terça-feira, 3 de abril de 2012

TF História: A taça sangrenta de Heysel

Platini nos instantes em que sucederam a batalha campal no Heysel
 Foto: Old school panini
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

Uma final europeia sempre é um grande espetáculo de futebol. Com raras exceções, o sonho embutido em 90 ou 180 minutos de jogo se torna um pesadelo. A história da final da Liga dos Campeões (ou Copa dos Campeões) de 1984-85 é um dos exemplos em que a alegria foi sumariamente substituída pela dor, angústia e o terror, sentimentos que nunca foram bem vindos dentro de um estádio.

Os principais ingredientes para a confusão foram reunidos no caldeirão de Heysel, em Bruxelas. Naquela noite de 29 de maio de 1985, em que o local estava praticamente lotado, o desastre se não estava previsto pelo lado da torcida inglesa, ficou facilitado pelo policiamento, não reforçado o suficiente para um evento de tal magnitude. Ainda sim, os 60.000 lugares foram ocupados cerca de duas horas antes do pontapé inicial. 

De forma repentina, os reds presentes nas bancadas partiram lentamente em direção aos juventinos. Ah, sim, por trás de todo o noticiário envolvendo este fatídico dia, deveria haver sim um duelo futebolístico. Liverpool e Juventus decidiram o título europeu naquela noite belga. Onde eu estava? Na parte da invasão britânica no setor destinado aos italianos? Sim. Alguns covardemente armados com barras de ferro (retiradas da estrutura do estádio) e outros covardes simplesmente pelo fato de estarem em maioria. Ainda restava uma hora para que a finalíssima tivesse início.

O ato inicial de selvageria foi um conflito físico. Os poucos policiais presentes não conseguiram impedir a ação dos hooligans do Liverpool. Toda a agitação e pancadaria fez com que uma das partes do muro da arquibancada, mais precisamente o setor Z, cedesse e fosse ao solo, soterrando uma grande parcela de espectadores que estavam do lado de fora (e claro os que estavam em cima do concreto), deu-se início um grande show de horrores. 

39 perderam a vida naquela ocasião, onde pedras foram lançadas e sinalizadores foram acesos instantes antes da violência romper a paz no recinto. Era o caos envenenando o clima que poderia ser de muita festa. O inquérito sobre o desastre apontou falta de policiamento, além de clara culpa dos reds ao avançarem a faixa que separava os grupos de fanáticos. Por consequência, equipes britânicas foram banidas por cinco anos de competições europeias. 

Torcedor ferido do Liverpool é levado pelos policiais: descontrole marcou
a noite em Bruxelas (Tifosi bianconeri)
Teimosia organizacional 
Uma hora depois do previsto, a bola de fato rolou no Heysel. Ainda sob atmosfera tensa e sombria, a partida aconteceu. Sem uma parte da arquibancada e com torcida praticamente neutra, novamente houve pressão inglesa, desta vez com a bola nos pés. O Liverpool esteve melhor na primeira etapa e forçou o arqueiro Stefano Tacconi a fazer grandes defesas. Kenny Dalglish e seus companheiros praticavam o melhor futebol da década, um esquadrão certamente inesquecível na história dos Reds. 

No entanto, se houvesse uma forma que minimamente honrasse os que perderam a vida horas antes, esse resultado seria uma vitória da Juventus. Se de um lado tínhamos o talentoso Dalglish e uma formação muito consistente, do outro havia a determinação e um Michel Platini inspirado, obstinado a vencer o jogo e a severa mágoa de ter de participar de uma partida manchada pela desordem. 

Não deveria haver um jogo naquelas condições. A decisão por parte da arbitragem foi de realizar o confronto para evitar novos e maiores entreveros. Dentro de campo, aos 56, o lado bianconero cresceu e num contragolpe rápido, Boniek caiu fora da área. O juiz suíço Andre Daina assinalou pênalti. Platini converteu e colocou os italianos na frente. A defesa, composta por Sergio Brio, Luciano Favero, Antonio Cabrini e Scirea fez o seu serviço com louvor e segurou o eficiente ataque vermelho, com dupla de Dalglish e Ian Rush.

Ao fim dos 90 minutos, o 1-0 persistiu e a Juve saiu de campo com o caneco. Não houve vencedores em Heysel. Nem em uma possível goleada haveria. Os danos causados por irresponsáveis e malfeitores jamais será desassociado àquela noite de 29 de maio de 1985, que dirá os que partiram. Como em poucas oportunidades, vale o clichê de que "o resultado pouco importou" nesta série de acontecimentos.


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