segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Qual é o maior clássico do mundo?

Recoba (ao centro) e seus companheiros comemoram a vitória no dérbi (El País.uy)
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

O título deste post é uma questão que costuma ser discutida pelos fanáticos do futebol, mesmo que seja virtualmente impossível responde-la. Afinal, ela implica em comparar coisas muito difíceis de medir, como rivalidade, camisa, tradição, torcida e títulos.

Em grosso modo pode-se citar dois tipos de clássico. Alguns devem sua grandeza ao fato de reunir camisas com muitos títulos nacionais e internacionais, colocando frente à frente equipes universalmente admiradas: Inter x Milan, Real Madrid x Barcelona e Boca Juniors x River Plate são exemplos.

Por outro lado, há equipes que disputam clássicos de outra natureza. Em geral são os dois clubes que hegemonizam completamente alguma liga mediana, e há muitas décadas anualmente fazem confrontos que param seus países. Fenerbahce x Galatasaray e Celtic x Rangers são exemplos do segundo tipo.

Os clássicos do primeiro tipo normalmente ocorrem em grandes ligas, com muitos clubes tradicionais, fazendo com que a rivalidade seja diluída. Os do segundo tipo tem claramente uma oposição mais forte, mas tem menos força no quesito títulos relevantes e projeção internacional.

Talvez o único clássico que consiga unir as virtudes dos dois tipos seja Peñarol x Nacional. Como nos casos turco e escocês, são equipes que hegemonizam fortemente o futebol do país, produzindo uma rivalidade inteiramente concentrada um no outro. Mas assim como os clássicos das grandes ligas, são clubes de história fortíssima, somando oito títulos continentais, cinco do Peñarol, e três do Nacional.

Isso não quer dizer necessariamente que seja o maior clássico do mundo. Mas inquestionavelmente merece o direito a postular tamanha honra. E para apimentar a briga, são clubes com perfil distinto.

Mais ligado á elite uruguaia, o Nacional tem uma história marcada por equipes de alta qualidade técnica. É o time que forneceu a base para a Celeste Olímpica que assombrou o mundo nos anos 1920 e venceu a copa de 1930. Jogaram no Bolso o xerife Nasazzi, o gênio José Leandro Andrade (a “Maravilha Negra”) e o diabólico trio de ataque daquela seleção: Pedro Petrone, Pedro Cea e o supercraque Hector Scarone.

Outra façanha incrível do Bolso foi ter 7 titulares na seleção uruguaia que chegou às semifinais do mundial de 1970. Somente 40 anos depois, com a Espanha de 2010 e seus sete titulares barcelonistas, tal façanha seria repetida. Não por acaso, a equipe comandada por Ancheta, Cubilla e Morales, tendo ainda o brasileiro Manga e o argentino Artime, chegaria ao título da Libertadores de 1971.

Clube preferido da comunidade italiana e muito ligado à população mais pobre, o Peñarol tem uma longa história de conquistas baseadas na raça e na superação. A espinha dorsal da seleção uruguaia de 1950 jogava no Manya, como Maspoli, Varela, Miguez, Schiaffino e Ghiggia. Três das conquistas continentais do clube envolvem episódios semelhantes.

Em 1966 o clube perdia o jogo desempate para o River por 2 a 0. O equatoriano Spencer tentou o gol, mas chutou fraco, e o lendário goleiro Carrizo matou a bola no peito, para delírio das arquibancadas. Cheio de brios, a equipe carbonera atacou furiosamente até conseguir virar para 4 a 2. O show de Pedro Rocha, Spencer e seus colegas foi a origem do termo depreciativo “galinhas” para a equipe portenha.

Em 1982 o Peñarol empatou em casa a primeira partida da final contra o Cobreloa, para conseguir o impossível, vencendo a revanche com um gol do lendário Fernando Morena no último lance do jogo. Cinco anos depois, Diego Aguirre, com uma grande jogada individual, marcou o gol do título no último minuto da prorrogação, evitando o empate que daria o título ao América de Cali e garantindo a quinta taça para o Peñarol (curiosamente, o palco dessas três façanhas foi o mesmo: o Estádio Nacional de Santiago).

A se lamentar, o fato de essas duas camisas tão poderosas terem chegado ao ponto em que estão. O Peñarol de hoje é totalmente diferente da equipe bem montada que chegou à final da Libertadores. Sete titulares se foram, assim como o treinador Diego Aguirre. O Nacional também perdeu muitos jogadores da equipe que venceu o último campeonato uruguaio, incluindo suas duas revelações, o zagueiro Sebastian Coates e o atacante Morro Garcia.

Só como ilustração, três dos protagonistas do clássico jogado neste domingo foram jogadores francamente decadentes e à beira da aposentadoria: Recoba (autor do gol da vitória do Nacional por 2 a 1), Carini (falhou no primeiro gol) e Zalayeta (desfalcou sua equipe por uma expulsão estúpida na partida anterior). Se esses veteranos de uma geração que pouco conseguiu com a camisa celeste ainda são protagonistas do futebol uruguaio, é porque há algo muito errado.

Mas se o chamado renascimento do futebol uruguaio não atingiu os gigantes do futebol do país, isso não muda em nada o fato de que é um clássico único no mundo. É o único clássico que simultaneamente coloca em campo 8 títulos continentais e mobiliza a quase totalidade dos torcedores do país. Apesar de tudo, os 60 mil torcedores que estavam no Estádio Centenário ontem atestam a permanência da magia presente em cada encontro entre esses gigantes do futebol mundial.

Nenhum comentário: