segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O Coxa tá no G5 (caralho)

Jéci comemora gol sofrido do Coxa na vitória sobre o Avaí (GloboEsporte.com)
Rodrigo Salvador, @novosomsalvador
Texto psicografado por Felipe Portes

Limbo

Eu tinha 26 anos, fui no Couto Pereira, estádio do Coritiba, ver meu time jogar. Tinha uma chance pequena de entrar no G5, tinha resultados prováveis que podiam nos levar até lá, mas eu não acreditava, era coisa demais. Cheguei cedo, compramos ingresso pra patroa e pro meu irmão, encontramos o pessoal que tá sempre por lá e beleza, entramos. Eu não sabia o que estava por vir.

Jogo? Demorou pra começar. Era 30 do segundo tempo quando o jogo começou. Antes disso, rolou uma pelada no campo, com o Vanderlei defendendo até chute de atacante impedido, e o Coxa chutando uma na trave e as outras na trave lá da grade da torcida visitante. 

A rodada acontecia na arquibancada, e só lá. Um tiozão girtou um gol fake do América e o estádio inteiro caiu na dele (verdade, última cena engraçada da minha vida). Depois saiu mesmo o gol do América, aí todo mundo com os radinho confirmou. No primeiro tempo também saiu gol do Galo e do Flamengo, gols que a gente contava pra poder ganhar e entrar no G5. E passou rápido, assim mesmo, porque não teve nada de mais. Eu mais brinquei com uma menininha fofinha lá do que vi a pelada que rolava.

Voltou o segundo tempo e o Coxa mexeu. Tirou as ínguas, improvisou outras, ficou tudo a mesma meia boca. O jogo continuava ruim quando saiu o gol do Palmeiras. Porra, se ganhasse a gente ia pra sexto. O Atlético empatou, o Cruzeiro virou, eles tavam sendo rebaixados. Tá, legal, mas pô, a gente não vai ganhar esse jogo não? Pá, ataca daqui, ataca de lá, gol do Corinthians. Fudeu, foi aí que eu comecei a ver a luz. 

O cara gritou o gol do Corinthians e na mesma hora eu sentei desesperado, um gol colocava a gente em quinto e NÃO VAI SAIR ESSA PORRA DE GOL, o que tava saindo eram meus cabelos e uns gritos de raiva. Praticamente na mesma hora, o maluco deles chuta o Geraldo e é expulso. A galera comemorando enquanto AQUELE MALDITO JOGO NÃO COMEÇAVA DE NOVO PORRA TIME TIRA ELE DAÍ, TIRA O CARA, TIRA ELE, VAMO JOGAR VAMO FAZER O GOL. E eu vendo a luz.

Um chute pra fora, outro chute pra fora e depois mais um chute pra fora. Daí um cruzamento errado e depois um chute pra fora. O lanterna, com 10, time misto, sem o Caçapa (se ele tivesse lá, seria a única justificativa pra não fazer gol até aquela hora) e o Coxa ainda no zero. Todas as amareladas passando na minha cabeça. 98 contra a Portuguesa, 2002 contra o Gama, 2004 na Libertadores, 2005 perdendo oito jogos e cair, 2006 sem ganhar oito jogos e não subir, ia acontecer de novo e eu ia estar ali de novo. Escanteio pro Coxa, gol do América, cala a boca galera esquece esse jogo olha essa maldição aí acontecendo de novo o Coxa vai perder mais uma chancGOL GOL GOL CARALHO GOL GOOOOOOOOL GOOOOOOL AAAAAAAAAAAAAAAAAH GOOOOOOOOOOOOOOOOL. Corri não sei pra onde, abracei não sei quem, me pendurei na grade...

E sei lá, acho que foi nessa hora que aconteceu. É foda, não tem como saber a hora que você morreu. Só sei que foi foda, foi um gol fantástico, nem sei direito quem fez, quem cruzou, quem tava no campo aquela hora. Sei que nem no melhor save de FM teria uma última rodada assim. Sei que nunca esqueceria isso se continuasse vivo depois do jogo. Mas morri né. Aqui no além é tudo diferente, sério, vocês não tem noção. Mas tem uma lei que a gente não pode dar spoiler da morte. A única coisa que vou contar é que Deus existe e é mó maneiro, gente finíssima. Digo, divindade finíssima. Vocês vão adorar conhecer.

Um comentário:

Dona Diaba. disse...

Ahahaha! Genial, Salvador! Isso me lembrou muito o gol 100 no Rogério. Foi uma loucura, me deu um apagão, talvez porque estava chorando tanto que não conseguia ver nada, só consigo lembrar dos vídeos que vi depois.

Parabéns pelo texto (de novo). :)