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terça-feira, 29 de maio de 2012

Fomos campeões: Aberdeen 1982-83

Foto: Staff.stir.ac.uk
Felipe Portes, @portesovic
De Éadinbárrgh-ESC

Tempos atrás, quando Sir Alex Ferguson ainda não era a imagem da vitória e do sucesso do Manchester United, lá em 1983 (três anos antes de deixar a Escócia para assinar com os Red Devils), o treinador obteve sucesso absoluto com o Aberdeen. Considerado como quarto poder na terra do kilt e da gaita de fole, Fergie levantou a Taça das Taças UEFA, contando apenas com atletas escoceses na formação titular.

Já em 1980, mostrou a que veio fez a proeza de interromper o domínio de Celtic e Rangers na liga local. Não contente com apenas uma taça, se acostumou a colecioná-las. Ferguson conduziu seus pupilos ao título da F.A Cup escocesa e conquistou o direito de disputar a Taça das Taças UEFA, que reunia todos os ganhadores de copas nacionais.

Foi então que na primeira jornada do torneio, estavam Aberdeen, Swansea, Sion e Braga. The Dons, como são conhecidos os rapazes protagonistas desse post, encararam o Sion. No Pittodrie, um sonoro 7-0 pra cima dos helvéticos, que assustados, certamente pensaram em não disputar o jogo seguinte em casa. Cumprindo tabela, os visitantes britânicos ainda acharam gás para mais um banho de bola. 4-1. Tudo começou muito bem para aquele plantel que era a espinha dorsal da seleção escocesa até o fim da década. 

Começando pelo guarda metas Jim Leighton, passando pelos beques Alex McLeish e Willie Miller, os laterais Doug Rougvie e John McMaster, os meias Neale Cooper, Neil Simpson, o genial Gordon Strachan e três atacantes de boa chegada, Mark McGhee, Eric Black e Peter Weir. Como antecipado no primeiro parágrafo, eram 11 jogadores naturais da Escócia, um trunfo para o orgulho que moveu o futebol do país.

Strachan: peça chave no meio campo dos Dandies 
O estilo marcante de passe e pressão do meio campo dos Reds era uma das principais características e até hoje se faz presente nas táticas de Ferguson. A defesa forte e de boa estatura não dava espaços, o meio campo fluía com velocidade e os atacantes, de mais movimentação, recebiam sempre em boa condição em relação à retaguarda adversária.

A primeira rodada após a qualificação frente o Sion aconteceu contra o Dinamo Tirana e o ferrolho albanês fez o Aberdeen suar frio para anotar apenas um tento sobre os quase anônimos rivais. 1-0 em casa e 0-0 fora deu a chance aos Dons de avançarem às oitavas de final. Ainda havia muito o que melhorar, como o sofrimento para vazar um simples esquema como o do Tirana. 

Na sequência, mais retranca, desta vez por parte do Lech Poznan. Com muito mais talento que os oponentes anteriores no caminho dos Dandies, os polacos se permitiam sair mais um pouco ao ataque, esbarrando em Miller e McLeish, extremamente seguros na cabeça de área vermelha. Nem dez homens colocados poderiam evitar o zigue zague por parte de Strachan, que abriu espaços e permitiu que os comandados de Sir Alex marcassem duas vezes. Feita a vantagem no Pittodrie, restou apenas um morno 1-0 na Polônia, no qual os Reds tiraram de letra, se resguardando e avançando para ter o Bayern adiante.

A sabedoria de Ferguson foi de grande importância e impulsionou a ótima
campanha dos Reds naquela Taça das Taças (Who ate all the pies)
Atirados aos leões
Evidente que os alemães iriam ser osso duro de roer. Sabendo disso, o elenco sentia calafrios e tinha de fazer a disparidade técnica ser superada pela determinação e o envolvimento. Para eles, o empate em 0-0 no Olímpico de Munique serviu como primeiro alívio. Alívio que só voltou a ecoar no vestiário do Aberdeen após o apito final na batalha seguinte, num elétrico 3-2 a favor dos escoceses, que de fato predominaram sobre a burocrática formação bávara. Fazendo da posse de bola e dos contragolpes sua principal arma, Ferguson seguia inabalável e invicto rumo ao troféu mais importante do seu clube.

O primeiro leão estava morto. Restavam ainda Waterschei da Bélgica (hoje extinto), Austria Viena e Real Madrid. Ao que interessava aos rapazes de kilt, os belgas não seriam lá grande problema se comparado ao poderoso esquadrão germânico derrotado na fase anterior. Sem dificuldades e tentando reprisar a atuação estonteante daquele já longínquo massacre contra o Sion, os Dons emplacaram 5-1 em casa, na sua semifinal. Não que tenha muita importância motivacional ou impacto no feito que Sir Alex e seus aprendizes realizaram, mas na segunda perna daquele estágio o rival impôs o primeiro revés da equipe avermelhada. 1-0 e a perda da invencibilidade que no fundo nem devia fazer (tal como não fez) tanta diferença.

O último e mais alto degrau
O dia 11 de maio de 1983, a chuvosa noite em Gotemburgo marcou um evento histórico. O confronto em terreno sueco colocou frente a frente o sempre temido Real Madrid versus os modestos rapazes britânicos que certamente estiveram acima de suas mais otimistas previsões de chegada no torneio. Rolou a bola e a objetividade do Aberdeen resultou em grande jogada de Strachan, cruzando para o meio da área onde Black não pensou duas vezes antes de acertar um voleio... na trave. O susto para o arqueiro Agustín foi grande. 

Instantes depois, em escanteio cobrado pelo elétrico Strachan achou McLeish vindo de um pique do meio campo. O zagueiro testou, contou com desvio da retaguarda madridista e só aguardou o rebote por Black, que desta vez só tinha o gol em sua frente. 1-0. Contra ataque violento do Real Madrid aos 14, e Santillana foi ao solo em falta de Leighton. Pênalti claro para o ídolo merengue Juanito cobrar. 1-1.

McGhee é acompanhado de perto por marcador do Real: batalha foi
resolvida na prorrogação (Site oficial Aberdeen)
Segurando a pressão vermelha, o Real passou a sobreviver dos erros de passe e cobertura. Dominados pela rapidez na intermediária por parte dos escoceses, sempre com Strachan, McGhee e Black, os espanhóis agradeceram algumas boas vezes ao iluminado Agustín, que evitou boas finalizações de balançarem as redes do gigante de Madrid.

Weir decidiu tentar acabar com o jogo e partiu driblando quem encontrava pela frente. Foram três atletas de branco superados na arrancada até que camisa 11 optasse pelo cruzamento visando o miolo da área. Bonet tentou afastar e a bola caiu na frente de Black, que cabeceou com força, pelo alto. A tendência de perder gols aos montes quase custou caro a Ferguson e sua patota.

Impaciente e sabendo que a vitória não viria do céu, o treinador escocês mudou e tirou Black para dar uma chance a John Hewitt. O resultado não foi imediato e já eram redondos 112 de duelo, sete da etapa final da prorrogação, quando o movimento crucial foi feito. McGhee arrancou pela esquerda, chamou o oponente para dançar, fez o breque e cruzou. Alguns gritos eufóricos já antecipavam o que viria: Hewitt estava livre e quase sem goleiro para tocar de cabeça e colocar o Aberdeen na frente. Apavorado, o selecionado de Di Stéfano se afobou e teve uma única chance real, com Salguero, de falta. 

Ao lado de Archie Knox, seu assistente, Fergie comemora o primeiro
de muitos títulos europeus (Who ate all the pies)
Trilhou então o apito para consagrar uma equipe aguerrida, com bons valores e o mais importante que só o futuro iria dizer: um brilhante manager. Sir Alex ainda levantaria duas ligas escocesas, duas F.A Cup e uma Taça da liga pelo Aberdeen. Em 1986, treinou a seleção do seu país no Mundial da Espanha e pouco depois escolheu o seu destino, no cargo que ocupa até hoje: lenda absoluta no Manchester United.

Aberdeen: Leighton, McMaster, Rougvie, McLeish, Miller, Cooper, Strachan, McGhee, Simpson, Weir e Black (Hewitt).

Real Madrid: Agustín, Juan José, Metgod, Bonet, José Antonio Camacho (San José), Ángel, Gallego, Stielike, Isidro (Salguero), Juanito e Santillana.

Campanha: Oito vitórias, dois empates e uma derrota, 25 gols marcados, seis sofridos.

Jogos:
Pré-eliminatória
Aberdeen 7-0 Sion 
Sion 1-4 Aberdeen

Primeira rodada
Aberdeen 1-0 Dinamo Tirana
Dinamo Tirana 0-0 Aberdeen

Oitavas de final
Aberdeen 2-0 Lech Poznan
Lech Poznan 0-1 Aberdeen 

Quartas de final
Bayern 0-0 Aberdeen
Aberdeen 3-2 Bayern

Semifinal
Aberdeen 5-1 Waterschei
Waterschei 1-0 Aberdeen

Final - 11 de maio de 1983, Gotemburgo - Nya Ullevi
Aberdeen 2-1 Real Madrid


quarta-feira, 9 de maio de 2012

Craques: Felix Magath

Com a camisa do Hamburgo, Felix Magath se consagrou, chegando até mesmo 
a ser campeão da UEFA Champions League (Foto: Getty Images)
Felipe Ferreira, @felipepf13
De Araçatuba-SP

Nos dias de hoje, quem olha a carrancuda figura de Felix Magath, atual treinador do Wolfsburg, tem conhecimento dos seus métodos ditatoriais não consegue imaginar que o hoje mais do que exigente técnico já foi um dos principais jogadores da história do futebol alemão. Apresentando-se como um meio-campista de muita técnica e habilidade, marcou época nos anos '70.

Nascido na cidade de Aschaffenburg, Magath despontou no futebol profissional no futebol profissional em 1972. Até então com 19 anos, defendeu o modesto Viktoria Aschaffenburg, clube de sua cidade. Passados dois anos, a equipe de era pequena demais para um jovem que sonhava alto no futebol. Foi decretada sua transferência para o Saarbrücken que, na época, disputava a 2ª divisão da Bundesliga. Como já era esperado, ele conseguiu destaque na divisão de acesso e chamou a atenção do Hamburgo, que acabou o arrematando no ano de 1976. 

Passando por um período de calvário em sua história, os Rothosen buscavam se reerguer e logo em sua primeira temporada no clube, Magath mostrou que poderia ser uma peça fundamental para o HSV ao ser uma das peças-chaves do time no título da já extinta Taça das Taças UEFA. O meia inclusive marcou um dos gols da vitória por 2 a 0 sobre o Anderlecht na final da competição. Ainda naquela época, o Hamburgo acabou sendo vice-campeão da Supercopa da UEFA ao empatar com o Liverpool em 1 a 1 na partida de ida da decisão da competição e levar um acachapante 6 a 0 na volta.

Aos poucos, o talentoso jogador ia se consolidando cada vez mais na Alemanha, visto que já colecionava convocações para a seleção nacional. No Hamburgo, a temporada 1978-79 foi importantíssima graças ao fato de que com as chegadas de Branko Zebec e Ernst Happel, Magath teria outros companheiros de alto nível podendo auxiliar a levar o seu clube a um posto de alto nível. Logo na primeira temporada do trio dinâmico, o título da Bundesliga foi conquistado.

Em 1980, Magath compôs o elenco da Nationalelf que acabou sagrando-se campeã da Eurocopa, contudo, o foco do jogador estava mesmo era em seu clube e na temporada 1981-82 ele voltaria a erguer a salva de prata, o que ajudou a diminuir a lamentação pelo fato do Hamburgo ter ficado com o vice-campeonato da Copa da UEFA ao perder para os suecos do Göteborg na final.

Eis que podemos usar o clássico ditado: depois da tempestade vem a bonança. Após o tropeço na final da Copa da UEFA, a temporada 1982-83 marcaria a redenção daquele grande time do Hamburgo e do nosso personagem em destaque. Com grande ajuda do Craque de hoje, os alemães fizeram uma grande campanha na Liga dos Campeões e chegaram até a final contra a grande Juventus de Paolo Rossi, Platini e Boniek. Na grande decisão, onde os Rotthosen eram franco atiradores, Felix Magath acertou um grande chute de fora da área, marcando o único tento da partida e assegurando o título para sua equipe. De fato, a glória máxima na carreira do tão habilidoso meia, que ainda nessa temporada viria a conquistar mais uma Bundesliga.

Após o título da LC, Magath e seus companheiros acabaram por ficar com dois vice-campeonatos no ano de 1983. Na Supercopa da UEFA, após um empate de 0 a 0 na ida, os escoceses do Aberdeen venceram na volta por 2 a 0 e conquistaram o campeonato. Na Copa Intercontinental, o adversário era o Grêmio de Renato Gaúcho que venceu por 2 a 1, com direito a gol no último minuto do falastrão que já teria dormido com mais de 5 mil mulheres.

Felix seguiu jogando até o ano de 1986, sempre no Hamburgo. Até que até então com 33 anos, decidiu pendurar as chuteiras, partindo para a carreira de técnico e deixando um legado como um dos maiores jogadores da história dos Rothosen e do futebol alemão.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Farsa nossa: Marco Osio

Osio era ídolo do Parma quando veio jogar no Palmeiras
em meados da década de 1990, quando a Parmalat reinava
absoluta 
Felipe Portes, @portesovic
De Criciúma-SC
[ATENÇÃO: este post contém informações biográficas inverídicas sobre o atleta em questão]

Natural de Ancona, Marco Osio é o que a torcida do Parma pode chamar de ídolo. Campeão da Taça das Taças UEFA em 1992-93 pelos crociati, o cabeludo que ocupava a meia cancha gialloblù começou sua malfadada trajetória em 1983-84 pelo Torino. Três temporadas medianas fizeram com que a equipe grená negociasse o rapaz com o Empoli, em 1986-87. 

Em época de vacas magras, o Parma viu no meia um bom valor para 1987-88, que disputava a Serie B na ocasião. Lutando pelo acesso, a rapazeada do Ennio Tardini só conseguiu seu objetivo em 1990-91, quando o dinossauro Luca Bucci, o caneleiro Luigi Apolloni e Maurizio Ganz faziam parte do plantel. Na época seguinte, os dirigentes reforçaram consideravelmente o grupo, com as inclusões de Taffarel e Tomas Brolin. O investimento (e a entrada da Parmalat como patrocinadora master) impulsionou a equipe, que nos anos seguintes da década de 1990 figuraria entre as principais e mais simpáticas agremiações vindas da Itália. 

Vencedores da Taça das Taças UEFA em 1993, os nobres crociati deram início a anos dourados para o clube, que venceu duas vezes a Copa UEFA (1994-95 e 1998-99). Para Osio, que a cada ano perdia espaço entre os titulares, o crescimento parecia prejudicial. Voltou ao Torino em 1993-94 e por lá ficou quase dois anos, antes de receber um convite do novo parceiro da famosa leiteria: o Palmeiras. E é aí que a história fica interessante.

[Versão alternativa e não oficial]

Repare no cidadão de barba e chuteira verde na foto, ao lado de Júnior e
Djalminha: este é Osio, o célebre italiano que passou pelo Palmeiras em 1995
Foto: R7 (vem, Guardiola, vem pro Timão)
O Palmeiras vivia uma grande época. Bicampeão brasileiro em 1993 e 1994, o alviverde paulista agora buscava a glória internacional, com o título da Copa Libertadores. Foi em 1995 que alguém teve a ideia de contratar Osio, velha aposta do Parma, que por acaso também era patrocinado pela Parmalat, empresa que permitiu ao Verdão ser temido uma vez mais pelos adversários. O dinheiro dos italianos financiava a chegada de grandes craques e com eles a promessa de novos títulos. Neste intervalo, a alta cúpula da empresa arquitetou um plano maligno para a inclusão do mais ilustre filho de Ancona nas veias do Palestra.

A chegada do estrangeiro causou estranheza aos torcedores do Palmeiras, que desconheciam o talento e a finesse do cabeludo. Marco fez apenas vinte jogos em dois anos de Parque Antártica e certamente não deixou boa impressão, mas poucos sabiam a verdadeira missão dele pelos lados da Barra Funda. O italiano revelou aos colegas um plano de iniciar uma peruqueria em São Paulo.

Evidente que Osio levou em conta a magnitude que a metrópole tem no quesito moda, e iniciar o seu ramo num momento de crescimento de sua fortuna e claro, da equipe que o abrigou (termo ideal para definir a passagem do rapaz pelo Palestra Itália). O que ninguém sabia é que desde os tempos de juvenil, Marco usava peruca para disfarçar a sua calvície. Vaidoso, constantemente era visto usando roupas de marca e impecável, se comparado aos companheiros de plantel. Logo deu toques ao professor Wanderley, que começou seu costume de vestir ternos e smokings justamente nesta época.

Marco em sua recente passagem como treinador do Ancona
(Foto: Quelliche)
Marco escolheu a Vila Olímpia para ser o bairro sede de sua peruqueria, que por sua vez levaria o nome de Tutti Capelli (em tradução livre, todos os cabelos). O novo empreendimento chamou a atenção de vários boleiros que se ligavam no seu visual. Gonçalves, Paulinho Criciúma e especialmente o astro colombiano Carlos Valderrama. Tendo uma vasta e célebre clientela, a Tutti Capelli prosperou e virou referência no ramo. Exemplos mais recentes como Ozéas, Denis Marques e o importado Patrick Owomoyela são figuras constantes na loja fundada pelo meia. Ou você pensa que aqueles penteados são naturais?






sexta-feira, 27 de abril de 2012

Craques: Youri Djorkaeff

Foto: Inter.it
Victor Ferreira, @v_maedhros
Do Rio de Janeiro-RJ

Raízes russas e armênias, filho de ex-jogador de futebol e pertencente à uma das mais vitoriosas safras de jogadores franceses. Esse é Youri Djorkaeff, um dos craques da seleção campeã do mundo em 1998 que fez o Brasil se calar no fatídico 12 de julho daquele ano.

Nascido em Lyon, De família futebolística, teve como exemplo o ex-zagueiro Jean Djorkaeff, seu pai, que jogou por Lyon, Marseille e PSG, e então desde criança Youri se inclinou a trilhar o mesmo caminho. Teve de início a admiração por Johann Cruyff e pelo Liverpool de Kenny Dalglish como aliados à sua visão do futebol. Logo adentrou nas categorias de base do AS Villerbaune, onde chamou a atenção de olheiros que viam grande potencial naquele rapaz.

Aos 15 anos foi fichado pelo Grenoble, que à época militava na Segunda e Terceira divisão francesa, rapidamente sendo integrado à equipe profissional. Mas seu talento só iria estourar após sua transferência, por 5 milhões de francos franceses, para o Strasbourg.

No Strasbourg, que em 1989-90 disputava a Segunda Divisão, marcou 23 gols em 34 jogos, sendo 21 deles pelo Campeonato da Segunda Divisão, fato que despertou o interesse do então técnico do Monaco, Arsène Wenger. Contudo, seu debut na Ligue 1 foi complicado, pois Djorkaeff era obrigado a dividir suas atenções entre o esporte e o serviço militar obrigatório.

Djorkaeff em seu primeiro título oficial, a Copa da França 90-91 
Devido ao alistamento, Djorkaeff passara a semana à fazer suas tarefas no Batalhão de Joinville (não é em Santa Catarina, por favor), só tendo os finais de semana para jogar. Fez o seu debut contra o Sochaux-Montbéliard ao substituir Benjamin Clément. Porém, seu primeiro gol oficial só chegaria três semanas depois, contra o Stade Rennais. Em sua primeira temporada pelo Monaco, Youri acabou por conquistar seu primeiro título como profissional: a Copa Francesa contra o Olympique de Marseille, clube que seu pai defendera enquanto jogador. Em sua época seguinte, 1991-92, ainda disputaria a final da Taça das Taças UEFA, ocasião essa em que o Monaco perderia de 2-0 para o Werder Bremen.

Entretanto, o que parecia um caminho traçado pra que Djorkaeff chegasse a titularidade tomou um rumo inesperado, quando o Monaco contrata Victor Ikpeba, Jürgen Klinsmann e Enzo Scifo. Sem espaço como parte dos onze iniciais na agremiação do principado, Djorkaeff se transfere em 1995 para o Paris Saint Germain de Raí, fazendo de forma instantânea grandes atuações, com finalizações fortes e precisas, velocidade, sem falar nas cobranças de falta perfeitas fizeram com que o PSG mostrasse seu talento ao mundo. Foram 28 gols em 61 jogos pelo Paris Saint Germain, sendo campeão da Taça das Taças UEFA em cima do Rapid Viena. Essa temporada fenomenal fez com que Djorkaeff fosse assediado por outros grandes  Barcelona, Sevilla e Valencia. Foi aí que o francês aceitou se mudar para o leste em busca de um novo desafio: a Internazionale de Milão.

Foto: Calciofilia.wordpress.com
Na Internazionale, Djorkaeff viveria seu momento de consagração. Na equipe nerazzurri acabaria por participar de duas finais Copas da UEFA. A primeira, em 1996-97, contra o Schalke 04, não saiu como esperado. Após derrota de 1-0 no jogo de ida em Gelsenkirchen, o duelo sofrido no Giuseppe Meazza  foi salvo por Iván Zamorano, que empatou restando seis minutos para o fim, causando decisão por penais. Todavia, o que parecia regozijo virou lamentação. A Inter perderia a final nos pênaltis, com apenas Djorkaeff convertendo sua cobrança.

Porém o trauma deste revés para o Schalke seria rapidamente revertido. No ano seguinte, lá estavam novamente os interistas na final, desta vez contra a Lazio. Em uma partida fantástica do lado nerazzurri, a Inter acabou por despachar a Lazio com certa tranquilidade. Djorkaeff não marcou, mas contribuiu bastante na partida, que terminaria 3-0 para a equipe de Milão. Com aparições excepcionais, foi convocado para a seleção francesa para a Copa de 1998.

Na Copa de 1998, Djorkaeff acabaria por ser peça importantíssima na equipe campeã de Les Bleus, apesar de ter marcado apenas um gol durante o certame (contra a Dinamarca, de pênalti), formava ora dupla de ataque com Stéphane Guivarc'h, ora atuando como winger pela esquerda, atazanando as defesas adversárias com sua velocidade, passes e chutes.

Na finalíssima de 1998, brilhou ao travar as descidas de Roberto Carlos
(L' equipe)
Após a Copa, em 1999, se transfere para a Bundesliga, vindo a jogar pelo Kaiserslautern, onde ficaria até 2001, completando 89 jogos e 24 gols. Sua média de gols havia diminuído, mas ainda assim foi lembrado pelo técnico Roger Lemerre para a disputa da Euro 2000. Nesta edição, ajudou a França a conquistar o caneco, com dois tentos, um na vitória de 2-1 contra a República Tcheca e o outro sendo o da vitória de 2-1 contra a Espanha nas quartas de final.

Passados dois anos no Kaiserslautern, em 2001 se transfere para o Bolton Wanderers, que tentava formar uma equipe forte, com as contratações de Jay Jay Okocha e Iván Campo. Nesta época amargou a eliminação precoce da Seleção Francesa na Copa de 2002 e chegaria à sua última final, sendo finalista da Copa da Liga Inglesa de 2004, onde foi derrotado pelo Middlesbrough de Juninho Paulista por 2-1. Cumpriu 87 jogos e 21 gols pela camisa dos Wanderers, até se transferir para o Blackburn Rovers.

Não ficaria em Ewood Park por muito tempo. Entrou em campo somente três vezes e se transferiu para o futebol norte-americano, no New York MetroStars, seu último destino antes de pendurar as chuteiras em 2006. Seu anúncio de aposentadoria viria após uma lesão no tornozelo. Seu corpo já não aguentara mais os sprints e o jogo físico.

Mas ainda assim, de Djorkaeff sempre será lembrado pelos seus dribles, visão de jogo e capacidade de aterrorizar defesas adversárias. E mais ainda, será lembrado como aquele, que no 12 de Julho de 1998, aterrorizou Roberto Carlos pelo lado direito do ataque, ajudando a consagrar aquela grande geração de  Les Bleus que calou todo um país e fez a nação francesa comemorar.



quarta-feira, 4 de abril de 2012

Craques: Julio Dely Valdés

Foto: Diálogo americas
Felipe Portes, @portesovic
De Brisbane-AUS

Aproveitando o fato que falamos do maior jogador costarriquenho da história, Paulo Wanchope, o gancho é bom para que o protagonista de hoje seja Julio Dely Valdés, o maior panamenho de todos que já caminharam por esta terra.

Goleador daqueles desesperados, um artilheiro nato, Dely Valdés marcou época no PSG, Oviedo e Málaga, também com boas passagens por Cagliari e Nacional do Uruguai. Começou sua carreira em 1987, no Deportivo Paraguayo, de divisões inferiores na Argentina. O talento para balançar as redes usando o bico da chuteira, a testa, a canela e até a cintura fizeram de Julio ídolo imediato na pequena agremiação de Buenos Aires. 

De lá, partiu para o Nacional, onde ganharia destaque internacional e suas primeiras chances na seleção panamenha, onde seria eterno camisa 9 e maior ícone. Reza a lenda que O Pelé da América Central marcou mais de 100 gols pelo Bolso. A mitificação de Dely era algo inevitável. De 1989 a 1993 torturou os goleiros e defesas adversárias no Uruguai até chamar a atenção do Cagliari. Foi campeão nacional em 1992 e no ano seguinte partiu para a equipe da Sardenha.

No Cagliari, ainda possuindo alguma quantidade de cabelos, Julio fez companhia de ataque ao não menos lendário e carismático Luis Oliveira (Oliveirrá, como diziam os belgas). A parceria não vingou como esperado e apenas uma décima posição na Serie A frustrou os ânimos dos dirigentes no Sant'Elia. Para a temporada seguinte, em 1994-95, contou com Roberto Muzzi e Massimiliano Allegri no elenco gialloblu, mas o resultado final também não empolgou. A nona posição foi a gota d'água para que o panamenho procurasse outro lugar para tentar corresponder às suas ambições como profissional.

Semi-voleio de Dely Valdés na final da Taça das Taças em 1996
O Paris Saint-Germain foi a escolha para o futuro. Já adotando o visual careca/Seal/Sebastian da C&A, Dely  já chegou com pompas e levantando o título da Taça das Taças UEFA em 1995-96. A vitória sobre o Rapid Viena, com gol de Bruno N'Gotty, foi o único troféu erguido pelo talentoso atacante, apesar da excelente média de gols (64 jogos e 24 gols). Em 1997 deixou o Parc des Princes e assinou com o Real Oviedo, onde seria rei. 

Eram tempos nebulosos para a simpática equipe das Astúrias. Três péssimas campanhas em La Liga, com ponto alto para os intermináveis gols de Julio contrastaram na história do clube. Ainda importantíssimo e herói no Oviedo, o atacante foi para o Málaga, em 2000-01 onde venceu a Copa Intertoto (2002) e se consagrou como um dos maiores artilheiros dos Boquerones. 


O reconhecido faro de gols continuava ali. Com o passar dos anos, Julio se transformou num centroavante mais de área, de conclusão, não um jogador de arrancada, explosão e velocidade como nas suas passagens por Cagliari, PSG e até mesmo Oviedo.


Veteraníssimo, aos 36, saiu do Málaga em 2003 e rumou ao Nacional, onde foi revelado para o futebol internacional. A idade foi uma barreira e ele disputou apenas 15 partidas antes de defender o Árabe Unido, do Panamá, onde encerraria sua carreira (vejam só como rimou com o começo da oração). É irmão gêmeo de Jorge Dely Valdés, que teve passos similares no que se diz início e fim da caminhada como jogador de futebol.



domingo, 1 de abril de 2012

Desafortunados: Juan Esnáider

Esnaider está no top 5 do campeonato mundial de flops
do futebol europeu (Futebol daragon)
Felipe Portes, @portesovic
Do Charme da Paulista-SP

Atacante que não tinha lá muito o hábito de marcar gols, Juan Esnáider é um grande exemplo de flop persistente, aqueles que rodam pelo planeta sem completar um número convincente de partidas. Argentino nascido em Mar del Plata no inglório ano de 1973, começou sua carreira no Ferro Carril Oeste, em 1990. Revelado juntamente com Germán Burgos, o rapaz logo foi chamado ao Real Madrid B, que durante aquela década investia em jovens estrangeiros na sua base. 

Naquele tempo, Esteban Cambiasso, Dejan Petkovic, Iarley, César Prates e Rolando Zárate integravam as camadas juniores do Real, Juan foi traçando um caminho interessante na base merengue. Promovido à equipe principal, pouco contribuiu e foi banco durante a maior parte do tempo. Neste intervalo, venceu uma Copa do Rey, em 1993. Após três anos alternando entre os reservas e titulares, foi repassado ao Zaragoza ainda em 93, onde teria seu maior brilho na carreira.

Em La Romareda, levantou o caneco da Taça das Taças UEFA e da Copa do Rei em 1994 (é muita taça, cara). Seus números foram impressionantes: em 61 partidas anotou 29 tentos. Era o suficiente para credenciar o argentino como um dos nomes fortes no mercado europeu. Retornou ao Real Madrid em 1995, no entanto amargou nova fase como mero esquenta bancos. Um ano depois, foi para o rival madrilenho do Vicente Calderón. Queria retomar os bons tempos como a referência goleadora no recinto colchonero. 

Foto: El Cuadrilátero
Nova era para Esnáider no Atlético em 1996: entrou em campo 35 vezes, marcou 16 gols. Óh, ele é competente, óh, é o novo Batistuta, ah, terror, Esnáider matador, gritavam os fãs do rapaz que tinha a aparência daqueles atores mexicanos de cinema underground. Não deixaria Madrid antes de protagonizar uma pataquada que custaria caro. Contra o Ajax, nas quartas de final da Liga dos Campeões em 1997, errou um pênalti decisivo e no rebote deu um carrinho por trás em Richard Witschge. Por sorte, só levou amarelo, mas a vaga foi para os holandeses e não dificilmente isso pode ter resultado na decisão da diretoria rojiblanca em não renovar seu contrato de empréstimo.

Facilmente confundido com Lorenzo Lamas ou qualquer outro cara que tenha feito filme de porrada nos anos 90, Juan deixou o Calderón e partiu para o Espanyol, em 1997. Sua primeira temporada no clube periquito foi honrosa. A seguir, disputou apenas metade da temporada 1998-99 e foi para a Juventus, onde passaria vergonha. Envergando a camisa 9 bianconera, Esnáider jogou 26 vezes em quase três anos e foi às redes apenas em duas oportunidades. O fracasso vestindo o manto juventino fez com que ele acertasse o retorno ao Zaragoza, já em 2001. 
Ninguém lembra que ele esteve na Juve,
mas para todos os efeitos, eis uma prova
(Juventus Area)
Passado o tempo na Itália, nosso Desafortunado retornou ao lugar onde foi mais feliz. O Zaragoza voltou a vencer a Copa do Rei em 2001, com grande ajuda de Juan, que marcou 11 vezes em 17 oportunidades. Aí então pensou com seus botões: ora, por que não aceitar esta oferta interessante do Porto? Queria ser ídolo num dos grandes europeus, brigar por títulos nacionais, coisa que não conseguiu na Juventus. 

Disputou apenas três jogos pelo Porto e passou em branco por um semestre. Em 2002 recebeu um convite do River Plate para voltar à Argentina e somou nove aparições na campanha vitoriosa do Clausura daquele ano. Também deixou os Millonarios sem balançar as redes. Assinou com o Ajaccio em 2002/03 e ficou mais seis meses na França: nada. Foi no Real Múrcia que teve uma boa sequência, mas 17 atuações constrangedoras e um gol (solamente) serviram para adiantar sua aposentadoria. Fez 10 jogos pelo Newell´s Old Boys, um mísero gol e pendurou suas chuteiras.

Um indício sobre sua franca decadência como atleta é o fato de nas suas três últimas temporadas, marcou apenas dois gols. E assim se encerrou de forma melancólica a carreira do atacante Juan Esnáider, que teve seus quinze minutos de fama na Juventus, mas não aproveitou como poderia. Será sempre lembrado pelos torcedores do Zaragoza pelos seus imp... bem, talvez nem seja. 


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Descraques: Bruno N´Gotty

N´Gotty comemora tento na final da Taça das Taças UEFA de 1996 (Le meilleur de PSG)
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

Era um daqueles brucutus que surgiam aos montes na França nas décadas de 1980 e 90. Da mesma escola de Desailly, Leboeuf, Blanc e Angloma (quando digo da mesma escola, não entenda graduado com nota 10), Bruno N´Gotty foi um dos caras mais superestimados que passaram pelos gramados europeus nos últimos vinte anos. 

Na base do Lyon começou a ganhar espaço. Em era de vacas magras do Gerland, tornou-se referência na cozinha do OL, demonstrando bom poder de marcação, posicionamento e chegada firme, com consciência. Características de um bom beque. Permaneceu por lá até 1995, quando assinou com o último grande PSG que reinou na França.

A força e os demasiados carrinhos (muitas vezes terminando em falta) foram fazendo a fama de Bruno, que no papel de zagueiro fazia boa participação, afinal, ninguém espera que defensores desarmem os seus oponentes e peçam desculpas, levem flores. Construindo uma reputação em cima da sua capacidade de combater os atacantes, N'Gotty já fazia parte da seleção francesa em 1994, embarcando logo após o grande fiasco de Les Bleus ao não se classificarem para o Mundial dos EUA, quando a Bulgária levou a última vaga com gol de Kostadinov.

Inegavelmente o futebol francês estava em uma nebulosa. Os seus clubes por nada brigavam quando fez-se a exceção na Taça das Taças UEFA, em 1996. A vitória parisiense frente o Rapid Vienna de Trifon Ivanov, com gol de N'Gotty, representou o ponto alto da carreira de um atleta que depois experimentaria o ostracismo.

Perdendo espaço no selecionado nacional em 1997, conseguiu uma transferência para o Milan, que mais parecia uma Torre de Babel na ocasião. 14 estrangeiros e estrelas internacionais figuravam entre o plantel rossonero que venceu a Serie A. Não conseguindo convencer, Bruno fez apenas 25 aparições antes de ser repassado ao Venezia, onde fracassou vergonhosamente na tarefa de dar segurança ao setor defensivo, inclusive protagonizando um gol de calcanhar contra a Roma. Detalhe, a bola balançou as suas próprias redes.
Num momento de Whitney Houston nas traves
do Milan, N'Gotty sofre... (Maglia Rossonera)
Daí em diante foi só tristeza, quase uma canção do Roupa Nova no dia dos namorados, quando a sua garota te deixou na saudade dias antes ao te trocar pelo Ricardão do Corolla. Voltou ao Milan em 2000 e quase não entrou em campo. Era hora de um retorno ao seu país de origem (ainda que a ascendência de N'Gotty seja camaronesa), para jogar pelo Marseille. Uma temporada serviu para que o OM se livrasse do pobre rapaz, que acabou rumando ao Bolton em 2001/02.

Certo tempo depois, aquela segurança no início da carreira já não era mais a mesma. De 2001 até 2006 o francês ficou no Reebok Stadium, quando o treinador Sam Allardyce o dispensou e disse que não mais contaria com os serviços de Bruno para a sequência do trabalho. Aliás, nessa mesma leva de dispensa, foi também o lendário nigeriano Jay-Jay Okocha, sim, ele mesmo.

Acumulando mais passagens por Birmingham, Leicester e Hereford, N'Gotty encerrou sua carreira sem uma grande trama, um grande campeonato, uma grande história para se contar. Talvez aquele título da Serie A no qual foi figurante, o gol em final de competição europeia. Ainda sim, seus netos dificilmente acreditarão nessa história.