sábado, 14 de abril de 2012

Bugados: Maxim Tsigalko

Foto: O alguidar
Felipe Portes, @portesovic
De Smederevo-SRB
[ATENÇÃO: este texto é uma obra fictícia]

Ninguém sabe ao certo se ele existe. O que os fãs do Championship Manager 2001-02, o famoso CM sabem é que Maxim Tsigalko é uma das maiores lendas da história do joguete. Ao lado de Tó Madeira e Nikiforenko, o bielorrusso vive na memória dos aficcionados, contrastando fortemente com a vida real, onde é praticamente desconhecido e nunca teve brilho. Todavia, a falta de informações sobre o atleta (muito por ele ser mera estatística e não craque) leva o autor deste texto a inovar na editoria. Por que não contar o que seria uma lenda que vai na contramão sobre tudo que há a respeito de Maxim?

Dentro de uma caixa velha de televisão com alguns panos e uma mamadeira, foi encontrado e adotado por uma loba às margens do Rio Dnipro, na Bielorrússia. Criado na cidade de Orsha até os sete anos, teve de se separar da mãe adotiva porque o serviço social local não admitia que uma criança ficasse sob responsabilidade de um animal, após denúncias dos outros moradores da aldeia. Para eles, a loba incitava os instintos selvagens de Maxim. Uma família de Minsk resolveu então levar o garoto para casa, temendo que o mito de Mogli, o menino lobo se tornasse real. 

Aos doze anos teve seu primeiro contato com a bola, durante aulas de educação física. Foram sete meses até que ele fosse educado a não furar ou morder a redonda e que deveria jogá-la com os pés e não as mãos. Com paciência, o professor/técnico do time juvenil do Dinamo lapidou o jovem e viu nele um futuro promissor. Atacante dos bons, sabia se posicionar como os maiores no ofício, e sua capacidade de finalização era assustadora para os padrões do futebol soviético.

Sem pestanejar, os dirigentes trouxeram Tsigalko para as categorias de base, afim de dar a educação futebolística que o menino ainda carecia. Veloz e forte, seguia impressionando quem o via jogar. Em sua primeira temporada na equipe sub-15, fez 73 gols em 38 partidas, mostrando que o que os seus adversários se esforçavam para fazer, ele tirava de letra.

Imagem meramente ilustrativa (Trivela.com)
O recorde mais impressionante veio quando ele fez três gols de bicicleta em três oportunidades seguidas. Aos dezesseis já viajava com as seleções juvenis da Bielorrússia, era a estrela principal da companhia. Durante uma viagem de ônibus até Borisov, onde enfrentaria o sub-18 do BATE, quando o veículo capotou quatro vezes. Por sorte, Maxim escapou sem nenhum arranhão, ao contrário de uma senhora que estava na quarta poltrona, de carona com a delegação e não resistiu aos ferimentos. Felizmente, atacante estava na poltrona 36, cochilando no instante do acidente.

A vida costuma ser irônica. Numa reviravolta do destino, aos dezessete anos, Maxim estava indo de bicicleta para o treino entre os profissionais do Dinamo Minsk, o primeiro que teria. Um caminhão entrou na contramão da avenida ao lado do centro de treinamento e atropelou aquele pobre rapaz que apenas estava perseguindo um sonho. 

Imagem meramente ilustrativa, parte II (Gazeta da Paraíba)
Maxim ficou um ano em coma. Durante os dois últimos meses, seus pais adotivos levaram uma bola de futebol ao hospital, esperando que isso o ajudasse na recuperação. O primeiro milagre ocorreu quando ele mesmo inconsciente conseguia fazer embaixadinhas. Nenhum médico soube explicar o fenômeno, mas todos atribuíam o acontecimento ao amor que Tsigalko tinha pelo esporte. Os movimentos eram involuntários e emocionaram os orgulhosos pais do rapaz.

Duas semanas depois de receber alta, assustou novamente os médicos e retomou os treinos físicos com a mesma capacidade de antes. Estreou no plantel principal do Dinamo e iniciava-se assim a trajetória e um grande exemplo de superação que insistem em aparecer nos filmes e livros. Ganhou uma estátua em Orsha. Era o cidadão mais ilustre do município, o mais glorioso dos que nasceram lá, embora ninguém saiba ao certo de onde veio aquele bebê dentro de uma caixa. 

Foi artilheiro da equipe de Minsk e do campeonato bielorrusso até 2005, quando nova tragédia se abateu sobre ele. Após o título nacional em 2004, quando foi o principal goleador da competição (para orgulho de sua mãe loba que estava no estádio para acompanhar a partida derradeira da campanha) teve de lidar com nova perda. Seus pais adotivos foram assaltados por uma gangue de macacos ferozes na volta de uma peça teatral. Um dos macacos estava armado com um arpão e acertou o seu pai Mikhail, morrendo no local. A mãe Ivana fugiu em estado de choque e nunca mais foi encontrada. 

Novamente órfão, o já consagrado atleta fugiria da violência de Minsk e assinaria contrato com o Naftan, de Novopolotsk. Ao lado de Dmitriy Komarovskiy formou inesquecível dupla de ataque até a metade do certame, quando sofreu uma lesão grave enquanto limpava o porão de sua casa. Maxim escorregou na cera que havia acabado de aplicar no solo e caiu da escada, ficando inconsciente por dois dias e sendo encontrado por sua empregada. Na queda ele sofreu uma concussão cerebral, quebrou os dois tornozelos e sofreu uma luxação no ombro esquerdo. Seria difícil retomar o nível mais uma vez. Foram sete meses inativo e a aposentadoria era iminente.

Com mais de 300 gols na primeira divisão local e com apenas 26 anos, Tsigalko partiu para o futebol armeno, em busca de redenção. Assinou em 2009 com o Banants Yerevan e brigou por uma vaga nos onze iniciais, sem contar com a confiança do treinador. Decepcionado e deprimido, tentou a sorte no Kaisar, em do Cazaquistão, onde de forma heróica marcou 80 vezes durante 48 partidas. Estaria de volta a maior lenda da Bielorrússia? 

Em 2010 foi contratado junto ao Savit Mogliev, da sua amada terra natal. As lesões começaram a cobrar do seu corpo, mais do que ele poderia suportar. No fim de 2009, realizava uma festa de ano novo em sua casa na cidade de Orsha, quando em dado momento sua esposa Yulia esqueceu o tender no forno. A fumaça chamou a atenção do atleta, que correu até a cozinha para ver o que estava errado. Um incêndio havia começado e os três minutos em que Maxim permaneceu tentando evitar maiores estragos foram suficientes para que ele se intoxicasse e desenvolvesse uma doença no pulmão. 

Na sua última temporada, entrou em campo apenas seis vezes, na última delas desmaiou após um choque com o defensor adversário e resolveu aposentar-se aos 26 anos. Ganhou de presente do Dinamo Minsk uma despedida oficial, reunindo aquele elenco campeão de 2004 e outros amigos que havia feito dentro do futebol. Em apenas 45 minutos balançou as redes cinco vezes, levando em conta o fato do goleiro rival ser um de seus colegas envolvidos naquele fatídico acidente de ônibus. Yuri Kruschenko estava cego, mas mesmo assim não deixou de participar do último instante de glória de Tsigalko.

Era o fim da brilhante saga de Maxim Tsigalko, um dos maiores ícones do futebol (virtual).

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