas por nossos clubes) a serem seguidas na hora de contratar jogadores sul-americanos.

Paciência
Não é fácil para ninguém se ambientar em um novo ambiente de trabalho. Muito menos em um país novo. Para os jogadores isso é especialmente forte. E não apenas por questões como a língua e a vida em um lugar novo. Esses elementos também pesam, mas há outros elementos que frequentemente não são levados em conta.

O principal é o fato de diferentes países terem diferentes escolas de futebol. Por exemplo, em termos táticos o Brasil tem várias peculiaridades em relação à maioria dos outros países. Uma: esperamos que os laterais exerçam uma importante função ofensiva, enquanto na maior parte dos países esses jogadores são defensores pelo lado do campo, necessitando no máximo aparecer por vezes como elemento surpresa no ataque.

Além disso, temos a peculiaridade de dividir o meio de campo entre jogadores prioritariamente marcadores e outros que são principalmente ofensivos. Assim, o 4-4-2 a rigor praticamente não existiu por aqui, preterido por um 4-2-2-2, em que dois jogadores mais centralizados tem funções majoritariamente defensivas, e outros dois abertos pelos lados do campo são posicionados mais à frente, para atacar geralmente em dupla com os laterais.

Assim, muitos jogadores podem sentir dificuldades, dado que chegam a um país onde se espera que exerçam funções distintas àquelas que estão acostumados. Um exemplo hipotético: Verón atua como volante no Estudiantes. Dificilmente seria bem aceito por aqui nessa função, pois tem como grande diferencial o enorme talento para organizar a equipe a partir do campo de defesa. No Brasil provavelmente seria considerado “ofensivo demais para a posição”.

Mas isso não ocorre na tradição argentina, onde os laterais são mais presos, o que anula a necessidade de dois volantes fixos à frente da zaga. Como nossos laterais avançam com mais freqüência, volantes marcadores são indispensáveis.  O oposto aconteceria com os laterais estrangeiros, que são essencialmente marcadores, e possivelmente seriam tido como “limitados” por aqui.

Nada disso impede o sucesso de jogadores estrangeiros nessas posições. Mas implicam na necessidade de ter em conta esses fatores na hora da contratação. E principalmente em ter paciência até o recém-chegado compreender o que se espera que jogadores da sua função façam por aqui.

Estrangeiros podem ser úteis sem ser protagonistas
Uma curiosa peculiaridade do futebol brasileiro é o fato de que estrangeiros só são aceitos por aqui para serem ídolos. Ainda não conseguimos compreender que jogadores de fora podem ser úteis sem serem os “donos do time”.

E perdemos muito com isso. Para dar um exemplo, os únicos países sul-americanos que tiveram campeões neste fim de 2011 sem argentinos no plantel foram Brasil, Peru e Colômbia. Em várias dessas equipes os jogadores argentinos não foram decisivos, mas muito frequentemente foram úteis para suas equipes.

Outro paralelo possível está na própria Argentina. A maioria absoluta dos clubes da primeira divisão do país possuem jogadores estrangeiros. Em alguns casos são protagonistas, como os colombianos Gutierrez e Moreno, destaques do Racing, ou o uruguaio Santiago Silva, agora na Fiorentina, mas grande destaque na campanha que deu o título ao Vélez Sarsfield no Clausura 2011.

Mas há outros casos. Várias equipes do país possuem bons jogadores uruguaios, chilenos, colombianos, paraguaios ou de outros países do continente. Não são ídolos, mas cumprem com competência sua função para ajudar suas equipes, como o venezuelano Vizcarrondo, o paraguaio Bareiro (ambos do Olimpo), o uruguaio Regueiro (Lanus) e o boliviano Raldés (Colón).

E houve diversos jogadores que passaram recentemente pelo Brasil e, ainda que de qualidade incontestável, duraram pouco por aqui exatamente porque não se compreendeu que poderiam ser úteis às suas equipes, ainda que não fossem exatamente grandes jogadores.

Basta notar quantos jogadores estrangeiros que fracassaram ou foram vistos como decepções nos últimos anos, para em seguida terem desempenho satisfatório em outros países. Urrutia e Equi Gonzalez, que jogaram pouco no Fluminense, são destaques da LDU. Saja, goleiro que saiu sem deixar saudades do Gremio, hoje é referencia no Racing, liderando uma defesa que está entre as melhores do país. Schiavi, campeão da Libertadores e ainda hoje xerife do Boca Juniors, foi reserva do inexpressivo Teco, quando passou pelo Grêmio. Arevalo Rios, de passagem discreta pelo Botafogo, é indispensável para a seleção uruguaia, de grandes sucessos recentes.

Nisso tudo há elementos imponderáveis, como a identificação com a nova camisa ou a adaptação ao país. Mas observar o jogador, saber o que esperar dele, ter paciência e não esperar que ele necessariamente vá ser o melhor jogador do time são atitudes que minimizam a chance de fracasso.

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