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quinta-feira, 4 de julho de 2013

Almir, o infernal

Almir é segurado por companheiros na final do Carioca de 66
(Foto: UOL)
Almir Pernambuquinho protagonizou algumas brigas homéricas no seu tempo de atleta. Anos depois, morreria num bar durante grande confusão, não fugindo ao estilo que lhe marcou como jogador

segunda-feira, 1 de julho de 2013

PodCast TF #1 - Grandes brigas e jogadores violentos


E vamos continuando com o Especial Hematoma aqui na Total Football. Neste sábado gravamos o PodCast TF, que na verdade já é a segunda experiência nossa com podcasts (a primeira foi o 60 segundos). Falamos sobre grandes brigas e jogadores que ficaram com o estigma de violentos, porradeiros, entre outros adjetivos.

Juntamos um pessoal que entende do assunto, como Emanuel Colombari, Ana Luíza Peres, Tiago Melo e Rafael Monteiro, figuras que você já deve ver por aqui com frequência. Durante 37 minutos tentamos manter o profissionalismo, mas as brincadeiras aconteceram. Era inevitável, mas acreditamos que você leitor (e ouvinte) não irá se importar muito.

Por fim, curta aí o primeiro PodCast TF, pois tentaremos voltar com a segunda edição em breve.

Para quem estiver com problemas para executar o Podcast, aqui vai o LINK DIRETO do 4shared.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

TF História: Superclásico com pitadas brasileiras

Delém perdeu um pênalti e entrou para a história do Superclásico
Foto: El gran boludo argentino
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago

Em 1962, Boca e River decidiam o campeonato com um dérbi em La Bombonera, repletos de brasileiros em seu elenco, e naquele dia 9 de dezembro, um deles viveu uma enorme frustração

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

TF História: A escola do Newell's Old Boys

Foto: Elciudadanoweb
Tiago Melo, @melogtiago 

Quando se pensa em uma fase vitoriosa do Newell’s Old Boys, a referência obrigatória é o período em que Marcelo Bielsa comandou a equipe. Nada mais natural: foram dois títulos nacionais, um vice de Libertadores, vários jogadores de alto nível revelados e uma forma vertiginosa de jogar que marcou época e fez escola.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Grandes jogos: Argentina-Brasil 1946

Foto: Baú do futebol
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE
No dia 10 de fevereiro de 1946 Brasil e Argentina fizeram um dos confrontos mais lembrados do longo histórico de partidas entre as duas seleções. A partida, válida pelo Sul-Americano (como então se denominava a Copa América) daquele ano, terminou com uma vitória da Argentina por 2 a 0, dois gols de Méndez. Mas o que menos se lembra é da partida em si.

No Brasil a história normalmente é contada como se essa partida fosse um desdobramento do confronto entre as duas equipes no final do ano anterior pela Copa América. A partida, disputada em São Januário, foi marcada por muita violência. Quem levou a pior foi o zagueiro argentino Battagliero, que fraturou a perna numa dividida com Ademir Menezes. Não há imagens do lance, mas no Brasil se assegura que o lance foi involuntário.

A partida de 1946, no Monumental de Nuñez é encarada por aqui como uma vingança planejada pelos argentinos. Nessa versão, tudo teria descambado de vez quando, aos 28 minutos, Jair da Rosa Pinto, também acidentalmente, quebrou a perna do zagueiro Salomón. A partir daí teria começado uma briga generalizada em que os argentinos massacraram os brasileiros, que teriam em Chico Aramburu o grande herói da briga.

Sempre segundo a versão brasileira da história, ao fim da briga a equipe brasileira estava amedrontada e temendo pela própria vida. Sem clima para jogar futebol, o Brasil teria apenas assistido a Argentina jogar e fazer os gols que quis. Em suma, o que se conta por aqui é que não houve futebol, apenas violência argentina contra um pobre e indefeso time do Brasil.

É difícil avaliar adequadamente a situação, pois não se conhece imagens em movimento das duas partidas, e em geral a história é contada por pessoas que não estavam no Monumental de Nuñez. Mas há coisas que merecem ser revistas nessa história.


Foto: Futebol e cia. ltda
A primeira: é difícil acreditar que os jogadores brasileiros tenham sido apenas vítimas da violência argentina. Afinal, o saldo final das duas partidas foi de duas pernas argentinas fraturadas por jogadores brasileiros. A versão argentina é exatamente oposta. Nela o Brasil bateu sem piedade nos vizinhos na partida de São Januário, e ainda teve a coragem de quebrar Salomón dentro do Monumental de Nuñez. Para os argentinos, a vitória naquela partida simplesmente refletiu a superioridade da albiceleste daqueles anos.

O argumento argentino levanta uma questão importante. Naquela ocasião o Brasil tinha um time muito interessante, já com muitos jogadores que atuariam em 1950. O ataque era avassalador: Tesourinha, Zizinho, Heleno de Freitas, Jair e Chico (com Ademir Menezes no banco). Aquela seleção poderia enfrentar qualquer outra de igual para igual. Menos a Argentina.

Naquele momento os vizinhos tinham a melhor geração de sua história. Era o auge da “maquina” do River Plate, com o lendário ataque formado por Muñoz, Moreno (para muitos daquele tempo, o melhor jogador da história do país), Pedernera, Labruna e Lostau. No Boca Juniors estava Mario “Atomico” Boyé. No San Lorenzo atuava o genial ponteiro Rinaldo Pontoni. No Huracán havia o artilheiro Norberto “Tucho” Méndez, autor dos dois gols da partida.

Eram tantos grandes jogadores que o River podia se dar ao luxo de emprestar Di Stefano, então com 20 anos, para o Huracán. E no Brasil daquele tempo, abundavam jogadores argentinos que, sem espaço em seu país, vinham para nosso país e reforçavam as grandes equipes daqui. Se jogadores argentinos medianos se destacavam por aqui, fica difícil sustentar que naquele encontro do Monumental de Nuñez a violência argentina possa ser a única explicação para nossa derrota.

E isso não deveria ser novidade, já que argentinos e uruguaios foram melhores que os brasileiros em quase todos os momentos da primeira metade do século XX. Nesses países o futebol chegou mais cedo e se desenvolveu muito antes do que por aqui. Os uruguaios haviam vencido duas Olimpíadas e um mundial, e viriam a vencer o próximo, em 1950. Em duas dessas competições (Olimpíada de 1928 e Mundial de 1930) o título veio em finais disputadíssimas contra os argentinos.

Os historiadores do futebol brasileiro adoram criar justificativas para explicar um fato que, objetivamente, é incontestável: na primeira metade do século XX o futebol brasileiro não teve qualquer destaque internacional. Teve como maior feito chegar em uma semifinal de mundial, algo que naqueles anos EUA e Suécia também conseguiram. Por isso não surpreende que o artilheiro argentino Pancho Varallo tenha declarado, sobre o mundial de 1930: “os melhores times eram Argentina e Uruguai. Dizem que o Brasil estava lá mas nem me lembro. Só importavam Argentina e Uruguai”.

Assim, a partida de 1946 poderia ser vista por outro prisma. Como lembrança de um tempo em que éramos fregueses (ou “hijos”, como dizem os argentinos) dos vizinhos do Rio da Prata. E o enorme esforço para superá-los certamente foi essencial para o crescimento do futebol brasileiro. Derrotas como aquela mostraram aos brasileiros que ainda havia muito a evoluir.

Argentina: Vacca, Salomón (Marante) e Sobrero; Fonda, Strembel (Ongaro) e Pescia; De la Mata, Méndez, Pedernera, Labruna e Loustau.

Brasil: Luiz Borracha, Domingos da Guía e Norival; Zezé, Danilo e Jaime (Rui); Tesourinha (Lima), Zizinho (Ademir), Heleno de Freitas, Jair e Chico.

Gols: Méndez aos 38 do 1º tempo e aos 10 do 2º.

Expulsões: De la Mata e Chico, aos 28 do 1º tempo.

*Agradeço a meu amigo Esteban Bekerman, @egerbek, historiador e jornalista esportivo argentino, pela ficha técnica da partida.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

TF História: Peñarol e o clássico dos oito contra onze

Façanha do Peñarol em 1987 contra o Nacional completa 25 anos nesta semana
Foto: Colombia sports
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

Um dos componentes mais mágicos do futebol é sua imprevisibilidade. Nunca se sabe quando a história pode acontecer na frente de qualquer um. Uma decisão de quem vai subir para a 1ª divisão do Brasileirão pode se converter subitamente em um jogo inesquecível, como foi o caso da Batalha dos Aflitos.
E isso é ainda mais verdade quando se trata de um clássico. A possibilidade de heróis e vilões eternos é ainda maior. Há inúmeros exemplos, como Aldo Pedro Poy, que entrou na história do futebol argentino ao marcar de peixinho o gol da vitória de seu Rosário Central contra o rival Newell’s Old Boys nas semifinais do Nacional de 1971. A partida passou para a história como “La Palomita (peixinho) de Poy”, e é celebrada até hoje pela fanática torcida canalla todos os anos.
Em um clássico gigantesco como Peñarol x Nacional não podia ser diferente. A rivalidade mortal entre os dois monstros do futebol sul-americano e mundial criou uma galeria imensurável de ídolos, vilões e histórias inesquecíveis. Como o “Clasico de La Fuga”, em 1949, quando, temendo uma goleada histórica, o Nacional, que perdia por 2 a 0, se recusou a voltar para o 2º tempo (aquele Peñarol era a base da seleção uruguaia campeã mundial em 1950).
Nessa galeria está o histórico “clássico dos 8 contra 11”, que completou 25 anos esta semana. E a partida a princípio não parecia talhada para entrar para os anais do futebol uruguaio. Nada mais era do que parte de um triangular amistoso que incluía também o Bétis, da Espanha.
O primeiro tempo terminou com o Peñarol vencendo pela vantagem mínima, gol de Viera. Logo no início do 2º tempo Cardaccio empatou para o Bolso. Tudo parecia normal, até que veio uma sequência de expulsões que mutilou a equipe aurinegra. Entre os 23 e 30 minutos foram expulsos Ricardo Viera, José Perdomo e José Herrera. Parecia o fim do clássico. Com três a mais e com 15 minutos pela frente, o tricolor tinha a vitória nas mãos.
Mas o Peñarol não havia se resignado ao final que parecia inevitável. Seus oito jogadores restantes lutaram como nunca, e aos 37 minutos aconteceu o absolutamente inimaginável. Diego Aguirre fez boa jogada e passou para Jorge Cabrera marcar o gol da vitória Manya.
Nos últimos minutos o Nacional atacou como nunca, mas os jogadores carboneros conseguiram suportar tudo. Um dos leões naquela partida foi o zagueiro Obdulio Trasante, que posteriormente defenderia o Grêmio.
Quando a partida acabou, o Peñarol não havia vencido apenas um clássico amistoso. Aqueles jogadores haviam escrito uma das mais memoráveis páginas de um dos maiores clássicos do planeta. Mais que isso, a jovem equipe comandada por um iniciante Oscar Tabarez se enchia de brios. Meses depois venceria a Libertadores de forma igualmente heróica, com um gol de Aguirre aos 120 minutos do terceiro jogo da final contra o América de Cali.
Os oito heróis que inscreveram seu nome na história do Peñarol foram: Eduardo Pereira, Jorge Gonçalvez, Obdulio Trasante, Alfonso Dominguez, Eduardo da Silva, Gustavo Matosas, Jorge Cabrera e Diego Aguirre.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

TF História: Quando o Independiente derrotou a ditadura

Formação do Rojo que venceu o Talleres naquela inesquecível noite de 25 de
janeiro de 1978: façanha ainda é exaltada pelos fãs do clube de Avellaneda
(Foto: Taringa.net)
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

No dia 25 de janeiro de 1978 aconteceu um dos jogos mais singulares da história do futebol argentino. Naquela partida, que decidiu o campeonato nacional de 1977, o Independiente foi campeão em cima do Talleres. Mas por melhor que fosse a equipe cordobesa, ela foi a parte mais simples de lidar. Pois naquele dia os rojos de Avellaneda enfrentaram um adversário muito mais temível: a ditadura argentina.
A década de 1970 é a mais gloriosa da história do Independiente. Após o bi da Libertadores em 1964 e 1965, a equipe consolidaria sua fama de “El Rey de Copas” ao vencer quatro edições seguidas do torneio, entre 1972 e 1975, façanha até hoje não alcançada. O Rojo venceu ainda dois títulos nacionais naqueles anos (o Metropolitano de 1970 e o Nacional de 1971), e chegou pela primeira vez ao título mundial interclubes, em 1973.
Naquele mundial despontou aquele que seria o maior ídolo Rojo desde Arsenio Erico: Ricardo “Bocha” Bochini. Talentoso meiocampista, era especialista em deixar os companheiros na cara do gol, embora também marcasse os seus. Os argentinos que se lembram dele costumam compará-lo a Andrés Iniesta, em função das semelhanças de estilo.
Não por acaso, Bocha foi o grande ídolo de Maradona, que torcia para os vermelhos graças a seu herói. Seu talento ficou óbvio quando, aos 19 anos de idade, comandou o Independiente na conquista do mundial de 1973, marcando o gol do título sob a Juventus de Turim em pleno estádio Olímpico de Roma.
Em 1977 aquela equipe vencedora não era mais a mesma. A grande maioria dos jogadores não estava mais lá. Mas Bochini continuava no Rojo, assim como o outro grande craque da equipe, Daniel Bertoni. E o treinador José Omar Pastoriza (jogador histórico do clube, então começando sua carreira de treinador) podia contar com outros brilhantes jogadores, como Omar Larrosa, que havia brilhado no grande time do Huracán entre 1973 e 1976.
E no Nacional de 1977 um rejuvenescido Independiente voltou a dar alegrias à sua torcida. Venceu dez das primeiras doze partidas, se classificando com antecipação para a fase final. Na semifinal, suplantou o Estudiantes, para encontrar o Talleres de Córdoba na grande decisão. Na primeira partida, em Avellaneda, prevaleceu o empate em 1 a 1. Tudo seria decidido em Córdoba: o vencedor levaria o título, e em caso de empate levaria a taça quem marcasse mais gols fora de casa (uma inovação para a época).
Mas logo ficou claro que as coisas não se resolveriam apenas no campo de jogo. O comandante militar e governador da província de Córdoba era nada menos do que Luciano Menendez, representante da linha-dura extremista da ditadura argentina. Para os membros dessa corrente, como Menendez e Suarez Mason, militares como Jorge Videla e Emilio Massera (posteriormente condenados à prisão perpétua pelas violações aos direitos humanos cometidas naqueles anos) eram demasiado tolerantes com a oposição. Entre outros feitos, Menendez era o responsável pelo Massacre de Las Palomitas, quando prisioneiros foram executados nas prisões da província de Salta. Foi um dos responsáveis por a Argentina quase ter entrado em guerra contra o Chile no final de 1978. Em 2009 foi condenado à prisão perpétua pelos crimes cometidos durante a ditadura.
E esse homem violentíssimo, vivendo o auge do poder, expressou claramente seu desejo de que o Talleres fosse campeão. No auge da repressão, isso era mais do que o suficiente. E quando as equipes entraram em campo naquele 25 de janeiro de 1978, ninguém sabia o que esperar.
A princípio tudo correu normalmente. As equipes buscavam o gol, e o Independiente virou o primeiro tempo em vantagem, com um gol de cabeça de Outes, o artilheiro máximo do clube no torneio. Mas no segundo tempo as coisas começaram a se complicar quando aos 13 minutos um centro da esquerda bateu no corpo de um defensor do Independiente na lateral da área. O juiz marcou o penal, bastante duvidoso, e convertido por Cherini (que por sinal sequer comemorou o gol tão importante; baixou a cabeça e caminhou de volta para o meio campo).
Aos 25 minutos o jogo se complicou de vez, quando Bocanelli aproveitou um centro e empurrou a bola para o gol com as mãos. O gol, flagrantemente ilegal, foi validado pela arbitragem, colocando os cordobeses em vantagem. No desespero, inconformados com tamanha injustiça, Trossero, Galván e Larrosa agrediram verbalmente o árbitro e foram expulsos.
Com três a mais, resultado favorável, arbitragem a favor, e jogando em casa, o Talleres tinha o título nas mãos. Mas não tinha Ricardo Bochini. Aos 41 do segundo tempo Bocha tabelou com seu grande amigo Bertoni e chutou a bola com força no alto da rede adversária.
O Independiente havia arrancado um miraculoso empate que lhe daria o título. Nos minutos finais da partida o Talleres atacou incessantemente, e o goleiro Rigante ainda teve tempo de fazer duas defesas dificílimas. E a bola estava em suas mãos quando o árbitro encerrou a partida.
O Independiente era campeão nacional de 1977, Bocha se consagrava definitivamente como um deus em Avellaneda, e a ditadura argentina sofria uma grande derrota nos gramados. Naquele dia um craque monumental se transformava em verdadeira lenda.
Texto originalmente postado no Futebol Portenho, pode ser visto aqui.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

TF História: Quando os Milionários viraram galinhas

Foto: Futebol Portenho

Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

Todos os clubes argentinos possuem ao menos uma alcunha, muitas das quais são bastante curiosas. Sediado na elegante zona norte portenha, o River Plate é historicamente conhecido como “Milionário”. No entanto, em 1966 surgiu uma segunda forma de se referir ao clube, a qual ainda provoca calafrios em seus torcedores: “galinhas”.

Naquele ano o clube fez uma grande campanha na Libertadores. Com jogadores como o histórico goleiro Carrizo, os uruguaios Matosas e Cubilla e os irmãos Onega, os comandados de Renato Cesarini chegaram como favoritos à grande decisão, mas perderam o título de forma surpreendente.

Naquele ano a Libertadores, até então um torneio curto, teve pela primeira vez uma fórmula mirabolante, inaugurando um período de muita desorganização que perduraria até a edição de 1971, quando finalmente a Conmebol conseguiria encontrar a fórmula que seria utilizada por quase duas décadas. Mas nos anos anteriores a tônica do maior campeonato continental interclubes foi a bagunça.

Naquele ano os milionários jogaram 16 vezes antes de chegar à final, em um torneio que tinha 17 clubes. Com as três partidas da decisão foram 19 jogos em 3 meses. Primeiro um grupo com o Boca Juniors, dois clubes do Peru (Alianza e Universitário) e dois da Venezuela (Deportivo Lara e Deportivo Itália). Com oito vitórias em dez jogos o River se classificou em primeiro lugar.

Na segunda fase um grupo duríssimo, que só classificaria uma equipe para a grande final: além do River lá estavam o Boca Juniors e o Independiente, vencedor das duas edições anteriores do torneio, além dos paraguaios do Guarani. Foi necessário um desempate com o Independiente, vencido pelos Milionários por 2 a 1. O River havia chegado à grande decisão.

O adversário era uma grande equipe do Peñarol, repleta de nomes históricos do clube. O treinador era ninguém menos do que Roque Máspoli, goleiro da seleção uruguaia na copa de 1950. Em campo havia grandes jogadores, três dos quais fizeram muito sucesso no Brasil: o grande goleiro Mazurkiewicz, o lateral Forlán e o genial Pedro Rocha. Uma equipe que poderia enfrentar qualquer outra do planeta, e que venceria as duas partidas da final intercontinental contra o Real Madrid.

A primeira partida foi no Centenário. Nela o River foi guerreiro, e segurou o empate por 75 minutos. Mas Abbadie e Joya marcaram os gols da vitória carbonera nos últimos minutos. Um empate daria ao Manya o terceiro título da Libertadores. Uma partida de tamanha importância entre duas equipes tão tradicionais e recheadas de grandes craques só poderia mesmo entrar para a história.

O Monumental de Nuñez estava abarrotado, incluindo torcedores à beira do campo, o que não era totalmente incomum na época. Pedro Rocha abriu o placar, mas Ermindo Onega empatou ainda no primeiro tempo. O equatoriano Spencer colocou novamente o Peñarol em vantagem logo no início do segundo tempo, mas Sarnari empatou logo depois, e Ermindo Onega marcou o terceiro gol, para delírio da torcida. Tudo seria decidido no jogo desempate, em Santiago do Chile.

No primeiro tempo o River Plate foi melhor, e desceu para o intervalo com dois a zero a favor, gols de Daniel Onega e Solari. A Libertadores de 1966 parecia definida. Logo no início do segundo tempo ocorreu o lance mítico que mudou a história da partida. Um simples momento que tem muitas versões, mas em geral inclui um chute de Spencer, defendido de forma humilhante por Amadeo Carrizo, que matou a bola no peito e saiu jogando.

Com os brios feridos os jogadores do Peñarol correram como nunca. Logo após os 20 minutos o mesmo Spencer aproveitou uma bola na área e fuzilou Carrizo. Mais cinco minutos e Abbadie chutou de fora da área, a bola desviou em Matosas e enganou o goleiro milionário. O Peñarol havia conseguido um empate que parecia impossível. E entrou na prorrogação com muito mais força que o rival.

Aos 12 minutos o equatoriano Spencer ensinou a Carrizo que com uruguaios não se brinca, subindo mais que toda a defesa inimiga para acertar uma cabeçada espetacular. Após 102 minutos de jogo o Manya tomava a frente do placar pela primeira vez. No segundo tempo Pedro Rocha concluiu um rápido contra-ataque com uma cabeçada muito bem colocada. O Peñarol havia feito história: era campeão da Libertadores de 1966 e em seguida seria campeão mundial.

O River Plate havia perdido a incrível oportunidade de conquistar seu primeiro título continental, exatamente quando a conquista parecia praticamente certa. O tipo de coisa que os rivais jamais perdoariam. Poucos dias depois o clube enfrentou o Banfield, pelo campeonato argentino daquele ano. Um hincha do Taladro entrou em campo com uma galinha, como referência à derrota, para delírio da torcida local.

A galhofa de um anônimo torcedor do Banfield entraria para a história. A partir daquele dia, ao menos para os rivais o River Plate deixaria de ser o “Milionário” e passaria a ser conhecido como “Galinha”. Algo que os torcedores do clube ainda sentem arrepios de ouvir. Tudo por conta de uma incrível vitória do Peñarol em 1966.

PEÑAROL: Mazurkiewicz, Lezcano, Diaz e Forlán; Gonçalvez e Caetano; Abbadie, Cortés, Spencer, Rocha e Joya.

RIVER PLATE: Carrizo, Matosas, Vieytez e Sainz; Sarnari e Grispo; Cubilla, Solari, Ermindo Onega, Daniel Onega e Más.


sexta-feira, 9 de março de 2012

Grandes Jogos: Palmeiras x Boca

Em era dourada, Palmeiras venceu o Boca com placar assaz elástico na Libertadores 1994
(A Tribuna Digital)
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
Há exatamente 18 anos o Palmeiras conseguia uma façanha histórica, ao aplicar inimagináveis 6 a 1 no Boca Juniors. A diferença de gols foi absolutamente surpreendente, mas a vitória alviverde era esperada. Naquele momento, as equipes viviam momentos muito distintos.
Dirigido por Vanderlei Luxemburgo, o Palmeiras vivia o auge da fase Parmalat. O dinheiro da multinacional possibilitou a chegada de grandes jogadores ao Parque Antártica, dois dos quais seriam titulares da seleção campeã mundial logo depois: Mazinho e Zinho. Naquele 1994 o Palmeiras repetiria o sucesso do ano anterior, se sagrando então bi campeão paulista e bi campeão brasileiro, uma façanha ainda inalcançada no futebol paulista (no Brasil apenas o Internacional conseguiu o mesmo resultado, em 1975/76);
Por outro lado, eram tempos duros para a tradicional equipe de La Boca. Os xeneizes conquistaram apenas um título entre 1981 e 1998, o Apertura 1992. Logo em seguida o clube faria pesados investimentos, trazendo grandes estrelas, como Maradona e Caniggia. A estratégia não deu resultado, e o Boca reencontraria o caminho dos títulos apenas com a chegada de Carlos Bianchi. Naquela Libertadores, os comandados de César Menotti ficaram na primeira fase, com 4 derrotas em seis jogos, e ocuparam a lanterna do grupo.
Mas nada naquela noite faria prever tamanho massacre. A partida era válida pela segunda rodada daquela Libertadores, e as duas equipes haviam estreado bem. O Palmeiras havia vencido o Cruzeiro por 2 a 0 em casa, enquanto o Boca conseguira um empate com o Vélez fora de casa, um resultado muitíssimo aceitável. Naquele dia os argentinos vinham para o Brasil enfrentar seus rivais: enquanto o verdão destruía os xeneizes, o Vélez conseguia um bom empate no Mineirão contra a Raposa.
Mas aquela partida teria um grande fator desequilibrante: Mazinho. O camisa 8 palmeirense fez a melhor partida de sua vida, em uma atuação que ninguém que tenha assistido à partida vai esquecer. Os muitos críticos do sistema tático da seleção brasileira da época, com Mauro Silva e Dunga como volantes, se desesperavam só de pensar que o Brasil deixaria tal craque no banco (ao fim aconteceu o inesperado, e Mazinho foi campeão mundial como titular, mas na vaga de Raí).
O primeiro tempo terminou com vantagem mínima para o Palmeiras, um gol marcado logo aos 15 minutos. Navarro Montoya conseguiu fazer duas grandes defesas no mesmo lance, mas finalmente Cléber conseguiu estufar a rede com um potente arremate. O goleiro colombiano certamente não imaginava ter de voltar tantas vezes para buscar a bola no fundo da meta.
E no segundo tempo veio o massacre. Aos 6 minutos Evair deu lindo passe de calcanhar para Roberto Carlos fuzilar Navarro Montoya. Três minutos depois Edílson marcou o terceiro. Aos 20 Mazinho fez grande jogada individual, só sendo parado por uma falta dentro da área. Evair cobrou o pênalti e marcou o quarto.
Aos 26 minutos Mazinho cobriu Navarro Montoya com um toque maravilhoso, deixando o colombiano imóvel, apenas torcendo para a bola não entrar. A trave salvou o Boca, mas no rebote Evair marcou mais um. Aos 33 Jean Carlo aproveitou uma jogada coletiva para marcar o sexto. Um minuto depois Martinez descontou de pênalti.
Em termos concretos aquela partida não teve muita relevância. Palmeiras e Boca Juniors fariam partidas muito mais importantes anos depois, chegando a decidir a Libertadores de 2000. Mas os palmeirenses têm razão em considera-la inesquecível. Primeiro: não é todo dia que o Boca leva seis gols. Mas o principal é que naquele dia o verdão fez um dos maiores jogos de sua história, colocando na roda e dando um baile em um clube que é uma superpotência mundial.
Palmeiras: Sérgio, Cláudio, Antonio Carlos, Cléber e Roberto Carlos; César Sampaio (Tonhão), Amaral, Mazinho (Jean Carlo) e Zinho; Edílson e Evair. Técnico: Vanderlei Luxemburgo.
Boca Jrs.: Montoya, Soñora, Noriega, Giuntini e MacAllister; Peralta, Mancuso, Márcico e Carranza; Martinez e Da Silva (Acosta). Técnico: César Menotti.
Gols: Cléber (15") no primeiro tempo; Roberto Carlos (06'), Edílson (09'), Evair (20'), Evair (26'), Jean Carlo (33'), Martinez (34') no segundo tempo.

segunda-feira, 5 de março de 2012

TF História: O primeiro gol olímpico

Foto: marcelodieguez.com.br

Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

Provavelmente muito poucos sabem quem foi Cesáreo Onzari. Mas seguramente todos os fãs de futebol conhecem sua genial contribuição para a história do esporte: o gol olímpico.

É uma história que começa muito longe da Argentina, país natal do jogador. Na verdade, tudo teve sua origem em Paris, em 1924. Naquela edição dos jogos olímpicos, o mundo descobriu que na América do Sul havia quem soubesse jogar futebol em alto nível.

Naqueles jogos olímpicos, a seleção uruguaia chegou sem causar nenhuma comoção. Nem sequer se suspeitava que o pequeno país sul americano pudesse acrescentar algo a um esporte que se supunha europeu. Mas o mundo se assombrou com a Celeste Olímpica.

Com 20 gols marcados e apenas 2 sofridos em cinco partidas, o Uruguai encantou o mundo do futebol. Era uma equipe que praticava um futebol desconhecido dos europeus, com jogadores habilidosos, capazes de trocar passes de uma maneira que ninguém havia visto no velho continente. E com jogadores que faziam coisas jamais imaginadas, como o genial José Leandro Andrade (a “maravilha negra”) e o atacante Hector Scarone. Todos sob o comando do capitão José Nasazzi, vigoroso zagueiro.

A conquista uruguaia pareceu inaceitável aos argentinos, que não foram às olimpíadas. Grandes rivais dos charruas nas competições continentais e praticantes do futebol há meio século, os moradores do país vizinho se sentiram injustiçados. Acreditavam que o Uruguai só havia conquistado o mundo com tamanha facilidade pela ausência da albiceleste. E os desafiaram para um encontro.

Desafio aceito, argentinos e uruguaios se encontraram no dia 21 de setembro de 1924 em Montevidéu, em uma partida que terminou empatada em 1 a 1. Foi marcada uma revanche em Buenos Aires. Mas as coisas não terminaram bem. Na verdade, mal começaram: a partida, disputada no campo do Sportivo Barracas, teve por volta de 60 mil espectadores, quando as arquibancadas poderiam suportar no máximo 40 mil. Havia torcedores à beira da linha lateral, e a partida se encerrou antes dos 5 minutos de jogo, por razões de segurança.

E no dia 2 de outubro as equipes voltavam à mesma cancha, sob os olhares de “apenas” 30 mil pessoas, segundo os jornais da época, graças às medidas de segurança adotadas para a partida. E aos 15 minutos aconteceu o lance histórico. O ponteiro esquerdo Onzari foi encarregado de cobrar um escanteio para a seleção argentina. Para surpresa de todos, o tiro de esquina cobrado pelo jogador do Huracán terminou dentro do gol, sem que nenhum outro jogador tocasse na bola.

Era uma grande novidade. Até aquele ano, o gol marcado em cobrança de escanteio era ilegal, e a Internacional Board mal havia modificado a regra, permitindo o que passaria a ser conhecido como “gol olímpico”. Onzari nunca deixou de reconhecer que o lance foi fruto do acaso: “aconteceu porque tinha de acontecer. Talvez o goleiro tenha acordado com o pé esquerdo naquele dia, pois nunca mais voltei a marcar outro gol assim. Mas o certo é que quando vi a bola dentro do gol não pude acreditar”, disse o jogador muitos anos depois.

Ainda no primeiro tempo, o artilheiro uruguaio Cea empataria a partida, com Tarasconi marcando o gol da vitória argentina já no segundo tempo. Foi uma partida controversa, que sequer chegou ao final. A quatro minutos do fim os uruguaios se retiraram de campo, se queixando dos torcedores argentinos, e o craque Scarone chegou a trocar pontapés com um policial, indo parar na delegacia. O time da casa também tinha reclamações, principalmente da fratura sofrida por Adolfo Celli.

Aquela partida foi um típico confronto entre argentinos e uruguaios naquele tempo, com muita rivalidade e controvérsias. Mas naqueles noventa minutos aconteceu o primeiro gol olímpico da história. Um fato que tornaria a partida inesquecível. E nada mais justo que tal fato tenha ocorrido exatamente em uma partida disputada entre aquelas que naquele momento certamente eram as melhores seleções do planeta.

Onzari e Stábile, ídolos da Argentina e no Huracán
Foto: marcelodieguez.com.br
PS: Em diversas publicações há referência a um gol marcado diretamente de cobrança de escanteio que teria ocorrido antes da partida entre os vizinhos platinos. Supostamente, em 2 de agosto daquele ano Billy Alston teria marcado um gol dessa maneira em uma partida da segunda divisão escocesa. Mas o pesquisador uruguaio Jorge Gallego demonstrou claramente que essa informação provém de uma única fonte, e essa versão contém tantas inconsistências que é muitíssimo provável que de fato o primeiro gol diretamente marcado numa cobrança de escanteio tenha sido efetivamente o de Onzari.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Procuram-se Pofexôres: o futebol argentino preso na armadilha do imediatismo

Vasco Azconzábal, treinador do Estudiantes (Olé.ar)
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

Talvez o cenário dos treinadores dos clubes argentinos nunca tenha sido tão desolador como atualmente. Boca Juniors e River Plate possuem técnicos que não agradam às direções, mas seguem quase que por falta de opção. Mesmo ameaçadíssimo pelo descenso, o San Lorenzo se mantém com um limitado Léo Madelon. O Estudiantes entregou seu elenco fortíssimo a Vasco Azconzabal, sem nenhuma experiência na função, como já fez com Eduardo Berizzo há um ano atrás.

O curioso é que não faltam treinadores argentinos de qualidade. Na Espanha Marcelo Bielsa classificou o Athletic Bilbao para as oitavas de final da Europa League e para final da Copa do Rei, enquanto divide uma ótima quinta colocação na liga espanhola com o Espanyol, treinado por seu discípulo Maurício Pochettino. Logo atrás das duas equipes está o Atletico de Madrid, treinado por Diego Simeone.

Mas não é preciso ir tão longe. No Uruguai, o campeão do último torneio foi Marcelo Gallardo, ex-ídolo do River Plate. No Paraguai, o atual campeão é o uruguaio Gerardo Pelusso, comandando o Olímpia, mas os outros que disputam a Libertadores têm argentinos no comando: Jorge Burruchaga (Libertad) e Javier Torrente (Nacional).

Também entre os guaranis, houve o sucesso recente de Gerardo Martino na seleção do país, enquanto o grande treinador sul-americano de 2011 foi, incontestavelmente, Jorge Sampaoli, que conduziu a Universidad de Chile a todos os títulos que disputou e encantou o continente.

O que se torna claro é que a Argentina é capaz de produzir bons técnicos em quantidade expressiva. No entanto, seu próprio futebol pouco se beneficia disso. Vários dos nomes citados jamais tiveram boas oportunidades em seu país, como o próprio Sampaoli, que construiu sua carreira basicamente nos países andinos, em especial no Peru e no Chile.

E o fenômeno, aparentemente bizarro, não é um acidente. Algo muito parecido ocorre entre os jogadores argentinos. O enorme número de atletas do país atuando em clubes do exterior não é fruto apenas da saída de jogadores que naturalmente seriam vendidos para ligas europeias de qualquer maneira. E nem sempre tem a ver também com as dificuldades econômicas do país.

Basta notar que há jogadores argentinos de bom nível em ligas sul-americanas de bem menos recursos que a de seu país. Clubes paraguaios, chilenos e equatorianos normalmente se servem á vontade desses jogadores. Vários deles apareceram por aqui, sendo Conca e Montillo os exemplos mais expressivos.

O caso mais recente é Barcos: sem ser um craque, trata-se de um atacante eficiente, que jamais teve chances de um trabalho de longo prazo em seu país, construindo a maior parte de sua carreira no exterior, incluindo países sul-americanos, como Paraguai e Equador.

Uma das causas do fenômeno é a existência de torneios curtos, que definem seu campeão em 19 rodadas. Após mais de duas décadas utilizando o formato, o futebol argentino se viu envolvido em uma cultura imediatista da qual não consegue sair. Nas grandes equipes os treinadores estão sempre ameaçados. Assim, não costumam ter paciência com jovens. Não há espaço para o erro.

Um exemplo é o Boca Juniors, atual campeão. Quando Julio Cesar Falcioni assumiu o comando técnico da equipe, há pouco mais de um ano, o elenco xeneize tinha um bom número de jogadores jovens (ou ao menos com um bom tempo de carreira pela frente) esperando sua oportunidade. E assim continuaram. Falcioni emprestou ou vendeu a maioria e boa parte dos demais segue assistindo as partidas de longe.

O treinador optou por uma equipe de jogadores razoáveis ou bons, mas experientes e confiáveis, e ganhou com facilidade o Apertura 2011. Uma história de sucesso? Quando se pensa no curto prazo, certamente sim. Mas quem pensa no longo prazo vê sérios problemas nessa estratégia.

Dos 11 jogadores considerados titulares por Falcioni, 8 têm 30 anos ou mais. As exceções são Cvitanich e Insaurralde, que completam 28 anos em 2012, e Roncaglia, que tem 25. Assim, é uma equipe de média de idade muito alta, que poucos anos terá pela frente. Enquanto isso, jogadores que poderiam vestir a camisa xeneize por muitos anos estão em outros clubes, geralmente no exterior, ou fazendo figuração no elenco.

O caso xeneize não é uma exceção. É apenas um bom exemplo de um país em que o imediatismo absoluto é a norma (em um nível ainda mais alto do que vemos no Brasil). Com os grandes clubes incapazes de se planejar para o médio prazo, as equipes dos países vizinhos fazem a festa, e recheiam seus elencos com profissionais de qualidade.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Por que contratar, por que não contratar? - Parte II

Martinuccio: flop tricolor em 2011 após chapéu no Palmeiras (Lancenet)
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

Segue a continuação do último post, com dicas teoricamente óbvias (mas quase sempre ignoradas por nossos clubes) a serem seguidas na hora de contratar jogadores sul-americanos.

Paciência
Não é fácil para ninguém se ambientar em um novo ambiente de trabalho. Muito menos em um país novo. Para os jogadores isso é especialmente forte. E não apenas por questões como a língua e a vida em um lugar novo. Esses elementos também pesam, mas há outros elementos que frequentemente não são levados em conta.

O principal é o fato de diferentes países terem diferentes escolas de futebol. Por exemplo, em termos táticos o Brasil tem várias peculiaridades em relação à maioria dos outros países. Uma: esperamos que os laterais exerçam uma importante função ofensiva, enquanto na maior parte dos países esses jogadores são defensores pelo lado do campo, necessitando no máximo aparecer por vezes como elemento surpresa no ataque.

Além disso, temos a peculiaridade de dividir o meio de campo entre jogadores prioritariamente marcadores e outros que são principalmente ofensivos. Assim, o 4-4-2 a rigor praticamente não existiu por aqui, preterido por um 4-2-2-2, em que dois jogadores mais centralizados tem funções majoritariamente defensivas, e outros dois abertos pelos lados do campo são posicionados mais à frente, para atacar geralmente em dupla com os laterais.

Assim, muitos jogadores podem sentir dificuldades, dado que chegam a um país onde se espera que exerçam funções distintas àquelas que estão acostumados. Um exemplo hipotético: Verón atua como volante no Estudiantes. Dificilmente seria bem aceito por aqui nessa função, pois tem como grande diferencial o enorme talento para organizar a equipe a partir do campo de defesa. No Brasil provavelmente seria considerado “ofensivo demais para a posição”.

Mas isso não ocorre na tradição argentina, onde os laterais são mais presos, o que anula a necessidade de dois volantes fixos à frente da zaga. Como nossos laterais avançam com mais freqüência, volantes marcadores são indispensáveis.  O oposto aconteceria com os laterais estrangeiros, que são essencialmente marcadores, e possivelmente seriam tido como “limitados” por aqui.

Nada disso impede o sucesso de jogadores estrangeiros nessas posições. Mas implicam na necessidade de ter em conta esses fatores na hora da contratação. E principalmente em ter paciência até o recém-chegado compreender o que se espera que jogadores da sua função façam por aqui.

Estrangeiros podem ser úteis sem ser protagonistas
Uma curiosa peculiaridade do futebol brasileiro é o fato de que estrangeiros só são aceitos por aqui para serem ídolos. Ainda não conseguimos compreender que jogadores de fora podem ser úteis sem serem os “donos do time”.

E perdemos muito com isso. Para dar um exemplo, os únicos países sul-americanos que tiveram campeões neste fim de 2011 sem argentinos no plantel foram Brasil, Peru e Colômbia. Em várias dessas equipes os jogadores argentinos não foram decisivos, mas muito frequentemente foram úteis para suas equipes.

Outro paralelo possível está na própria Argentina. A maioria absoluta dos clubes da primeira divisão do país possuem jogadores estrangeiros. Em alguns casos são protagonistas, como os colombianos Gutierrez e Moreno, destaques do Racing, ou o uruguaio Santiago Silva, agora na Fiorentina, mas grande destaque na campanha que deu o título ao Vélez Sarsfield no Clausura 2011.

Mas há outros casos. Várias equipes do país possuem bons jogadores uruguaios, chilenos, colombianos, paraguaios ou de outros países do continente. Não são ídolos, mas cumprem com competência sua função para ajudar suas equipes, como o venezuelano Vizcarrondo, o paraguaio Bareiro (ambos do Olimpo), o uruguaio Regueiro (Lanus) e o boliviano Raldés (Colón).

E houve diversos jogadores que passaram recentemente pelo Brasil e, ainda que de qualidade incontestável, duraram pouco por aqui exatamente porque não se compreendeu que poderiam ser úteis às suas equipes, ainda que não fossem exatamente grandes jogadores.

Basta notar quantos jogadores estrangeiros que fracassaram ou foram vistos como decepções nos últimos anos, para em seguida terem desempenho satisfatório em outros países. Urrutia e Equi Gonzalez, que jogaram pouco no Fluminense, são destaques da LDU. Saja, goleiro que saiu sem deixar saudades do Gremio, hoje é referencia no Racing, liderando uma defesa que está entre as melhores do país. Schiavi, campeão da Libertadores e ainda hoje xerife do Boca Juniors, foi reserva do inexpressivo Teco, quando passou pelo Grêmio. Arevalo Rios, de passagem discreta pelo Botafogo, é indispensável para a seleção uruguaia, de grandes sucessos recentes.

Nisso tudo há elementos imponderáveis, como a identificação com a nova camisa ou a adaptação ao país. Mas observar o jogador, saber o que esperar dele, ter paciência e não esperar que ele necessariamente vá ser o melhor jogador do time são atitudes que minimizam a chance de fracasso.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Por que contratar, por que não contratar?

Vargas tanto chamou a atenção dos clubes brasileiros que assinou com o Napoli (UEFA)
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

O futebol brasileiro tem uma nova tradição nos períodos de transferências: as especulações infindáveis sobre jogadores de países vizinhos que podem ser trazidos por clubes brasileiros. A maioria não se concretiza (até porque os clubes e representantes frequentemente inventam interesse de clubes brasileiros para valorizar seus atletas, sem que haja qualquer negociação em andamento), mas várias de fato acontecerão. Algumas resultarão em sucesso, mas outros jogadores inevitavelmente irão fracassar em sua temporada brasileira.

Aqui vão duas dicas para diminuir a possibilidade de contratações mal-sucedidas. São muito simples, tão simples que nem deveriam ser necessárias. Mas como os clubes brasileiros mostram uma incrível persistência em não seguí-las, sempre é bom lembrar.

Jogar bem contra clube brasileiro não é atestado de qualidade
Por incrível que pareça, a maior parte dos clubes brasileiros parece convencida do contrário. Todo ano é a mesma coisa: algum jogador de clube sul-americano faz boa partida contra clubes brazucas em alguma competição continental. E de desconhecido se transforma em objeto de desejo de vários dos nossos clubes. Ninguém sabe nada sobre o jogador, mas como jogou bem contra clube brasileiro, deve ser craque.

O último exemplo foi o chileno Eduardo Vargas. Até a metade do ano, era um completo desconhecido por aqui. Mas suas boas partidas pela Universidad de Chile na Sul-Americana o transformaram em objeto dos sonhos de vários clubes brasileiros. Vargas de fato é bom jogador e seria um ótimo reforço.

Mas a questão é outra: não é um jogador recém saído das divisões de base. Aos 23 anos já tem cinco temporadas como profissional, convocações pela seleção chilena e foi eleito o melhor jogador do Apertura 2011, vencido pelo seu clube. Deveria ter sido notado há tempos pelos clubes brasileiros. Mas isso só aconteceu após seu ótimo desempenho contra Flamengo e Vasco. Tivesse La U estado em outra chave do torneio e seguiria desconhecido por aqui.

Um exemplo mais claro é o de Martinuccio. Jogador sem nenhum destaque na Argentina, onde atuou por um clube da 2ª divisão, acabou no Peñarol, onde fez uma bela partida contra o Internacional no Beira-Rio, e passou a ser visto no Brasil como um grande jogador. Acabou disputado a tapa por Palmeiras e Fluminense, e terminou 2011 lutando para sentar no banco de reservas tricolor. Bastava os cartolas terem perguntado por ele na Argentina, e ouviriam que é um atleta sem projeção. Ou aos uruguaios, onde ouviriam que os destaques daquele time carbonero eram o volante Aguiar e o meia Mier.

Outro exemplo é o Damian Escudero. Jogador talentoso, mas de carreira errática, foi contratado pelo Grêmio no início de 2011. Pessoalmente, como gremista que tem contatos em Porto Alegre, tentei alertar que o jogador não tinha um histórico recente que justificasse a contratação. Não adiantou: para todos os com quem conversei, Escudero era apenas “aquele cara que fez dois gols no Inter na Libertadores 2007”.

2) DVD não substitui a observação
Essa não vale apenas para estrangeiros, mas se aplica particularmente a eles, pois DVD’s de jogadores brasileiros podem ser complementados por indicações de conhecidos em que cartolas e treinadores confiem.

O caso mais notório recentemente foi Defederico (conhecido por muitos como DVDrico). Não que tenha sido propriamente uma contratação ruim: o jovem jogador havia sido peça destacada do Huracán na campanha do vice-campeonato do Clausura 2009 e despontava como promessa. Mas foi contratado para o lugar de Douglas, uma função bem diferente da sua. E com a expectativa de que chegaria ao país um “novo Messi” (Defederico disputava com Toranzo e Bolatti o posto de segundo melhor jogador da equipe; o melhor, indiscutivelmente, era Pastore). Contratado para jogar fora de sua posição com expectativas irreais, o fracasso era inevitável.
           
Por pouco não aconteceu um caso semelhante, quando um clube grande brasileiro esteve muito perto de contratar Patrício Toranzo, do Racing, julgando tratar-se de um clássico enganche. Na verdade o jogador atua em uma função que não existe há tempos no Brasil: é um “8” à moda antiga, um segundo volante que organiza o jogo a partir do campo de defesa, e é ótimo no passe e no arremate a gol. Já jogou mais perto da área adversária (como no Huracán do Apertura 2009), mas sem maior sucesso. Se tivesse vindo, dificilmente teria sucesso, pois chegaria para desempenhar uma função que não é a sua.

Esses problemas poderiam ser minimizados de forma simples. Bastaria que os clubes brasileiros fossem de fato profissionais e tivessem alguém acompanhando as ligas dos países vizinhos. Poderiam identificar talentos antes de eles se valorizarem muito, evitar erros de avaliação e escapar do cerco dos empresários e seus DVD’s mágicos. E seria um momento perfeito para isso, pois o Brasil tem moeda mais forte e economia mais sólida que a dos vizinhos, além dos clubes terem aumentado sua receita de TV. Mas aparentemente preferem desperdiçar essa possibilidade, contratando sem cuidado e rezando para dar certo.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Ligas sul-americanas: fórmulas e situação de momento

Festa do Nacional, campeão uruguaio desta temporada (Lancenet)
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

Não é apenas no Brasil que a liga nacional chegou ao fim. Em todo o continente sul-americano as competições domésticas estão na reta final. Como cada país tem uma fórmula diferente, é comum que os que tentam acompanhar esses campeonatos se vejam em dificuldades. Este post tenta explicar melhor como se decide o campeão nos países sul-americanos.

Na Argentina vigora a temporada europeia, de agosto a junho, com dois torneios em que 20 clubes se enfrentam apenas uma vez em cada um, com dois campeões por temporada. O Apertura 2011 ainda terá duas rodadas, mas o Boca Juniors se sagrou campeão por antecipação neste domingo, ao vencer o Banfield por 3 a 0.

No Uruguai o sistema é semelhante, mas com 2 importantes diferenças: são apenas 16 clubes e há um único campeão anual. Ao fim do Clausura, os dois campeões da temporada se enfrentam em jogo único. O vencedor enfrentará o melhor na soma anual em duas partidas, que definirão o campeão. Caso um dos campeões seja também o melhor na tábua anual, a partida semifinal ocorre igualmente. Se essa equipe for a vencedora é a campeã do ano. Se a outra equipe vencer, haverá uma decisão.

Na última temporada, por exemplo, se enfrentaram Defensor, que ganhou o Apertura e o Nacional, campeão do Clausura, e também o melhor na soma dos dois torneios. Se o Defensor vencesse, iria à final contra o próprio Nacional. Como o Bolso venceu, se sagrou campeão sem necessidade da grande final. No momento os tricolores sonham em repetir a façanha, pois se sagraram campeões do Apertura ao vencer o Liverpool por 1 a 0, gol de Recoba.

A Bolívia acaba de adotar o calendário europeu, e assim como a Argentina o país tem dois campeões por temporada. Mas a fórmula não é a de pontos corridos: se formam duas chaves de seis equipes, cada qual classificando quatro para a fase de mata-mata, que começou no último fim de semana com as partidas: Bolívar 1 x 0 The Strongest, San José 1 x 0 Aurora, Nacional Potosí 2 x 3 Universitário Sucre e Guabirá 0 x 0 Oriente Petrolero.

O Chile tem calendário anual, de fevereiro a dezembro, e dois campeões anuais. Mas ao fim de uma fase classificatória, em que todos se enfrentam uma vez, há um mata-mata entre os oito primeiros. O Apertura foi vencido pela Universidad de Chile, e o Clausura iniciou os play-offs no último fim de semana. Os resultados foram: La Serena 2 x 6 Colo-Colo, Universidad Catolica 3 x 1 Audax Italiano, La Calera 0 x 1 Cobreloa e Unión Española 0 x 1 Universidad de Chile.

O mesmo sistema é utilizado na Colômbia, que também teve sua primeira rodada das quartas de final. Os placares foram: Boyacá Chicó 0 x 0 Junior (suspenso no intervalo quando o bandeira foi agredido por um torcedor), Santa Fé 3 x 2 Itagui, América 0 x 0 Once Caldas e Envigado 2 x 1 Milionários.

No Paraguai também há calendário anual e dois campeões anuais. Mas como são apenas 12 equipes, tanto o Apertura quanto o Clausura são jogados em sistema de ida e volta. O Nacional venceu o Apertura, e faltam 2 rodadas para o fim do Clausura. No último, o Libertad lidera com 38 pontos, seguido por Olimpia com 37 e Cerro Porteño com 36.

O sistema equatoriano lembra bastante o paraguaio, mas nele há um campeão anual, conhecido a partir do encontro entre os vencedores das duas etapas. Em 2011 esse confronto será entre Emelec e Deportivo Quito.

No Peru há um torneio único no ano, o Descentralizado, com um sistema semelhante ao brasileiro, mas com uma grande diferença: os dois primeiros colocados fazem uma decisão para conhecer o campeão. Essa final ocorrerá a partir desta semana, entre Alianza Lima e Juan Aurich.

Na Venezuela o sistema é semelhante ao argentino e uruguaio, com temporada acompanhando a europeia e dois torneios anuais, mas com um campeão anual, conhecido no confronto entre os dois campeões. No Apertura, a 2 rodadas do fim, o líder é o Deportivo Lara com 35 pontos, dois à frente do Caracas.