Aproveitando a onda Chen Zhi Zhao, ou Zizão, como queiram, o Desafortunados vem falar de uma das grandes esperanças chinesas em tempos passados.
Ele nunca foi famoso. Longe disso, pelo menos em âmbito internacional, mas teve uma grande responsabilidade em suas costas. No auge de seus 32 anos, Hao Haidong era o camisa 10 da seleção chinesa em sua primeira participação em Copas do Mundo, em 2002. Seria o primeiro mundial da seleção, a oportunidade da China se tornar uma potência mundial... mas não deu.
Muito além disso. Os asiáticos nem sequer passaram da primeira fase. Foram três decepcionantes derrotas, uma inclusive para o Brasil, por 5-0 e sem sequer um gol marcado. Nem o mítico e carismático técnico Bora Milutinovic deu jeito.
Ainda sim, Hao foi uma grande referência no futebol chinês. Apesar de ser camisa dez, jogava como atacante e é o maior artilheiro da seleção e da história da liga local, antes de seu profissionalismo, em 2004, considerado até hoje o melhor jogador, em termos técnicos, que os chineses tiveram.
Haidong começou sua carreira cedo, ainda com 16 anos no Bayi FC, time do Exército da Libertação que tinha sede em Pequim, após ser recrutado com apenas dez anos. Apesar de ter uma base militar no controle, a equipe nunca foi uma potência local. Despontando desde cedo, Hao ficou lá por incríveis onze anos, alternando entre o futebol e as atividades militares, até realmente pensar grande e se transferir ao Dalian Shide, que apesar de nova é uma das grandes forças da China.
Sua ida ao Sheffield só serviu para divulgar o nome do time no Oriente
Desde que aterrissou por lá, Hao ganhou sete títulos nos dez anos de Dalian, de 1996 à 2005. Já com 35 anos, ele teve a grande oportunidade de sua carreira, seria um dos primeiros chineses a jogar na terra da rainha, mais precisamente no Sheffield United. Comandado por Neil Warnock, os Blades, até então na segunda divisão buscavam uma maneira de expandir seu nome, principalmente no mundo asiático. Contudo, Hao sofreu uma séria lesão logo que chegou, que o impediu até de estrear pela equipe inglesa. Permaneceu então por dois anos treinando o time de reservas.
Haindong (ao centro) tem papel fundamental na busca de novos talentos para a seleção local
Embora não tenha pisado em campos europeus, Haidong pode se orgulhar de ainda ser o mais habilidoso jogador de seu país (não que isso seja muito difícil). Hao teve azar de jogar em uma época que a China não tinha nem metade do investimento atual, mas deixou seu legado. Aposentado, é o “manda-chuva” do Tianjin Songjiang, da terceira divisão local. Bem que sua história pode servir de inspiração para um novo goleador chinês. Quem sabe não é o Chen?
Provavelmente muito poucos sabem quem foi Cesáreo Onzari. Mas seguramente todos os fãs de futebol conhecem sua genial contribuição para a história do esporte: o gol olímpico.
É uma história que começa muito longe da Argentina, país natal do jogador. Na verdade, tudo teve sua origem em Paris, em 1924. Naquela edição dos jogos olímpicos, o mundo descobriu que na América do Sul havia quem soubesse jogar futebol em alto nível.
Naqueles jogos olímpicos, a seleção uruguaia chegou sem causar nenhuma comoção. Nem sequer se suspeitava que o pequeno país sul americano pudesse acrescentar algo a um esporte que se supunha europeu. Mas o mundo se assombrou com a Celeste Olímpica.
Com 20 gols marcados e apenas 2 sofridos em cinco partidas, o Uruguai encantou o mundo do futebol. Era uma equipe que praticava um futebol desconhecido dos europeus, com jogadores habilidosos, capazes de trocar passes de uma maneira que ninguém havia visto no velho continente. E com jogadores que faziam coisas jamais imaginadas, como o genial José Leandro Andrade (a “maravilha negra”) e o atacante Hector Scarone. Todos sob o comando do capitão José Nasazzi, vigoroso zagueiro.
A conquista uruguaia pareceu inaceitável aos argentinos, que não foram às olimpíadas. Grandes rivais dos charruas nas competições continentais e praticantes do futebol há meio século, os moradores do país vizinho se sentiram injustiçados. Acreditavam que o Uruguai só havia conquistado o mundo com tamanha facilidade pela ausência da albiceleste. E os desafiaram para um encontro.
Desafio aceito, argentinos e uruguaios se encontraram no dia 21 de setembro de 1924 em Montevidéu, em uma partida que terminou empatada em 1 a 1. Foi marcada uma revanche em Buenos Aires. Mas as coisas não terminaram bem. Na verdade, mal começaram: a partida, disputada no campo do Sportivo Barracas, teve por volta de 60 mil espectadores, quando as arquibancadas poderiam suportar no máximo 40 mil. Havia torcedores à beira da linha lateral, e a partida se encerrou antes dos 5 minutos de jogo, por razões de segurança.
E no dia 2 de outubro as equipes voltavam à mesma cancha, sob os olhares de “apenas” 30 mil pessoas, segundo os jornais da época, graças às medidas de segurança adotadas para a partida. E aos 15 minutos aconteceu o lance histórico. O ponteiro esquerdo Onzari foi encarregado de cobrar um escanteio para a seleção argentina. Para surpresa de todos, o tiro de esquina cobrado pelo jogador do Huracán terminou dentro do gol, sem que nenhum outro jogador tocasse na bola.
Era uma grande novidade. Até aquele ano, o gol marcado em cobrança de escanteio era ilegal, e a Internacional Board mal havia modificado a regra, permitindo o que passaria a ser conhecido como “gol olímpico”. Onzari nunca deixou de reconhecer que o lance foi fruto do acaso: “aconteceu porque tinha de acontecer. Talvez o goleiro tenha acordado com o pé esquerdo naquele dia, pois nunca mais voltei a marcar outro gol assim. Mas o certo é que quando vi a bola dentro do gol não pude acreditar”, disse o jogador muitos anos depois.
Ainda no primeiro tempo, o artilheiro uruguaio Cea empataria a partida, com Tarasconi marcando o gol da vitória argentina já no segundo tempo. Foi uma partida controversa, que sequer chegou ao final. A quatro minutos do fim os uruguaios se retiraram de campo, se queixando dos torcedores argentinos, e o craque Scarone chegou a trocar pontapés com um policial, indo parar na delegacia. O time da casa também tinha reclamações, principalmente da fratura sofrida por Adolfo Celli.
Aquela partida foi um típico confronto entre argentinos e uruguaios naquele tempo, com muita rivalidade e controvérsias. Mas naqueles noventa minutos aconteceu o primeiro gol olímpico da história. Um fato que tornaria a partida inesquecível. E nada mais justo que tal fato tenha ocorrido exatamente em uma partida disputada entre aquelas que naquele momento certamente eram as melhores seleções do planeta.
Onzari e Stábile, ídolos da Argentina e no Huracán
Foto: marcelodieguez.com.br
PS: Em diversas publicações há referência a um gol marcado diretamente de cobrança de escanteio que teria ocorrido antes da partida entre os vizinhos platinos. Supostamente, em 2 de agosto daquele ano Billy Alston teria marcado um gol dessa maneira em uma partida da segunda divisão escocesa. Mas o pesquisador uruguaio Jorge Gallego demonstrou claramente que essa informação provém de uma única fonte, e essa versão contém tantas inconsistências que é muitíssimo provável que de fato o primeiro gol diretamente marcado numa cobrança de escanteio tenha sido efetivamente o de Onzari.
De Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch-País de Gales
A série Desafortunados aqui na TF geralmente traz exemplos de atletas que prometiam ser astros do futebol, mas por alguma razão tomaram o caminho errado na carreira. Contudo, o exemplo de hoje é a personificação do azar, da zica, da urucubaca que vez ou outra entra em campo ao lado dos times que jogam.
Daniel Zitka tinha uma trajetória normal para um goleiro. O tcheco era seguro, quase nunca se atrapalhava debaixo das traves. Seu primeiro clube foi o Viktoria Zizkov, em 1994, onde ficou por um ano. Em 1995 foi para o Svit Zlin. Ambas as equipes eram de divisões inferiores na República Tcheca. Logo no seu segundo ano de Zlín chamou a atenção de times mais tradicionais. Optando por deixar o seu país, tentou a sorte na Eslováquia, pelo Tatran Presov.
Somente no ano de 1999 Daniel conseguiu sua primeira chance em uma equipe de primeira divisão respeitável. Assinando com o Lokeren, demorou a tomou o posto de arqueiro titular do selecionado belga e disputou apenas 59 partidas em cerca de três anos. Os olheiros do Anderlecht estavam sabendo que Zitka poderia ser um bom valor para os paars-wit.
Em ação pela seleção tcheca, num amistoso contra a Eslováquia em Outubro/2008
Foto: Tn.nova.cz
Passando por boa fase, o goleiro reinou absoluto como guarda redes do Anderlecht. Foram oito anos tranquilos, sem nenhuma grande bobagem, três títulos nacionais (2004, 2006, 2007) e uma merecida convocação para fazer parte dos 23 atletas que embarcaram para a Suíça/Áustria na Euro 2008. Tudo era flores para Zitka, até que um dia a sorte o abandonou por completo.
Dender-Anderlecht, 28 de novembro de 2008, pela Jupiler League. Estava frio no Florent Beeckmannstadion, em Denderleeuw. A tarde de sexta-feira prometia ser aproveitável para os rapazes de Bruxelas, exceto para um deles, que amargaria o pior dia de sua existência. Logo aos quatro minutos do primeiro tempo, Gillet abriu o placar para os paars-wit.
Pouco após a volta do intervalo, o argentino Frutos ampliou para o Anderlecht. A perspectiva era de uma vitória fácil, ja que o Dender não oferecia tanta resistência e possuía um plantel assaz inferior ao dos violetas. Num lance qualquer que pipocou na área de Zitka resultou numa das divididas mais inusitadas que o esporte já viu. Daniel subiu e foi atingido pela cabeça do atacante rival. No choque, perdeu um ou dois dentes. Ao cair no chão, de mau jeito, quebrou a perna e obviamente teve de ser substituído.
Puta mundo injusto, meu! (hln.be)
Conduzido para os vestiários de maca, gravemente lesionado, sofreu mais uma peça do destino. Os maqueiros o derrubaram de cima do aparato, gerando risos à torcida local, que já julgava ter visto de tudo com o pobre goleiro tcheco. Ficou quase um ano fora e penou para voltar à titularidade.
Em 2010, deixou o Anderlecht para ser negociado com o Sparta Praga. Com 36 anos, é titular no clube da capital tcheca e já estuda a aposentadoria nos próximos dois anos. Mas Zitka, meu querido, se você o tivesse feito naquele jogo contra o Dender, entenderíamos perfeitamente...
Higuita na Copa de 1990: falharia vergonhosamente jogos depois (Spox)
Principal nome da escola de goleiros colombiana (mais por sua extravagância do que por talento, propriamente dito), René Higuita é uma das figuras mais irreverentes que o futebol já viu, e o melhor, dentro das quatro linhas.
Batistuta sob olhares atentos de Shearer e Southgate (UOL)
Allan Amarelo, @Allan_Amarelo
De São Paulo-SP
[Valendo muito mais do que as Malvinas]
Quando o sorteio da Copa do Mundo de 1998 cravou Inglaterra e Argentina nos grupos G e H respectivamente, não só duas das maiores potências futebolísticas pararam para analisar os rivais e os possíveis confrontos nas seguintes fases, mas dois povos, distintos e interligados por uma cultura outrora pacífica e até mesmo invejável.
A cultura britânica foi sempre muito forte pelas terras próximas ao Rio da Prata. Não é a toa que o primeiro campeonato de futebol no país vizinho tinha o nome de Argentine Assiciation Football League e o seu primeiro campeão foi o St. Andrew's Scots School. Não só o futebol interligava Argentina e Inglaterra, mas o rugby e até mesmo os colégios ingleses, onde muitos porteños (argentinos nascidos em Buenos Aires) sonhavam estudar.
A influência era forte em todos os lados, mas sendo os ingleses fundadores do mais famoso esporte-bretão, os argentinos e até mesmo italianos imigrantes no país que fundaram os primeiros clubes, tinham a necessidade de “homenagear” aos gênios que inventaram a maior paixão do homem depois da mulher (até hoje não temos certeza disso). Boca Juniors, River Plate, Newell’s Old Boys, All Boys,entre outros, foram alguns dos principais clubes argentinos que tiveram influência inglesa em seus nomes. E isso não era por ser uma moda de uma língua hoje muito falada onde cabelereiros, restaurantes, empresas de pequeno e médio porte colocam seus nomes na “língua global”. Não! Isso era simples e genuinamente cultural.
Tão historicamente ligados, Argentina e Inglaterra começaram a se dividir em 1966, quando o volante Antonio Rattin, do Boca Juniors e da seleção albiceleste, foi expulso do jogo entre as duas seleções no Mundial daquele ano. No meio da confusão que durou vários minutos, Rattin foi obrigado a sair de campo por policiais e, em protesto, amassou a bandeira inglesa, começando ali o que seria muito mais que uma guerra.
Dizem que a vingança é um prato que se come frio. Em 1982, a guerra pelas Ilhas Malvinas matou diversos argentinos e fez com que estes povos pensassem que aquele fato num longínquo mundial quase duas décadas antes, fosse um presságio do que viria. Na verdade, ninguém pode prever as maravilhas do futuro. Quatro anos depois, talvez Deus estivesse ao lado dos argentinos. E se ele não estava, certamente estava “D10S”, Diego Armando Maradona, fazendo um gol com a mão (dele mesmo?) e o mais lindo de todos os mundiais. Sim, a Argentina venceu e eliminou a Inglaterra da Copa do Mundo, mas este é um jogo para ser contado um outro dia.
Voltando ao que viemos falar, parece que o destino iria escrever – por linhas retas – que essa história ainda não podia acabar. O sorteio daquele Mundial de 1998, na França, mostrava que possivelmente Argentina e Inglaterra se enfrentariam nas oitavas-de-final. Uma festa era preparada como um banquete. A Argentina passou em seu grupo com 100% de aproveitamento e a Inglaterra cumpriu seu papel no destino. Perdeu seu segundo jogo para a Romênia e após vencer a Colômbia, classificou-se em segundo lugar e assim tudo seguia como deveria seguir.
Terça-feira, 30 de Junho de 1998, estádio Geoffroy-Guichard, Saint-Étienne. Diante de um público de 30.600 pessoas, começava mais uma batalha dessa história tão fascinante e por muitos, desconhecida. “Trapos” (faixas para os argentinos) diziam “As Malvinas são Argentinas”. A torcida gritava “Quem não pula é um inglês” e não adiantava falar que era um esporte, pois o clima definitivamente não era esse.
Com apenas seis minutos de jogo, Batistuta, de pênalti, colocava a Argentina na frente. Num chute que o goleiro David Seaman quase pegou e o camisa nove comemorou homenageando seu filho que acabara de nascer. A alegria dos argentinos era enorme, mas como tudo que é bom (dizem) dura pouco, Alan Shearer, o nove inglês, empatou, também cobrando pênalti. Um a um. E a alegria durou tão pouco, que apenas seis minutos depois, um garoto chamado Michael Owen, passa em velocidade pela defesa composta por Ayala e Chamot para acertar um lindo chute e marcar um dos mais belos gols daquele torneio. Era a virada inglesa.
Pancada de Zanetti no gol de empate argentino (Archivos de fútbol)
Porém, antes do intervalo, no último minuto do primeiro tempo, Javier Zanetti acerta um chute inesperado e empata a partida novamente. O jogo era um típico clássico entre estas duas seleções. A tensão da arquibancada ultrapassava os limites da linha do campo e penetrava em cada jogador que corria atrás da bola.
Logo no começo da segunda parte, um dos principais jogadores ingleses, David Beckham, cai na provocação do sempre vigoroso e violento, Diego Simeone e é expulso. A Argentina tinha um homem a mais e quase um tempo inteiro por se jogar. A verdade é que isso não mudou em nada, o time inglês era bravo e parecia jogar por sua rainha, os argentinos corriam, e pareciam, de novo, querer vencer pelo seu povo. E a vontade de ambos permaneceu intacta durante os noventa minutos, levando o jogo para a prorrogação.
Como é comum, o desgaste físico e mental fez com que o jogo perdesse ritmo e qualidade, e nos trinta minutos seguintes os arcos de David Seaman e Carlos Roa foram intransponíveis, levando a partida para a disputa de grandes penalidades.
A Argentina começou batendo e não tinha o seu batedor oficial, Batistura, substituído ainda na segunda parte do tempo regulamentar. Mesmo assim, Berti, com segurança, fez o um a zero. Em resposta, Shearer fez Roa de novo buscar um pênalti no fundo das redes. Seguindo, Crespo falhou e encheu de esperança os hooligans presentes no estádio. Mas o volante Paul Ince não fez muito melhor e, assim, tudo seguia igual.
Veron e Gallardo para a Argentina, Merson e Owen para a Inglaterra. A disputa estava em três a três e nem a “sorte” dos pênaltis parecia conseguir escolher um vencedor num dos mais equilibrados encontros da história das Copas.
Para as últimas batidas sobraram um zagueiro para o lado argentino e um volante daqueles bem marcador para o lado inglês. Nenhum deles parecia ter vantagem. Nenhum deles teria um craque para marcar o último. Ambas as torcidas parecia não confiar em nenhum de seus batedores, mas o destino teria que escolher um vencedor. Ayala, absolutamente aliviado, viu a bola ultrapassar a linha e balançar a rede. As esperanças inglesas estavam nos pés de David Batty, o camisa oito que havia entrado durante a prorrogação parecia ser um especialista no tiro de X metros. Mas não, a verdade é que Batty jamais havia estado numa disputa de pênaltis em toda sua carreira e ai, pela primeira vez, o destino parecia ter escolhido o seu favorito.
E como um sussurro no ouvido, este personagem - existente ou não - parecia ter falado com o goleiro argentino. Roa caiu para o lado certo e espalmou a bola chutada pelo inglês.
Os jogadores corriam, gritavam choravam. Ambos, a reação parecia a mesma, e nestes momentos vemos a diferença daquele que escorre lágrimas de alegria ou de tristeza. Mas com toda aquela rivalidade, com uma bandeira amassada, uma guerra, marcas na história, vimos que quem venceu foi o futebol, e aquela vitória, naquele momento, valeu muito mais que as Malvinas.
30 de junho de 1998 - Estádio Geoffroy Guichard, St. Étienne - Oitavas de final
Argentina (2): Roa, Ayala, Chamot, Vivas, Almeyda, Simeone, Verón, Ortega, Zanetti, Batistuta (Gallardo), López (Crespo). Téc: Daniel Passarella
Capitão de uma geração, Dragan Stojkovic conciliou seu talento dentro de campo com o engajamento político fora dele, se tornando um ícone sérvio em tempos duros de separatismo e guerras civis na Iugoslávia
Erick Ribbeck ao lado de Cha-Bum-Kum: Bayer não é tão derrotado como sugerem (UEFA)
Felipe Portes, @portesovic
De um filme de suspense-SP
Quando se fala em Bayer Leverkusen, logo se associa a imagem de um clube azarado, amarelão, fama adquirida nos últimos anos, especialmente na década de 2000. Experiente no quesito "perder campeonatos para si mesmo", a equipe germânica levantou um caneco internacional em 1988, acredite. Vencendo a extinta Copa UEFA em 1988, os rapazes da farmácia entraram no seleto grupo de clubes alemães a ter conquistas continentais.
O sexto lugar na Bundesliga ao fim de 1986/87 credenciou os rubronegros a disputarem a segunda competição mais relevante de clubes na Europa. Na teoria, não era lá um plantel de botar medo nos adversários. Na prática, muito menos (risos). Capitaneados pelo já veterano Wolfgang Rolff, com passagens por Hamburgo, Colônia, Strasbourg e Karlsruhe, o Bayer ainda tinha como trunfo o já famoso Tita (ele mesmo), o grego Minas Hantzidis e o pioneiro coreano no velho continente, Cha Bum-Kum.
No primeiro embate ainda na rodada inicial (eliminatória em dois jogos), fora de casa contra o Austria Viena, um 0-0 insosso. Para a segunda perna do confronto, no Ulrich Haberland Stadion (atualmente com o nome BayArena) a surpreendente arrancada. 5-1 nos vizinhos vienenses foi o ticket alemão para a próxima fase. Representando bem o país ao lado de Borussia Dortmund, Monchengladbach e Werder Bremen, os rapazes da farmácia teriam pela frente o Toulouse de Yannick Stopyra e Dominique Rocheteau, ambos presentes no Mundial de 86 onde Les Bleus foram derrotados pela National Mannschaft nas semifinais.
Foi osso duro de roer. Empate na bacia das almas por 1-1 no Municipal de Toulouse. As principais equipes francesas viviam seus últimos suspiros de glória fora de seu território. Que dirá o Marseille, campeão da Liga dos Campeões, anos depois. O pingo de esperança de Les Pitchouns (os garotos, em francês) se esvaiu quando o Leverkusen conseguiu a vantagem mínima em seus domínios, deixando pelo caminho o último competidor oriundo da França, já que o Auxerre havia sido derrotado já na primeira fase.
O grau de dificuldade ia aumentando cada vez mais, afunilando e separando os grandes candidatos das zebras. Na terceira fase já não era fácil para ninguém, exceto para Barcelona e para o Werder, que duelavam contra Flamurtari Vlore, da Albânia, e Dinamo Tblisi, da Geórgia [ainda integrante da URSS], respectivamente. E convenhamos, foi tarefa fácil passar destes obstáculos. Agora, para o Bayer, era hora de tentar a sorte contra o Feyenoord, sem grandes nomes memoráveis. O equilíbrio prevaleceu na peleja marcada para o De Kuip, em Roterdã. 2-2 foi um resultado justo para dois oponentes que buscaram o ataque.
Era também chegado o ponto para o treinador Erick Ribbeck pensar sobre a postura adotada pelos seus comandados. Sem apresentar todo o seu potencial longe de casa, o técnico tratou de focar na defesa, em não levar mais tantos gols, colocando em risco a participação da equipe no torneio, visto que o saldo de gols nas duas pernas poderia fazer a diferença. Assim se fez, e na Alemanha, para o retorno contra os holandeses, o Leverkusen deixou o seu modesto gol e administrou a situação para às quartas de final, contra o Barcelona.
Como sempre, os blaugrana tinham um elenco forte, consistente e com certo toque de seleção, com seus craques de nível internacional. Andoni Zubizarreta, Bernd Schuster, Gary Lineker, Steve Archibald e Mark Hughes eram as estrelas da companhia. Não como nesta edição da LC, os espanhois tiveram mais trabalho para tentar vencer o lado germânico. Invertendo as lições de Ribbeck, o Leverkusen empatou sem gols em casa e partiu para jogar o tudo ou nada no Camp Nou, palco de lendários confrontos desde que o futebol é futebol.
No entanto, a estrela de Tita brilharia para decidir o vencedor daquele encontro. Ele havia sido campeão mundial pelo Flamengo em 1981 e em 1983 pelo Grêmio, quando chegou ao Leverkusen em 1987 e só ficou por lá justamente durante o período que conquistou o caneco desta Copa UEFA. Numa tarde onde a torcida do Barça não marcou presença, o cotejo era truncado, bem marcado e sem muitas chances. Aos 59', o atacante brasileiro marcaria o gol solitário para o lado alemão, que enfrentaria um rival do próprio país na semifinal.
A tendência para testar os torcedores cardíacos continuava no estilo do Leverkusen. Alois Reinhardt balançou as redes do Bremen aos 61', iluminando uma partida complicadíssima na BayArena. Ribbeck estava satisfeito, pois jogando feio ou não, o bom trabalho aparecia, os bons resultados eram fruto de consistência e o rubronegro mal sofria gols. No Weser Stadion, novo empate sem gols e a vaga na decisão para enfrentar o Espanyol, que superou o Club Brugge na outra chave de semifinal.
Losada sobe de cabeça para marcar o primeiro do Espanyol, no jogo de ida (The trequartista)
Final equilibradíssima só vê vencedor nas penalidades
Veja bem, o Espanyol não era lá um adversário fácil de ser batido. Treinados pelo polêmico Javier Clemente, os blanquiblaus desmontaram o sistema defensivo quase infalível do Bayer, marcando três gols com Losada (2) e Soler. A retaguarda espanhola também era consistente, com Golobart, Miguel Ángel, Santiago Urquiaga e José Maria Gallart, sem falar no excelente e lendário arqueiro camaronês Thomas N'Kono. O placar de 3-0 no Sarriá foi um duro golpe na confiança de Ribbeck e seus comandados, mas ainda haviam 90 minutos de jogo em casa.
Era 18 de maio de 1988, e o clima era de preocupação. Tendo de reverter a desvantagem, o Bayer entrou em campo para fazer uma atuação épica afim de sair de campo com o troféu. Foi-se todo um primeiro tempo tenso e com pressão em cima da defesa espanhola. Foi preciso 11 minutos da etapa final para que Cha Bum-Kum partisse pela direita e fizesse o cruzamento. Golobart domina e ao sair jogando, se atrapalha e não vê Tita se aproximar para dar um toque e inaugurar o marcador. Visivelmente com pressa, o brasileiro correu com a bola para o meio campo, não havia tempo para comemorações. Minutos depois, foi substituído por Klaus Täuber e viu do banco de reservas o desfecho dramático.
Com maestria, Täuber recebe na esquerda e dispara. Em certo ponto mira o cruzamento e manda a bola com força para a área. Falko Götz mergulha e cabeceia para fazer o segundo, aos 63'. Ainda faltava um. De forma heróica em falta cobrada por Rolff, o coreano Cha sobe mais alto que os oponentes e dá números iguais à decisão em Leverkusen. Teríamos penais para definir o vencedor.
Pichi Alonso cobrou e colocou o Espanyol na frente. Ralf Falkenmayer desperdiçou a primeira cobrança para o Bayer. Job converteu e Rolff também fez sua parte. A história mudaria ali. Urquiaga carimbou o travessão e Herbert Waas marcou, igualando as penalidades. Malandro, Rüdiger Vollborn intimidava os adversários com tímidas dancinhas (emulando Bruce Grobelaar em 1984). Manuel Zuñiga chutou mal e o guarda metas alemão defendeu, no meio do gol. Täuber também converteu seu tiro e deixou nos pés de Sebastián Lozada, o artilheiro do rival, o peso de definir a disputa.
Nova provocação de Vollborn fez com que o atacante mandasse a bola pelo alto, dando a taça aos germânicos, que tanto foram eficientes na sua defesa e cederam apenas cinco gols ao longo do certame. Esse feito fica lembrado como o primeiro triunfo do Neverkusen, que depois disso só venceria em 1993 a DFB Pokal.
Vollborn foi essencial para a vitória nos penais (Spox.com)
Em uma época em que Cristiano Ronaldo e Neymar fazem sucessos com seus cabelos extravagantes e comportamento duvidoso, poucos lembram de um penteado que marcou uma geração (Winning Eleven) e assustou criancinhas durante a década de 1990. Taribo West, um carrasco brasileiro que nasceu na Nigéria, foi ainda jovem para a Europa é lembrado muito mais por seus cabelos verdes do que pelo seu bom futebol.
Depois de dois anos no Julius Berger, de seu país natal, West partiu para a França, porta de entrada para muitos africanos na Europa. Seu primeiro time no velho continente foi o Auxerre, em 1993. Em quatro anos no clube foram mais de 70 jogos. Porém, sua passagem pela equipe francesa não foi nem de longe comparada com sua participação nas Olimpíadas de 1996.
Junto de astros como Kanu, Babangida, Okocha, Amokachi e Babayaro, West era referência na zaga que tirou a grande chance do Ouro Olímpico para o futebol brasileiro. As Águias Verdes eliminaram o Brasil na semifinal com o extinto gol de ouro, marcado por Kanu. Se serve de consolo para alguns, a Nigéria derrotou a Argentina na final.
Taribo até jogou na Inter. Jogou? (Football Tea)
A participação de West nos jogos de Atlanta rendeu respeito por diversos grandes clubes. Permaneceu mais um ano no Auxerre, o zagueiro foi contratado pela Internazionale, que contava no seu elenco com Ronaldo e Roberto Carlos. Porém, na Itália, Taribo não rendeu o que dele se esperava. Seu desrespeito com o técnico Mircea Lucescu, devido suas subidas sem nexo ao ataque, no melhor estilo Lúcio nos tempos áureos de Bayern. Essa desavença foi a gota d’água para que ele saísse da Inter. Quando se esperava uma transferência para Inglaterra ou Holanda, West assina simplesmente com o maior rival da Inter, o Milan.
No esquadrão rossonero ele foi mero espectador, isso porque, em uma temporada, o zagueirão nigeriano entrou em campo apenas quatro vezes. Era hora de deixar a Itália. Partiu em 2000 para a Inglaterra, para jogar no modesto Derby County. Não se firmou e acertou contrato com o Kaiserslautern, justamente numa boa época do time alemão, que vinha de boas campanhas e um recente título na Bundesliga.
Mas tantas mudanças não fizeram bem a Taribo, que viu sua carreira desandar. Em 2002 foi para o Partizan. Os dois anos na Sérvia não trouxeram o bom futebol que o consagrou anos antes, obrigando-o a ver como uma das últimas soluções partir para o “mundo árabe”, até então com pouca visibilidade. No Al Arabi, West foi só expor seu excêntrico penteado pois futebol que é bom... Saiu do clube sem fazer nenhuma partida.
OLHA ESSE CABELO! Foto: Fora da Súmula
Retornou à Inglaterra para jogar na terceira divisão, pelo Plymouth, mas pouco atuou. Depois disso ainda regressou ao seu primeiro clube, Julius Berger e encerrou a carreira, ainda cedo, com 35 anos no Paykan, do Irã.
Apesar do bom início de carreira, West não despontou como se esperava para o futebol. Seu temperamento o prejudicou quando sua carreira explodia. Ainda assim ficará marcado como um grande desafeto para os brasileiros e o zagueiro mais contratado da história do Winning Eleven 4. Fora as tranças...
Caros leitores, é visando um conteúdo de maior qualidade e com diferencial que a nossa equipe não mais trará análises pontuais dos campeonatos europeus e sul-americanos. Visto que não adianta competir com grandes portais nas coberturas, o trabalho do staff da TF fica complicado, já que lidamos com pouco pessoal e claro, imprevistos.
Para não mais sofrer com falta de atualização ou a temida correria pela postagem, optamos por focar nas editorias que não ficam velhas, como a Craques/Descraques/Desafortunados, entre outras que visamos reativar para o formato semanal. Vamos mudando um pouco a cara do blog, sem mexer na essência, já que são justamente esses textos que mais vingam, são mais visitados e que raramente são encontrados em outro lugar. Também traremos cada vez mais convidados para escrever, quem sabe você não tem um texto seu exposto aqui?
Sendo assim, esperamos que vocês gostem dessa nova fase, apesar dessa mudança nova só ser questão de foco em editoria x ou y. Contamos com o apoio de todos nessa empreitada de diversificar a TF dos demais blogs de futebol.
N´Gotty comemora tento na final da Taça das Taças UEFA de 1996 (Le meilleur de PSG)
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP
Era um daqueles brucutus que surgiam aos montes na França nas décadas de 1980 e 90. Da mesma escola de Desailly, Leboeuf, Blanc e Angloma (quando digo da mesma escola, não entenda graduado com nota 10), Bruno N´Gotty foi um dos caras mais superestimados que passaram pelos gramados europeus nos últimos vinte anos.
Na base do Lyon começou a ganhar espaço. Em era de vacas magras do Gerland, tornou-se referência na cozinha do OL, demonstrando bom poder de marcação, posicionamento e chegada firme, com consciência. Características de um bom beque. Permaneceu por lá até 1995, quando assinou com o último grande PSG que reinou na França.
A força e os demasiados carrinhos (muitas vezes terminando em falta) foram fazendo a fama de Bruno, que no papel de zagueiro fazia boa participação, afinal, ninguém espera que defensores desarmem os seus oponentes e peçam desculpas, levem flores. Construindo uma reputação em cima da sua capacidade de combater os atacantes, N'Gotty já fazia parte da seleção francesa em 1994, embarcando logo após o grande fiasco de Les Bleus ao não se classificarem para o Mundial dos EUA, quando a Bulgária levou a última vaga com gol de Kostadinov.
Inegavelmente o futebol francês estava em uma nebulosa. Os seus clubes por nada brigavam quando fez-se a exceção na Taça das Taças UEFA, em 1996. A vitória parisiense frente o Rapid Vienna de Trifon Ivanov, com gol de N'Gotty, representou o ponto alto da carreira de um atleta que depois experimentaria o ostracismo.
Perdendo espaço no selecionado nacional em 1997, conseguiu uma transferência para o Milan, que mais parecia uma Torre de Babel na ocasião. 14 estrangeiros e estrelas internacionais figuravam entre o plantel rossonero que venceu a Serie A. Não conseguindo convencer, Bruno fez apenas 25 aparições antes de ser repassado ao Venezia, onde fracassou vergonhosamente na tarefa de dar segurança ao setor defensivo, inclusive protagonizando um gol de calcanhar contra a Roma. Detalhe, a bola balançou as suas próprias redes.
Num momento de Whitney Houston nas traves
do Milan, N'Gotty sofre... (Maglia Rossonera)
Daí em diante foi só tristeza, quase uma canção do Roupa Nova no dia dos namorados, quando a sua garota te deixou na saudade dias antes ao te trocar pelo Ricardão do Corolla. Voltou ao Milan em 2000 e quase não entrou em campo. Era hora de um retorno ao seu país de origem (ainda que a ascendência de N'Gotty seja camaronesa), para jogar pelo Marseille. Uma temporada serviu para que o OM se livrasse do pobre rapaz, que acabou rumando ao Bolton em 2001/02.
Certo tempo depois, aquela segurança no início da carreira já não era mais a mesma. De 2001 até 2006 o francês ficou no Reebok Stadium, quando o treinador Sam Allardyce o dispensou e disse que não mais contaria com os serviços de Bruno para a sequência do trabalho. Aliás, nessa mesma leva de dispensa, foi também o lendário nigeriano Jay-Jay Okocha, sim, ele mesmo.
Acumulando mais passagens por Birmingham, Leicester e Hereford, N'Gotty encerrou sua carreira sem uma grande trama, um grande campeonato, uma grande história para se contar. Talvez aquele título da Serie A no qual foi figurante, o gol em final de competição europeia. Ainda sim, seus netos dificilmente acreditarão nessa história.
Aleksandr Yaroslavskiy e seu amigo Roman Abramovich (AP)
Gilmar Siqueira, @GilmarSiqueira
De Jaboti-PR
Várias vezes falei da hegemonia de Shakhtar Donetsk e Dynamo Kyiv na Ucrânia. É inevitável mencionar a UPL e deixar de lado este detalhe. Por muito tempo se acreditou que o Dnipro fosse o único time que poderia tentar "quebrar" isso, mas hoje o pensamento é diferente. Depois de ficar na terceira colocação por 5 temporadas consecutivas, o Metalist está cada vez mais próximo de fazer frente aos 2 máximos campeões ucranianos.
Para o resto do mundo, o Metalist ganhou mais destaque apenas nesta temporada, graças à sua brilhante participação na UEFA Europa League até o momento. E isso também é algo lógico, não há como esperar que todos acompanhem a UPL. De qualquer forma, quem segue sabe que o time de Kharkiv vem em uma crescente já há algum tempo. Esta terceira colocação em 5 campeonatos consecutivos se deu depois da chegada do grande empresário Aleksandr Yaroslavskiy, que investiu bem demais tanto dentro quanto fora de campo. Para se ter uma ideia, ele é um dos homens mais poderosos do país. Em 2007 ajudou a fundar o grupo DCH, que reúne os setores empresariais da construção, finanças e transporte.
Outro dos responsáveis por este sucesso do Metalist é o treinador Myron Markevich. Inclusive ele chegou ao clube no mesmo ano que Yaroslavskiy (2005). Nem é preciso dizer que balançou no cargo algumas vezes, mas felizmente não foi demitido. Claramente esta ideia de projeto a longo prazo foi baseada na do Shakhtar Donetsk, que contratou Mircea Lucescu em 2004. As duas situações são tão semelhantes que o Metalist também conta com vários jogadores sulamericanos em seu elenco (dentre eles os brasileiros Cleiton Xavier, Edmar, Marlos, Taison e Fininho).
Apesar dos bons resultados recentes na UPL, o time de Kharkiv ainda não conquistou nenhum título nacional. Na antiga liga soviética até teve bons desempenhos, mas também nada que mereça muito destaque. Seu maior feito foi levantar o "caneco" da antiga Copa Soviética de 1988, quando venceu o Torpedo Moscow por 2x0 na final. Atualmente a equipe ocupa de novo o terceiro posto da Premier ucraniana com 47 pontos, apenas 4 a menos que o vice-líder Dynamo Kyiv.
Algo que chama demais a atenção neste Metalist é seu estilo de jogo. Nada de pragmatismo e toques de lado sem objetividade, o que se vê realmente é uma grande qualidade técnica e um altíssimo poder ofensivo. Para não se complicarem na defesa, osZhovto-Syni fazem questão de manter a posse de bola no campo de ataque durante suas partidas. Isso acontece independentemente de qual seja seu adversário. O 4-2-3-1 é uma unanimidade para Markevich.
Mesmo que haja um certo equilíbrio entre os três setores do Metalist, não restam dúvidas de que o defensivo é o mais "modesto" por assim dizer. Contudo, vem superando as expectativas no quesito confiança. O primeiro nome a ser citado é o do goleiro Oleksandr Goryainov. O veterano de 36 anos ainda é fantástico sob as traves da equipe e tem uma frequência de jogos muito grande.
No centro da zaga encontramos o senegalês Pape Gueye, jogador que faz muitíssimos gols de bola parada e também é muito veloz. Depois da campanha lastimável de Senegal na CAN 2012, muitos pensam até 5 vezes antes de confiar em um zagueiro desta nacionalidade, mas Gueye vem mostrando que nem todos são tão ruins. Seu companheiro é o argentino Marco Torsiglieri, um defensor de muita qualidade técnica que é o verdadeiro xerifão desta zaga.
Existem muitos times grandes europeus que têm sérios problemas com laterais. O Metalist ainda não é um destes grandes, mas felizmente não sofre com ausência de jogadores para esta posição. Os mais "habituais" são o ucraniano Oleksandr Romanchuk e o argentino Cristian Villagra. Para haver aquele tradicional equilíbrio, o primeiro tem maior poder de marcação e o segundo apoia muito bem ao ataque. Seus respectivos suplentes são o ucraniano Sergey Pshenichnikh e o brasileiro Fininho. O que vale mencionar é que os dois reservas poderiam ser titulares sem problema algum.
Como não poderia ser diferente, a dupla de volantes do Metalist também está a um nível espetacular. O brasileiro (já naturalizado ucraniano) Edmar e o argentino Juan Torres são fundamentais tanto na marcação quanto no início das jogadas. Enquanto o brasileiro fica mais na marcação, o argentino tem liberdade para sair. No entanto, esta liberdade é um pouco restrita. Em suma, o Metalist permanece quase sempre em um 4-2-3-1 e não varia para um 4-1-4-1 como várias equipes.
A linha de 3 mais dos Zhovto-Syni é com certeza o que mais agrada a todos nesta equipe. As jogadas protagonizadas por Sosa, Cleiton Xavier e Taison vêm enchendo os olhos de toda a Europa na atualidade. O argentino José Sosa sempre reclamou quando deslocado ou para o lado esquerdo ou para o direito. No Metalist foi diferente. Ele acatou a decisão de Markevich e vem jogando demais aberto pelo flanco direito. Mais centralizado está o maestro e capitão do time, Cleiton Xavier. O ex-jogador do Palmeiras vive uma das melhores fases de sua carreira. Praticamente todas as jogadas passam por seus pés. Por fim, quem faz o lado esquerdo é outro brasileiro, Taison. Como não poderia ser diferente, o momento que ele vive também é maravilhoso. Sua jogada característica de pegar a bola na ponta, driblar os defensores e entrar na área está dando dores de cabeça aos adversários desde o início da temporada.
E finalmente chegamos ao ataque do Metalist, composto por apenas um jogador. Em tese, o titular da posição é Marko Devic. O sérvio naturalizado ucraniano é um "9" puro e sempre rende muito bem. Como se não bastasse isso é o quarto maior artilheiro da história do clube, tendo marcado 69 gols. Mas nem sempre Markevich joga com um centro-avante mais preso na área, por isso Jonathan Cristaldo é frequentemente utilizado.
Fiquei abismado com a quantidade de pessoas que estão se mostrando surpresas com o Metalist na temporada e não sabem de onde vem todo este crescimento. Pois aí está o motivo. E para os "desavisados de plantão", não será nenhum absurdo se dentro de alguns (poucos) anos o time de Kharkiv conquistar um título ucraniano.
Cara de garoto e futebol de veterano: o norueguês faz parte de um dos períodos
mais memoráveis da história do Manchester United (Eircom.net)
Felipe Portes, @portesovic
De não sei montar um armário, mas sou dono e redator de blog-SP
Conhecido como talismã no Manchester United, o norueguês Ole Gunnar Solskjaer, dono da infame alcunha de "baby face assassin" foi um dos mais célebres atletas da recente história do clube mancuniano. Brilhando em momentos decisivos como na final da Liga dos Campeões em 1999 contra o Bayern, Ole era sempre a opção de Alex Ferguson para entrar no segundo tempo, aposta que quase sempre dava certo e resultava em gols.
Muito veloz e com finalização apurada, sempre conseguia tirar o máximo de cada lance, com inteligência e elegância. Querido pela torcida dos Red Devils, Solskjaer esbanjava talento e carisma, somados ao fato de sua fisionomia lembrar a de um garoto qualquer. Com o tempo e as ótimas companhias de elenco, os gols passaram a sair com naturalidade, em sua maioria com chutes fortes e/ou indefensáveis para os arqueiros rivais.
Iniciou sua carreira em 1990 no acanhado Clausenengen, da sua cidade natal, Kristiansund. O clube era da terceira divisão local e somente quatro anos depois o jovem Ole despertaria o interesse das principais forças norueguesas. Na sua passagem pelo Clausenengen, somou assustadores 115 gols em 109 jogos, mais um ano sem disputar títulos relevantes dentro de seu país seria mesmo uma tragédia. Como destino na elite nacional, escolheu o Molde. Lá, notabilizou-se pela sua ótima média como atacante (31 tentos em 42 partidas).
Em sua fase de Molde, o talento já derrubava várias barreiras (Wikimedia)
O menino tímido e dedicado ganhou uma chance na seleção da Noruega logo em seu segundo ano de Molde. A brilhante campanha de uma equipe considerada média se comparada a Rosenborg, Válerénga e até mesmo o Stabaek foi quase em sua totalidade devida ao grande futebol apresentado pelo garoto de Kristiansund. Vice-campeão com dez pontos atrás do sempre campeão Rosenborg, o MFK contava com nomes como Kjetil Rekdal (já veterano e constante presença na seleção), Petter Rudi e o arqueiro Morten Bakke.
Sem mesmo completar dois anos na Tippeligaen, na metade de 1996 veio a proposta que mudaria a sua vida. Sir Alex Ferguson, ainda não tão lendário à época, queria contar com o futebol da maior revelação do país nos últimos anos. Era mesmo questão de tempo para que arrumasse sua vida nos grandes centros. A vida em Manchester foi muito melhor do que esperava. Convivendo com David Beckham (em início de carreira), Eric Cantona, Roy Keane, Paul Scholes, Ryan Giggs e Peter Schmeichel. Orientado por seu compatriota Ronny Johnsen, se adaptou rapidamente ao clima inglês.
Os primeiros passos no United foram incriveis. 33 jogos e 18 gols marcados e o apelido de "matador com cara de bebê" como o primeiro parágrafo indica. Um raro exemplo de jogador que conquista a torcida por suas capacidades de forma quase que instantânea. A excelente fase e participação no elenco renderam uma convocação para fazer parte dos atletas que iriam para a Copa de 1998 na França.
Maior momento da carreira de Ole: o gol na final da LC de 1999 (UEFA)
A consagração veio um ano após o Mundial. No Camp Nou, a grande final da Liga dos Campeões do ano de 99 colocou frente a frente Manchester e Bayern. Aos cinco minutos iniciais os germânicos abriram o placar com Basler, de falta, assustando o lado inglês. A vitória estaria próxima, já que a defesa bávara funcionava muito bem, o meio campo conseguia manter a posse e o ataque jogou duas vezes na trave de Schmeichel.
Aos 45, Giggs pega da entrada da área e chuta. A bola vai torta e encontra Sheringham, que desvia e marca o gol de empate, dando sobrevida ao Manchester no duelo. Nem um minuto depois, Beckham cobra escanteio, o mesmo Sheringham cabeceia e mais uma vez um pé desvia para o gol. Era o de Solskjaer, sempre bem posicionado para vencer Kahn. Uma virada inesquecível, num dos mais épicos encerramentos que a LC já teve.
No auge, o jovem norueguês desfrutava da fama e do sucesso. Seguia como peça importante no esquema armado por Ferguson e sempre fazendo belos gols. Foi uma grande era para o United, que só seria superada anos depois, com Cristiano Ronaldo no comando. Ole, por sua vez, teve como último brilho a temporada de 2001/02, quando balançou as redes por 17 vezes em 30 oportunidades.
Assolado por lesões, passou os anos seguintes alternando entre o banco de reservas e o departamento médico. Ficou assim, fazendo raras aparições. Seu último ano com mais de dez jogos foi 2007, justamente quando se aposentou do futebol profissional para assumir o comando técnico das camadas jovens do United. Assinou com o Molde em 2011, para ser treinador da equipe que o revelou. Operando novo milagre, levou o MFK ao seu primeiro título da elite norueguesa, quando comemorava o seu centenário.
Vasco Azconzábal, treinador do Estudiantes (Olé.ar)
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE
Talvez o cenário dos treinadores dos clubes argentinos nunca tenha sido tão desolador como atualmente. Boca Juniors e River Plate possuem técnicos que não agradam às direções, mas seguem quase que por falta de opção. Mesmo ameaçadíssimo pelo descenso, o San Lorenzo se mantém com um limitado Léo Madelon. O Estudiantes entregou seu elenco fortíssimo a Vasco Azconzabal, sem nenhuma experiência na função, como já fez com Eduardo Berizzo há um ano atrás.
O curioso é que não faltam treinadores argentinos de qualidade. Na Espanha Marcelo Bielsa classificou o Athletic Bilbao para as oitavas de final da Europa League e para final da Copa do Rei, enquanto divide uma ótima quinta colocação na liga espanhola com o Espanyol, treinado por seu discípulo Maurício Pochettino. Logo atrás das duas equipes está o Atletico de Madrid, treinado por Diego Simeone.
Mas não é preciso ir tão longe. No Uruguai, o campeão do último torneio foi Marcelo Gallardo, ex-ídolo do River Plate. No Paraguai, o atual campeão é o uruguaio Gerardo Pelusso, comandando o Olímpia, mas os outros que disputam a Libertadores têm argentinos no comando: Jorge Burruchaga (Libertad) e Javier Torrente (Nacional).
Também entre os guaranis, houve o sucesso recente de Gerardo Martino na seleção do país, enquanto o grande treinador sul-americano de 2011 foi, incontestavelmente, Jorge Sampaoli, que conduziu a Universidad de Chile a todos os títulos que disputou e encantou o continente.
O que se torna claro é que a Argentina é capaz de produzir bons técnicos em quantidade expressiva. No entanto, seu próprio futebol pouco se beneficia disso. Vários dos nomes citados jamais tiveram boas oportunidades em seu país, como o próprio Sampaoli, que construiu sua carreira basicamente nos países andinos, em especial no Peru e no Chile.
E o fenômeno, aparentemente bizarro, não é um acidente. Algo muito parecido ocorre entre os jogadores argentinos. O enorme número de atletas do país atuando em clubes do exterior não é fruto apenas da saída de jogadores que naturalmente seriam vendidos para ligas europeias de qualquer maneira. E nem sempre tem a ver também com as dificuldades econômicas do país.
Basta notar que há jogadores argentinos de bom nível em ligas sul-americanas de bem menos recursos que a de seu país. Clubes paraguaios, chilenos e equatorianos normalmente se servem á vontade desses jogadores. Vários deles apareceram por aqui, sendo Conca e Montillo os exemplos mais expressivos.
O caso mais recente é Barcos: sem ser um craque, trata-se de um atacante eficiente, que jamais teve chances de um trabalho de longo prazo em seu país, construindo a maior parte de sua carreira no exterior, incluindo países sul-americanos, como Paraguai e Equador.
Uma das causas do fenômeno é a existência de torneios curtos, que definem seu campeão em 19 rodadas. Após mais de duas décadas utilizando o formato, o futebol argentino se viu envolvido em uma cultura imediatista da qual não consegue sair. Nas grandes equipes os treinadores estão sempre ameaçados. Assim, não costumam ter paciência com jovens. Não há espaço para o erro.
Um exemplo é o Boca Juniors, atual campeão. Quando Julio Cesar Falcioni assumiu o comando técnico da equipe, há pouco mais de um ano, o elenco xeneize tinha um bom número de jogadores jovens (ou ao menos com um bom tempo de carreira pela frente) esperando sua oportunidade. E assim continuaram. Falcioni emprestou ou vendeu a maioria e boa parte dos demais segue assistindo as partidas de longe.
O treinador optou por uma equipe de jogadores razoáveis ou bons, mas experientes e confiáveis, e ganhou com facilidade o Apertura 2011. Uma história de sucesso? Quando se pensa no curto prazo, certamente sim. Mas quem pensa no longo prazo vê sérios problemas nessa estratégia.
Dos 11 jogadores considerados titulares por Falcioni, 8 têm 30 anos ou mais. As exceções são Cvitanich e Insaurralde, que completam 28 anos em 2012, e Roncaglia, que tem 25. Assim, é uma equipe de média de idade muito alta, que poucos anos terá pela frente. Enquanto isso, jogadores que poderiam vestir a camisa xeneize por muitos anos estão em outros clubes, geralmente no exterior, ou fazendo figuração no elenco.
O caso xeneize não é uma exceção. É apenas um bom exemplo de um país em que o imediatismo absoluto é a norma (em um nível ainda mais alto do que vemos no Brasil). Com os grandes clubes incapazes de se planejar para o médio prazo, as equipes dos países vizinhos fazem a festa, e recheiam seus elencos com profissionais de qualidade.