sábado, 28 de abril de 2012

Descraques: Thomas Gravesen

Assustador? Gravesen virou ídolo da torcida do Everton por suas incessantes
pancadas nos rivais da Premier League (Soccer Millionaire)
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

Baixinho, enfezado e caneleiro: este era Thomas Gravesen, brutamontes dinamarquês que ficou famoso durante a década de 2000. Volante com alto poder de marcação (e destruição), dava um toque bruto ao meio campo danês, que sofreu com o ostracismo após a aposentadoria dos irmãos Laudrup. Arquiteto do sarrafo, nasceu e foi criado na cidade pacata de Vejle, onde o maior ser humano escandinavo de todos, Allan Simonsen, foi revelado ao esporte.

Então, em 1995, pelo Vejle, iniciou sua saga sangrenta em busca do reconhecimento internacional. Por dois anos baixou o porrete e impedia bem a progressão do ataque adversário. Famoso pelo seu approach com vigor, não facilitava o serviço dos pobres oponentes que entravam em disputas de bola. A única certeza em lances que envolviam Gravesen era que os rivais sairiam do confronto com hematomas. 

Os desarmes e bom controle na marcação executada na meia cancha alarmaram os dirigentes do Hamburgo, que em 1997-98 estavam carentes de um atleta para desempenhar esta função de capanga. Transmitindo segurança aos homens de defesa, o dinamarquês não comprometia a retaguarda da sua equipe. 

Foto: NDR.de
Foram três anos no HSV, até a convocação para a Eurocopa, em 2000. Seria sua primeira grande competição internacional pela Dinamáquina, que já não assustava como outrora. Antes de deixar a equipe germânica, fez 51 aparições, sendo titular absoluto apenas no fim do ciclo, em 1999-00. No certame pela sua seleção, acompanhou de perto a vergonhosa campanha, fazendo dois dos três jogos dos escandinavos, que perdeu todos os seus compromissos na fase de grupos (França, Holanda e República Tcheca), saindo sem marcar um gol sequer. Diria o treinador Bo Johansson, meses depois da disputa da Euro que Gravy não era "psicologicamente estável". Daí já é possível concluir muita coisa a respeito do volante.

O Everton acabou se interessando nos serviços de Thomas. Na oportunidade, em 2000-01, os Toffees tinham um decadente Paul Gascoigne, Tobias Linderoth, Niclas Alexandersson e o jovem Leon Osman no setor de meio campo. Faltava um coringa para intermediar as ligações entre a defesa e o ataque, com aquela chegada que o danês executava com maestria. Iniciou-se no Goodison Park um reinado de terror. Gravesen e suas botinadas ganharam a simpatia dos torcedores, que se não iam bem no campeonato de futebol, ao menos nas artes marciais estavam com participação satisfatória. Sua fase no futebol inglês foi interessante, quando ocupou funções de criação (de jogadas, não de hematomas ou lesões).

Gravesen monta em Nedved durante a Euro2004: barbáries eram recorrentes
por parte do armário dinamarquês (SMH.au)
Quatro anos de lealdade ao Everton, a titularidade no selecionado de seu país e a fama de durão nos gramados fizeram dele uma figura de alguma forma carismática. Fora dos campos, constantemente era visto sorrindo ou em poses cômicas. Querido pelos companheiros, virou um tipo de segurança de boate para os colegas que fazia dentro do futebol. Mas ele queria mais do que isso. Companheiro de Stig Tofting na volância dinamarquesa, teve vital participação na campanha que levou sua nação até as oitavas de final da Copa de 2002. Um episódio célebre envolvendo Gravesen aconteceu nas Eliminatórias para esse Mundial. Autor de dois gols contra a Islândia, foi impecável na marcação e considerado o melhor jogador da partida. Horas depois foi requisitado por Mike Tyson, que pedia a camisa usada no cotejo. Até o astro do boxe se rendeu ao estilo do pangaré de Vejle.

Durante a Eurocopa de 2004, em Portugal, novas atuações e intimidações. Eliminados nas quartas pela República Tcheca, os daneses ainda foram longe num grupo complicado que tinha Itália (a decepção do torneio), Suécia e Bulgária. O Real Madrid tinha visto o suficiente de Gravesen para querer contratá-lo logo após o encerramento do certame. E assim o camisa 16 partia firme e forte rumo à conquista do planeta com suas machadadas e caretas.

Aproveitando o período Galactico do Real, Thomas se juntou a Zinedine Zidane, David Beckham, Roberto Carlos, Robinho, Ronaldo, Raúl e outros, que já encaravam um inconveniente jejum europeu. Chegando até a ser treinado por Wanderley Luxemburgo, o volante assumiu de vez a carapuça de caneleiro e fazia o serviço sujo na intermediária madridista.

Gravesen e sua muqueta clássica em Robinho: os dois ficaram
desprestigiados no Real, mas quem saiu foi o grandalhão
Foto: Cordero virtual
Como bem alegou Bo Johansson, anos antes, Thomas não era psicologicamente estável. Foi numa dessa, que em meados de 2006 se envolveu numa briga de treino logo com o franzino menino Robinho. A cena dos dois se esmurrando no CT do Real correu o mundo e até deu certa imagem de corajoso ao brasileiro, que tinha metade do tamanho do companheiro e ainda sim partiu para a briga. O entrevero não pegou bem para o grandalhão, que meses depois foi dispensado pelos espanhóis, ficando livre para negociar com o Celtic, que à época contava também com Roy Keane, outro especialista na arte de mandar oponentes para o Departamento médico.

Chegava com moral em Glasgow, marcando gol em clássico contra o Rangers e acredite, até um hat-trick contra o St. Mirren. O futebol escocês era talvez o habitat ideal para Gravesen, que sempre foi adepto de um estilo mais ríspido, sem firulas ou qualquer resquício de habilidade. Chegando o fim da temporada 2006-07, perdeu a motivação e foi aos poucos deixando de figurar entre os onze iniciais. Desinteressado, foi repassado ao Everton, onde ganhou fama. Lesionado e fora de forma, fez apenas oito jogos e retornou aos bhoys. Sem jogar, resolveu se aposentar em 2009, para alívio de centenas de atacantes que ainda o enfrentariam pelos campeonatos mundo afora.



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