segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Panorama dos campeonatos sul-americanos

Cena inusitada do clássico chileno entre Colo-Colo e La U (Prensafútbol.cl)
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

Os campeonatos nacionais da América do Sul começam a chegar à reta final. Assim, é hora de entender o que acontece em cada um desses países, bem como os postulantes ao título.

URUGUAI – Pela segunda semana seguida o país não teve rodada do Apertura. Primeiro pelas eliminatórias, e agora por conta do Pan, acompanhado com muito interesse no país. A cinco rodadas do fim, o Peñarol lidera com 23 pontos. Seu rival mais tradicional, o Nacional, está em quarto lugar, 4 pontos atrás do Manya. Com um terrível começo, o Bolso parece ter poucas chances de impedir o triunfo de seu principal rival. O grande rival do aurinegro neste momento é o Cerro. A pequena equipe de Montevidéu está na vice-liderança, apenas um ponto atrás do líder, e mostrou muita força no confronto direto com o Peñarol na última rodada, quando um 0 a 0 não fez justiça à superioridade dos Villeros. Comandado pelo experiente Morales, o Cerro parece o adversário mais viável dos aurinegros.

ARGENTINA – Com os 3 a 1 sobre o Rafaela, o Boca chegou a 79,5% de aproveitamento, abrindo nove pontos de vantagem sobre os vice-líderes. A seis rodadas do fim, a grande distância na classificação, a solidez mostrada pelos xeneizes e a incapacidade de seus perseguidores em mostrar regularidade, tudo indica que a equipe da Bombonera dificilmente deixará escapar o título que não conquista desde o Apertura 2008.

CHILE – O país viu o clássico mais quente do continente no último fim de semana. Universidad de Chile e Colo-Colo tiveram um confronto tumultuado, que terminou em 2 a 2, com direito a uma criticadíssima arbitragem, três expulsões, e um gol contra aos 57 minutos (!) do 2º tempo, marcado por Molinas, dando o empate salvador à La U.

Mas o resultado prático foi pequeno. O Clausura chileno, após uma temporada regular em que todos jogam contra todos, tem um mata-mata com os oito melhores. E a 3 rodadas do fim da 1ª fase, La U está confortavelmente instalada na liderança, com 8 pontos de frente sobre o Colo-Colo, igualmente classificado. A Catolica, com péssimo começo, se recuperou e deve se classificar. Então emoção de verdade, só nos mata-matas.

PARAGUAI – A rodada do final de semana colocou fogo no Clausura. O líder Nacional foi derrotado pelo Sol de América, enquanto o Libertad bateu o Olímpia e o Cerro derrotou o Independiente. Resultado: as três equipes estão empatadas na liderança, 3 pontos à frente do Olimpia. A oito rodadas do fim, o torneio promete muitas emoções.

BOLÍVIA – A 4 rodadas do fim da fase classificatória, a luta é dura pelas vagas na fase final do Apertura. Pelo grupo A, Universitário de Sucre, Real Potosí e Guabirá são os donos das vagas no momento, pressionados pelo tradicional Bolívar. Pela chave B, Aurora, Oriente Petrolero e Nacional Potosí estão se classificando, mas o The Strongest está nos calcanhares do trio, empatado com a última equipe em pontos.

PERU – A 4 rodadas do fim da Primera Etapa, Alianza (55 pts.) e Juan Aurich (49) marcham para serem os classificados para a grande decisão, já que o León Huánuco não passa dos 42 pontos.

EQUADOR – Vencedor da Primera Etapa, o Emelec espera o campeão da Segunda Etapa, seu opositor na grande final. Tudo se encaminha para que seja o Deportivo Quito, líder a seis rodadas do fim com 35 pontos. LDU e Emelec têm 29, e Barcelona tem 28.

COLÔMBIA – A 5 rodadas da fase regular do Finalización (que classifica os oito primeiros para um mata-mata que decidirá o campeão), o torneio vai se consolidando como o mais equilibrado e imprevisível do continente, e talvez do mundo. Apenas dois pontos separam o líder, Atlético Junior, do Deportivo Cali, oitavo colocado. E apenas mais quatro pontos abaixo está o décimo-quinto colocado, o Atletico Huila. Tudo pode acontecer.

VENEZUELA – A seis rodadas do fim do Apertura, duas equipes aparecem como postulantes mais sólidos ao título: o Caracas, clube hegemônico no futebol do país nos últimos 20 anos, lidera com 28 pontos. No encalço dos Rojos vêm o Deportivo Lara, um clube de apenas cinco anos, pertencente a um grupo de empresários, em busca de seu primeiro título, apenas um ponto atrás do líder. Com 22 pontos, o Mineros está em terceiro lugar.

A atenção que as coisa recebe

Ronaldinho foi hostilizado em Porto Alegre pela torcida gremista (GloboEsporte.com)

Rodrigo Salvador, @novosomsalvador
De Curitiba-PR

Na vida tem as coisa que todo mundo presta atenção, as que quase todo mundo presta atenção, as que quase ninguém presta atenção e as que ninguém presta atenção. No Brasileirão é diferente. Mentira, é igualzinho, é até mais claro.


As coisa que todo mundo presta atenção: Ronaldinho Gaúcho. Eu gosto dele, nego fala que é firulento (e é mesmo) mas ele firula e vai pra frente, não é um Robinho que chapela pra trás. Também não vejo tanto mau caratismo nele, acho que é coisa de quem cerca o cara. Mas ontem ele mandou mal. Chamou de murcho o peito que deu leite pra ele. Não precisa se render àquela putaria de não comemorar gol contra ex-time, mas não precisa de tanta babaquice, "ai essa torcida perto do mengaum não faz barulho" "ai to nem ai pra vcs" "ai essas nota com a minha cara kkkkk que grassado". Puto. Comemorei cada gol do Grêmio com a intensidade que o Ronaldinho mereceu.


As coisa que quase todo mundo presta atenção: Vai dar Corinthians, São Paulo, Botafogo e Fluminense na Libertadores. Vai cair América, Avaí, Atlético-PR e Ceará. E o motivo todo mundo já conhece, é que o de cima sobe e o de baixo desce. E nunca antes na história desse país os cabeças ganharam tanto e os lanternas perderam tanto na reta final. Ó o Galo, ganhou uma e já pulou pra 14º. Aquele papo de que quem tá lá embaixo começa a ganhar no fim MÓ-RREU.


As coisa que quase ninguém presta atenção: Vasco 0x0 São Paulo foi o único empate do campeonato dos empates. Será que nego finalmente sentiu o aperto do fim do ano? Porra, NOVE times tem 10 empates ou mais, e empate em pontos corridos brocha mais que chá de saquinho feito em chaleira nova. "Campeonato mais equilibrado do mundo" beleza, esse tanto de empate fode a graça do campeonato.


As coisa que ninguém presta atenção: Esse time do Figueira. Os dois laterais, Bruno Vieira e Juninho são cracaços, ABRE O OLHO VILSÃO. No returno, é o único time que não perdeu fora. Tá a 11 jogos invicto. Se fosse o Flamengo era NUOSSA MENGAUM MELHOR TIME, se fosse o Muricy era RUMUAL TITULO, se fosse o Neymar era penalti. Surpresa das boa esse time da arvinha. Tem mais gente boa por aí, tipo o Kempes do Coelho, o Felipe goleiro do Avaí, o "Uh é cruel, nosso guerreiro" Michel volante do Ceará, e aquele monstro do Deivid volante do CAP, que só perdeu uma bola pro Neymar o jogo todo. Todo time tem alguém realmente bom. Menos o Palmeiras.


(Bonus track) As coisa que só eu presto atenção: O Rafinha e o 4 do América se estranharam um tempão, se bateram, deram dedo no olho. O Rafinha ia pra finta, o cara ia se enfezando, desarmava e quem ouvia era o guri prodígio do Coxa. O zagueirão fez todas as merdas que podia até ser substituído. Saiu pela frente da torcida do Coxa que gritou alto no ouvido dele. Aí ele abaixa e vira a bunda pra galera por tipo um minuto. Assim, na cara de pau, na marrentice, na galhofa. Ganhou o troféu de filho da puta (sem asterisco) mais legal do Roubrasileirão, tomara que morra sem sofrimento.


E tem as coisa que passa batido mesmo, mas que eu ia curtir se vocês escrevessem nos comentários, pra não ficar enchendo esse texto meia-boca de linguiça. Grato, a direção.

Roteiro das 4 linhas: Maldito Futebol Clube (The Damned United)

Sheen foi perfeito como o mito Clough (Blog Cinephilia)
Julia Mariano, @Diaba
De São Paulo-SP

*Obrigada ao Arthur Chrispin, @achrispin, pela sugestão no nome da coluna.


Qualquer apaixonado por futebol (principalmente futebol inglês), já ouviu falar em Brian Clough, um notório técnico dos anos 70, conhecido por resgatar times quase na terceira divisão do campeonato nacional e levá-los ao topo da primeira divisão e à Liga dos Campeões. Entre eles o Derby County e posteriormente o Nottingham Forest, onde ficou por 18 anos. O roteirista Peter Morgan retrata a passagem relâmpago de Clough no Leeds United. São mostrados os 40 dias (20 de julho a 13 de setembro de 1974) do técnico como comandante do então melhor time inglês da época.

O filme começa com Clough chegando ao Leeds e constrói em paralelo os acontecimentos de seis anos antes, quando ainda treinava o Derby além de mostrar o começo do ódio dele por Don Revie, o treinador dos whites na época. É interessante a abordagem da construção da crescente tensão entre ambos, deixando claro até onde o ódio pode chegar.

Revie era ídolo do Leeds e deixava o time após onze anos, para treinar a seleção inglesa. Seu comando foi bastante vitorioso, mas segundo Clough, seu futebol era agressivo e não passava de um mau técnico, que instruía seus jogadores a chegar duro em seus adversários e pressionar a arbitragem. Clough assumiu a equipe do Elland Road com uma postura de salvador, declarando que não toleraria agressividade por parte dos jogadores, afirmando que o que eles jogavam até então, não era futebol e que seus títulos não valiam de nada.

O grande trunfo de Maldito Futebol Clube é o fato de ele saber surpreender o público, mostrando uma narrativa nada óbvia.

A montagem paralela comentada acima mostra o início da carreira de Clough, sua amizade com Peter Taylor, até a ascensão de ambos como coringas no Derby County (da lanterna da segunda divisão para lutar pelo título da primeira divisão do campeonato nacional) e sua admissão no Leeds, onde ele tenta aplicar sua técnica e visão sobre o futebol. Acompanhamos sua empreitada aparentemente de sucesso, mas acaba se tornando um grande fracasso.

Michael Sheen interpreta incrivelmente Brian Clough, conseguindo dosar sua ambição, deslumbramento e muitas vezes sua raiva. Com apenas dez minutos de filme, os espectadores já tem uma visão exata de como é Clough. Nos deparamos com um personagem narcisista, egoísta, falastrão, encantado por si mesmo e seus feitos, que chega para dirigir um time ofendendo os jogadores e o ex-técnico, ídolo da torcida por anos a fio. Em um determinando momento do filme, vemos Clough como um vilão, que repudia qualquer coisa fora de sua doutrina.

Timothy Spall incorpora o ponderado Peter Taylor, mostrando um ponto de equilíbrio entre os dois personagens.

Tom Hooper soube dirigir o filme brilhantemente, dosando entre os momentos vitoriosos e o declínio de Clough. Vemos que o futebol não é o foco principal do filme, ele é apresentado apenas como motor da narrativa. Os jogos que poderiam ser apresentados com maiores detalhes, nos são mostrados apenas em momentos chaves. Um exemplo disso é uma cena em que o jogo é apenas ouvido do vestiário, onde vemos o técnico expulso, ouvindo a manifestação da torcida.

Maldito Futebol Clube foge do estereótipo de filmes sobre superação. Vemos uma lição de humildade e redenção sobre um personagem irritantemente inteligente e terrivelmente arrogante, que instrui o espectador a pensar sobre as expectativas, nos fazendo reconhecer que nem sempre tudo o que parece que vai ser, será.

domingo, 30 de outubro de 2011

Grandes jogos: Getafe x Bayern

Cabeçada de Toni decidiu a peleja válida pela antiga Copa Uefa (Photobucket)
Murillo Moret, @moret_
De São Paulo-SP

A primeira temporada de Luca Toni no Bayern foi em 2007-08. Atleta de técnica questionável, mas com faro de gol impressionante. O Getafe foi um dos times que mais sofreu nas mãos – digo, nos pés e cabeça – do artilheiro italiano.

Quinta-feira, na Espanha. Copa Uefa. Quartas de final. A vantagem era dos mandantes. Empate sem gols no Alfonso Pérez dava a vaga na semifinal da competição européia ao Getafe, que havia empatado em 1 a 1 na Allianz Arena. A inversão do papel aconteceu aos nove minutos do primeiro tempo quando de la Red foi expulso após falta em Klose – o alemão tropeçou em suas próprias pernas. 

O treinador Michael Laudrup se via em maus lençóis depois de perder Uche por lesão. A entrada de um zagueiro fez com que o bom lateral romeno Contra jogasse no meio-campo. Ele, aliás, passou como quis pela defesa bávara há um minuto do fim do primeiro tempo. Resultado desastroso pelo o que o Bayern fez a frente de um dos melhores Getafes da história.

O problema era que o time alemão não conseguia transpor a barreira criada pelo dinamarquês. Cortes se virava com Ribéry, os atacantes eram bem marcados pela dupla de defesa, e a equipe espanhola ficava recuada. Mas Luca Toni viva fase soberba. No único pivô que conseguiu fazer, deixou Ribéry na cara do gol: 1 a 1 aos 44 minutos do segundo tempo.

Tempo para um descanso. Tempo que foi levou os pensamentos dos jogadores de defesa do Bayern lá para a Alemanha: Casquero, com um petardo indefensável de fora da área, e Braulio, num vacilo de Lúcio, abriram 3 a 1 em apenas dois minutos de prorrogação. A comemoração de Braulio dizia tudo. Era o gol da vaga na semifinal. Laudrup sorria, festa no Alfonso Pérez.

Mas se de um lado tinha Luca Toni, do outro jogava Pato. O capitão do Getafe largou a bola nos pés do italiano aos 115 minutos. Gol. O semblante do dinamarquês mudou: repousando os braços no banco de reservas, fechou a cara e sabia o que viria. Hitzfeld, sentado, só observava. Viu Sosa, aposta, cruzar a bola na área. Luca Toni subiu no meio da zaga e cabeceou para marcar o tento da classificação no último minuto do jogo.

O Coliseum desabou, mas foi com a festa da minoria bávara.

Getafe 3
Abbondanzieri, Contra (Cotelo 66’), Cortés, Tena e Licht; de la Red; Manu (Braulio 62’), Casquero, Celestini e Gavilán; Uche (Belenguer 21’). 
T: Michael Laudrup


Bayern 3 Kahn, Lell (Jansen 46’), Lúcio, Demichelis e Lahm; Schweinsteiger (Sosa 64’), van Bommel, Zé Roberto (Podolski 75’) e Ribéry; Klose e Toni. 
T: Ottmar Hitzfeld 

Árbitro: Massimo Busacca (SUI) 

Estádio: Coliseum Alfonso Pérez, em Getafe 

Data: 10/04/2008

Gols: Cosmin Contra 44’, Ribéry 89’, Casquero 91’, Braulio 93’, Toni 115’ e 120’ 

Cartões amarelos: Belenguer; Toni, Lahm, Lell, Podolski Cartão vermelho: de la Red

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Craques: Gianfranco Zola

Tido como mágico dentro das quatro linhas,
Zola deixou saudades no esporte (Foto: Guardian)
Lendário criador de jogadas, Gianfranco Zola representou um marco especialmente em duas equipes que passou. No Parma, campeão da Copa da Uefa e logo depois no Chelsea, onde foi referência e maestro por sete temporadas, é ídolo irretocável

O ódio necessário


Foto: Diário de Pernambuco
João Paulo Borgonove, @Borgo_                                                                                         De Pedreira-SP
Não entendo nada de futebol. 'Nada' é exagero, mas entendo muito pouco desse nobre esporte que é melhor praticado pelos plebeus. Gosto pra caramba, mas sempre levo meus pitacos pras brandas do esculacho e zoação, o que me faz perder uma análise mais concreta e VERDADEIRA. Mas, apesar de tudo isso eu ganhei esse espaço pra espalhar algumas letras e regurgitar minhas ideias e meus pensamentos FRUBOS. É.
Sou corinthiano. É. E o que me dá mais prazer nessa vida de sofredor que não conhece muita coisa além das fronteiras de uma linha imaginária entre a BACIA DO OIAPOQUE e a FOZ DO ARROIO DO CHUÍ é o máximo e perfeito ANTICORINTHIANISMO que assola essa nação salva por um metalúrgico faz menos de uma década.
É sabido que o RÂNQUIM de torcidas no nosso País é escalado da seguinte forma: no glorioso primeiro lugar supremo, os ANTICORINTHIANOS malditos que tanto fazem minha alegria. Depois, os flamenguistas, povo de paixões múltiplas, mas que honra o belo uniforme rubro-negro. Depois vem nóis. A favela da Copa. O resto é resto. Já foram citados no topo da lista e são PLATEIA das massas.
Um ANTICORINTHIANO é um ser superior, e do alto de sua arrogância se diverte com nossas não tão raras desgraças. Somos o principal assunto do MUNDO CBF. Odiados, adoramos demais essa GUERRA DE EGOS promovida por todos os OUTROS. É o que mantém o futebol brasileiro vivo. Essa ANTIPATIA, essa AVERSÃO e esse ÓDIO ETERNO AOS QUE NÃO USAM TERNO movem tudo. Programas de televisão, rádio, jornais e AS REDES SOCIAIS. Ahhh, as redes sociais.
Vou contar um CONTO DE FADAS real, que aconteceu no último domingo. Coringão em campo lá pelos PAMPAS contra o time do Chapolim. Jogo truncado, TIMÃO com um a menos (APOSENTA ALESSANDRO FDP DE MERDA) e o segundo tempo inteiro de peleja. GOL DO INTER. Porra. Não tem nenhum COLORADO na minha vizinhança. Nem gaúcho deve ter por lá. E DEZENAS de FILHOS DA PUTA comemoram um gol de final de Copa do Mundo FIFA de futebol. É o famoso GOZAR COM O PAU DOS OUTROS. 
Mas, como já disse, isso só engrandece o Corinthians. E o bom é que a gente sabe que não é inveja e nem recalque. É ÓDIO MORTAL. O ódio é sinal de respeito. É algo muito forte e extremo pra se gastar com qualquer coisa. A gente só odeia o que vale a pena. O time do povo é odiado por ser diferente, tanto faz se positiva ou negativamente. Já o corinthiano não odeia ninguém. O corinthiano ama seu time e fodam-se os outros. E é isso que diferencia a MASSA do resto. 
Essa MÁQUINA INFALÍVEL de VOLANTES DE GRIFE merece o ódio de todos vocês. E vocês precisam de alguém pra ODIAR e pra manter sua GANA pelo desporto mais POLÊMICO do universo FIFA. Continuem assim. Amamos o seu ódio. DE VERDADE. E assim segue o futebol.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Intervalo: Paixão correspondida?

Últimos instantes do grande Palmeiras - Libertadores 2009 v Nacional (Terra)
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

Vocês vivem dizendo que o Palmeiras adora passar anos e anos inglórios à espera de novas conquistas que possam significar algo no hall de troféus e batalhas míticas no salão nobre da Turiassu. Nesta atual fase, já somamos três longos anos sem uma mierda de una taça. Na minha concepção, conto como 11, já que a Libertadores é que é competição de verdade, não um campeonato regional.

Alguns amigos sempre discordam, alegando que comemorei loucamente aquele triunfo sobre a Ponte Preta num Palestra Itália lotado, lá de longe da pequena Ourinhos. Comemorei, claro, como haveria de fazer. Fruto de uma vitória brilhante sobre o São Paulo nas semifinais, o Verdão (em um dos últimos atos que de fato mereceu esta alcunha) passeou em Campinas e deu show na Capital para o embate derradeiro. 

Comemorei loucamente sim, um grito de é campeão após nove anos insossos em que vi um rebaixamento, algumas goleadas vexatórias (queime no inferno, Vitória) e nem posso dizer que brigamos por alguma competição neste meio tempo, pois estaria mentindo. Me acostumei a ver elencos patéticos, com jogadores lamentáveis e desculpas pouco aceitáveis de dirigentes asquerosos que só afundaram a instituição. 

Naturalmente, viramos a quarta força do estado. Foi preciso a chegada da obscura Traffic para que um plantel DECENTE fosse construído, trazendo também a onda de piadinhas como "ah, o Palmeiras se fosse uma banda, seria o Aerosmith, só aparece quando tem uma boa parceria", Palmeiras/Parmalat da década de 1990 e outras anedotas incitadas por hereges que certamente verão seus amados pavilhões caírem em desgraça um dia. 

Voltando a 2008, falhamos vergonhosamente na tarefa de buscar o Brasileirão após 14 anos, mas ao menos poderíamos contar com um grupo equilibrado. Um bom Kléber, o paredão Cavalieri, o Mago Valdívia, até mesmo um Alex Mineiro, um Diego Souza e um Léo Lima, reflexos de uma torcida desesperançosa. Para 2009, voltaríamos à Libertadores com um esquadrão "redondinho" e com chances reais, sem os vexames corriqueiros contra o São Paulo, nêmesis palmeirense no certame sulamericano. Que pensar além de um "chegaremos lá"?

Deixamos de ser chacota por alguns bons meses e a campanha sofrida na América atestava este fato. Claro que nos aproveitamos do fato do querido Corinthians ter provado do descenso, apesar de ter sido difícil permanecer futebolisticamente são durante a hegemonia tricolor. Torcedor que é torcedor de verdade não se irrita quando seu time perde sempre. Perde a paciência quando os jogadores não demonstram empenho, o que pode sim acabar com paixões pelas cores ou até mesmo pelo esporte. Os bons resistiram, os bons acreditaram em novos tempos.

A melhor fase do Palmeiras coincidiu com a até então melhor fase da minha vida. Entrei na faculdade, conheci uma porrada de gente da melhor qualidade (e também da pior, como os inesgotáveis Marcelos que surgiam), aprendi uma porção de coisas pra levar até a terceira idade e mais do que nunca, descobri dois dos grandes amores da minha vida: o jornalismo e a cerveja. Estava ciente de que seria um período inesquecível da juventude, a cada dia que passava. O Verdão colaborava, com muito esforço.

Primeiro momento memorável: fui ver o embate decisivo da primeira fase contra o Colo-Colo numa padaria na cidade onde estudei, a gloriosa Assis. Fugi da aula devidamente uniformizado e me juntei a um bom número de palestrinos fanáticos e evidentemente tensos com os 90 minutos que viriam. Do lado chileno, caras como Lucas Barrios, Macnelly Torres, Sanhueza, Figueroa (que posteriormente ocupou de forma lazarenta a lateral esquerda alviverde, desgraçado) nos davam a impressão de que a tarefa de sair de Santiago com a vaga nas mãos era mais difícil do que o esperado. E assim foi...

Tive de ir embora antes do apito final e já estava crente que estávamos fora, quando chega uma mensagem no celular avisando do milagre operado por Cleiton Xavier. Petardo de longa distância, golaço, oitavas, chupa essa manga, chilenada. O próximo adversário era o encardido Sport de Magrão, Durval, Ciro e a temível Ilha do Retiro.

Lá fui eu fugir da aula pra viver aquele amor doentio. Cerveja atrás de cerveja e na partida de volta meu coração parecia que sairia pela boca. Os gritos inflamados a cada ataque desperdiçado do Leão da Ilha eram o prenúncio de que se tudo terminasse bem aquela noite, seria no alto da ebriedade e da rouquidão. Pênaltis. Puta que pariu. Em Libertadores e com Marcos na meta, confiamos. Confiamos tanto que no fim foram três penalidades salvas pelo santo palestrino, que injustamente ainda não foi canonizado.

Pressentia que aqueles tempos de criança, quando nós dominávamos algo no Brasil e na América, voltariam. Nas quartas, um Nacional sem grandes estrelas. Com um empate medonho dentro do Palestra, por 1-1, o alviverde se viu obrigado a vencer em Montevidéu para avançar e enfrentar o Estudiantes que viria nas semis.
Teria de passar por mais alguns momentos de tensão adiante. Pois é...

Quarta-feira, 17 de junho de 2009: o dia em que o Palmeiras deixou de ser grande. Com a formação titular, não soubemos passar pela barreira uruguaia característica na defesa. Nem preciso dizer que fugi da faculdade outra vez pra sofrer com o meu time. Uma noite fria, lembro bem. Tive de acompanhar pela internet a peleja, não tinha TV a cabo. Quanto mais difícil fosse pra ver o jogo, maior seria a recompensa e a emoção. Entretanto, naquela noite em especial o alviverde resolveu se acanhar, se apequenar diante dos frágeis mandantes.

A prova de que tudo iria por água abaixo cedo ou tarde foi o sumiço de Keirrison (apareceu e sumiu para o futebol mais rápido que o rapa na feira, pipoqueiro de merda) e a quase consagração de Obina, que perdeu um gol na frente da trave direita do Nacional.

Desde então, tudo que tenho visto foi covardia, dentro e fora dos gramados. Perdemos um título nacional que estava mais fácil que tomar doce de criança, investimos milhões em caras que não valiam nem o meu desodorante, tomamos goleadas significativas e perdemos a esperança no sucesso. Não adiantou nem trazer Felipão, tão ídolo quanto São Marcos. Hoje o Palmeiras é um filme triste que insisto em assistir, uma novela que tem um capítulo positivo para cada cem de total desgraça.

Já tentei deixar essa paixão de lado, mas esse troço que me consome. Estamos carentes de ídolos que façam por onde, de atletas que valorizem mais a história que podem ter do que os cifrões. É um amor tão ingrato e doído, mas depois de um ou dois fins de semana de dor, lá estou eu no estádio torcendo outra vez. Outra vez vi um comercial da fornecedora de uniformes que falava sobre o Palmeiras ser "uma paixão correspondida". Analisando friamente num momento isolado, discordo.

Especialmente nos últimos 10 anos, tem sido como amar alguém que você sabe que nunca vai te ligar, que dificilmente vai olhar no seu olho e dizer tudo o que você quer ouvir. Mais do que um "eu te amo", Palmeiras, eu quero ouvir um "É campeão". Enquanto isso não acontecer de novo, considere nosso relacionamento como em espera. Você e as outras garotas que deixam o amor em segundo plano.

O renascimento do BATE Borisov


Viktor Goncharenko, o condutor do BATE (UEFA)

Gilmar Siqueira, @GilmarSiqueira
De Jaboti-PR


Neste último fim de semana o BATE Borisov conquistou seu oitavo título da Belarrusian Premier League, sendo o sexto consecutivo e reafirmou sua hegemonia (se é que alguém duvidava dela). Mas quem vê este time hoje não sabe que já chegou a ser dissolvido e só se tornou tão grande graças a Anatoli Kapski.

A fundação da equipe ocorreu em 1973, quando funcionários da fábrica BATE decidiram montar um time de futebol. Mas como ainda era sua primeira temporada, a equipe disputou uma espécie de segunda divisão bielorrussa e conseguiu vencê-la.

Logo em 1974, o BATE conseguiu seu primeiro título nacional (SSR League), depois de terminar a época regular invicto em seu grupo e vencer Motor e SKA na fase final. O poder desta equipe emergente seguiu e em 1976 e 1979 vieram mais duas taças.

Em 1981 aconteceu a maior tragédia da história do pavilhão de Borisov: a dissolução. Veio após a fábrica ter sérios problemas financeiros. E do BATE foram formados 4 outros times, que não obtiveram sucesso algum na SSR League. Detalhe é que em 1981 o BATE ainda conseguiu chegar à quarta colocação, novamente mostrando que era um forte grupo.

A situação só mudou -para melhor- em 1996, quando o empresário Anatoli Kapski decidiu comprar a fábrica e reviver o BATE Borisov. Logicamente o elenco não começou na primeira divisão, mas sim na terceira, conseguindo imediatamente o acesso para a segunda e posteriormente para a primeira.

Seu primeiro título da Liga Bielorrussa, já no formato de Belarrusian Premier League, aconteceu em 1999 e em grande estilo, terminando 12 pontos à frente do Slavia. Em 2001 veio a segunda conquista, de forma muito emocionante. No returno do campeonato, o BATE tinha uma diferença de menos sete pontos para o Neman Grodno, mas conseguiu empatar na última rodada. Para decidir quem seria o campeão, os dois oponentes tiveram de se enfrentar e o BATE venceu por 1x0.

A hegemonia propriamente dita começou em 2006, quando o BATE conquistou o primeiro dos seis títulos consecutivos. Mas a partir de 2008 é que esta agremiação passou a ganhar ainda mais destaque, isso graças a chegada do jovem treinador Viktor Goncharenko -na época com 31 anos.

Ele dedicou toda a sua carreira ao BATE. Estreou pelo clube em 1998 e conquistou dois títulos nacionais. Era um bom zagueiro, mas foi forçado a se aposentar aos 25 anos devido à uma lesão. Seguiu trabalhando na comissão técnica de Borisov até ganhar uma chance como treinador. Hoje é um dos principais expoentes da New Wave de treinadores da Europa oriental, sendo muito tático e competitivo.

Após sua chegada vieram mais quatro títulos, sendo o último conquistado nesta edição. Aliás, 2011 não foi tão bom -financeiramente- para o clube, que ainda apresenta um modelo soviético de administração, tendo inclusive um teto salarial para os jogadores. Anatoli Kapski precisou até mesmo vender algumas peças importantes, mas nada que interferisse no título.

Dentro de campo, Goncharenko arma a formação sempre em um 4-2-3-1, que dificilmente sofre variações. Alguns jogadores merecem destaque, dentre eles Renan Bressan, jogador brasileiro que já tem até passaporte bielorrusso. Tido como craque do time, joga em qualquer posição nos 3/4 do campo e até mesmo como o camisa nove.

Por falar em "9", chegou para o BATE nesta temporada o mítico Mateja Kezman, a custo zero, depois de passar por uma experiência meio frustrada no South China FC. Outro que merece uma menção é o versátil Dmitri Baga, que esteve no plantel da última seleção bielorrussa sub-21. Mais um jogador do BATE e que também serviu a Bielorrússia foi o goleiro Aleksandr Gutor, considerado um dos melhores na posição no leste europeu.

Não restam dúvidas de que este selecionado do BATE Borisov é muito bom e ainda por cima conta com um período de "hibernação" do Dínamo Minsk, equipe mais tradicional da Bielorrússia. Por isso, é bem provável que esta hegemonia ainda siga por um bom tempo...

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Craques: Antonín Panenka

Dono de um bigode clássico, Panenka ficou marcado na final da Euro 76 por pênalti ousado (The Guardian)

Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

Numa época de muitos meias talentosos como Cruyff, Antognoni, Rivellino e Platini, um homem de bigodes (característica natural na década de 1970) se notabilizou em território europeu de uma forma um tanto quanto ousada.

Dono da primeira cavadinha notável do futebol internacional, Antonín Panenka foi o responsável pelo título tchecoslovaco na Euro 76, disputada na antiga Iugoslávia e com a decisão colocando frente a frente a poderosa campeã mundial de 1974, a Alemanha, contra os eslavos.

Antonín começou sua carreira como profissional em 1967, no Bohemians de Praga. Por lá desfilou sua precisão para os passes e sua capacidade ímpar como cobrador de faltas. Baixinho e robusto, compensava a sua falta de agilidade com boas ligações entre o meio e o ataque.

Ao lado de azarões como Gögh, Moder e Nehoda, Panenka era uma das forças responsáveis pela boa campanha da Tchecoslováquia na glória europeia em Belgrado. O estilo cerebral de jogo dos eslavos foi marcante e barrou uma hegemonia futebolística da escola alemã, que contava com gênios como Beckenbauer, Maier, Dieter Müller, Hoeness, entre outros.

Na grande final da Euro 76, sediada no Marakana, em Belgrado, casa do Estrela Vermelha (Crvena Zvezda, como queira) um empate em 2-2 (Dobias e Svehlik para a Tchecoslováquia, Müller e Hölzenbein para a Alemanha) dava sinais de que a tradição germânica pesaria ao fim das penalidades. Contudo, desde sempre o futebol foi algo tremendamente injusto com grandes histórias e personagens.

Quis a história da tarde de 20 de junho de 1976 fosse marcada pela má sorte de Hoeness ao isolar a sua penalidade e pela ousadia de um camisa 8 que já havia feito bom papel pela sua pátria (que depois se dissolveria para formar República Tcheca e Eslováquia).

Um cidadão de Praga que fez escola com um chute fraco e caprichosamente colocado no meio das redes de Sepp Maier, uma velha raposa traída pela imprevisibilidade (talvez seria displicência se Panenka tivesse errado) do adversário que decidiu o rumo da taça Henri Delaunay daquela edição.

Uma cobrança para ficar registrada como um dos melhores momentos cruciais de toda a longa vida das competições europeias. Dos influenciados pela tendência panenquesca estão os meros mortais Zinedine Zidane (que reproduziu a façanha numa simples final de Copa do Mundo contra a Itália e acertou o travessão antes de comemorar o primeiro gol daquela fatídica peleja), além do já lendário Loco Abreu, também com culhões para executar a técnica num Mundial.

Cá para os lados do Brasil o movimento é conhecido como cavadinha, diferindo completamente do "à la Panenka", nomenclatura justíssima.

Bem, Antonin, o precursor, permaneceu no Bohemians até 1980, quando foi tentar a sorte no Rapid Viena, onde jogou por mais cinco anos, já em idade avançada. Mais quatro anos na liga austríaca, no St. Pölten e Slovan Hulterdorfer antes da aposentadoria aos 44 anos. Pela seleção da Tchecoslováquia ainda disputou a Euro de 80 e a Copa de 1982 na Espanha, onde os tchecos foram eliminados ainda na fase de grupos.

Mais famoso pelo seu legado do que por outros feitos ao longo da carreira, Antonín é sem dúvida um dos grandes nomes oriundos dos celeiros de Praga e adjacências. Que seriam Nedved, Poborsky, Rosicky e Köller sem a herança de Panenka e seus companheiros? Nem sombra de uma geração que chegou tão perto de 76, mas sucumbiu à força tática grega de Otto Rehhagel. Mas aí é tema para uma outra história...

Veja o momento eternizado no Marakana, em Belgrado, no vídeo abaixo.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Os cinco grandes argentinos: uma ideia ultrapassada?

Independiente pode entrar no mesmo turbilhão do River no próximo ano? (4-4-2)
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

Quem está familiarizado com o futebol argentino sabe a dificuldade de convencer um brasileiro médio de que os cinco clubes tidos como “grandes” no país vizinho são Boca, River, Independiente, Racing e San Lorenzo. E nesse caso, há motivos para entender porque tantos acham estranha a composição dessa lista.

A questão é que no período clássico do futebol argentino esses cinco clubes tiveram uma predominância avassaladora. No período em que o futebol argentino profissional teve um único campeonato nacional por ano (1931 a 1966), o quinteto conquistou TODOS os títulos disputados. Uma hegemonia incontestável.

Em 1967 o futebol argentino incluiu mais clubes, dividindo-se em dois torneios: o Metropolitano e o Nacional. A mudança foi fulminante: no primeiro ano o Estudiantes venceu o Metropolitano, em 1968 o Vélez conquistou o Nacional e no ano seguinte o Chacarita Jrs. levou o Metropolitano. E em 1971 o Rosário Central venceu o Nacional, levando a primeira taça para o interior do país. Nos dez primeiros anos do novo sistema, os grandes levaram 13 títulos mas perderam sete.

Aos poucos o desenho do futebol argentino começou a mudar. E o primeiro a sentir os efeitos seria o Racing, que nos últimos 45 anos levantou apenas um título nacional, o Apertura 2001, passando pela 2ª divisão no início dos anos 1980. Depois foi a vez do San Lorenzo, que sustentou sua grandeza até meados dos anos 1970, mas no fim daquela década começou a perder força, vendeu o estádio e caiu para a Nacional B. Nos últimos 37 anos conquistou apenas três títulos nacionais, e é o único do quinteto a não ter título de Libertadores.

O declínio relativo dos grandes seguiu, e a próxima vítima seria o Independiente, o lendário “Rey de Copas”. Maior vencedor da história da Libertadores, o Rojo conquistou apenas dois títulos nacionais nos últimos vinte anos, o último deles em 2002. Durante muito tempo esse processo passou relativamente despercebido, até porque Boca e River, os dois gigantes, seguiram firmes em sua trajetória de títulos na Argentina e fora dela. Ao menos até 2008. Naquele ano cada um dos dois levou um título nacional. Mas mal sabiam que conheceriam dias negros logo em seguida.

Nos últimos cinco torneios, Boca e River não conseguiram ficar entre os três melhores nenhuma única vez. Na verdade, nenhum do quinteto de grandes chegou lá: o melhor desempenho do grupo foi a 4ª colocação do Independiente no Clausura 2010. Na verdade, a realidade recente dos grandes tem sido a metade debaixo da tabela. O Racing chegou a disputar a Promoción em 2008, e escapou por pouco de repetir a dose no ano seguinte. E nesta temporada entrou mal posicionado na tabela de promedios assim como Boca e San Lorenzo.

Com boa campanha no Apertura, os dois primeiros se afastaram de qualquer risco, mas o Ciclón está no limite da zona de promoción. O Independiente corre o risco de ter sérios problemas a partir do meio do ano que vem, quando deixará de contar com os pontos da ótima temporada 2009/2010, e poderá se converter em protagonista da luta contra o descenso. Algo que já atingiu o River, para escândalo nacional, deixando Boca e Independiente como únicos a disputar todas as edições dos campeonatos nacionais sob o profissionalismo.

No entanto, pode ser que algo esteja mudando nesse cenário sombrio. Boca e Racing lutam pelo título, o que merece ser lembrado como uma novidade nos últimos anos, em que os grandes nada mais foram que discretos figurantes no cenário nacional. O River lidera a Nacional B, mostrando que tem tudo para voltar rapidamente a primeira e virar a página mais negra de sua história. Ainda que em má fase técnica, o Independiente voltou a conquistar um título internacional, com a Sul-Americana 2010. Falta o San Lorenzo mandar um sinal de vida.

No entanto é evidente que há um notável afastamento em relação aos tempos do futebol clássico argentino. Fica difícil pensar no Vélez Sarsfield, que disputa a 1ª divisão de forma ininterrupta desde 1944 e tem um sólido histórico de títulos nos últimos 20 anos, como um time “pequeno”. Algo semelhante vale para o Estudiantes, que tem mais títulos de Libertadores que River Plate, Racing e San Lorenzo somados. Para se ter uma imagem mais adequada do futebol argentino, é preciso reconhecer: a configuração do cenário futebolístico local mudou muito nas últimas décadas.

River e Boca são gigantes incontestáveis, por todos os critérios possíveis. Mas abaixo de ambos, seria melhor pensar em um conjunto mais amplo de equipes, algumas das quais tem mais torcedores, outros tem mais títulos em períodos antigos, e outros ainda tem um desempenho mais sólido nas últimas décadas. Independiente, Racing e San Lorenzo teriam lugar cativo no grupo, mas ganhariam novos companheiros. Pois está claro que a ideia do “quinteto de grandes” parece ter perdido todo o sentido.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Eu vi ele jogar, bem na minha frente

Foto: Seleção do Rádio
Rodrigo Salvador, @novosomsalvador 
De Curitiba-PR
Florianópolis, 24 de outubro. Fui passear com minha namorada, tinha um compromisso (jogar bola, sério mesmo, fiz um gol mó bonito), tava um sol fuderosamente bonito o tempo todo, surfei nas dunas da Joaquina. Agora que fiz inveja, já posso ir ao que interessa: aproveitei pra assistir Avaí x Botafogo na Ressacada. Eu nutro uma simpatia pelo Avaí, mas mesmo que não fosse o caso, sempre é bom ver um futebol estando alheio ao jogo.
Ao menos eu achei que estaria alheio. Ia começar o jogo, o locutor anuncia a escalação do Avaí: Felipe, Daniel, Gian, Claudio Caçapa, uo uo uo uo uo uo uo uo uo uo uo uo uo uo uo uo uo... Assim que eu tive certeza que ia conter as lágrimas, que olhei pra mim e percebi que não estava correndo histericamente pelas arquibancadas, virei calmamente (eu acho) pra um casal perto de mim: "É o Caçapa? Aquele Caçapa?" "Sim" "Aquele que tava no Cruzeiro até pouco tempo, jogou no Galo e no Lyon?" "Ele mesmo" "CARA EU SO MUITO FÃ DELE MUITO". Eles começaram a rir e eu desconfiei que estava perdendo a compostura. Puta merda, eu não sabia que ele tava no Avaí, não tava preparado pra isso.
Caçapa. Claudio Caçapa. Eu iria ver Claudio Caçapa ao vivo. O cara que me fez querer ser zagueiro. Depois de ver tantas áreas sendo massacradas com bombardeios, "chega tal time com perigo e CAÇAAAAAAAAAPA a bola cai no pé do adversário e bate numa canela e outro cabeceia e CAÇAAAAAAAAAAAAPA e fulano pega o rebote e CAÇAAAAAAAAAAPA AFASTA DE VEZ", o monstro ia desfilar talento na minha frente. 
Começa o jogo e só da Botafogo. "Susse", pensei, "ó o Caçapa organizando a zaga toda, gênio". Ele era o cara da sobra, e aquela defesinha limitada do Avaí estava maravilhosamente posicionada só com aqueles dedinhos de ébano apontando magistralmente pra cá e pra lá. O gol do Botafogo foi inteligente: Caçapa no meio da área, um bocó afastou mal o cruzamento e o Alvinegro fez a jogada dando a volta na área, passando longe do mito. Não demorou muito e o Avaí empatou com Robinho, mas isso é só detalhe porque o que vale mesmo é Dom Claudius Caçapa I.
Se não me engano o jogo tava empatado quando um moleque avaiano se estranhou com um botafoguense. O juiz foi lá dar uma dura nele. Eu tava vendo o amarelo subindo quando chega ELE. Quem disse que o talento é só jogando monstruosamente? Deu aquele sorriso naturalmente lindo de todo negro (o sorriso negro é muito mais bonito que o sorriso branco e vai tomar no cu quem porventura discordar disso), forte e ao mesmo tempo singelo, e tudo terminou com um tapinha nas costas. Eu não teria coragem de dar um cartão amarelo se o Caçapa ficasse triste com ele. Parabéns, juiz.
Logo depois teve um gol de bicicleta do Cleverson, nem prestei atenção porque tava olhando pro Caçapa. Mentira, eu vi né, foi um golaço, mas não foi do Caçapa. E o jogo seguiu, CAÇAAAAAAPA tirando de cabeça, CAÇAAAAAAAAAPA travando um chute, CAÇAAAAAAAAAAAAPA afastando o perigo, gol do Botafogo aos 18 do segundo tempo (pura sorte), CAÇAAAAAAAAAPA salva um chute a queima-roupa, CAÇAAAAAAAAAPA CAÇAAAAAAAAAPA CAÇAAAAAAAAAPA CAÇAAAAAAAAAPA e eu delirando. "Parem de rir de mim seus hereges, eu to emocionado", foi uma das poucas frases com um mínimo de sentido que falei pros meus amigos e pro casal que me confirmou que era ele mesmo ali.
Aí que o Avaí saiu jogando, bola no pé dele. Ele corta um atacante pra pegar o pedaço mais aberto do campo (coisa de zagueiro com visão de jogo, aprendi com você caçapinha). Leva mais um pouco e ninguém marca ele. Continua carregando e passa do meio campo. Eu levanto. Ele dribla o volante. VAI CAÇAPA, eu já tô sem ar. Ele abre o jogo na lateral e corre pra área. CRUZA NO CAÇAPA!! Cruzou errado o animal, tirou o gol do Caçapa. Mas esse foi o lance mais importante do jogo pra mim, não me julguem.
41 do segundo tempo, chute de fora da área, rebote e gol. Justiça no placar, gol do time que tem Caçapa na zaga. Dizem que Loco Abreu, Cortês, Renato, Jeferson e Maicosuel estavam lá sábado, que teve homenagem pro William Batoré, que o goleiro do Avaí fechou o gol, mas nem lembro disso aí. Claudio Caçapa afastou tanta bola nas tardes e noites da Band quando eu tinha meus, sei lá, 12 anos, que é meu primeiro ídolo de verdade. Nunca passou pelo meu time, nunca passou pela Seleção (injustiça), mas eu grito CAÇAAAAAAAAAAPA até hoje quando tiro uma bola difícil e vou continuar gritando. Obrigado por tudo, Caçapa, principalmente por essa surpresa. E não duvidem da minha masculinidade, a patroa tava comigo no jogo e não vai gostar dessas brincadeirinhas de mal gosto. Nem o Caçapa.
PS: Falando no meu time, só queria deixar aqui meus parabéns pro Rei do 0x0. Forte abraço, e contratem o Caçapa.

sábado, 22 de outubro de 2011

Solskjaer e o sonho inédito na Tippeligaen

Grande referência do surpreendente sucesso do Molde, Solskjaer já não tem
mais a mesma cara de garoto dos seus tempos de United (Dagbladet)

Por Felipe Portes

Acostumado a ser coadjuvante na Tippeligaen norueguesa, o Molde alça altos vôos na competição nacional desta temporada sob o comando de Ole Gunnar Solskjaer, ex-jogador com passagem gloriosa pelo Manchester United. O pequeno e simpático clube da região de Romsdal só possui três títulos domésticos, a Adeccoligaen de 2007 (divisão de acesso à Tippeligaen) e duas Copas Norueguesas (1994 e 2005).

Em novembro de 2010, o acanhado pavilhão assinou contrato com Solskjaer para o seu comando técnico. O aparentemente jovem (38 anos) já tinha trabalhado com as categorias de base do Manchester United e pareceu uma saída interessante para tentar uma campanha acima da modesta sétima posição na última edição do Norueguês. 

As expectativas não eram tão altas assim, já que se trata de um treinador relativamente novo no ramo, inexperiente. Contudo, rodada após rodada, Solskjaer mostrou que pode ser mais um destes exemplos de jovens maestros, tal como Guardiola. Não que isso sirva de comparação, mas não podemos minimizar o mérito de Ole, que conduziu o Molde a uma campanha invejável e na altura da 27ª rodada, já tem a larga vantagem de nove pontos sobre o Tromso. 

Com um início complicado, os azulados escorregaram nas três primeiras jornadas, perdendo para o Sarpsborg por 3-0, empatando com o Tromso e o Viking por 2-2. Antes de uma possível crise, o grupo soube se encontrar e tomar o caminho das vitórias. Neste intervalo, os revezes perante o Rosenborg (3-0) e para o Haugesund (5-0) evidenciaram o equilíbrio do campeonato, que tem a inusitada média de 7 derrotas dos seis primeiros colocados.

A grande arrancada do Molde veio na nona rodada, contra o Valerenga. 2-1, o primeiro passo de cinco compromissos vencidos em sequência. Daí em diante ficou difícil interromper a boa fase. Destaque para Pape Pate Diouf, que marcou 12 gols até aqui no certame e deixou a equipe para assinar com o Kobenhavn. 

Além do senegalês, que facilmente seria o artilheiro da Tippeligaen, Jo Inge Berget, atacante de excelente movimentação, Davy Angan (oito gols), o lateral Magne Simonsen e o meia Matthias Moström têm sido as forças decisivas desta equipe que chega cada vez mais perto do título.

Restando apenas três rodadas para o fim da competição, fica a sensação de que Solskjaer foi o passo mais acertado da diretoria do Molde, que sempre sonhou com o título nacional e agora está na iminência de realizá-lo. 

Ansiedade adia a definição do campeão
Na última sexta-feira, os comandados de Ole enfrentaram o Stabaek e poderiam muito bem ter assegurado a conquista, jogando fora de casa na Telenor Arena, em Baerum. A ansiedade em alcançar a glória inédita impediu que os azuis obtivessem êxito na tarefa de simplesmente vencer o mandante. Berget inaugurou o marcador aos vinte iniciais, mas o Molde não conseguiu resistir à pressão do adversário, que deu muito trabalho ao arqueiro Pettersen. 

A retranca armada por Solskjaer foi furada aos 10 da etapa final, pelos pés de Alain Olle Olle. O sufoco durou até o apito final e por pouco não custou a derrota ao visitante. O empate em 1-1 adiou pelo menos por uma rodada a inédita façanha do Molde. Pela frente, confrontos contra o Stromsgodset, Sarpsborg e Sogndal, os dois primeiros no Nye Molde Stadion. 

Os três futuros oponentes não estão na briga por vagas europeias, tampouco pelo título. Apenas o Sarpsborg pode trazer problemas, já que luta para evitar o rebaixamento e um possível revival do 3-0 no primeiro turno
seria ideal para as pretensões de sobrevivência do clube na Tippeligaen. 

É apenas questão de tempo para que o sonho vire realidade.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Panis et Coritiba

Foto: GloboEsporte.com

Por Rodrigo Salvador

É um sinal: Vou escrever sobre o Coritiba justamente na hora que estou ouvindo Mutantes. Quem acompanha o Coxa já sabe tudo o que vou falar daqui pra frente, afinal, a frase já disse tudo. O texto é pra quem não acompanha o time menos constante do mundo segundo o Guiness Book.

O Coritiba entrou em campo contra o Bahia com Van Der Lei, Jonas é a Baleia, Lionel Jeci, Emersonho e Lucas ETERNO Mendes; Wiliam sombra de deus, Gildexson, Rafão e Avatar; Marcos Estrélio e Bill Bill Bill Bill Bill. Fazendo um paralelo com os Mutantes que embalam esse texto: Marcelo Oliveira é "Ando Meio Desligado", escala Everton Costa e Marcos Aurélio no mesmo time, COMO ASSIM MANO, os caras jogam na mesma posição, óbvio que não vai render. 
Bem por isso, os dois atacantes são o "Não vá se perder por aí" (aí, no caso, o mesmo pedacinho de grama do ataque). Bill, coitado, "Meu Refrigerador Não Funciona Mais". Na verdade, eu fico surpreso por ter funcionado um dia. Rafinha é o "Jardim Elétrico", único cara que continua ligado no 220 desde o começo do ano. "2001", o ano que Jeci parou de jogar bem. Ainda bem que tem "El Justiciero" Emerson do lado dele. Se fosse Pereirão Tower do lado dele até hoje, eu teria começado outro 6 de dezembro ontem mesmo. 

Lucas Mendes "Caminhante Noturno" né? Se tivesse claro ele saberia o que tá fazendo ali na esquerda. E Leãodro Deusnizete, mesmo fora do jogo de ontem,  é "Top top", minha nossa senhora dos volante foda, que jogador é esse, meu ídolo pra toda vida, ninguém ouse falar mal dele ou de qualquer membro da família dele perto de mim.

Taí, esse é, basicamente, o Coritiba "Mutante", que é um em casa e outro fora. E que ontem foi ainda mais Mutante, porque jogou como se não fosse no Couto. A começar pela escalação cujas cagadas (pode falar cagada, chefe?) na escalação já citei. Aí no intervalo sai o ETERNO e entra o Peleltinho, sai Bill e entra o Lesionardo, MUDA MUITA COISA NÉ. Depois ainda sai o Jonas pra entrar o Rei Davi. Ou seja, 10 minutos do segundo tempo e o Coxa tinha 1 volante, 1 lateral (que não marca) e 5 meia-atacantes. A formação de pelada deu tão certo que a melhor chance foi do Bahia, que o Gil salvou de cabeça em cima da linha. 
Aposto 53 centavos que ninguém acha um vídeo com uma finalização do Coritiba de dentro da área. Eu, que sou entusiasta de arquibancada e vejo poesia em Coritiba x União Bandeirantes, fiquei aliviado com o apito final porque finalmente poderia ir pra casa. Meu papo com o tio do dog depois do jogo foi o seguinte: "Coxa jogou agora?" "Jogou" "Quanto foi?" "0x0. Jogo ruim, a melhor chance foi do Bahia" "É?" "É" "Hm." Um jogo de futebol que merece só isso de conversa merece ser apagado de todos os registros. Coritiba e Bahia marcaram incríveis 0 gols um no outro na soma de dois jogos que ficarão marcados nas nossas memórias.
E maldito seja o cara que me fez lembrar desse jogo pra escrever esse texto, já tinha esquecido e tava aqui seguindo minha vida.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Craques: Emilio Butragueño

Foto: El País


Por Felipe Portes

Ídolo madridista nas décadas de 1980 e 90, Emilio Butragueño foi um dos atacantes mais competentes e talentosos que a Espanha já viu. Com apenas 1,70m, velocidade invejável e ótima visão de jogo, “El Buitre” (abutre em espanhol) dedicou 12 anos de sua carreira ao Real Madrid, clube no qual foi formado, tendo começado no Real Madrid Castilla, o time juvenil dos merengues.

Com passadas ligeiras e facilidade para entortar os zagueiros adversários, Butragueño era um jogador completo para a sua posição. Centroavante daqueles infernais, não raro prendia a bola na linha de fundo ou dava arrancadas em direção às traves, num precioso exemplo de habilidade unida ao faro de gol.

Selecionável por oito anos na Espanha, Emilio disputou duas Copas (1986 e 1990) e duas EuroCopas (1984 e 1988). Defendeu a Fúria até o ano de 1992, tendo seu ponto alto no Mundial de 86, onde fez quatro gols contra a Dinamarca nas oitavas de final, se sagrando como o vice artilheiro do torneio.

Em competições internacionais pelo seu clube, El Buitre foi extremamente bem sucedido. Seis ligas espanholas (1985-86, 1986-87, 1987-88, 1988-89, 1989-90 e 1994-95) duas Copas da UEFA (1984-85, 1985-86), entre outras copas e Supercopas nacionais, todas pelo Real. Se despediu do clube da capital espanhola em 1995, sem a mesma influência de antes sobre o plantel e já ameaçado de perder a posição para um certo jovem chamado Raúl González, ou Raúl Madrid, como queira.

De partida para o Club Celaya, do México, Butragueño passou seus derradeiros três anos no futebol como referência e ícone para o crescimento do esporte no país. Se aposentou em 1998, com 188 gols no currículo e com a moral que só um astro do Madrid conseguiria ter. Outra curiosidade é que Emilio não levou nenhum cartão vermelho sequer, em seus 16 anos como profissional. Ganhou o Pichichi, premiação dada ao artilheiro do campeonato espanhol, em 1990-91.

Diriam os antigos cronistas esportivos, que se tratava de um atacante arisco, daqueles que sofriam com pancadas dos defensores adversários, mas jamais desistia do objetivo de balançar as redes, vibrando e trazendo glórias a bela camisa branca que por tantos anos vestiu dentro das quatro linhas. Em 1988 foi contemplado ao ter um jogo de futebol para computador com o seu nome, o esquecido “Emilio Butragueño Fútbol”, produzido pela Ocean.

Equilíbrio

Chiqui Arce tem futuro promissor como técnico da seleção paraguaia (El Comercio)

Por Tiago de Melo Gomes

As duas primeiras rodadas das eliminatórias sul-americanas para o mundial do Brasil tiveram o equilíbrio como marca. Das sete equipes que atuaram duas vezes (são nove países, de forma que sempre uma seleção irá folgar), apenas o Uruguai não perdeu, e lidera a competição com 4 pontos. Argentina, Peru, Chile e Venezuela estão em segundo com 3 pontos (uma vitória e uma derrota), ao lado de Equador e Colômbia, que venceram a única partida que disputaram. Apenas Paraguai e Bolívia ainda não venceram.

A boa largada uruguaia não surpreende, já que a Celeste foi a melhor seleção do continente no último mundial e venceu a Copa América. No entanto, é preciso tomar cuidado. A verdade é que a seleção uruguaia não teve boas atuações nas primeiras partidas. Contra a fragilíssima Bolívia os charruas chegaram a sofrer antes de deslanchar, e contra os paraguaios a equipe foi dominada na maior parte do jogo, ainda que quase tenha vencido a partida.

A questão é que o treinador Oscar Tabarez insiste em jogar de forma mais agressiva, seja utilizando apenas 3 defensores, seja marcando por pressão, com as peças avançadas. E o fato é que o Uruguai não tem os jogadores adequados para a tarefa, em especial os zagueiros, que são lentos, e se saem bem quando protegidos, mas se vêem em apuros quando necessitam sair da área. No entanto, a tendência é que Tabarez se renda e volte ao sistema mais cauteloso, com o qual o Uruguai conquistou os bons resultados recentes. Com isso, a Celeste é uma das favoritas para a conquista de uma vaga.

Os argentinos aproveitaram os espaços na defesa chilena para vencer com sobras uma partida que teve momentos de dificuldade. Mas sucumbiram frente a uma limitada Venezuela, evidenciando que Sabella está longe de encontrar a equipe e o sistema ideais. Messi está longe do gol, Higuaín isolado na frente, Di Maria não pode ser volante e Pastore ser reserva de Sosa é incompreensível. A albiceleste segue sendo a prova de que uma grande equipe é muito mais do que um amontoado de grandes jogadores.

O Chile de Claudio Borghi mantém a característica essencial dos tempos de Marcelo Bielsa, enfrentando os adversários de peito aberto. Normalmente vence as equipes mais fracas e é goleado pelas mais fortes. O que pode ser o suficiente para se classificar para o Mundial, e proporciona partidas empolgantes, como o sensacional confronto contra o Peru na noite de terça-feira.

Para muitos a Venezuela era a grande favorita a ser a zebra do torneio. Ainda que não tenha jogadores de alta qualidade, a equipe é muito bem comandada por Cesar Farias e de fato pode surpreender. No entanto, essa primeira sessão mostrou uma excelente novidade: o Peru. Comandados pelo excelente Sergio Markarian, e contando com jogadores de respeito no setor ofensivo (Farfán, Guerrero, Pizarro), os peruanos simplesmente atropelaram os paraguaios na estréia, e fizeram o melhor jogo entre seleções de 2011 contra o Chile, perdendo por 4 a 2 em Santiago em uma partida em que chutaram QUATRO bolas na trave. Uma equipe que merece ser vista e se candidata a uma vaga no Mundial, façanha que não consegue desde 1982. Naquela ocasião, com o brasileiro Tim no comando, os peruanos eliminaram os uruguaios em Montevidéu.

Por outro lado, a grande decepção até agora foi o Paraguai. Mesmo mantendo a mesma base dos tempos de Gerardo Martino, o novo treinador, Francisco Arce (ex-lateral de Grêmio e Palmeiras) viu sua equipe ser completamente subjugada pelo Peru em Lima, e empatar nos descontos uma partida praticamente perdida para o Uruguai. Mas é preciso ter cautela na avaliação. Para começar, a seleção paraguaia, começando um trabalho, enfrentou duas equipes que tem treinadores com mais tempo de trabalho à frente de suas seleções.

O mais importante é que Chiqui Arce está tentando mudar o estilo de jogo da seleção guarani. O objetivo é fazer com que o Paraguai abandone o estilo muito defensivo dos tempos de Tata Martino e atue com mais iniciativa e protagonismo. No entanto, é uma mudança lenta, que certamente terá percalços, já que é natural que os atletas se sintam inseguros ao atuar de uma nova maneira.
            
A Colombia teve ótima estreia, batendo a Bolívia na altitude de La Paz. Tem uma ótima geração de atletas, como Falcão Garcia, James Rodriguez e Guarín, mas é preciso esperar para ver até onde pode chegar. O mesmo vale para os equatorianos, que também só atuaram uma vez, vencendo os venezuelanos em casa. Já a Bolívia infelizmente parece destinada a ser a lanterna, destoando em um torneio de muito equilíbrio. Com uma equipe mediana do meio para frente mas muito fraca defensivamente, a Bolívia deverá sofrer muitas dificuldades para vencer, mesmo na altitude.