Ivo Ivanov chora com a eliminação do Levski na Liga Europa: que ocasião
inesperada, meu caro colega búlgaro! (Reuters)
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP
Poucos gols contra são tão lembrados quanto o de Andrés Escobar em 1994, o de Oséas no clássico entre Palmeiras x Corinthians em 1999. Certamente os amigos leitores darão outros exemplos nos comentários, mas fato é que nenhum deles foi um recorde ou tão bizarro quanto a situação desta TF História em particular.
Era a noite de 4 de novembro de 2010, partida de Liga Europa, coisa e tal. Se enfrentavam no Georgi Asparuhov em Sofia Levski e Lille. Quarta rodada da chave C que tinha além destes rivais o Sporting e Gent. Pois bem, ninguém sabia que aquele duelo em especial definiria muita coisa nos classificados para a próxima fase. Ao fim deste round, avançaram Sporting e Lille, com 12 e oito pontos, respectivamente.
Garra Dembelé abriu o placar para os búlgaros aos 11 iniciais. Túlio de Melo daria números iguais aos 35 e o empate permaneceria até que Vladimir Gadzhev, aos 82', reviver as esperanças dos torcedores do Levski. A euforia tomou conta das arquibancadas locais e os adeptos foram à loucura com a possibilidade de ver o seu amado time entre os 32 melhores do certame europeu.
Restando dois minutos para o apito final, o treinador Yasen Petrov mexeu na formação. Tirou o meia macedônio Dario Tasevski, para fechar o sistema defensivo com o beque Ivo Ivanov. O grandalhão entrou e foi logo correndo para a sua área, afim de ajudar na marcação, os franceses tinham uma falta para cobrar na faixa de 35m.
Momento da proeza de Ivanov (AP)
Com a mesma empolgação que adentrou o relvado, o zagueiro subiu na bola mais alto que os adversários e conseguiu tocar de cabeça. No entanto, o que era para ser um alívio para a retaguarda azul, se tornou um pesadelo. A pelota foi direto no gol de Kiril Akalski, que nada conseguiu fazer para evitar o desastre. Em 18 segundos Ivanov entrou e marcou contra seu próprio time, para o desespero dos companheiros na lateral que custavam a acreditar no acontecido.
Desolado, Ivo se atirou ao chão e ficou durante os minutos finais buscando uma explicação para tamanho azar (ou incompetência). O resultado final frustrou toda e qualquer expectativa de classificação, que seria completamente descartada duas rodadas depois, mesmo com a vitória de 1-0 sobre o Sporting no mesmo estádio Georgi Asparuhov, desta vez com Ivanov entre os onze iniciais. Apenas para enfatizar o tamanho do prejuízo, o Lille passou com um ponto a mais que o Levski.
"Não tenho nenhuma explicação. A bola simplesmente bateu na minha cabeça e entrou. Foi doloroso ver que isso aconteceu. Este foi o pior momento da minha vida", comentou o pobre Ivo, que ainda joga pela agremiação azulada de Sofia. E sim, este foi o gol contra mais rápido da história, marcado no intervalo de 18 segundos entre o ingresso do atleta ao gramado até o gol. Incrível façanha.
Nota do editor: Infelizmente o vídeo com o lance foi deletado e nem na UEFA consta. O acesso aos lances da partida está limitado para quem é cadastrado no site da federação. De qualquer forma, fica o registro. Atualização às 22:11 - O colega @a_esportivo, Alexandre Perin encontrou um link com o vídeo dos melhores momentos da partida entre Levski - Lille, incluindo o último gol contra em questão. Pode ser visto aqui >> http://eurorivals.net/levski-sofia:lille-highlights-goals-video_20101104.html
Bobby Robson e a taça UEFA de 1981 (Site oficial Ipswich)
Felipe Portes, @portesovic
De Zlatibor-SRB
Poucos treinadores tem sua carreira atrelada a certa campanha ou time como o lendário Sir Bobby Robson. Certamente o maior nome da história do Ipswich Town (hoje figurante da Npower Championship), Bobby foi contemporâneo e rival do não menos genial Brian Clough, que deu a Derby County e Nottingham Forest seus maiores períodos de glória. Para o mal, temos outro grande exemplo como o de Béla Guttmann, campeão europeu com o Benfica e que amaldiçoou os Encarnados anos depois ao ser praticamente dispensado do comando da equipe.
Sempre com muita classe e sabedoria, Robson foi um dos grandes exemplos dentro do esporte, de que a inteligência e disposição tática faziam sim tanta diferença quanto o talento ou a superioridade técnica. Na Inglaterra, fez seu nome inicialmente como jogador. Atacante, chegou a ser convocado algumas poucas vezes para o English Team, em cinco anos. Se aposentou como atleta em 1968, assumindo de imediato o comando técnico do Fulham.
Em 1969 seria o treinador do Ipswich, cargo que teria até 1982. Já campeões nacionais em 1962 sob a batuta de Alf Ramsey (por coincidência campeão do mundo com a Inglaterra quatro anos depois) e ainda vindos de um acesso da Segunda divisão, os Tractor Boys foram novamente rebaixados em 1964. Foi Bill McGarry o homem a tirar o clube de apuros e ganhar nova promoção em 1968. De partida para o Wolverhampton, foi substituído por Robson, que levaria a acanhada equipe ao hall das grandes forças britânicas nas décadas de 1970 e 80.
No Portman Road, não viu limites para seus pupilos. Apostando sempre em crias da base do Ipswich, pouco contratou durante sua passagem por lá. Conquistou uma Texaco Cup em 1973, uma competição que envolvia clubes do Reino Unido que não haviam se classificado para outras taças europeias. Começava ali o ressurgimento dos Tractor Boys para o futebol inglês.
Ipswich derrotou Arsenal na final da F.A Cup de 1978: Robson fez o time
ser um dos grandes no país. *O segundo à esquerda não é o Seu Madruga*
(Foto: BBC)
As louváveis e consequentes campanhas dos comandados de Robson culminaram em uma grande final frente o Arsenal em 1978 pela F.A Cup, na qual o Ipswich venceu por 1-0. Não bastasse as grandes caminhadas que por vezes incomodaram os rivais diretos e deram esperança de novos títulos da Liga aos torcedores, mais um caneco viria em curto espaço de tempo.
Com a terceira colocação no Inglês de 1979/80, a nova possibilidade de ingressar na extinta Copa UEFA. Deixando pelo caminho Aris, Bohemians Praga, Widzew Lodz, Saint-Étienne e Colônia antes da eletrizante decisão contra o AZ Alkmaar. O caneco veio após um 3-0 no Portman Road e 2-4 na Holanda. A primeira conquista internacional daquele plantel, em 1981, foi também o marco da transição de Robson na carreira. O English Team o esperava novamente.
Robson voltou a se firmar como grande treinador de clubes após a
Copa de 1990, no PSV (PSV.nl)
O mestre e seus promissores pupilos
Bobby esteve no comando da seleção inglesa nos mundiais de 1986 e 1990, alcançando as fases de quartas e semifinais, respectivamente. Logo depois da Copa na Itália, encarou a tarefa de domar o PSV, com um elenco deveras difícil de lidar, em especial Romário, que lhe confrontou algumas vezes em seu tempo por Eindhoven. Com todos estes elementos, Robson ergueu o bicampeonato holandês.
Migrou então para Portugal, onde assinaria com o Sporting em 1992. A parte interessante da história vem quando você sabe quem era o intérprete de Bobby nos Leões. José Mourinho, que somava trabalhos como assistente no Estrela Amadora e nas camadas jovens do Vitória de Setúbal era o fiel escudeiro do inglês em Lisboa.
Passando em branco pelo clube lisboeta, Robson não obteve êxito ao tentar confrontar a diretoria sportinguista, que administrava mal a política interna. Derrotado nas oitavas de final da Copa UEFA de 1993/94 pelo Casino (atual Red Bull) Salzburg, acabou sacado do comando ao fim de 1993.
Dupla com Mourinho foi bem sucedida no Porto e no Barcelona
Foto: It's the football, that's the football
Foi aí que o Porto enxergou a grande chance de manter a hegemonia no cenário nacional. Bicampeões portugueses em 1995 e 1996, os Dragões contavam com uma defesa imponente, base da seleção lusa. Além do triunfo duplo na Liga, A parceria entre Mou e Sir Bobby vingou e representava a harmonia entre as tendências táticas de cada um dos dois. Zé, que havia começado apenas como intérprete, se tornou vital no planejamento do chefe inglês. Neste intervalo, outra cria foi surgindo nos celeiros de manager em Portugal. André Villas-Boas, que morava no mesmo prédio que Robson, fez questão de mostrar a sua capacidade ao treinador do FCP.
Villas-Boas ganhou a condição de pupilo, aos 16 anos, tomando conta de times juniores do Porto na ocasião, já que era menor e não poderia assumir funções profissionais. Fez parte de sua preparação no Reino Unido e estágio no Ipswich, que consagrou o seu mentor. Anos depois viraria braço direito de Mourinho no mesmo Porto.
Mou, Sir Bobby e Ronaldo: mais sucesso no último ato da parceria
(Mourinho fans)
Não demorou a Sir Bobby ser chamado pela alta cúpula blaugrana. Ele colhia os frutos do sucesso por onde pisava e no Camp Nou não seria diferente. Responsável pela contratação de Ronaldo, o inglês desenvolveu um plantel eficiente e levantou uma Supercopa Europeia, uma Supercopa espanhola e uma Copa do Rei no período de dois anos, que também seria sua última honraria refletida em taças.
Retornou rapidamente ao PSV, por apenas uma época. Terceiro colocado na Eredivisie, garantiu apenas uma vaga europeia aos rapazes de Eindhoven antes de realizar o antigo sonho de ser treinador do Newcastle. Por quase cinco anos ficou à frente dos Magpies de St. James Park. De 1999 a 2004 sofreu com os altos e baixos do time que ainda enfrentaria nebulosa maior com o rebaixamento em 2008/09.
Condecorado com o ingresso ao Hall da fama do futebol inglês e muitas outras formas de reconhecimento pelo papel desempenhado em mais de 50 anos dedicados ao futebol, Sir Bobby Robson faleceu em 2009 aos 76 anos, vítima de um câncer no pulmão.
Lee Bowyer: veterano e referência no elenco dos Tractor Boys
(betting.stanjames.com)
Ipswich e os intermináveis anos de frustração
O Ipswich, por sua vez, desceu a ladeira. No mesmo efeito de Clough-Forest, provou do rebaixamento e a estagnação em divisões inferiores, poucos anos depois. Sem disputar a Premier League desde 2001, os Tractor Boys convivem com a sombra de um passado dourado e brilhante. Acostumados a ficarem na parte de baixo da classificação da Npower Championship, permanecem sem perspectiva alguma de crescimento ou recuperação nos próximos anos.
Enfrentando uma falência administrativa no início da década passada, quase conseguiram o retorno em 2004/05 à Premier League, sendo eliminados nos playoffs pelo West Ham. A compra do clube por Marcus Evans, empresário inglês, em 2007 ajudou a simpática agremiação a sobreviver. Entretanto, isso não significa que haja algum sucesso em âmbito nacional, tendo em vista a ineficácia do Ipswich de bater os piores competidores na segundona, longe de qualquer briga por título.
Carentes de holofotes e motivação, os Tractor Boys atualmente vivem apenas das memórias do que foi construído por Sir Bobby, já em outro plano. Outrora campeões nacionais e da Europa, fizeram o caminho dos decadentes que só podem lutar para sair do fundo do poço. Resta esperar que um novo guia os conduza rumo à redenção, o que seria perfeitamente plausível dentro do futebol, que sempre reserva grandes surpresas.
Petric teve seu momento épico durante a passagem pelo Basel (Welt.de)
Felipe Portes, @portesovic
De Novi Sad-SRB
Era novembro de 2006 e a Copa UEFA rodava a todo vapor para definir os classificados para a etapa de mata mata. O grupo E tinha Blackburn, Nancy, Feyenoord, Wisla Krakow e Basel. Os suíços, em dada jornada, lutavam para abocanhar a segunda vaga para o próximo round. Somando apenas um ponto, enfrentariam o Nancy no St. Jakob, na Basileia.
Pois bem, o Basel à época contava com um seleto pelotão estrangeiro. Apenas Zanni era natural da Suíça entre os onze iniciais, figurando num elenco com atletas já renomados como Kuzmanovic, Rakitic, Chipperfield, Ergic, Sterjovski e Petric, o protagonista dessa curta história de hoje. Não bastasse o amontoado eslavo escalado pelo então treinador Christian Gross, aquela partida em especial seria marcada pelas participações de australianos.
Kim e um voleio na cara de Chipperfield (UEFA)
Truncado, o confronto teve os franceses saindo na frente, aos 32 pelos pés de Kim (sim, aquele mesmo, que hoje está no Vasco). Um minuto depois, Chipperfield empatou. Não satisfeitos, os visitantes desempataram novamente, com Berenguer. Só aos 12 da etapa complementar Sterjovski daria números iguais ao marcador.
O Nancy tomou conta do segundo tempo e estava com a faca e o queijo nas mãos, quando Kim tabelou com Issiar Dia, disparando na esquerda. O senegalês cortou para o lado de fora e tentou o drible no arqueiro Costanzo, que saiu assaz atrapalhado para pegar a bola e acertou as pernas do rival, cometendo pênalti. Detalhe, o lance foi nos acréscimos.
"Cara, e agora?", indagou o argentino, expulso de campo. "Sai que é minha, mano", respondeu sem pestanejar o croata Petric. "Como assim, véi?" tornou a indagar o guarda redes. "Deixa que eu vou resolver essa parada, senta lá no banco que é nois, irmão", completou o croata ao pegar as luvas e a camisa já suja do colega. "Firmeza, vai lá, brou", aceitou Costanzo.
Saindo de campo frustrado pela bobagem, o arqueiro já esperava pelo pior. A culpa pela derrota e virtual eliminação, a bronca do pofexô Gross, a cobrança da torcida do Basel. Parado debaixo das traves, Petric assumiria mais uma responsabilidade além da de ser craque do elenco. De ser um dos poucos jogadores de linha a quebrarem galho no gol e passarem sem ser vazados.
Chretien, que havia ingressado na peleja já no segundo tempo se encarregou da cobrança. Petric abriu as asas e se preparou para escolher o canto. Na bola, o marroquino estava tenso com a importância da penalidade. Como dizem os antigos, correu e telegrafou o local do chute, facilitando a vida de Mladen, que deu um passo maroto à frente e acertou o lado. Em dois tempos (quase soltou a pelota) praticou a defesa e evitou a derrota, de forma heroica e inesperada.
Em tempo, o embate terminou em 2-2, e por obra do destino, o Basel foi lanterna do grupo. Eliminado e perdendo seu último compromisso frente o Wisla, por 3-1 na derradeira ronda daquele certame que teve como campeão o Sevilla, em eletrizante final contra o Espanyol.
O restante da história de Petric vocês já sabem. Peça essencial na seleção croata, já soma passagens por Borussia Dortmund e Hamburgo. No entanto, seus gols jamais chegarão ao tom épico daquele inusitado penal defendido na extinta Copa UEFA.
Erick Ribbeck ao lado de Cha-Bum-Kum: Bayer não é tão derrotado como sugerem (UEFA)
Felipe Portes, @portesovic
De um filme de suspense-SP
Quando se fala em Bayer Leverkusen, logo se associa a imagem de um clube azarado, amarelão, fama adquirida nos últimos anos, especialmente na década de 2000. Experiente no quesito "perder campeonatos para si mesmo", a equipe germânica levantou um caneco internacional em 1988, acredite. Vencendo a extinta Copa UEFA em 1988, os rapazes da farmácia entraram no seleto grupo de clubes alemães a ter conquistas continentais.
O sexto lugar na Bundesliga ao fim de 1986/87 credenciou os rubronegros a disputarem a segunda competição mais relevante de clubes na Europa. Na teoria, não era lá um plantel de botar medo nos adversários. Na prática, muito menos (risos). Capitaneados pelo já veterano Wolfgang Rolff, com passagens por Hamburgo, Colônia, Strasbourg e Karlsruhe, o Bayer ainda tinha como trunfo o já famoso Tita (ele mesmo), o grego Minas Hantzidis e o pioneiro coreano no velho continente, Cha Bum-Kum.
No primeiro embate ainda na rodada inicial (eliminatória em dois jogos), fora de casa contra o Austria Viena, um 0-0 insosso. Para a segunda perna do confronto, no Ulrich Haberland Stadion (atualmente com o nome BayArena) a surpreendente arrancada. 5-1 nos vizinhos vienenses foi o ticket alemão para a próxima fase. Representando bem o país ao lado de Borussia Dortmund, Monchengladbach e Werder Bremen, os rapazes da farmácia teriam pela frente o Toulouse de Yannick Stopyra e Dominique Rocheteau, ambos presentes no Mundial de 86 onde Les Bleus foram derrotados pela National Mannschaft nas semifinais.
Foi osso duro de roer. Empate na bacia das almas por 1-1 no Municipal de Toulouse. As principais equipes francesas viviam seus últimos suspiros de glória fora de seu território. Que dirá o Marseille, campeão da Liga dos Campeões, anos depois. O pingo de esperança de Les Pitchouns (os garotos, em francês) se esvaiu quando o Leverkusen conseguiu a vantagem mínima em seus domínios, deixando pelo caminho o último competidor oriundo da França, já que o Auxerre havia sido derrotado já na primeira fase.
O grau de dificuldade ia aumentando cada vez mais, afunilando e separando os grandes candidatos das zebras. Na terceira fase já não era fácil para ninguém, exceto para Barcelona e para o Werder, que duelavam contra Flamurtari Vlore, da Albânia, e Dinamo Tblisi, da Geórgia [ainda integrante da URSS], respectivamente. E convenhamos, foi tarefa fácil passar destes obstáculos. Agora, para o Bayer, era hora de tentar a sorte contra o Feyenoord, sem grandes nomes memoráveis. O equilíbrio prevaleceu na peleja marcada para o De Kuip, em Roterdã. 2-2 foi um resultado justo para dois oponentes que buscaram o ataque.
Era também chegado o ponto para o treinador Erick Ribbeck pensar sobre a postura adotada pelos seus comandados. Sem apresentar todo o seu potencial longe de casa, o técnico tratou de focar na defesa, em não levar mais tantos gols, colocando em risco a participação da equipe no torneio, visto que o saldo de gols nas duas pernas poderia fazer a diferença. Assim se fez, e na Alemanha, para o retorno contra os holandeses, o Leverkusen deixou o seu modesto gol e administrou a situação para às quartas de final, contra o Barcelona.
Como sempre, os blaugrana tinham um elenco forte, consistente e com certo toque de seleção, com seus craques de nível internacional. Andoni Zubizarreta, Bernd Schuster, Gary Lineker, Steve Archibald e Mark Hughes eram as estrelas da companhia. Não como nesta edição da LC, os espanhois tiveram mais trabalho para tentar vencer o lado germânico. Invertendo as lições de Ribbeck, o Leverkusen empatou sem gols em casa e partiu para jogar o tudo ou nada no Camp Nou, palco de lendários confrontos desde que o futebol é futebol.
No entanto, a estrela de Tita brilharia para decidir o vencedor daquele encontro. Ele havia sido campeão mundial pelo Flamengo em 1981 e em 1983 pelo Grêmio, quando chegou ao Leverkusen em 1987 e só ficou por lá justamente durante o período que conquistou o caneco desta Copa UEFA. Numa tarde onde a torcida do Barça não marcou presença, o cotejo era truncado, bem marcado e sem muitas chances. Aos 59', o atacante brasileiro marcaria o gol solitário para o lado alemão, que enfrentaria um rival do próprio país na semifinal.
A tendência para testar os torcedores cardíacos continuava no estilo do Leverkusen. Alois Reinhardt balançou as redes do Bremen aos 61', iluminando uma partida complicadíssima na BayArena. Ribbeck estava satisfeito, pois jogando feio ou não, o bom trabalho aparecia, os bons resultados eram fruto de consistência e o rubronegro mal sofria gols. No Weser Stadion, novo empate sem gols e a vaga na decisão para enfrentar o Espanyol, que superou o Club Brugge na outra chave de semifinal.
Losada sobe de cabeça para marcar o primeiro do Espanyol, no jogo de ida (The trequartista)
Final equilibradíssima só vê vencedor nas penalidades
Veja bem, o Espanyol não era lá um adversário fácil de ser batido. Treinados pelo polêmico Javier Clemente, os blanquiblaus desmontaram o sistema defensivo quase infalível do Bayer, marcando três gols com Losada (2) e Soler. A retaguarda espanhola também era consistente, com Golobart, Miguel Ángel, Santiago Urquiaga e José Maria Gallart, sem falar no excelente e lendário arqueiro camaronês Thomas N'Kono. O placar de 3-0 no Sarriá foi um duro golpe na confiança de Ribbeck e seus comandados, mas ainda haviam 90 minutos de jogo em casa.
Era 18 de maio de 1988, e o clima era de preocupação. Tendo de reverter a desvantagem, o Bayer entrou em campo para fazer uma atuação épica afim de sair de campo com o troféu. Foi-se todo um primeiro tempo tenso e com pressão em cima da defesa espanhola. Foi preciso 11 minutos da etapa final para que Cha Bum-Kum partisse pela direita e fizesse o cruzamento. Golobart domina e ao sair jogando, se atrapalha e não vê Tita se aproximar para dar um toque e inaugurar o marcador. Visivelmente com pressa, o brasileiro correu com a bola para o meio campo, não havia tempo para comemorações. Minutos depois, foi substituído por Klaus Täuber e viu do banco de reservas o desfecho dramático.
Com maestria, Täuber recebe na esquerda e dispara. Em certo ponto mira o cruzamento e manda a bola com força para a área. Falko Götz mergulha e cabeceia para fazer o segundo, aos 63'. Ainda faltava um. De forma heróica em falta cobrada por Rolff, o coreano Cha sobe mais alto que os oponentes e dá números iguais à decisão em Leverkusen. Teríamos penais para definir o vencedor.
Pichi Alonso cobrou e colocou o Espanyol na frente. Ralf Falkenmayer desperdiçou a primeira cobrança para o Bayer. Job converteu e Rolff também fez sua parte. A história mudaria ali. Urquiaga carimbou o travessão e Herbert Waas marcou, igualando as penalidades. Malandro, Rüdiger Vollborn intimidava os adversários com tímidas dancinhas (emulando Bruce Grobelaar em 1984). Manuel Zuñiga chutou mal e o guarda metas alemão defendeu, no meio do gol. Täuber também converteu seu tiro e deixou nos pés de Sebastián Lozada, o artilheiro do rival, o peso de definir a disputa.
Nova provocação de Vollborn fez com que o atacante mandasse a bola pelo alto, dando a taça aos germânicos, que tanto foram eficientes na sua defesa e cederam apenas cinco gols ao longo do certame. Esse feito fica lembrado como o primeiro triunfo do Neverkusen, que depois disso só venceria em 1993 a DFB Pokal.
Vollborn foi essencial para a vitória nos penais (Spox.com)
Pogrebnyak e o grande Zenit campeão da Copa Uefa em 2008 (Detriva Blog)
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP
Numa edição marcada por surpresas interessantes classificadas para a decisão em Manchester, a Copa Uefa de 2007/08 teve como campeão o emergente Zenit, num desfecho que certamente não era previsto, ao olharmos para a fase preliminar. Contudo, apesar da controvérsia envolvendo o duelo contra o Bayern nas semifinais, não deixa de ser uma história interessante a ser contada.
Tudo começou com o quarto lugar na Premier League russa em 2006 (o calendário russo era idêntico ao brasileiro na ocasião), quando o CSKA levantou a taça e foi seguido por Spartak Moscou e Lokomotiv, antes dos rapazes celestes de St. Petersburgo. O consolo para uma campanha nacional mediana foi justamente a vaga para a Copa UEFA supracitada. Nela, os Bomzhi (algo como andarilhos em russo) se consolidaram como uma das novas forças impulsionadas por injeção financeira (da Gazprom neste caso), uma mania ainda em crescimento naquele ano no cenário europeu.
O primeiro passo para este reconhecimento veio contra o Zlaté Moravce, da Eslováquia, na segunda eliminatória. Dois passeios, fora e dentro de casa. 2-0 e 3-0 selaram o ingresso da celeste soviética ao próximo round. A seguir, viriam os belgas do Standard Liège, supostamente aumentando o grau do desafio do Zenit rumo à fase de grupos. No agregado, 4-1, com 3-0 no Petrovsky e 1-1 em Liège, em um confronto de certa forma simples para os russos.
Avançando para a chave A, ao lado de Everton, Nuremberg, AZ Alkmaar e Larissa, Arshavin e sua intrépida trupe por pouco não foram eliminados, ao ficarem na terceira colocação, somando cinco pontos em quatro jogos. Entretanto, a esperança ainda estava viva, mesmo com más apresentações neste round do certame. A única vitória dos bomzhi foi justamente contra o Larissa, por 3-2, fora de casa. Os gols foram marcados por Pogrebnyak, Zyrianov e Fatih Tekke.
Os muitos empates neste estágio não empolgavam muito a torcida e nem a diretoria, que acreditavam em melhores atuações e resultados. De tanto sofrer, na fase de 16 avos de final o Zenit reagiu, logo contra o Villarreal. Em difícil confronto em St. Petersburgo, Pogrebnyak fez o gol solo dos mandantes aos 64 minutos, dando tons de drama ao duelo contra os espanhóis.
Na volta, no El Madrigal, novamente Pogrebnyak deixou a sua marca, aos 31. O submarino amarelo bem que virou a parada, com Franco e Tomasson, no último minuto, mas a regra do gol fora de casa classificou os russos, já devidamente motivados. Para quem pensa que a missão ficou mais fácil a seguir, o Zenit teve o Marseille como adversário nas oitavas.
Os franceses estavam num processo de reestruturação e amargavam a hegemonia do Lyon no Francês. Jogando pela primeira perna do confronto, o Marseille emplacou 3-1 nos russos, com doblete de Cissé e outro de Niang. Arshavin descontou para os visitantes que sem sombra de dúvida ficaram em maus lençóis para tentar uma virada em território soviético.
Quem não tem Ronaldo, ataca com Pogrebnyak. O grandalhão mais uma vez foi fundamental para o triunfo azulado, marcando dois tentos (aos 39 e 78) e conduzindo o Zenit ao inédito papel nas quartas (2-0), deixando um forte Olympique de Cana, Nasri, Valbuena, Niang e Cissé para trás. Outra vez, se aproveitando do gol fora de casa, marca registrada dos russos na disputa.
Num instante raro de tranquilidade do Zenit na Copa UEFA, o Leverkusen foi atropelado em casa, pelo placar de 4-1, na BayArena. Arshavin iniciou os trabalhos aos 20, Kiessling empatou aos 31 e depois disso só ladeira abaixo para os germânicos. Pogrebnyak, Anyukov e Denisov resolveram o cotejo antes da marca de 15 da etapa complementar. Para a volta, no Petrovsky, Bulykin marcou para o Bayer e ao menos honrou seu grupo, 1-0.
Imagem do duelo polêmico entre Zenit-Bayern, que levantou suspeitas de corrupção dos alemães (Daily Mail)
O momento crucial da caminhada
O oponente da vez era o poderoso Bayern, que passeava pela Copa UEFA naquela temporada. Poderia em qualquer circunstância significar o fim do sonho para os russos, mas não nesta em especial. O primeiro capítulo da novela foi disputado na Allianz Arena em Munique, no dia 24 de abril de 2008. Ribéry abriu o marcador aos 18 e viu Lúcio descontar (contra) para o Zenit.
Para o embate no Petrovsky, o inesperado aconteceu. Mas vamos relatar o que aconteceu extra-campo. Em reportagem do Daily Mail, ainda em 2008, foi levantada a suspeita de uma "venda" do resultado favorável aos soviéticos. O Bayern teria aceitado perder a partida por 4-0, pelo valor de 50M de euros, acusava o promotor espanhol Baltazar Garzon, responsável pela Operação Troika. A ação envolveu 400 agentes da polícia espanhola e conseguiu deter cerca de 20 membros da máfia Tambovskaya, oriunda de St. Petersburg, nas cidades de Mallorca, Málaga, Madrid e Alicante, numa tacada só.
Os mafiosos foram detidos sob acusação de lavagem de dinheiro, tráfico de armas e entorpecentes, além de homicídios. O burburinho envolvendo uma suposta entrega por parte dos alemães fez sentido ao analisarmos a participação da defesa bávara nos tentos sofridos. Oliver Kahn falhou na metade dos gols e dividiu a parcela de culpa com o seus companheiros de setor, que também não colaboraram muito para evitar um massacre por parte do Zenit. *OBS: Nenhum vídeo deste jogo foi encontrado, todos foram removidos pela UEFA.
A diretoria soviética afirmou na ocasião não ter envolvimento e ainda declarou que o caso não passou de "uma ofensa às raízes do clube", em coletiva pouco depois do estouro do escândalo. Fecha parênteses, segue com o relato dentro das quatro linhas. Não é preciso dizer que nenhuma providência foi tomada pela UEFA, que investigou 26 partidas daquela edição da Copa UEFA e não teve evidências conclusivas. (Que surpresa)
Pogrebnyak inaugurou o marcador aos 4, Zyrianov aumentou aos 39, Fayzulin fez o terceiro aos 54 e o matador Pogrebnyak dobrou o seu feito aos 73, aproveitando-se da estranha fragilidade defensiva dos oponentes para chegar às redes. A façanha deixou a cidade de St. Petersburgo em festa, com fãs enlouquecidos como nunca antes na história da Rússia pós-dissolução da URSS.
Com vaga garantida na decisão, no estádio City of Manchester, o Zenit ainda teria de passar pelo Rangers para se sagrar campeão da Europa. Tarefa não muito desafiadora diante dos passados triunfos nas fases anteriores.
Em 14 de maio de 2008, Denisov (72´) e Zyrianov (93´) marcaram os gols que deram a taça UEFA aos celestes soviéticos. Arshavin foi o melhor homem em campo, sempre com muita criatividade e velocidade pelo lado bomzhi. O Rangers não foi páreo para os poderosos rapazes de St. Petersburg, como não haveria de ser depois da grande superação de seu rival naquela noite.
O legado ficou nos lados do Petrovsky. Um título nacional depois, o Zenit é hoje a principal força na Rússia (tanto como time a ser batido quanto no sentido de investimento) e colhe os frutos daquele 2008 inesquecível.
Dick Advocaat é erguido pelos atletas na festa do título europeu (UEFA)
Zenit: Malafeev, Krizanac, Anyukov, Sirl e Shirokov. Tymoschuk, Zyrianov, Fayzulin e Denisov. Arshavin e Pogrebnyak. Téc: Dick Advocaat
Rangers: Alexander, Weir, Broadfoot, Papac e Cuéllar. Whittaker, Ferguson, Hemdani e Thomson. Davis e Darcheville. Téc: Walter Smith
Todos os jogos do Zenit
2ª Pré-eliminatória
Zlate Moravce 0-2 Zenit
Zenit 0-3 Zlate Moravce
Play-off
Zenit 3-0 Standard Liège
Standard Liège 1-1 Zenit
Fase de grupos
Zenit 1-1 AZ Alkmaar
Larissa 2-3 Zenit
Zenit 2-2 Nuremberg
Everton 1-0 Zenit
16 avos de final
Zenit 1-0 Villarreal
Villarreal 2-1 Zenit
Oitavas de final
Marseille 3-1 Zenit
Zenit 2-0 Marseille
Quartas de final
Leverkusen 1-4 Zenit
Zenit 0-1 Leverkusen
Semifinais
Bayern 1-1 Zenit
Zenit 4-0 Bayern
Final - 14 de maio de 2008 - City of Manchester Stadium