terça-feira, 10 de abril de 2012

TF História: Por dentro da faixa de Gaza

A terra santa do futebol chileno, o Estádio Nacional. (O Gol) 
Bruno Núñez, @BrunoNunez

Cheguei a Santiago, capital do AR SECO, em um sábado com um clima DESÉRTICO e com o sol em grande fase, o uso de boné, boina ou quepe era OBRIGATÓRIO. Já tinha consciência do jogo que rolaria na tarde daquele sábado, em pleno Estádio Nacional, que outrora já fora palco de uma final de Copa do Mundo, hoje dava espaço para um duelo medieval entre ÁRABES e CRUZADOS, pela primeira rodada do Apertura chileno. Ambos em busca do HUEMUL DE PLATA, troféu dado ao campeão nacional.

Ludibriado pelo GOOGLE MAPS, achei que a estação de metrô estava ao lado do hotel onde me hospedei, mas me enganei e enfrentei uma caminhada de 10 minutos, que pareceram uma hora por causa do sol que mirava diretamente para o meu CUCURUTO. Chegando a estação Ñuble, a mais próxima do Estádio Nacional, fui novamente ludibriado pelo serviço de mapas online, que indicava o metrô bem próximo ao estádio, mas tive que fazer nova caminhada longa sobre o calor ESCALDANTE da cidade de Santiago. 

O estádio não aparecia nunca no meu campo de visão, achei que tinha pegado o caminho errado, mas percebi um grupo de NÓRDICOS que parecia ter o mesmo objetivo que o meu, e não deu outra, do nada, o Estádio Nacional EMERGIU na minha frente.

Estava atrasado, o jogo já havia começado, e isso se refletia nas ruas em torno do estádio, nenhuma alma viva próxima parecia respirar aquela partida, só chegando perto das bilheterias que percebi alguns HINCHAS do Palestino atrasados, comprando rapidamente seu ingresso para a batalha já em andamento. Eu estava indeciso para que torcida eu ia me bandear, e o bom senso falou mais alto: acabei comprando um ingresso para a GALERIA do Palestino, que no dia, jogava de local.

O Palestino de 1978, segunda e última vez que o time foi
 campeão chileno, Figueroa é o quarto da fileira de cima,
 da esquerda para a direita (Foto: Solo Fútbol)
Me perdi na área interna do estádio já que não tinha nenhuma sinalização mostrando que ali teriam ÁRABES vendo um jogo de futebol. De súbito percebi que tinha perdido um gol da Católica, enquanto LOS CRUZADOS saltavam e gritavam de felicidade, eu havia achado um senhor com uma bancada cheia de produtos do Palestino (chaveiros, flâmulas e vários outros tipos de PENDURICALHOS) que me indicou a entrada certa. Lá fui eu, subindo as escadas para finalmente ver o jogo, percebo ÊXTASE da torcida em que me aproximava, e sim, gol do Palestino e mais um gol perdido por mim.

Finalmente o jogo, haviam cerca de 100 pessoas (ou menos) na área destinada a torcida do Palestino, os CRUZADOS também decepcionaram e ocupavam pouquíssimos lugares, apesar disso, chego e me acomodo de pé ao lado de um senhor de baixa estatura, ele conversava com todos a sua volta, onde eu estava prestes a conhecer um EXPERT em Palestino e futebol em geral. Comecei a conversar com o senhor, perguntei quem tinha feito o gol e quem era o destaque do time, ele estranhou um pouco, logo me identifiquei como BRASILEÑO, e aí ele não parou de falar mais, ficou muito feliz que um estrangeiro tinha ido ver um jogo do Palestino.

Ele se apresentou como Francisco e depois me levou para a BARRA BRAVA (eram por volta de 10 pessoas). Logo começou a contar ANEDOTAS das canchas chilenas, entre elas a de grandes brasileiros (?) que passaram pelo futebol chileno: a história mais curiosa era a de BENEDITO PEREIRA, beque central que segundo Don Francisco veio ao Chile para ser jogador de basquete e acabou sendo um dos símbolos dos tempos AÚREOS do pequeno Independiente de Cauquenes, hoje na quinta divisão do país.

Don Francisco ENDEUSAVA Don Elías Figueroa, que estava presente no último CHILENÃO que o Palestino conquistou no ano de 1978, e bradava que DON ELÍAS tinha muita classe e foi o maior jogador na história daquele país. Do atual elenco ÁRABE ele admirava o capitão da equipe, Roberto Bishara, mais conhecido como El Jeque (O Sheikh) e que tem ascendência palestina e ainda por cima jogou pela SELEÇÃO PALESTINA, a capitania estava mais do que bem representada.

Roberto Bishara e Felipe Núñez, os ícones do time 
árabe na atualidade (El Gráfico) 
O jogo era bom, chances boas pra ambos os lados, ambos os arqueiros se destacaram, Toselli da Católica fez milagres, e FELIPÃO Núñez do Palestino (típico goleiro sul-americano, camisa colorida e cheia de Gustavo Cerati’s [vocalista do Soda Stereo, uma das maiores bandas de rock da América Latina], além de FELIPAO [sem til mesmo] nas mangas) parou quase tudo, menos um chute de Kevin Harbottle, indefensável.

A arbitragem ajudou um pouco a Universidad Católica, deixando os torcedores muito enfurecidos, principalmente com o bandeirinha, que era de origem judia, não preciso falar que ele era o mais hostilizado ali. A Católica venceu por 2 a 1, os poucos hinchas do clube estavam tristes porque o time mostrou empenho, mas a bandeira palestina que tremulava no CUME do Estadio Nacional mostrava que o sentimento estava mais vivo do que nunca.

Saindo do estádio, CRUZADOS e ÁRABES saíam pacificamente juntos do estádio, nada de GUERRA SANTA como no passado, o simpático senhor Francisco parou na bancada que vendia PENDURICALHOS do Palestino e me comprou um chaveiro, depois conversando com um amigo, me arranjou um CAMELO DE PLÁSTICO, falando que eram presentes para que eu nunca mais me esquecesse do Palestino, e realmente eu não iria. 

Voltei ao metrô conversando com Don Francisco, que seguia falando apaixonado de como o estádio era antigamente, quando se sentia o ALENTO e o CALOR do público. Hoje não, o Estádio Nacional perdeu todo seu charme com o PROCESSO DE EUROPEIZAÇÃO que  sofreu. Cheio de cadeiras, a cancha perdeu todo o ROMANTISMO que tinha por trás, um fato que destrói a mística do futebol sul-americano em geral.

O Estádio de La Cisterna, o habitat natural do Palestino. (Cada7)
Quando estávamos por nos despedir, ele me fez um convite, ir até o Estádio de La Cisterna (a casa do Palestino, segundo ele o MARACANÃ chileno, já que nunca fica cheio. (Sem sentido nenhum essa comparação, mas tudo bem). No outro sábado, me daria a camisa tricolor do time caso eu fosse, infelizmente não pude ir. Saí da cidade na sexta, creio que perdi uma grande história, mas ganhei um amigo de cancha e também um clube pra alentar, e como diz o único canto que a INTIFADA PALESTINA cantou durante o jogo, ‘’CHI CHI CHI, LE LE LE, PALESTINO DE CHILE’’, o clube árabe é um OASIS de histórias.


Os gols da partida, atentos para o gol de Peréz do Palestino, golaço (e eu não vi ao vivo)

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