terça-feira, 8 de novembro de 2011

Mariscal Santa Cruz: quando a Bolívia venceu um torneio continental de clubes

Escalação do lendário Mariscal Santa Cruz (El-area.com)
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

Quando se olha a lista dos campeões dos principais torneios continentais interclubes da América do Sul, o que se conclui é que os únicos países que jamais chegaram a um título são Bolívia e Venezuela. No entanto, o país andino tem (ou tinha) um clube campeão continental: o Mariscal Santa Cruz, campeão da Copa Ganadores de Copa de 1970.

Em fins dos anos 60, com a Libertadores já consolidada, a Conmebol começou a pensar na possibilidade de realizar um segundo torneio continental. Na época, além da Copa dos Campeões, a UEFA realizava a Recopa (já extinta), reunindo os vencedores das copas nacionais e a Copa da UEFA, atual Liga Europa, com as melhores equipes dos campeonatos nacionais que não haviam chegado ao título.

A opção mais óbvia seria a realização nos moldes da Copa da UEFA, já que a maior parte dos países sul-americanos não possuía a tradição de realizar copas nacionais. No entanto a Conmebol resolveu instituir a Recopa Sul-Americana, o nome original da Copa Ganadores de Copa (o torneio atualmente é catalogado pelo último nome para evitar confusão com a Recopa disputada atualmente entre os campeões da Libertadores e da Sul-Americana), nome que aponta a intenção de instituir um torneio aos moldes da Recopa europeia. A idéia era estimular a criação de copas nacionais.

No entanto, a Conmebol resolveu introduzir uma novidade: o torneio seria disputado em formato de Copa América, com sedes fixas em um período curto de disputa. As sedes escolhidas para a primeira edição, disputada em março e abril de 1970, foram o Equador (Quito) e a Bolívia (La Paz e Cochabamba).

Como seria de se prever, o torneio acabou esvaziado. O Brasil havia acabado de extinguir a Taça Brasil, substituída pelo Robertão, e a CBD resolveu não enviar representantes, assim como a confederação colombiana. Além disso, alguns países (como Bolívia, Peru e Venezuela), não realizaram um torneio à parte para indicar seu representante, enviando a melhor equipe classificada na liga nacional abaixo dos classificados para a Libertadores.

Outros países fizeram suas copas, enviando seus campeões para a Recopa. Um exemplo foi a Argentina, que realizou a única edição da Copa Argentina (a edição de 1970 não chegou ao fim), vencida pelo Boca Juniors. Como os xeneizes também se classificaram para a Libertadores, o enviado pelo país foi o minúsculo Atlanta, vice-campeão da Copa Argentina.

Esvaziada pelas ausências de Brasil e Colômbia, a chave de Quito teve apenas 3 equipes: Nacional (Equador), Libertad (Paraguai) e Canarias (Venezuela). Com uma vitória e um empate, a equipe da casa venceu o grupo e se classificou para a final. Na Bolívia jogaram: Atlanta (Argentina), Rampla Juniors (Uruguai), Unión Española (Chile), Deportivo Municipal (Peru) e o Mariscal Santa Cruz, que aproveitou o fato de jogar em casa para se classificar, com 3 vitórias e 1 empate.

A primeira partida da final, realizada em Quito, terminou sem gols. A grande final foi disputada a 26/04/1970 em um abarrotado estádio La Paz. Aos 40 minutos o paraguaio Eliseo Baez recebeu passe de Hurtado e abriu o placar. Aos 12 minutos da segunda etapa um pênalti sofrido por “Chembo” Gonzalez permitiu a Baez marcar o segundo gol. Para delírio da torcida boliviana, o Mariscal Santa Cruz era campeão da Recopa Sul-Americana.

No ano seguinte apenas quatro países (Equador, Paraguai, Peru e Venezuela) mandaram seus representantes para a segunda edição do torneio. Nesse cenário, a Conmebol decidiu realizar uma edição amistosa com os quatro clubes indicados (vencida pelo América de Quito, sem ser oficialmente coroado campeão). Apenas nos anos 1980 a confederação voltaria a realizar um segundo torneio entre seus afiliados.

A trajetória posterior do campeão da edição única do torneio seria ainda mais triste. O clube havia sido fundado em 1923, e se chamou Nothern até 1966, quando atolado em dívidas, foi vendido ao exército boliviano. Rebatizado com o nome de um herói da independência peruana e boliviana, voltou à primeira divisão da liga boliviana, e chegou aos céus em 1970. Seis anos depois o ditador do país, General Hugo Banzer, concluiu que era a hora de encerrar as atividades do clube. Um homônimo ainda seguiu disputando a Liga Paceña, sem sucesso.

Com isso, a equipe que venceu aquele torneio jamais deixou de ser lembrada pelos bolivianos, ainda que poucos estrangeiros conheçam a história. Naquele dia inesquecível para o futebol daquele país, jogaram: Zimmerliz, Barrientos, Angel Báez, Montoya, Gramajo, Jiménez, Eliseo Báez, Hurtado, González, Díaz e Farías.

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