terça-feira, 8 de novembro de 2011

O primeiro título mundial argentino: Racing de 1967


Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

Semana passada se completaram 44 anos de uma incrível façanha: o título mundial do Racing, a primeira vez que um clube ou seleção argentina chegou ao topo do planeta. Uma boa hora para lembrar a histórica “equipe de José”, referência a seu treinador, Juan José Pizzuti, grande responsável pelo feito.

Em 1965 Pizzuti tinha apenas 38 anos. Havia sido um bom atacante, com passagens por várias equipes, entre elas Racing e Boca Juniors, e várias convocações para a seleção de seu país. Naquele ano foi chamado para treinar a equipe pela qual havia conquistado dois títulos argentinos. Mas os tempos haviam mudado, e a equipe de Avellaneda ocupava um desesperador último lugar no campeonato nacional.

A estreia era contra o River Plate, então líder. A vitória por 3 a 1 mostrou que o novo comandante não estava para brincadeiras. A equipe chegou a ficar 14 partidas invicta, terminando o campeonato em quinto lugar. No ano seguinte a festa continuou. Com apenas uma derrota, chegando a completar 39 partidas invictas, a Academia chegou ao título com 3 rodadas de antecedência.

O segredo era uma grande novidade no futebol argentino: a ausência de posições fixas dos jogadores. Mesmo os atacantes recuavam para ajudar na marcação, e os contra-ataques eram devastadores, em bloco, algo nunca antes visto. Para muitos, uma antecipação da Laranja Mecânica de 1974. Para outros, o germe do futebol de resultados, que chegaria nos anos seguintes ao auge, com o Estudiantes treinado por Osvaldo Zubeldia, tricampeão da Libertadores.

O título argentino de 1966 levou a Academia à Libertadores de 1967. Na época, isso significava uma verdadeira maratona: na primeira fase a equipe de Avellaneda estava no grupo do River Plate e dos representantes da Colombia (Santa Fé e Independiente de Medellín) e Bolívia (Bolívar e 31 de outubro). Com 8 vitórias em 10 jogos, “el equipo de José” se classificou em 1º lugar para a segunda fase. Na segunda fase o Racing disputava uma única vaga na final com River, Universitário do Peru e Colo-Colo. Foi necessária uma partida desempate no Chile contra a equipe peruana, vencida pelos azuis e brancos. O Racing estava na final.

O adversário da final era o temível Nacional, repleto de jogadores que disputariam a semifinal do mundial de 1970 contra o Brasil. Após dois empates em 0 a 0, foi preciso disputar outro jogo desempate, novamente no Chile. E logo no primeiro tempo o Racing abriu 2 a 0, com gols do brasileiro João Cardoso e de Raffo. O Nacional descontou no fim, mas não pode impedir a festa argentina. Com Pizzuti no banco e o craque Humberto Maschio comandando a equipe em campo, não havia rivais para o clube de Avellaneda. Ou haveria?

Era a hora de tentar chegar onde nenhum clube argentino havia chegado: a taça intercontinental (como então se chamava o mundial de clubes). A única equipe argentina a vencer a Libertadores havia sido o Independiente, em 1964 e 1965, nas duas vezes perdendo o confronto contra a Internazionale. Conquistar o título que o arqui-rival havia perdido era um tempero a mais para o Racing.

Mas o rival era temível: o Celtic. Treinado pelo lendário Jock Stein (morto à beira do campo, após classificar a seleção escocesa para a repescagem das eliminatórias para o mundial de 1986), a equipe, inteiramente formada por jogadores nascidos num raio de 50 km de seu estádio, havia batido a Internazionale em Lisboa para ser campeã europeia.

A primeira partida, disputada no Hampden Park, foi terrível para o Racing. A equipe escocesa imprensou La Academia no campo de defesa, terminando por vencer por 1 a 0, gol de McNeil. Na volta, um público estimado em até 120 mil pessoas abarrotou o Cilindro de Avellaneda, disposto a empurrar sua equipe para a vitória. No primeiro tempo Gemmell abriu o placar para os escoceses cobrando um pênalti. No início do segundo tempo Raffo empatou. E já nos descontos da partida o valente Juán Carlos “Chango” Cardenas marcou o gol da vitória.

Era quase o céu para os racinguistas. Mas ainda faltava um terceiro jogo, disputado no Centenário de Montevidéu. Como de costume naqueles anos, a partida foi tensa, resultando em várias expulsões (incluindo Alfio Basile, então defensor do Racing, e posteriormente técnico da seleção argentina). O jogo foi resolvido aos 11 do segundo tempo, novamente com um gol de Chango Cárdenas, que acertou um canhotaço de 30 metros no ângulo, dando o título à Academia. Sem ter metade do talento e inteligência de Maschio, o nortenho foi o herói da conquista máxima do clube.

Naquele dia a equipe teve: Cejas, Martin, Perfumo, Basile e Chabay; Rulli, Rodriguez e Maschio. Cardoso, Raffo e Cárdenas.

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