sexta-feira, 6 de abril de 2012

TF História: Quando os Milionários viraram galinhas

Foto: Futebol Portenho

Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

Todos os clubes argentinos possuem ao menos uma alcunha, muitas das quais são bastante curiosas. Sediado na elegante zona norte portenha, o River Plate é historicamente conhecido como “Milionário”. No entanto, em 1966 surgiu uma segunda forma de se referir ao clube, a qual ainda provoca calafrios em seus torcedores: “galinhas”.

Naquele ano o clube fez uma grande campanha na Libertadores. Com jogadores como o histórico goleiro Carrizo, os uruguaios Matosas e Cubilla e os irmãos Onega, os comandados de Renato Cesarini chegaram como favoritos à grande decisão, mas perderam o título de forma surpreendente.

Naquele ano a Libertadores, até então um torneio curto, teve pela primeira vez uma fórmula mirabolante, inaugurando um período de muita desorganização que perduraria até a edição de 1971, quando finalmente a Conmebol conseguiria encontrar a fórmula que seria utilizada por quase duas décadas. Mas nos anos anteriores a tônica do maior campeonato continental interclubes foi a bagunça.

Naquele ano os milionários jogaram 16 vezes antes de chegar à final, em um torneio que tinha 17 clubes. Com as três partidas da decisão foram 19 jogos em 3 meses. Primeiro um grupo com o Boca Juniors, dois clubes do Peru (Alianza e Universitário) e dois da Venezuela (Deportivo Lara e Deportivo Itália). Com oito vitórias em dez jogos o River se classificou em primeiro lugar.

Na segunda fase um grupo duríssimo, que só classificaria uma equipe para a grande final: além do River lá estavam o Boca Juniors e o Independiente, vencedor das duas edições anteriores do torneio, além dos paraguaios do Guarani. Foi necessário um desempate com o Independiente, vencido pelos Milionários por 2 a 1. O River havia chegado à grande decisão.

O adversário era uma grande equipe do Peñarol, repleta de nomes históricos do clube. O treinador era ninguém menos do que Roque Máspoli, goleiro da seleção uruguaia na copa de 1950. Em campo havia grandes jogadores, três dos quais fizeram muito sucesso no Brasil: o grande goleiro Mazurkiewicz, o lateral Forlán e o genial Pedro Rocha. Uma equipe que poderia enfrentar qualquer outra do planeta, e que venceria as duas partidas da final intercontinental contra o Real Madrid.

A primeira partida foi no Centenário. Nela o River foi guerreiro, e segurou o empate por 75 minutos. Mas Abbadie e Joya marcaram os gols da vitória carbonera nos últimos minutos. Um empate daria ao Manya o terceiro título da Libertadores. Uma partida de tamanha importância entre duas equipes tão tradicionais e recheadas de grandes craques só poderia mesmo entrar para a história.

O Monumental de Nuñez estava abarrotado, incluindo torcedores à beira do campo, o que não era totalmente incomum na época. Pedro Rocha abriu o placar, mas Ermindo Onega empatou ainda no primeiro tempo. O equatoriano Spencer colocou novamente o Peñarol em vantagem logo no início do segundo tempo, mas Sarnari empatou logo depois, e Ermindo Onega marcou o terceiro gol, para delírio da torcida. Tudo seria decidido no jogo desempate, em Santiago do Chile.

No primeiro tempo o River Plate foi melhor, e desceu para o intervalo com dois a zero a favor, gols de Daniel Onega e Solari. A Libertadores de 1966 parecia definida. Logo no início do segundo tempo ocorreu o lance mítico que mudou a história da partida. Um simples momento que tem muitas versões, mas em geral inclui um chute de Spencer, defendido de forma humilhante por Amadeo Carrizo, que matou a bola no peito e saiu jogando.

Com os brios feridos os jogadores do Peñarol correram como nunca. Logo após os 20 minutos o mesmo Spencer aproveitou uma bola na área e fuzilou Carrizo. Mais cinco minutos e Abbadie chutou de fora da área, a bola desviou em Matosas e enganou o goleiro milionário. O Peñarol havia conseguido um empate que parecia impossível. E entrou na prorrogação com muito mais força que o rival.

Aos 12 minutos o equatoriano Spencer ensinou a Carrizo que com uruguaios não se brinca, subindo mais que toda a defesa inimiga para acertar uma cabeçada espetacular. Após 102 minutos de jogo o Manya tomava a frente do placar pela primeira vez. No segundo tempo Pedro Rocha concluiu um rápido contra-ataque com uma cabeçada muito bem colocada. O Peñarol havia feito história: era campeão da Libertadores de 1966 e em seguida seria campeão mundial.

O River Plate havia perdido a incrível oportunidade de conquistar seu primeiro título continental, exatamente quando a conquista parecia praticamente certa. O tipo de coisa que os rivais jamais perdoariam. Poucos dias depois o clube enfrentou o Banfield, pelo campeonato argentino daquele ano. Um hincha do Taladro entrou em campo com uma galinha, como referência à derrota, para delírio da torcida local.

A galhofa de um anônimo torcedor do Banfield entraria para a história. A partir daquele dia, ao menos para os rivais o River Plate deixaria de ser o “Milionário” e passaria a ser conhecido como “Galinha”. Algo que os torcedores do clube ainda sentem arrepios de ouvir. Tudo por conta de uma incrível vitória do Peñarol em 1966.

PEÑAROL: Mazurkiewicz, Lezcano, Diaz e Forlán; Gonçalvez e Caetano; Abbadie, Cortés, Spencer, Rocha e Joya.

RIVER PLATE: Carrizo, Matosas, Vieytez e Sainz; Sarnari e Grispo; Cubilla, Solari, Ermindo Onega, Daniel Onega e Más.


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