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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Crescimento repentino. Será?

Aleksandr Yaroslavskiy e seu amigo Roman Abramovich (AP)
Gilmar Siqueira, @GilmarSiqueira
De Jaboti-PR

Várias vezes falei da hegemonia de Shakhtar Donetsk e Dynamo Kyiv na Ucrânia. É inevitável mencionar a UPL e deixar de lado este detalhe. Por muito tempo se acreditou que o Dnipro fosse o único time que poderia tentar "quebrar" isso, mas hoje o pensamento é diferente. Depois de ficar na terceira colocação por 5 temporadas consecutivas, o Metalist está cada vez mais próximo de fazer frente aos 2 máximos campeões ucranianos. 

Para o resto do mundo, o Metalist ganhou mais destaque apenas nesta temporada, graças à sua brilhante participação na UEFA Europa League até o momento. E isso também é algo lógico, não há como esperar que todos acompanhem a UPL. De qualquer forma, quem segue sabe que o time de Kharkiv vem em uma crescente já há algum tempo. Esta terceira colocação em 5 campeonatos consecutivos se deu depois da chegada do grande empresário Aleksandr Yaroslavskiy, que investiu bem demais tanto dentro quanto fora de campo. Para se ter uma ideia, ele é um dos homens mais poderosos do país. Em 2007 ajudou a fundar o grupo DCH, que reúne os setores empresariais da construção, finanças e transporte.

Outro dos responsáveis por este sucesso do Metalist é o treinador Myron Markevich. Inclusive ele chegou ao clube no mesmo ano que Yaroslavskiy (2005). Nem é preciso dizer que balançou no cargo algumas vezes, mas felizmente não foi demitido. Claramente esta ideia de projeto a longo prazo foi baseada na do Shakhtar Donetsk, que contratou Mircea Lucescu em 2004. As duas situações são tão semelhantes que o Metalist também conta com vários jogadores sulamericanos em seu elenco (dentre eles os brasileiros Cleiton Xavier, Edmar, Marlos, Taison e Fininho).

Apesar dos bons resultados recentes na UPL, o time de Kharkiv ainda não conquistou nenhum título nacional. Na antiga liga soviética até teve bons desempenhos, mas também nada que mereça muito destaque. Seu maior feito foi levantar o "caneco" da antiga Copa Soviética de 1988, quando venceu o Torpedo Moscow por 2x0 na final. Atualmente a equipe ocupa de novo o terceiro posto da Premier ucraniana com 47 pontos, apenas 4 a menos que o vice-líder Dynamo Kyiv.

Algo que chama demais a atenção neste Metalist é seu estilo de jogo. Nada de pragmatismo e toques de lado sem objetividade, o que se vê realmente é uma grande qualidade técnica e um altíssimo poder ofensivo. Para não se complicarem na defesa, os Zhovto-Syni fazem questão de manter a posse de bola no campo de ataque durante suas partidas. Isso acontece independentemente de qual seja seu adversário. O 4-2-3-1 é uma unanimidade para Markevich.


Mesmo que haja um certo equilíbrio entre os três setores do Metalist, não restam dúvidas de que o defensivo é o mais "modesto" por assim dizer. Contudo, vem superando as expectativas no quesito confiança. O primeiro nome a ser citado é o do goleiro Oleksandr Goryainov. O veterano de 36 anos ainda é fantástico sob as traves da equipe e tem uma frequência de jogos muito grande.

No centro da zaga encontramos o senegalês Pape Gueye, jogador que faz muitíssimos gols de bola parada e também é muito veloz. Depois da campanha lastimável de Senegal na CAN 2012, muitos pensam até 5 vezes antes de confiar em um zagueiro desta nacionalidade, mas Gueye vem mostrando que nem todos são tão ruins. Seu companheiro é o argentino Marco Torsiglieri, um defensor de muita qualidade técnica que é o verdadeiro xerifão desta zaga.

Existem muitos times grandes europeus que têm sérios problemas com laterais. O Metalist ainda não é um destes grandes, mas felizmente não sofre com ausência de jogadores para esta posição. Os mais "habituais" são o ucraniano Oleksandr Romanchuk e o argentino Cristian Villagra. Para haver aquele tradicional equilíbrio, o primeiro tem maior poder de marcação e o segundo apoia muito bem ao ataque. Seus respectivos suplentes são o ucraniano Sergey Pshenichnikh e o brasileiro Fininho. O que vale mencionar é que os dois reservas poderiam ser titulares sem problema algum.

Como não poderia ser diferente, a dupla de volantes do Metalist também está a um nível espetacular. O brasileiro (já naturalizado ucraniano) Edmar e o argentino Juan Torres são fundamentais tanto na marcação quanto no início das jogadas. Enquanto o brasileiro fica mais na marcação, o argentino tem liberdade para sair. No entanto, esta liberdade é um pouco restrita. Em suma, o Metalist permanece quase sempre em um 4-2-3-1 e não varia para um 4-1-4-1 como várias equipes.

A linha de 3 mais dos Zhovto-Syni é com certeza o que mais agrada a todos nesta equipe. As jogadas protagonizadas por Sosa, Cleiton Xavier e Taison vêm enchendo os olhos de toda a Europa na atualidade. O argentino José Sosa sempre reclamou quando deslocado ou para o lado esquerdo ou para o direito. No Metalist foi diferente. Ele acatou a decisão de Markevich e vem jogando demais aberto pelo flanco direito. Mais centralizado está o maestro e capitão do time, Cleiton Xavier. O ex-jogador do Palmeiras vive uma das melhores fases de sua carreira. Praticamente todas as jogadas passam por seus pés. Por fim, quem faz o lado esquerdo é outro brasileiro, Taison. Como não poderia ser diferente, o momento que ele vive também é maravilhoso. Sua jogada característica de pegar a bola na ponta, driblar os defensores e entrar na área está dando dores de cabeça aos adversários desde o início da temporada.

E finalmente chegamos ao ataque do Metalist, composto por apenas um jogador. Em tese, o titular da posição é Marko Devic. O sérvio naturalizado ucraniano é um "9" puro e sempre rende muito bem. Como se não bastasse isso é o quarto maior artilheiro da história do clube, tendo marcado 69 gols. Mas nem sempre Markevich joga com um centro-avante mais preso na área, por isso Jonathan Cristaldo é frequentemente utilizado.

Fiquei abismado com a quantidade de pessoas que estão se mostrando surpresas com o Metalist na temporada e não sabem de onde vem todo este crescimento. Pois aí está o motivo. E para os "desavisados de plantão", não será nenhum absurdo se dentro de alguns (poucos) anos o time de Kharkiv conquistar um título ucraniano.

sábado, 21 de janeiro de 2012

E aí, Dnipro?

Vamos ver até quando dura a paciência com Juande Ramos
Gilmar Siqueira, @GilmarSiqueira
De Jaboti-PR

Desde 1992 a hegemonia no futebol ucraniano é dividida entre Shakhtar Donetsk e Dynamo Kyiv. Os dois quase sempre permanecem no topo da tabela com "sobras" em relação aos outros. Atualmente, o Metalist está se aproximando bastante. Quer tentar o mesmo que o Tavriya, último time que conquistou uma liga ucraniana (justamente em 1992). 

Há algum tempo atrás se esperava que essa quebra de hegemonia começaria com o Dnipro, que passou a investir pesado em contratações e, além disso, já é um time historicamente grande. De meados da década de 70 até meados da de 80, o Dnipro conquistou dois títulos soviéticos (1983 e 1988) e se tornou o primeiro clube profissional da URSS.

Nomes como Oleg Protasov, Hennadiy Litovchenko, Oleksiy Cherednyk e Oleg Taran até hoje arrancam lágrimas dois mais antigos torcedores. Entretanto, desde este período o Dnipro passou a ser um verdadeiro "gigante adormecido", vendo times como Metalist e Shakhtar crescerem e conquistarem a simpatia da nação (principalmente a equipe de Donetsk).

Na temporada passada o proprietário Andiy Stetsenko decidiu que não bastava apenas trazer jogadores. Era preciso mudar a filosofia, assim como fez o Shakhtar quando contratou Mircea Lucescu. Foi exatamente por isso que trouxe o experiente treinador espanhol Juande Ramos para o banco de reservas, bancando -ponderadamente- suas contratações.

O técnico, por sua vez, se mostrou contente com o elenco trazendo apenas Matheus, Zozulya,  Derek Boateng e Nikola Kalinic para 2011-2012. Este último para substituir Yevgen Seleznyov (em russo Seleznev), artilheiro da UPL em 2010-2011, que foi para o Shakhtar. A princípio pareceram poucas contratações, mas considerando que o elenco já contava com Giuliano, Ruslan Rotan, Mandzyuk, Konoplyanka e Strinic, foram "cirúrgicas".

Quando a bola rolou, tudo pareceu mais complicado do que realmente era. Os insucessos do time caíram como uma "bomba" para a torcida e também para Ramos. Hoje a diferença do Dnipro, 5o. colocado, para o líder Shakhtar é de exatamente 18 pontos, em 19 rodadas disputadas. O que é algo bizarro, pelo elenco do Dnipro.

É fato que Juande Ramos ainda não encontrou uma formação para o time. Logicamente não pude ver todos os jogos do Dnipro na temporada, mas em todos que pude acompanhar, foram utilizados esquemas diferentes: 4-4-1-1, 4-4-2, 4-3-2-1 e, algumas vezes, até 4-3-3. Isso quando os jogadores não perdiam o controle e atacavam como loucos. Literalmente na base do abafa.

Não restam dúvidas de que quando um time não está bem, seu treinador deve mudar. Mas quando estas mudanças não são bem-sucedidas, ele precisa insistir em uma formação até que o plantel se habitue. Caso contrário, não haverá um padrão de jogo. Foi exatamente isso que aconteceu na partida Illychivets 3x2 Dnipro, onde a equipe de Dnipropetrovsk saiu perdendo por 2x0 e empatou no segundo tempo apenas por ter jogado com raça. Mas quase nenhuma técnica.

O esquema ideal

Pelas peças que tem, julgo que o esquema ideal para o Dnipro seja o 4-4-1-1, principalmente pela chegada de Matheus. Normalmente concordo com as opções para goleiros, mas depois de ter visto Kanibolotskiy na Ucrânia sub21 no último Europeu, não sei como ele é reserva do tcheco Lastuvka.

Na zaga Mandzyuk é incontestável. Titular tanto no Dnipro quanto na seleção ucraniana de Oleg Blokhin. Excelente nome. Ultimamente Juande vem utilizando Cheberyachko como seu companheiro, mas como ele é lateral, por vezes acaba se complicando. O nome do experiente volante croata Ivan Strinic me soa um pouco melhor.

Já que Cheberyachko é um lateral, Ramos poderia colocá-lo em sua posição -pela esquerda. Na direita Samuel Inkoom é o melhor, mas em casos extremos o winger Denys Kulakov pode ser recuado, atuando como lateral mais ofensivo.

Na faixa central do meio o nome do volante Ruslan Rotan é incontestável. O capitão do time passa uma enorme confiança e também é titular na Ucrânia. O problema é decidir quem pode ser seu companheiro. Nomes como Kravchenko, Boateng e Strinic são normalmente utilizados. O jogador ganês prefere atuar pela esquerda, mas como não vai tomar a posição de Konoplyanka, já foi escalado pelo centro.

Até o começo da temporada Giuliano era titular incontestável pelo lado direito do meio-campo. Mas não correspondeu. Nas últimas rodadas veio sendo trocado por Kulakov. Acharia uma medida interessante se o brasileiro passasse e jogar ao lado de Rotan, deixando o time mais criativo. Além do mais, Giuliano por vezes abdica do jogo pelas laterais e pouco chega à linha de fundo. Geralmente tende a cortar para o meio.

Do lado esquerdo está a "pérola" deste time, o jovem Yevgen Konoplyanka. Dono de uma técnica fantástica está jogando em uma "fogueira" enorme, sendo exigido demais. O jovem meia (22 anos) é dono de uma qualidade técnica sensacional e um toque de bola muito refinado, pouco comum a jogadores do leste Europeu. Por vezes tenta chamar o jogo, mas não consegue resolver sozinho.

Matheus começou como titular, foi para o banco e agora voltou a ser escalado. O ex-atacante do Braga é o nome ideal para ficar nos 3/4 do campo, fazendo a ligação com  ataque. Muito se fala de outro garoto: Roman Zozulya, ex-Dynamo Kyiv. Ele realmente é bastante promissor, mas ainda não jogou o suficiente para estar entre o XI titular.

A posição de "9" é uma das poucas que por enquanto não vem gerando dúvidas em Juande. Desde que chegou, Nikola Kalinic marcou 7 gols e desbancou as "incógnitas" Oleksiy Antonov, Denys Olyinyk e Dmytro Lyopa, que não passavam a mesma confiança que Seleznyov.

Preciso destacar que Juande Ramos já utilizou o time assim por algumas vezes. Mas ele não teve paciência de permanecer com o mesmo por 4 ou 5 rodadas, este foi o problema. Posso até estar terrivelmente enganado, mas pelo que conheço, estas seriam as melhores opções para o Dnipro hoje.

sábado, 14 de janeiro de 2012

As "cartadas" de Yuri Semin

Yuri Semin, treinador do Dinamo Kiev (Dnipro.ua)
Gilmar Siqueira, @GilmarSiqueira
De Jaboti-PR

A temporada

Ninguém na Ucrânia (nem fora dela) tem dúvidas da força do Shakhtar Donetsk e de suas possibilidades de conquistar o título nacional. Mas depois de 2 duas temporadas sem levantar o "caneco", o todo poderoso Dynamo Kyiv vem com muita vontade -e sobretudo qualidade- para desbancar seus principais rivais.

Em 2008-2009, na primeira passagem de Yuri Semin pelo time de Kiev, o título foi conquistado com sobras: terminando 15 pontos à frente do Shakhtar e 20 do Metalist, vice-campeão e terceiro colocado, respectivamente. Semin saiu e voltou em 2010, mas não foi pário para Mircea Lucescu e seus comandados. Para um time que foi campeão 26 vezes (13 da Liga Soviética e 13 da UPL), dois anos sem um campeonato nacional é muita coisa.

Isso ficou comprovado com as contratações para esta temporada: Dudu, Ideye Brown, Carlos Corrêa, Lukman Haruna e Pape Dikhaté, que se juntaram a nomes como Vukojevic, Ninkovic, Garmash, Gusev, Yarmolenko, Milevskiy e Shevchenko. Com relação às baixas, as mais significantes foram dos meias Roman Eremenko e Roman Zozulya, mas que de momento não fazem muita falta.

A UPL já fez sua tradicional pausa de inverno e só volta em março. Por enquanto o líder é o próprio Dynamo, invicto e com 52 pontos, um a mais que o Shakhtar. Vale lembrar que o time do Serviço Secreto soviético já não briga mais por competições europeias, tendo ficado atrás de Besiktas e Stoke City no grupo E da Europa League. Logicamente o presidente Igor Surkis não ficou nada contente com a eliminação, mas ao menos o Dynamo pode se concentrar exclusivamente na UPL, o que torna as coisas ainda mais difíceis para o Shakhtar nesta temporada.

A equipe de Donetsk não é a mesma da temporada passada -em termos de atuações. A última colocação no grupo G da Champions mostrou que isso é um fato. O segundo lugar na UPL vem justamente pela superioridade de seu elenco em relação a outros times. Mas não podemos colocar esta aparente "queda" do Shakhtar como principal motivo para a liderança do Dynamo. Os méritos maiores são dos comandados de Yuri Semin.

Aliás, desde os tempos de Lokomotiv Moscow -time que ele fez crescer dentro do cenário russo- Semin era conhecido por seu pragmatismo. Uma fama até certo ponto justificada. Por outro lado, com opções mais ofensivas em 2011-2012 ele vem mostrando que pode armar também times cuja defesa é apenas um dos pontos fortes -mas não o principal.

O mais curioso deste Dynamo Kyiv é a recorrente alternância de esquemas táticos. No caso do Dnipro este fator deixa evidente sua irregularidade, mas no caso do Dynamo o que aparenta é a versatilidade dos jogadores e a confiança que Semin deposita nos mesmos. Vale mencionar que também existe esta versatilidade nos jogadores do Shakhtar, mas não ocorrem tantas mudanças táticas assim (Lucescu até que tentou colocar dois atacantes no time, o que não deu muito certo).

Esquema do começo da temporada
Os incontestáveis

Semin começou a temporada em um 4-2-3-1, que até hoje é o esquema mais decorrente no time. A defesa (menos vazada da UPL com apenas 8 gols sofridos) é comandada pelo capitão da seleção ucraniana Shovkovskiy, um goleiro muito experiente e que passa muita confiança.

Na zaga central o único nome que parece demonstrar mais segurança até o momento é o do nigeriano Aiyla Yussuf. Ele foi titular desde o princípio e poucas vezes ficou no banco de suplentes. A dúvida maior é gerada em torno de seu companheiro. Foram utilizados Diakhaté, Betão e Kacheridi. Mas nenhum deles conseguiu corresponder à altura.

Nas laterais é que começamos a notar as mudanças tão destacadas. Normalmente os titulares eram Danilo Silva e Popov. Isso é o lógico. Mas quem disse que Semin quer seguir a lógica? Dependendo da escalação ele coloca Danilo Silva e Betão, dois laterais predominantemente defensivos. No entanto, em uma das partidas contra o Besiktas pela UEL ele utilizou uma outra "cartada" entrando com Oleg Gusev pela direita e Popov pela esquerda. Ambos apoiam demais (Gusev é um right winger). Nisso, o croata Vukojevic voltava para fazer a zaga, formando um 3-4-3 ultra-ofensivo.

Por falar nele, Ognjen Vukojevic é outro atleta mais do que incontestável neste Dynamo Kyiv. O croata está há 3 anos na capital ucraniana e é titular absoluto. Por vezes mostrou que é imprescindível para o time. Durante suas lesões, Semin não coloca outro volante, deixando que o meia Aliyev faça a função.

Atual esquema
As variações 
É bastante delicado falar sobre o meio-campo e o ataque do Dynamo, que se modificaram bastante ao longo da temporada. Para se ter uma ideia, a linha de 3 meias que começou a temporada foi Gusev-Eremenko-Yarmolenko, sendo este último substituído algumas vezes por Ideye Brown.

Hoje quem ganhou espaço foram Ninkovic, Garmash e o já mencionado Aliyev. Enquanto isso, Artem Milevskiy, que fazia temporada lastimável, finalmente sentou no banco de reservas. Outra coisa que Semin mudou foi o posicionamento de Ideye, que saiu do lado esquerdo para jogar onde gosta, ou seja, no meio da área, como um "9" puro. Antes disso, Yarmolenko, Shevchenko e o próprio Milevskiy foram testados na posição, mas sem sucesso.

Detalhe é que isso tudo aconteceu quando Yuri Semin esteve utilizando um 4-2-3-1 (4-1-4-1), porque em dado momento da temporada ele passou para um improvável 4-4-1-1. Isso aconteceu quando Vukojevic se lesionou e ele não tinha alguém de confiança para deixar como seu "cão de guarda" no meio-campo.

Aí é que entram com mais protagonismo Oleksandr Aliyev, Denys Garmash e Milos Ninkovic. Os dois primeiros atuaram mais centralizados no meio-campo, sendo que Aliyev ficava mais com papel de marcação. Entretanto, como ele não é um grande marcador, acabou dando ainda mais qualidade para a bola "rodar".

A primeira opção para jogar a seu lado foi Ninkovic, mas ele não foi bem e acabou sendo substituído pelo jovem ucraniano Danys Garmash, que finalmente mostrou todo o seu potencial e agarrou de verdade a oportunidade. Mas para a sorte (?) de Ninkovic Gusev se lesionou e ele pôde entrar para fazer a left winger, com Yarmolenko sendo deslocado pelo lado direito. Ao menos a segunda chance ele aproveitou bem.

Enquanto isso Shvechenko foi colocado como um segundo-atacante (por vezes um "falso 10" como alguns preferem), fazendo exatamente o mesmo papel de Wayne Rooney no Manchester United. À sua frente seguiu Ideye Brown, mantendo uma altíssima média de gols (marcou 10 na temporada).

Realmente o Dynamo Kyiv não jogou bem em todas as partidas -isso seria quase impossível-  mas o fato é que seu elenco e o trabalho de Semin estão chamando demais a atenção. São raríssimos os times em ligas teoricamente de "segundo escalão da Europa" que têm tantas opções de qualidade e apresentam mudanças táticas tão interessantes. Em suma, o Dynamo precisa cair muito de produção ao longo da temporada para não conquistar este título ucraniano.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Stari Most

Gilmar Siqueira, @GilmarSiqueira
De Jaboti-PR

Há algum tempo atrás falei um pouco sobre o APOEL Nicosia e me lembro bem de ter mencionado que a cidade é dividida ao meio por um muro. Falei também sobre o clima um pouco "pesado" entre os turco-cipriotas e os grego-cipriotas. Mas este clima nem se compara ao da cidade de Mostar, na Bósnia e Herzegovina, que é dividida ao meio por uma ponte que separa os Bosniaks (muçulmanos bósnios) e sérvios dos croatas.

É fato que hoje a situação na região também é mais amena. No entanto, há poucos anos atrás, quando "estourou" a guerra, não havia lugar seguro em todo o país. Mas a ponte -denominada Stari Most- não tem muito a ver com a guerra. Ela foi criada no século XI, quando a cidade pertencia ao Império Otomano. Reza a lenda que seu arquiteto, Minar Hayruddin, estava condenado à morte e seria executado após sua construção.

Aposto que muitos estão se perguntando: mas onde o futebol entra nisso tudo? Acalmem-se. Antes de falar do futebol preciso explanar todo o contexto histórico. Durante a Guerra que assolou a Bósnia de 1992 à 1995, a cidade de Mostar também foi atacada e a ponte destruída por um terrível bombardeio. As forças croatas da HVO e do exército croata se responsabilizaram pela destruição. Seu objetivo era isolar os Bosniaks e sérvios-bósnios no lado leste da cidade até que estes se rendessem.

Com o fim da guerra e a independência  da Bósnia e Herzegovina a divisão em Mostar permaneceu quase a mesma, com os croatas no lado oeste e os Bosniaks e sérvios no lado leste. Para os ansiosos de plantão, é aqui que entra o relato futebolístico. Como não poderia deixar de ser, há dois clubes de futebol que representam estes "lados": o HSK Zrinjski e o FK Velez.

O primeiro é o clube mais antigo da Bósnia, formado em 1905 por estudantes. No entanto, por ter cores croatas e participar da Prva HNL, acabou dissolvido em 1945 e sendo "retomado" apenas em 1992 (justamente no primeiro ano da Guerra). Não negando suas origens, o Zrinjski fica no lado oeste de Mostar e a maioria de seus torcedores são croatas e, como se não bastasse isso, representam a direita do país.

O Velez já é mais novo que seu rival. Nasceu em 1922. Seu nome vem de um famoso monte da cidade de Mostar, sagrado para os antigos povos. Diferentemente do Zrinjski, o Velez não foi dissolvido pelo governo iugoslavo, muito pelo contrário, foi durante o governo comunista que o time atingiu seu auge, conquistando duas Copas Nacionais. A maioria de seus torcedores são Bosniaks e sérvios, que se localizam a leste da Stari Most e são esquerdistas.

Apesar da rivalidade ser enorme, os dois ficaram 55 anos sem enfrentarem-se graças à dissolução do Zrinjski. O confronto só foi retomado em 2000, em uma partida amistosa que terminou empatada em 2x2. Atualmente, com os dois na Bosnian Premier League a ocorrência de derbys é bastante frequente e sempre há um problema com relação aos ultras de ambos os lados.

No primeiro turno desta temporada ocorreram dois jogos consecutivos, sendo um pela Copa Nacional e outro pela Premier League. Fato que assustou a polícia de Mostar. O primeiro embate, válido pela copa, precisou ser paralisado por problemas com as torcidas. No segundo isso não aconteceu, já que os torcedores foram proibidos de entrar.

Além de tudo isso, este derby serve para evidenciar a cidade de Mostar para o mundo. Ela é a maior da região da Herzegovina e é como se fosse uma capital para a mesma. Alguns dizem que o derby de Mostar é maior do que o da capital Sarajevo, disputado entre Zeljenicar e FK Sarajevo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O dilema de Vitor Pereira

Vitor Pereira, já com passagem conturbada pelo comando técnico do Porto (Armada azul e branca.blogspot.com)

Por Gilmar Siqueira, @GilmarSiqueira
De Jaboti-PR

Parece um pouco cedo para dizer, ou mesmo exagerado pela colocação do Porto na Liga Zon Sagres, mas o time comandado por Vítor Pereira é muito diferente do de André Villas-Boas. As diferenças saltam à vista. Inclusive os jogadores não estão ao lado do treinador.

Já conhecemos muito bem a (curta) história de Villas-Boas com o FC Porto. Em apenas uma temporada ele conquistou praticamente todos os títulos que disputou (exceto Taça da Liga) com os Dragões e ainda por cima, o título nacional veio de forma invicta. Como se não bastasse isso, as atuações do time portista eram sempre empolgantes e memoráveis, prezando por um futebol muito vistoso.

Com o fim da temporada 2010-2011, surgiu o interesse do Chelsea no jovem treinador português, visando a substituição do italiano Carlo Ancelotti. Logicamente o presidente Pinto da Costa não queria se desfazer de seu treinador, mas depois de uma multa rescisória altíssima oferecida por Roman Abramovich, ele não teve como negar.

Boa parte da comissão técnica foi com ele para a Inglaterra, exceto Vítor Pereira, que ficou no Dragão. O ex-auxiliar então foi rapidamente eleito novo técnico do time, contando com todo o apoio do presidente portista, que declarou total confiança no antigo "braço direito" de AVB para o cargo. Em uma de suas declarações, Villas-Boas até mencionou que o verdadeiro "gênio tático" do Porto era Pereira e não ele.

Mas infelizmente o que estamos vendo na temporada não é nada disso. Apesar de ser vice-líder do campeonato com a mesma pontuação do Benfica, o time ainda não convenceu. Aliás, muito pelo contrário, só deixou a desejar. Até a efetividade perdeu, tanto que é terceiro colocado no grupo G da Champions League, que é liderado pelo APOEL.

Aparentemente a "gota d'água" foi a eliminação para a Académica (treinada por Pedro Emanuel) na Taça de Portugal, perdendo por 3-0. Isso provocou revolta em toda a torcida, tanto que a SAD portista foi forçada a alertar Fernando Madureira, presidente da torcida organizada "Super Dragões", para acalmar a todos.

O objetivo é evitar que o incidente de 2006 se repita. Na ocasião, o treinador era o holandês Coo Adriaanse (hoje no Twente). Justamente depois de uma eliminação na Taça de Portugal seu carro foi vítima de diversos vândalos, todos da mesma torcida comandada por Fernando Madureira.

Mas, como em 2006, é bastante provável que Pinto da Costa banque Vítor Pereira até o final da temporada, já que ele não costuma voltar atrás em suas decisões. O fato é que Pereira terá que conquistar a confiança do plantel e fazer esta equipe voltar a jogar bem, algo que de momento parece muito complicado.

O 4-3-3 foi conservado e, além de Falcão, nenhuma outra peça importante foi perdida. O que intriga é como o Porto se comporta dentro de campo, sendo bem menos vertical, lento e sem toda aquela capacidade de compor invejável. Em suma, parece que o time envelheceu de uma hora para outra.

A forma mais simples de se notar isso é em Hulk. As atuações dele refletem no time. E provavelmente ele faz sua pior temporada desde que chegou aos Dragões. Como em 2010-2011 ele foi artilheiro e verdadeira referência portista dentro de campo, é constantemente buscado por seus companheiros. Mas não responde à altura. Tanto que Pereira já foi forçado a sacá-lo de campo, o que mudou um pouco a cara do plantel, mas provocou uma enorme revolta em todos.

Este dilema que vive Vítor Pereira é realmente muito complicado. E, ao invés das coisas melhorarem, estão piorando. A última notícia -divulgada pelo jornal "Expresso"- é que um grupo de jogadores não confia no atual técnico. O respeitavam como auxiliar, mas como comandante não. Segundo a mesma fonte, o líder deste grupo é João Moutinho, que curiosamente foi muito bem servindo a seleção portuguesa, mas péssimo com o FC Porto.

Caso esta notícia seja verdade, não restará outra alternativa ao presidente que não seja demitir Vítor Pereira, porque é impossível trabalhar com um time sem ter a confiança dos jogadores. E agora ele terá pouquíssimo tempo para provar que são apenas boatos "plantados" pela imprensa e fazer com que o time melhore, ou será forçado a sair pela porta dos fundos.

domingo, 20 de novembro de 2011

Champions Africana já tem seu campeão

Espérance de Tunis, campeão da Champions Africana (AFP)
Gilmar Siqueira, @GilmarSiqueira
De Jaboti-PR

Após dois embates contra o Wydad Casablanca (Marrocos), o Espérance de Tunis venceu em casa e sagrou-se campeão da Champions Africana. O time tunisiano havia conquistado um título da antiga Copa dos Campeões africana e estará no mundial interclubes.

Diferentemente do título asiático conquistado pelo Al-Sadd, este não foi contestado pelos especialistas, já que o Espérance fez uma excelente campanha e foi muito bem tanto na ida quanto na volta. O equilíbrio deste duelo era conhecido desde a primeira fase, já que os dois times estiveram no mesmo grupo e empataram duas vezes.

O primeiro jogo da grande final foi realizado no Marrocos, no estádio do todo poderoso Wydad. Claramente o Espérance entrou para segurar o resultado e sair nos contra-ataques. Ainda assim, seu esquema foi um 4-4-2, deixando apenas os móveis N'Djeng e Bouazzi na frente e o craque Oussama Darragi no banco de reservas.

Mesmo com toda a pressão marroquina, os tunisianos se seguraram muito bem, concedendo pouquíssimas chances de gol. O Wydad, armado em um 4-2-3-1, concentrava seus ataques pelo lado esquerdo, com o habilidoso Ahmed Ajeddou. Enquanto isso, apenas N'Guessi ficava na área esperando a bola chegar.

A ótima marcação do Espérance conseguiu anular praticamente todos os ataques dos comandados de Michel Decastel,  tanto que nem o "maestro" Mohamed Berrabeh ou o habilidoso Yassine Rami se encontravam. Por outro lado, quem se destacou positivamente foi o goleiro Lamyaghri, que segurou o 0x0.

Depois deste empate no Estádio Mohamed V, o Espérance de Tunis se converteu em franco-favorito ao título, tendo a oportunidade de decidir no Stade Olympique d'El Menzah. Deu para notar este favoritismo logo no início, quando o time da Tunísia partiu para cima com tudo.

Nabil Maaloul posicionou seu time em um interessante 4-3-1-2. Esquema feito para Darragi, que era o trequartista do time. À sua frente seguiram N'Djeng (mais preso na área) e Bouazzi (segundo-atacante) e atrás estavam os ótimos Korbi, Traoui e Msakni.

Mas a medida mais "cirúrgica" foi sacar o defensivo lateral Coulibaly para colocar o ultra-ofensivo Harrison Afful, que se converteu em herói do time pouco antes do fim do primeiro tempo, quando recebeu a bola na ponta-direita, cortou para o meio, driblou seu marcador e com a perna esquerda colocou a bola no ângulo do goleirão do Wydad.

O primeiro tempo do Espérance foi massacrante. Toque de bola refinado e uma marcação que abafou os jogadores de qualidade do Wydad. A tática de Decastel para este segundo duelo foi colocar um meio-campo muito criativo, com Lakhal e Berrabeh como volantes, mas aí faltou mesmo aquela "pegada";

Pouco antes do fim da primeira etapa -mas já depois do gol- o lateral Lamssen deixou o cotovelo em N'Djeng e foi expulso. Nem é preciso dizer que o Wydad Casablanca voltou do intervalo completamente perdido.

Para completar, nas poucas vezes que a bola chegou a N'Guessi, ele se atrapalhou completamente e perdeu inúmeras chances de empatar e até mesmo virar a partida. Apesar destes esforços, o time anfitrião é que seguiu melhor na etapa complementar e poderia ter marcado mais vezes.

É difícil fazer uma comparação entre o Espérance de Tunis e o TP Mazembe*, campeão da última edição da Champions Africana. O Espérance me pareceu um time mais completo e com mais qualidade, sobretudo defensivamente.

*O mítico TP Mazembe acabou desclassificado desta edição da competição por ter escalado um jogador irregular ainda na primeira fase.

domingo, 6 de novembro de 2011

Al-Sadd é campeão da Champions asiática

Gilmar Siqueira, @GilmarSiqueira
De Jaboti-PR

Neste sábado se decidiu a final da AFC Champions (Champions League Asiática) onde se enfrentaram o Al-Sadd (Qatar) e o Jeonbuk Hyundai Motors (Coreia do Sul), na Coreia do Sul. O duelo não se decidiu no tempo normal, terminando em 2x2. Só após os pênaltis é que o time de Doha pôde gritar "É campeão!".

Antes de a bola rolar, o favoritismo era do time sul-coreano, que tinha mais qualidade e além do mais, jogava com presença massiva de sua torcida. O Jeonbuk até foi melhor em campo, mas não conseguiu vencer.

O Jeonbuk Motors abriu o placar aos 17 minutos, com golaço de falta de seu craque, o brasileiro Eninho. Depois disso o time mais tradicional do Qatar foi quem pressionou e mandou a bola na trave por duas vezes, até que conseguiu empatar o jogo com Khalfan Ibrahim.

É difícil imaginar este time pressionando por muito tempo, mas foi o que aconteceu. O Al-Sadd voltou melhor para o segundo tempo até que virou o jogo, com Kader Keita. A partir daí, se retrancou como sempre. Foi então que começou a brilhar a estrela do melhor goleiro do Qatar, Mohamed Saqr, que fez defesas espetaculares.

Ele passou de herói a vilão quando, no minuto 90, saiu para interceptar um escanteio mas acabou falhando e a bola sobrou para Seung-Hyun Lee empatar para o Jeonbuk Motors e levar o duelo para a prorrogação. Nesta, o time da casa foi melhor, mas não conseguiu marcar.

Nos pênaltis, quem se saiu melhor foi o Al-Sadd, que venceu por 4x2. Nas grandes penalidades o goleirão Saqr apareceu outra vez, defendendo duas. Quem converteu a última cobrança foi o famoso Nadir Belhadj, ex-jogador do Portsmouth.

Com isso, o Al-Sadd foi campeão da Asian Champions. Mas a questão é: este título foi merecido? Sem dúvidas em termos de futebol bem apresentado, não. Os comandados de Jorge Fossati, ex-técnico do Internacional que faz ótimo trabalho, não jogaram bem durante toda a competição. E na final não foi diferente.

Em termos de competência, realmente este time precisa ser valorizado. Mas nível técnico é outra coisa. Isso ficou evidente ao longo da competição. Aliás, o Al-Sadd se envolveu em polêmicas durante toda ela. Nas quartas-de-final, a equipe de Doha enfrentou o Cerezo Osaka e acabou vencendo, mas parte de sua torcida provocou os japoneses recordando o desastre que ocorreu em Fukushima.

Na semi-final, o time de Fossati passou pelo sul-coreano Suwon Bluewings, vencendo o primeiro jogo por 4x3 e perdendo o segundo por 1x0. No duelo de ida, houve uma verdadeira batalha campal depois que Madmadou Niang fez o segundo gol quando um jogador sul-coreano estava caído no gramado. Todo o time do Suwon exigiu fair-play por parte do Al-Sadd, que não o fez. Depois disso um torcedor invadiu o campo e começou a briga.

Este título, um dos mais contestados dos últimos anos, não foi o primeiro do Al-Sadd. O time mais antigo do Qatar conquistou a antiga Asian Club Championship em 1988, batendo o iraquiano Al-Rasheed na final e tornando-se o primeiro time árabe a conseguir tal feito.

Depois de alguns anos a hegemonia de clubes japoneses e sul-coreanos na Asian Champions foi quebrada. Mas isso não quer dizer muita coisa. A verdade é que o futebol tanto do Japão quanto da Coreia do Sul ainda está um passo à frente dos outros países asiáticos.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O renascimento do BATE Borisov


Viktor Goncharenko, o condutor do BATE (UEFA)

Gilmar Siqueira, @GilmarSiqueira
De Jaboti-PR


Neste último fim de semana o BATE Borisov conquistou seu oitavo título da Belarrusian Premier League, sendo o sexto consecutivo e reafirmou sua hegemonia (se é que alguém duvidava dela). Mas quem vê este time hoje não sabe que já chegou a ser dissolvido e só se tornou tão grande graças a Anatoli Kapski.

A fundação da equipe ocorreu em 1973, quando funcionários da fábrica BATE decidiram montar um time de futebol. Mas como ainda era sua primeira temporada, a equipe disputou uma espécie de segunda divisão bielorrussa e conseguiu vencê-la.

Logo em 1974, o BATE conseguiu seu primeiro título nacional (SSR League), depois de terminar a época regular invicto em seu grupo e vencer Motor e SKA na fase final. O poder desta equipe emergente seguiu e em 1976 e 1979 vieram mais duas taças.

Em 1981 aconteceu a maior tragédia da história do pavilhão de Borisov: a dissolução. Veio após a fábrica ter sérios problemas financeiros. E do BATE foram formados 4 outros times, que não obtiveram sucesso algum na SSR League. Detalhe é que em 1981 o BATE ainda conseguiu chegar à quarta colocação, novamente mostrando que era um forte grupo.

A situação só mudou -para melhor- em 1996, quando o empresário Anatoli Kapski decidiu comprar a fábrica e reviver o BATE Borisov. Logicamente o elenco não começou na primeira divisão, mas sim na terceira, conseguindo imediatamente o acesso para a segunda e posteriormente para a primeira.

Seu primeiro título da Liga Bielorrussa, já no formato de Belarrusian Premier League, aconteceu em 1999 e em grande estilo, terminando 12 pontos à frente do Slavia. Em 2001 veio a segunda conquista, de forma muito emocionante. No returno do campeonato, o BATE tinha uma diferença de menos sete pontos para o Neman Grodno, mas conseguiu empatar na última rodada. Para decidir quem seria o campeão, os dois oponentes tiveram de se enfrentar e o BATE venceu por 1x0.

A hegemonia propriamente dita começou em 2006, quando o BATE conquistou o primeiro dos seis títulos consecutivos. Mas a partir de 2008 é que esta agremiação passou a ganhar ainda mais destaque, isso graças a chegada do jovem treinador Viktor Goncharenko -na época com 31 anos.

Ele dedicou toda a sua carreira ao BATE. Estreou pelo clube em 1998 e conquistou dois títulos nacionais. Era um bom zagueiro, mas foi forçado a se aposentar aos 25 anos devido à uma lesão. Seguiu trabalhando na comissão técnica de Borisov até ganhar uma chance como treinador. Hoje é um dos principais expoentes da New Wave de treinadores da Europa oriental, sendo muito tático e competitivo.

Após sua chegada vieram mais quatro títulos, sendo o último conquistado nesta edição. Aliás, 2011 não foi tão bom -financeiramente- para o clube, que ainda apresenta um modelo soviético de administração, tendo inclusive um teto salarial para os jogadores. Anatoli Kapski precisou até mesmo vender algumas peças importantes, mas nada que interferisse no título.

Dentro de campo, Goncharenko arma a formação sempre em um 4-2-3-1, que dificilmente sofre variações. Alguns jogadores merecem destaque, dentre eles Renan Bressan, jogador brasileiro que já tem até passaporte bielorrusso. Tido como craque do time, joga em qualquer posição nos 3/4 do campo e até mesmo como o camisa nove.

Por falar em "9", chegou para o BATE nesta temporada o mítico Mateja Kezman, a custo zero, depois de passar por uma experiência meio frustrada no South China FC. Outro que merece uma menção é o versátil Dmitri Baga, que esteve no plantel da última seleção bielorrussa sub-21. Mais um jogador do BATE e que também serviu a Bielorrússia foi o goleiro Aleksandr Gutor, considerado um dos melhores na posição no leste europeu.

Não restam dúvidas de que este selecionado do BATE Borisov é muito bom e ainda por cima conta com um período de "hibernação" do Dínamo Minsk, equipe mais tradicional da Bielorrússia. Por isso, é bem provável que esta hegemonia ainda siga por um bom tempo...

sábado, 1 de outubro de 2011

Superando preconceitos


A comemoração do título do Shkendija

Por Gilmar Siqueira
Não é segredo para ninguém que minhas duas maiores paixões são política e futebol. Quando consigo unir os dois, tudo fica perfeito. E é isso que tento fazer em muitos de meus artigos. Agora falarei do FK Shkëndija, equipe macedônia formada por albaneses, que na temporada passada conseguiu um inédito título nacional.
O FK Shkëndija foi formado no ano de 1979 na cidade de Tetovo, na antiga Iugoslávia. A equipe surgiu de um sentimento de união por parte dos albaneses que queriam criar um time com "a sua cara". Isso desgostou as autoridades iugoslavas por medo do sentimento nacionalista que poderia ser despertado nos albaneses que lá viviam.
Contudo, nada foi feito nos primeiros anos, já que ninguém acreditava no crescimento desta agremiação. Mas para a surpresa de boa parte da população iugoslava, logo em sua primeira temporada na última divisão (até então a quarta), o Shkëndija conquistou o título e, consequentemente, o acesso à terceira divisão.
E a ascensão dos Kuq e Zi não parou por aí. Já em 1980-1981 veio o título da segunda divisão e a popularidade do time aumentou de forma exorbitante. Este fator foi decisivo para que o governo iugoslavo o dissolvesse.

Mas esta decisão não foi bem aceita pelos seus torcedores ultra-nacionalistas, que protestaram violentamente. Aliás, os torcedores do Shkëndija são mundialmente conhecidos pela fortíssima oposição ao governo macedônio. Se auto-denominam  Balli Kombëtar, que foi o nome de um grupo paramilitar criado na Albânia durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar do ódio declarado ao comunismo, o grupo se mostrou bastante antagônico fazendo oposição tanto às forças aliadas quanto às do Eixo, até que a Alemanha invadiu a Albânia e um acordo foi feito.

O FK Shkëndija só voltou a existir quando a Macedônia conseguiu sua independência. Entretanto, as coisas não começaram fáceis, já que o time foi forçado a disputar mais uma vez a quarta divisão. A prova de que os Kuq e Zi entrariam para a história é que vieram mais três acessos consecutivos, assim como na antiga liga iugoslava.

Para coroar tantos esforços veio o inédito título nacional em 2010-2011, logo após a promoção. Mas não foi uma campanha qualquer. A taça foi conquistada de forma honrosa: foram 65 gols marcados e apenas 23 sofridos, caracterizando o melhor ataque e a melhor defesa da ARJ. Não obstante a isso, o Shkëndija chegou a manter uma invencibilidade de 21 jogos. Ao final do campeonato o time tetovo havia conquistado 72 pontos, 11 a mais que o vice-campeão FK Metalurg. 

Um dos principais responsáveis por este título foi o treinador croata Qatip Osmani, que chegou em 2008 e, desde então, só conheceu glórias. Osmani é considerado por muitos o maior ídolo da história do Shkëndija, pois também defendeu as cores do time como jogador, marcando mais de 150 gols.

A temporada 2011-2012 começou há pouco na Macedônia e não há muito o que dizer. O líder é Metalurg Skpje, com 20 pontos. O Shkëndija ocupa a 3a. posição, com 18. O fato é que o rubronegro demonstrou muita competência no último campeonato e mais um título já não seria surpresa.