terça-feira, 24 de abril de 2012

Descraques: Angelos Charisteas

Foto: Daily Mail
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

É assim: Charisteas viveu um conto de fadas em 2004, tal qual toda aquela seleção da Grécia que encontrou um eficiente esquema tático para vencer a Eurocopa em Portugal. Com um futebol defensivo e cerebral, os helênicos derrubaram os donos da casa na final, com um gol de cabeça do rapaz aí na foto, o Descraque de hoje. É justo também dizer que antes e depois disso Angelos foi um atacante qualquer, sem nada de especial.

Tudo começou há um tempo atrás na Ilha do soooool em 1997, quando aquele menino grandalhão ganhou espaço no Aris. Pouco participava dos compromissos da equipe grega, até o ano de 2000, quando somou 28 aparições. Em 2001 já integrava a seleção grega e comprovando que eram tempos em que qualquer traste assumia a camisa 9 que um dia já foi vestida pela lenda Nikos Machlas. 

E então, fazendo uma temporada nada mais do que mediana em 2001-02, foi credenciado a ingressar no Werder Bremen, que em pouco tempo seria campeão nacional. O jovem Angelos faria parte de um elenco memorável da rapazeada alviverde. Ivan Klasnic, Ailton e Nelson Valdez eram os favoritos para a posição no olhar criterioso de Thomas Schaaf no comando da equipe em 2002-03.

Contratado pelo Bremen e ainda com a camisa 10, o grego começava
a enganar os dirigentes germânicos (De spiegel)
Não me venham dizer que a média de um gol a cada três ou quatro partidas é boa. Logo que chegou, disputou 31 jogos e balançou as redes nove oportunidades. Na caminhada da salva de prata, o grego ficou mais no banco de reservas, assistindo o brasileiro Ailton marcar 28 tentos e ser o artilheiro da competição. Charisteas fez apenas quatro, mas ainda sim foi lembrado por Otto Rehhagel (herói do Werder ao fim da década de 1980) para a Eurocopa de 2004.

Qualquer pessoa sã e com o mínimo conhecimento de futebol apontaria a Grécia como lanterna da chave A. Acontece que naquela edição em especial, todas as previsões óbvias ou coerentes cairiam por terra. No mesmo agrupamento onde Portugal e os helênicos se classificaram, Espanha e Rússia ficaram pelo caminho. Itália foi eliminada no C, onde Suécia e Dinamarca avançaram. Por fim, a Alemanha deu adeus e viu a República Tcheca (de forma justa, os tchecos foram a segunda melhor formação daquele certame) marcar nove pontos, cinco a mais do que a Holanda.

Ainda na fase de grupos, os lusos tiveram um aperitivo do que a Grécia poderia oferecer, logo na abertura, por 2-1. A forte retranca de Rehhagel superou a juventude e a empolgação dos portugueses. Detalhe, foi o único compromisso que os gregos marcaram mais de um gol. Todos os outros (empate em 1-1 com a Espanha, derrota por 2-1 para a Rússia, vitória por 1-0 sobre França e República Tcheca) foram exemplos nítidos que o ferrolho também tem vez nos tempos modernos. Lição essa aprendida pela Suíça nas Copas de 2006 e 2010. 

Célebre lance da cabeçada e gol de Angelos na final da Euro, no Estádio da Luz
Foto: Mlahanas
O dia 4 de julho de 2004 ficará sempre marcado na história do futebol português como o maior quase de todos. Naquela noite, o Estádio da Luz estava completamente lotado e claro, com a certeza de que o troco pelo revés na primeira fase seria vingado, além da disparidade técnica. Não sejamos injustos com os visitantes. Stelios Giannakopoulos, Giourkas Seitaridis, Theodoros Zagorakis e Giorgos Karagounis eram grandes jogadores, muito embora o quarto dessa lista nem tenha entrado na grande final. Em qualquer hipótese, os donos da casa eram favoritos, mas o irresistível estilo de Luís Figo, Cristiano Ronaldo, Nuno Gomes e sua patota simplesmente não conseguiam lidar com a barreira imposta a partir da intermediária.

Jogados redondos 12 da segunda etapa. Escanteio para a Grécia. Angelos Basinas, um dos que aparentavam já ter 50 anos ou mais na ocasião. Envelhecido, o plantel alviazul tinha como segundo ponto forte a experiência e a disciplina tática. Numa dessas piadas do destino, quiseram os deuses do futebol que a bola alçada por Basinas achasse Charisteas, marcado por Costinha e Ricardo Carvalho subisse ao encontro da gorducha que morreu no fundo das redes de Ricardo, mal posicionado no lance. Os minutos restantes daquele jogo vocês já sabem: retranca sobre retranca e Portugal no desespero.

Consagrado pelo gol que valeu a Euro ao seu país, o atacante foi contratado pelo Ajax logo depois. O resto da Europa sabia que ele não era grande coisa. O tempo foi passando e Angelos, coitado, caiu no ostracismo. Mesmo com passagens fracassadas por Feyenoord (2006-07), Nuremberg (2007-08), foi chamado para a Euro 2008, na Áustria/Suíça. O feitiço de quatro anos antes não se repetiu (apesar de Rússia e Espanha terem ficado no mesmo chaveamento) e Charisteas, juntamente com seus companheiros, saiu do evento sem marcar um mísero ponto.

Com moral na Alemanha, acertou com o Bayer Leverkusen para 2008-09 e quase não entrou em campo. Retornou do empréstimo para o Nuremberg em 2009-10. Marcando apenas dois gols nestas duas últimas temporadas em clubes, concretizou sua decadência ao se transferir para o Arles-Avignon, recém promovido na França, em 2010-11. Um semestre foi necessário para que os dirigentes perceberem que se tratava de uma farsa. Aos 31 anos, poderia se aposentar sem que ninguém notasse. Entretanto, o Schalke foi lá e provou que ainda tem muito bobo no futebol, amigo. Hoje, nosso Descraque joga pelo Panetolikos, uma mistura de Panetone com Catolikos na Primeira divisão grega.

De acordo com Joannis Mihail Moudatsos, (@grego___ ) colega do twitter e apreciador do futebol grego, Charisteas pode ser definido como "uma mistura de poste com perna de pau, que sabia usar a cabeça". Emblemático.

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