quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O comandante

Foto: My football facts.com
Hagi somou glórias por vários times onde passou e até hoje permanece como maior ídolo do esporte na Romênia, idolatrado pelo seu talento e pelos seus feitos; último brilho foi no Galatasaray 

Trinta e quatro minutos do primeiro tempo. Romênia vence a Colômbia por 1 a 0 pelo Grupo A da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. Um homem aguarda um passe na esquerda, quase na linha lateral. Domina a bola e deu dois leves toques. Com espaço, armou o tiro com a canhota e acertou o ângulo de Córdoba, assim sem mais nem menos, do meio da rua. Gol da Romênia. Gol de Hagi...

É fácil para quem realmente gosta de futebol e acompanhou o esporte na década de 1990 tecer alguns comentários sobre a lenda, o mito que foi Gheorghe Hagi. Dentre as milhares de qualidades que poderíamos citar sobre o meia, capitão e líder de uma geração dourada na Romênia, está a incrível precisão em qualquer chute dado com a perna esquerda. 

A canhota, marca registrada (e infalível em qualquer texto que você leia sobre o Maradona dos Cárpatos) fez vítimas das mais diferentes nações, em distintas competições durante as décadas de 1980 e 90. Fosse em faltas, em chutes de longa distância, cruzamentos ou passes curtos, Hagi era o maestro absoluto, um mago na criação. 

Começou sua notável carreira lá no ano de 1982, no Farul, da cidade de Constanta, colecionou singelas 18 partidas pela liga romena, marcando sete gols. Num tempo em que a aproximação dos meias atacantes era maior na grande área, Hagi se notabilizou por ter boa aptidão em finalizar e cobrar suas temíveis faltas de meia distância. 

Logo no ano seguinte transferiu-se para o Sportul Studentesc, onde anos mais tarde ajudou o clube a ter a sua mais brilhante campanha nacional: um segundo lugar na Liga Romena em 1985-86, atrás apenas do Steaua Bucareste, que não por um acaso contaria com o talento de Gica.

Desde 1983 como jogador internacional romeno, Gica chamou a atenção do planeta bola logo em seu primeiro verão no Steaua, no ano de 1987. Dividindo o espaço do gramado com atletas renomados como Petrescu, Belodedici, Böloni, Dumitrescu, Piturca e Lacatus, campeões europeus na época anterior em cima do Barcelona e pentacampeões da liga nacional (1984 até 1989). Hagi colaborou e muito para o reinado dos Ros-Albastrii e inclusive com a campanha do vice campeonato europeu de 1989, frente o poderoso Milan de Van Basten, Gullit e Rijkaard, entre outros.

Em Madrid, um Barça pelo caminho
De saída para um grande centro europeu, Gheorghe seguiu para o Real Madrid, comandado pelo treinador John Toshack e ainda liderado por um letal Emilio Butragueño, além de Michel, Gordillo, Hugo Sánchez e toda a intrépida trupe que compunha La Quinta del Buitre. 

Pelos arredores do Bernabéu, passou sem muita pompa ou sucesso, já que o Dream Team do Barcelona orquestrado por Johann Cruyff começava a dominar o esporte no continente. A estadia em Madrid foi um marasmo necessário para a evolução de Hagi como estrela, papel que assumiu já no Mundial de 1990 na Itália, onde os romenos foram eliminados nas oitavas pela Irlanda.

O futuro ainda reservaria boas surpresas para o craque, que decidiu-se em 1992 por partir da Espanha rumo ao Brescia, treinado pelo compatriota Mircea Lucescu e recheado de outros patrícios como Sabau, Mateut e o matador Raducioiu.

Duas temporadas (a segunda delas na Serie B) foram suficientes para que o capitão da Romênia fosse chamado às pressas para integrar um elenco espetacular daquele mesmo Barcelona que interrompeu o reinado madridista em La Liga. Importante lembrar que mesmo tendo enfrentado o descenso, Gica não abandonou o Brescia e foi crucial para o retorno do clube à elite italiana de forma imediata.
(Foto: Who ate all the pies)
Copa yankee, show cigano
Sabendo que seu ciclo no Brescia estaria prestes a se encerrar, Hagi foi para os Estados Unidos incumbido de tentar levar a sua pátria a um papel melhor do que a anterior classificação para as oitavas, na Itália. Passando por Colômbia e EUA, a classificação da Romênia só foi carimbada pela goleada sofrida para a Suíça de Chapuisat. No restante, os cárpatos decolaram na Copa e fizeram um dos mais memoráveis confrontos de toda a história da competição. 

A vitória contra a Argentina foi um duro golpe para os sul-americanos, que perderam no decorrer da disputa o seu maior ídolo, Diego Maradona, punido por doping. Sobre o jogo, bem, nem é preciso dizer o estrago que os romenos fizeram com a defesa argentina. Dois gols de Dumitrescu e um do próprio Hagi decretaram a volta para casa dos albicelestes, que foram surpreendidos pela aula de futebol dada por Gica e seus comparsas.

O feitiço cigano dos romenos em território norte-americano teria fim na fase seguinte, perante a Suécia de Larsson, Brolin, Dahlin e Ravelli. Um duríssimo empate por 1-1 no tempo normal levou à prorrogação, que teve novo 1-1 até as sofríveis penalidades que terminaram por matar o sonho de Hagi e seus colegas de chegar até as semifinais. A essa altura o mundo já se rendia ao talento incontestável de Gica.

Barça, o penúltimo destino
Já no seu auge profissional, Hagi experimentou estar ao lado de mais uma constelação de atletas de nível internacional, pelo Barcelona, em 1994-95. A começar pelo treinador, Cruyff. Ferrer, Ronald Koeman, Sacristán, Bakero, Amor, Guardiola, Begiristain, Stoichkov e o o último porém não menos brilhante, Romário. Não como mero coadjuvante, o romeno continuava afiado no controle e nas decisões que tomava com a bola nos pés. Seu estilo quase que soberano de enxergar e assimilar o jogo, porém, não surtiu muito efeito na tentativa do Barça de seguir dominando a Espanha. 

Um quarto e um terceiro lugar na tabela, respectivamente, ofuscaram a grande participação de Gheorghe naquele selecionado blaugrana. Beirando os 31 anos, fez as malas e encarou mais uma viagem, a última da sua carreira. Acertou em 1996 com o Galatasaray, maior campeão turco da história.


Maestria até os últimos instantes
Em Istanbul, virou quase Deus, dentro das teologias locais. Capitão e líder instantâneo de um elenco que trazia a base da seleção da Turquia até a década seguinte, além dos sempre importantes conterrâneos (desta vez eram Filipescu e Ilie), aquele Galatasaray do fim dos anos 1990 era um dos esquadrões mais interessantes que o futebol moderno teve notícia. 

Conquistando quatro títulos nacionais e uma Copa UEFA em 2000, em cima do Arsenal, Gica mesmo em idade avançada infernizava os adversários com a sua sabedoria tática e visão privilegiada. E a habilidade que sempre esteve presente, se fazia fundamental quando os reflexos não eram mais tão apurados. Sua malemolência ficou famosa num lance contra Roberto Carlos, na SuperCopa da UEFA contra o Real Madrid. 

Encerrou sua carreira em 2001, com incríveis 237 gols em 515 partidas. Aos mortais, resta reconhecer a genialidade de um dos grandes nomes do futebol, presente em qualquer lista que se preze e reúna mitos que muito fizeram do esporte a atração tão popular que é hoje. Hagi não deixa a desejar para outras lendas do passado, como Pelé, Maradona, Eusébio e Cruyff. Que não sirva de comparação, mas como troféu pelas suas façanhas pela Romênia ou pelos clubes onde vestiu e honrou suas camisas. Afinal, de onde ele veio, poucos fizeram ou farão o que Gica mostrou saber de cor. 

Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é redator na Trivela, além de ser o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

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