sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Cabeça de fósforo

Foto: BVB Freunde
Gênio surgido no humilde futebol da Alemanha Oriental, Sammer conseguiu ganhar prestígio o bastante para ser ídolo no seu país unificado. Se consolidando como um dos jogadores mais importantes no cenário alemão nos anos 90, conduziu o Dortmund a sua maior conquista em campo

Impossível não associar qualquer grande jogador oriundo da Alemanha Ocidental ao feito na Copa de 1974, onde os azarões comunistas da DDR enfrentaram a poderosa Alemanha Oriental e triunfaram sobre os futuros campeões mundiais daquele ano. Naquela oportunidade Jürgen Sparwasser entrou para os livros de história do esporte como marco no conflito ideológico que assolou os germânicos durante quase 50 anos do século passado. 

O craque em questão neste post começou a dar seus primeiros passos no Dynamo Dresden, um dos mais notórios clubes vindos do lado oriental da Alemanha. Matthias Sammer iniciou sua carreira em 1985 (já chegando ao fim de tortuosos anos de divergência com o outro lado do muro) e por lá ficou até 1992, quando assinou contrato com o Stuttgart. Neste meio tempo disputou a Euro sub-18 de 86, -vencendo a competição- além do Mundial sub-20 em 87 onde a DDR foi derrotada pela Iugoslávia de Davor Suker, Pedja Mijatovic, Zvonimir Boban, Robert Prosinecki, Robert Jarni, entre outros que iriam se separar muito em breve, ao contrário dos alemães. 

O placar de 2-1 para os eslavos (o gol da DDR foi de Sammer) na semifinal impediu um confronto entre as duas Alemanhas. Já tido como referência e grande talento surgido do lado azul germânico, Matthias ganhou fama por ser um líbero/meia com formidável talento na marcação, cobertura e passe. Como se essas características não bastassem para a formação de um grande jogador, o "cabeça de fósforo" ainda fazia muitos gols. No Dresden, balançou as redes em 39 oportunidades, somando 102 jogos. 

Foto: Bild
A primeira salva de prata
Não menos eficiente, comandou a intermediária dos suábios do Stuttgart, e disputou a Euro 92 pela Alemanha (já unificada). Sammer conquistou a Bundesliga em 1991-92 sob o comando do treinador Christoph Daum, hoje à frente de agremiações bem mais modestas. Um dado interessante é que Matthias foi o primeiro atleta ex-Alemanha Oriental a ser convocado para a seleção nacional.

Derrotados na final para a poderosa Dinamarca de Brian Laudrup, os alemães amargaram o revés após o tricampeonato mundial na Itália, em 1990. Sammer foi titular na campanha do vice, substituído pelo arisco meia Thomas Doll, que jogava pela Lazio. 

E então o líbero ruivo foi tentar a sorte na Itália, pouquíssimo tempo depois da gloriosa era de seus conterrâneos na agremiação nerazzurri. Jürgen Klinsmann, Lothar Matthaus e Andreas Brehme partiram de Milão ao fim da temporada 1991-92. Os dois últimos conquistaram o scudetto em 89 e serão sempre idolatrados por aqueles lados. Responsável por substituir tamanha tradição e alto nível, Sammer não obteve êxito em sua passagem pela Inter, fazendo apenas 11 partidas. 

O fracasso como prelúdio do sucesso
Sem nem completar um semestre, Matthias retornou à Alemanha, onde assinaria com o Borussia Dortmund, dando o passo mais certeiro de sua carreira. Lá encontrou novamente Flemming Poulsen, dinamarquês que estava em campo no triunfo nórdico na Euro anterior. Stefan Reuter, Michael Rummenigge (irmão de Karl-Heinz) e Stéphane Chapuisat eram outros atletas renomados daquele plantel aurinegro. A quarta colocação na Bundesliga foi de certa forma justa para uma campanha irregular, onde venceram 18 vezes, empataram cinco e perderam 11.

Treinado por Ottmar Hitzfeld, Sammer era o dono da meia cancha do Dortmund e esbanjava segurança nas suas investidas. Para a época seguinte, em 93-94, seria auxiliado pela promoção de Lars Ricken à equipe principal e pela contratação de Karl-Heinz Riedle, vindo da Lazio. Com mais um quarto lugar, fez 29 partidas e anotou quatro gols, antes da sua primeira convocação para uma Copa do Mundo.

Nos EUA, disputou quatro dos cinco encontros da Alemanha no torneio, em caminhada interrompida pela surpreendente Bulgária de Hristo Stoichkov, Krasimir Balakov, Trifon Ivanov e Yordan Letchkov, o autor do tento decisivo. Sammer se lesionou e não entrou em campo naquela oportunidade.

Foto: Lvironpigs.com
O reconhecimento
Estava na hora do talento do cabeça de fósforo ser reconhecido, com mais do que apenas um título como profissional. Na temporada 1994-95, Andreas Möller, ex-Juve, era o grande reforço do BVB para Bundesliga. Determinados a conquistar novamente a salva de prata, de forma consecutiva em 1994-95 e 95-96. O que já estava perfeito para Sammer, grande referência daquele plantel do Dortmund, ficaria ainda melhor no ano seguinte.

Bicampeão alemão, o meia agora tentaria levantar uma taça continental pela Nationalelf. Na Euro 96, sediada na Inglaterra, Sammer chegou para ser o responsável pela ligação entre a defesa e o meio campo da seleção alemã. Soberano nesse setor, demonstrou-se incansável como líbero, exímio marcador e que ainda encontrava tempo para arrematar ao gol. Anotou dois dos seus na competição e chegou até a ser apontado por Berti Vogts, técnico da Nationalmannschaft como o substituto de Beckenbauer, tamanha a sua eficácia.

Carregando o fardo de liderar o elenco, no lugar de Matthäus (lesionado e que não foi convocado para a Euro), Sammer mostrou a maturidade perfeita para a tarefa designada e o resultado só poderia ser a vitória. Disputando todos os seis jogos no evento, foi peça chave para o jogo objetivo da Alemanha, que só teve momentos de turbulência na semifinal diante da dona da casa, a Inglaterra, onde venceu nos pênaltis. Além da própria República Tcheca, oriunda da sua chave na fase de grupos, deixou para trás a histórica rival Itália para avançar em primeiro.

Na hora do mata mata, a Croácia ficou pelas quartas, com colaboração maciça de Sammer, autor de um dos tentos no 2-1 que deu a vaga nas semifinais contra a Inglaterra. Em Wembley, Alan Shearer inaugurou os trabalhos aos três minutos e viu Stefan Kuntz empatar aos 16. Com contornos dramáticos mas sempre com lágrimas pelo lado inglês, as penalidades credenciaram os obstinados visitantes para a grande final contra a surpresa tcheca.

Para a decisão, Patrik Berger fez o gol dos tchecos aos 59´, gerando dúvidas de todo o mundo em torno da força alemã em qualquer competição que seja. O suspense permaneceu até a entrada de Oliver Bierhoff, que entrou na vaga de Mehmet Scholl. Letal, o grandalhão empatou a peleja aos 73 e permitiu a vitória dos tricampeões mundiais aos 5 minutos iniciais da prorrogação. Com o título da Euro, era ifícil que alguém impedisse Sammer de vencer a Bola de Ouro da France Football em 1996.

Foto: Flickr OMPHOTO
Coroando a Era Sammer
O auge ainda estava por vir, na temporada seguinte. O Dortmund estava classificado para mais uma Liga dos Campeões. Em 1995-96 a eliminação veio cedo, já nas quartas de final contra os futuros finalistas do Ajax, então detentores da taça. As opções táticas de Hitzfeld permitiram que o BVB fosse muito mais longe.

Para Sammer, a decepção seria completa em função de mais uma lesão no joelho. De fora de todos os combates que levaram à grande decisão no Olímpico de Munique, o meia pouco entrou em campo naquela época e retornou no momento mais crucial de toda a história da equipe do Vale do Ruhr: a hora de decidir quem levantaria a taça européia de 1997. Em atuação impecável, Matthias viu Riedle atingir a Juventus com dois gols na primeira etapa, abrindo boa vantagem e dando tranquilidade aos amarelos para administrar o resultado.

Ao fim, 3-1 para o Dortmund e a honraria de Sammer para levantar a taça como grande capitão e maior estrela da constelação amarela. Com 31 anos e mais uma vez prejudicado pelas lesões, o cabeça de fósforo decidiu pendurar em 1998.

Tornou-se treinador do próprio BVB em 2000 e antes de virar diretor executivo no clube, achou tempo para ser campeão da Bundesliga em 2001/02, num elenco brilhante que contava com Jurgen Köhler, Ricken, Dedé, Sebastian Kehl, Tomas Rosicky, Jan Koller. Hoje é assistente técnico no Bayern.

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