sábado, 24 de março de 2012

Craques: Ahn Jung Hwan

Ahn no momento mais marcante da sua vida, comemorando o gol contra a Itália na Copa de 2002 
Caio Dellagiustina, @caio03
De Itu-SP

Um gol pode mudar a carreira de um jogador, para melhor ou para pior. Ahn Jung Hwan teve esse (des)gosto na Copa do Mundo de 2002. Um dos principais nomes da surpreendente seleção sul-coreana era o destaque do modesto Perugia, da Itália. Ao final da temporada 2001-02 terminou a Serie A na oitava colocação, três pontos atrás da Lazio, conseguindo vaga na antiga Copa UEFA. Porém, desde a Copa-2002 sua carreira jamais se acertou.

Oitavas de finais do Mundial. A Itália, que não tinha lá um grande time, mas é sempre favorita, enfrentava a surpresa Coréia do Sul. Os comandados do técnico Guus Hiddink já faziam uma grandiosa campanha, passando de forma inédita da primeira fase. Qualquer coisa além disso já seria espetacular. Um gol de Vieri logo no início da peleja deixou silenciado o caldeirão que estava o estádio de Daejeon. Mas um tento de Seol Ki-Hyeon, já no final do tempo normal deu novas esperanças aos asiáticos. Restando menos de cinco minutos para o final da prorrogação, todos esperavam os pênaltis. Eis que Jung Hwan acerta um lindo cabeceio que elimina a Squadra Azzurra da Copa.

Nem mesmo a péssima e controversa arbitragem do equatoriano Byron Moreno fez com que o orgulhoso presidente do Perugia, Luciano Gaucci, mudasse de idéia de simplesmente dispensar Ahn após dois anos de serviços prestados.

Antes de chegar à Itália, o sul coreano havia se destacado tardiamente com seus 22 anos no Busan I´Park, de sua terra natal. A ida para a velha bota era a abertura para jogadores sul-coreanos no futebol europeu. Durante os dois anos em que permaneceu no Perugia, Ahn teve certo destaque. Após sua dispensa, escolheu o Japão para recuperar a sua motivação, em 2002.

Durante os quatro anos em que ficou na terra do sol nascente, Ahn viveu uma fase de artilheiro, primeiro no Shimizu S-Pulse e depois no Yokohama Marinos (2004). Perto dos 30 anos, outra chance de brilhar no velho continente apareceu. O “senhor do anel”, como é conhecido, pelo fato de beijar seu anel de casamento a cada gol marcado, acertou um contrato de um ano com o Metz, em 2005.

Todavia, a decepcionante campanha que culminou no rebaixamento da equipe não deixou portas fechadas para o sul-coreano. Apesar de um convite do Blackburn, preferiu a Bundesliga e assinou com o Duisburg. Talvez com o intuito de se ambientar para a Copa do Mundo de 2006.

Pinta de craque na chegada ao Duisburg

Novamente rebaixado, o jogador já não era unanimidade na Europa e retornou novamente à Ásia, em 2007 após a pífia passagem da Coréia do Sul pelo Mundial. Mas ao invés do Japão, ele retornou à sua terra mãe para jogar pelo Suwon Bluewings. A passagem por lá durou apenas um ano e sem muito brilho, mas suficiente para ficar de fora da seleção, pela primeira vez desde que estreou, em 1997, como parte do projeto de renovação do então técnico Pim Verbeek.

Já com 32 anos e cogitando encerrar a carreira, retorna ao Busan, seu clube de origem. Sua influência e liderança chamaram a atenção do Dalian Shide, da China, que dava início ao processo de transformação do futebol chinês, hoje completamente endinheirado. No país do espetinho de cachorro, Ahn teve o prazer (?) de jogar ao lado do grande Adriano Michael Jackson.

Ao final do primeiro mês de 2012 e depois de três anos na China, já com 36 anos, decidiu, emocionado, que era a hora de se aposentar. Não por problemas físicos ou técnicos, mas pelo simples fato de querer curtir a vida ao lado dos familiares. O mais promissor jogador sul coreano teve tudo para brilhar na Europa, mas por um acaso, não engrenou. Ainda assim, sua história não deve ser desmerecida por isso. O herói da Copa do Mundo de 2002 sempre será lembrado por seu gol contra a Itália, que segundo ele foi o momento mais marcante de sua caminhada como atleta..

quinta-feira, 15 de março de 2012

Craques: Vladimir Jugovic

Extremamente técnico, Jugovic marcou época na Sampdoria e na Iugoslávia como
um dos maiores talentos no meio campo, em meados dos anos 1990 (Kicker.de)
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

Era uma geração fantástica na antiga Iugoslávia. Dentre os jovens que estouraram para o futebol internacional naquele Estrela Vermelha do fim dos anos 1980 e início dos 90, estava Vladimir Jugovic, sinônimo de classe e precisão no meio campo. Sérvio nascido em Trstenik, fazia parte da categoria de base do clube alvirrubro que conquistou a Europa em 1991. 

Peça chave no grupo vencedor pelo Estrela Vermelha, foi emprestado ao Rad Beograd e retornou em 1990 para ficar apenas mais um ano e ser vendido à Sampdoria, ganhando destaque nos blucerchiati em função de seu toque refinado e habilidade. Pouco antes, teve épica participação no Mundial Interclubes frente o Colo Colo, marcando dois gols na grande final. 

Em Gênova, desfilou e encantou a torcida. Foi essencial na conquista da Coppa Italia em 1994, onde a Samp levantou pela quarta vez o troféu, vencendo o Ancona com certa facilidade (0 a 0 na ida e 6 a 1 na volta).

Ao lado de Srecko Katanec, David Platt, Attilio Lombardo, Roberto Mancini e Ruud Gullit, Jugovic era o cérebro do setor intermediário na Sampdoria que fez excelente papel na Serie A em 1994, ficando com o terceiro posto na tabela, apenas seis pontos atrás do Milan, campeão na oportunidade.

O pênalti que deu à Juventus seu último título europeu (UEFA)
Contratado pela Juventus em 1995, foi titular em grande parte da temporada. Com 26 aparições, engrenou na parte final da caminhada bianconera que culminou em vitória dramática nos penais em cima do Ajax. Com empate em 1 a 1 no tempo normal, gols de Fabrizio Ravanelli e o interminável Jari Litmanen, os locais em Turim viram uma sempre sofrida disputa de penalidades. Vladimir, por sua vez, converteu a cobrança que deu o caneco ao lado italiano. O forte elenco comandado por Marcello Lippi teve a sorte de decidir o título em casa, no Delle Alpi. 

Adquirindo mais sequência nos onze iniciais, teve como reforço a chegada de Zinedine Zidane, que rapidamente tomou conta da criação na Juventus, sendo o dono da meia cancha. Campeão da Serie A em 1997, Jugovic então tomou o rumo da Lazio, novamente encontrando seu antigo companheiro de Sampdoria, Roberto Mancini. 

Apenas uma época em Roma serviu para que seu tempo no país se esgotasse, não sem conquistar mais uma Coppa Italia, triunfando sobre o Milan. No duelo de ida, derrota em Milão por 1 a 0. Já no Olímpico, a virada foi por 3 a 1. Uma rápida passagem pelo Atlético de Madrid em 1998 foi suficiente para que o sérvio voltasse para a Itália, desta vez pela Inter.

Em quase dois anos vestindo o manto nerazzurri, Vladimir entrou em campo em apenas 38 oportunidades, sendo caracterizado pela própria torcida interista como um flop na equipe. Decidiu por aceitar a proposta do Monaco em 2003 e repetiu o insucesso no selecionado francês, não completando nem 20 aparições. Antes da aposentadoria ainda jogou por Admira Wacken e Ahlen, sem nenhum brilho, mas já com um currículo extremamente vitorioso para qualquer atleta de alto nível.

Pendurou as chuteiras em 2005, defendendo a seleção iugoslava por cerca de 11 anos, até 2002.


TF História: Kashima Antlers e a herança dourada

A estadia de Zico em Kashima no começo dos anos 1990
está fortemente ligada ao crescimento do futebol japonês
Foto: Kashima Antlers Brasil
Felipe Portes-san, @portesovic
De Kashima-JPN

Todos estão cansados de saber que o povo japonês é louco por futebol. Especialmente na década de 1990, com a criação da J-League, o esporte no país também cresceu bastante por outros dois fatores: Zico e a Copa de 1998. O esquadrão nipônico, que nunca havia ido a um Mundial, já era exaltado pelo fanático povo japonês por meio de produtos oficiais; os intermináveis videogames produzidos pela Konami e por que não Tsubasa, o Pelé deles.

Tsubasa e Winning Eleven à parte, em 1992 o processo de profissionalização do futebol local tomou forma. Eram 10 times: Verdy Kawasaki, Yokohama Flügels, Yokohama Marinos, Kashima Antlers e Shimizu S-Pulse, Gamba Osaka, JEF United, Nagoya Grampus, Sanfrecce Hiroshima, Urawa Red Diamonds. Foi em meados de 1993 que o primeiro pontapé oficial foi dado. 

Antes disso, em 1991, Zico desembarcou no país para ajudar na popularização da modalidade diante do resto do mundo. Ao lado de Alcindo, o Galinho de Quintino disputou a primeira temporada do campeonato japonês pelo Kashima e tornou notória a marca do Antlers no mercado internacional. Ironicamente, Zico não venceu nenhum título como jogador e se aposentou em 1994.

Montando uma estrutura bem sucedida, a agremiação rubronegra (primeira das similaridades com o Flamengo) venceu a sua primeira J-League em 1996, iniciando a arrancada para ser o maior vencedor do país. Os frutos da boa parceria firmada com o Galinho foram enormes. Hoje quando se fala em times japoneses, logo se associa ao Kashima.

Travestido de Flamengo, o Kashima fez um uniforme idêntico ao dos cariocas
em 2008, como se pode ver na imagem (GloboEsporte.com)
A herança dourada de Zico não parou por aí. Em 1999, retornou ao clube para ser treinador. Essa rápida experiência serviu de base para que o Galinho fosse promovido a diretor, iniciando assim uma série incrível de conquistas. Ainda em 1999, uma Supercopa japonesa, no ano seguinte, a J-League, a Copa do Imperador e a Copa da Liga, em 2001 mais uma J-League.

Herói absoluto em território nipônico, Zico assumiu logo depois a seleção nacional, que comandaria até a Copa de 2006. Os samurais ficaram pela primeira fase numa chave com Brasil, Austrália e Croácia. Nem mesmo a má campanha diminuiu a idolatria pelo povo local ao grande pilar que muito contribuiu para que o futebol fosse a preferência dos japoneses.

Oswaldo e o grupo do Antlers na conquista de 2007 (Zero Hora)
Sob o comando de Oswaldo de Oliveira, por um acaso indicado pelo próprio Zico, o Kashima conseguiu uma façanha até agora inédita no território nippon: o tricampeonato da Liga (2007, 2008, 2009) e os títulos da Copa do Imperador (2010) e Supercopa do Japão.

Os (agora) rubronegros de Kashima tiveram seu mais recente triunfo em 2011, ainda com Oswaldo (que atualmente é técnico do Botafogo) no comando, pela Copa do Imperador. A edição passada da J-League marcou uma frustrante sexta colocação na classificação final.

Como toda hegemonia, a do Antlers se encerrou lentamente. Abrindo espaço para rivais como Gamba Osaka e Kashiwa Reysol e sob a batuta de Jorginho (ex-Figueirense), o único caminho da agremiação é voltar às cabeças na liga nacional.

A julgar pelas similaridades com o Flamengo, começando por Zico, passando por Alcindo, Jorginho, Oswaldo, as novas cores e o mundaréu de títulos, podemos dizer que os japoneses estão em melhor situação no quesito ambiente. Desfrutam de um clima um tanto quanto mais pacífico e sem crises para traçar seus planos e novas conquistas. Na Gávea, por outro lado, a paz infelizmente passa longe...

quarta-feira, 14 de março de 2012

Craques: Alex Aguinaga

Toques de categoria eram o prato principal do garçom Aguinaga 
Caio Dellagiustina, @caio03
De Itu-SP

Poucos jogadores tem um sobrenome que condizem com seu futebol. Aguinaga pode se orgulhar disso. Alex Dario Aguinaga GARZÓN é nome verdadeiro, mas para muitos ele é conhecido apenas por “El Maestro”, pelos seus passes perfeitos. Equatoriano de nascimento e mexicano de coração, ele pode se orgulhar de ser um dos mais importantes jogadores da seleção equatoriana e ídolo no Necaxa, do México, por onde jogou boa parte de sua carreira.

Alex começou a carreira cedo e com apenas 15 anos fechou seu primeiro contrato profissional com o Deportivo Quito após mostrar toda sua incrível habilidade no sul-americano juvenil quando ajudou o time a se consagrar campeão, ainda como um legítimo ponta esquerda, longe da função de armador que tanto o consagrou.

Com 20 anos, foi convocado para defender o Equador na Copa América realizada no Brasil e, mesmo com seu time nem sequer passando da primeira fase, Alex foi um dos grandes destaques. Após a competição, choveram propostas de times gigantes como Internazionale, Real Madrid, Barcelona e Milan, mas acabou se transferindo para o Necaxa, do México. Isso mesmo, o time apenas tradicional em território mexicano desbanca potências mundiais na compra de um grande talento.

Tudo isso se deve ao fato de, na época, a liga mexicana estar em uma crescente e do clube alvirrubro ter sido recém comprado pelo grupo Televisa, uma das maiores empresas midiáticas do mundo, que chegava com a missão de reformular o elenco e via em Aguinaga como uma peça fundamental nesse projeto.

Recebendo a honrosa medalha de terceiro colocado no
Mundial de Clubes
 
Tanto esforço foi retribuído, já que o meia ficou lá por 14 anos e os deu três títulos mexicanos, até então desconhecidos na sala de troféus do clube de Aguascalientes: uma Copa do México e uma liga da Concacaf, em 1999, credenciando o time à disputa do 1º (?!) Mundial de Clubes, realizado no Brasil. Era a primeira vez que uma agremiação mexicana participava de uma competição de tamanha relevância. E o Necaxa não fez feio, terminando a disputa em terceiro lugar, após derrotar o Real Madrid. A coroação de Alex veio ao receber o prêmio de melhor jogador do país asteca nos anos 90.

Seu auge como atleta foi durante a disputa da Copa do Mundo de 2002. Graças a seu bom desempenho, somados à boa geração com Kaviedes, Delgado, Cevallos e Hurtado, o Equador conseguiu a inédita classificação. No entanto, nem todos esses bons nomes conseguiram evitar a fraca campanha e a eliminação ainda na fase de grupos.

Em 2003, mudou de ares e foi para o Cruz Azul, mas a fase já não era a mesma e apenas fez 13 partidas pela nova equipe. Para tentar um fim de carreira digno, retornou à terra natal para jogar pela LDU, dando início à um belo trabalho, culminando com o título da Libertadores de 2008, já sem “El Maestro”. Em dois anos na Liga, conseguiu o inédito doblete, ao vencer tanto o torneio Apertura quanto o Clausura, pela primeira e única vez na história do clube da capital equatoriana.

Muito parecido com Roberto Bolaños, Aguinaga já treinou o Barcelona... de Guayaquil
Depois de aposentado, tentou a carreira como técnico, no Barcelona de Guayaquil, mas sua inteligência em campo não deu resultado fora dele. Sem emprego, hoje ele é apenas referência e inspiração para novos jogadores não só no Equador, mas também no México.

terça-feira, 13 de março de 2012

TF História: Ipswich e a sombra de Bobby Robson

Bobby Robson e a taça UEFA de 1981 (Site oficial Ipswich)
Felipe Portes, @portesovic
De Zlatibor-SRB

Poucos treinadores tem sua carreira atrelada a certa campanha ou time como o lendário Sir Bobby Robson. Certamente o maior nome da história do Ipswich Town (hoje figurante da Npower Championship), Bobby foi contemporâneo e rival do não menos genial Brian Clough, que deu a Derby County e Nottingham Forest seus maiores períodos de glória. Para o mal, temos outro grande exemplo como o de Béla Guttmann, campeão europeu com o Benfica e que amaldiçoou os Encarnados anos depois ao ser praticamente dispensado do comando da equipe.

Sempre com muita classe e sabedoria, Robson foi um dos grandes exemplos dentro do esporte, de que a inteligência e disposição tática faziam sim tanta diferença quanto o talento ou a superioridade técnica. Na Inglaterra, fez seu nome inicialmente como jogador. Atacante, chegou a ser convocado algumas poucas vezes para o English Team, em cinco anos. Se aposentou como atleta em 1968, assumindo de imediato o comando técnico do Fulham. 

Em 1969 seria o treinador do Ipswich, cargo que teria até 1982. Já campeões nacionais em 1962 sob a batuta de Alf Ramsey (por coincidência campeão do mundo com a Inglaterra quatro anos depois) e ainda vindos de um acesso da Segunda divisão, os Tractor Boys foram novamente rebaixados em 1964. Foi Bill McGarry o homem a tirar o clube de apuros e ganhar nova promoção em 1968. De partida para o Wolverhampton, foi substituído por Robson, que levaria a acanhada equipe ao hall das grandes forças britânicas nas décadas de 1970 e 80.

No Portman Road, não viu limites para seus pupilos. Apostando sempre em crias da base do Ipswich, pouco contratou durante sua passagem por lá. Conquistou uma Texaco Cup em 1973, uma competição que envolvia clubes do Reino Unido que não haviam se classificado para outras taças europeias. Começava ali o ressurgimento dos Tractor Boys para o futebol inglês.

Ipswich derrotou Arsenal na final da F.A Cup de 1978: Robson fez o time
ser um dos grandes no país. *O segundo à esquerda não é o Seu Madruga*
(Foto: BBC)
As louváveis e consequentes campanhas dos comandados de Robson culminaram em uma grande final frente o Arsenal em 1978 pela F.A Cup, na qual o Ipswich venceu por 1-0. Não bastasse as grandes caminhadas que por vezes incomodaram os rivais diretos e deram esperança de novos títulos da Liga aos torcedores, mais um caneco viria em curto espaço de tempo.

Com a terceira colocação no Inglês de 1979/80, a nova possibilidade de ingressar na extinta Copa UEFA. Deixando pelo caminho Aris, Bohemians Praga, Widzew Lodz, Saint-Étienne e Colônia antes da eletrizante decisão contra o AZ Alkmaar. O caneco veio após um 3-0 no Portman Road e 2-4 na Holanda. A primeira conquista internacional daquele plantel, em 1981, foi também o marco da transição de Robson na carreira. O English Team o esperava novamente.

Robson voltou a se firmar como grande treinador de clubes após a
Copa de 1990, no PSV (PSV.nl)
O mestre e seus promissores pupilos
Bobby esteve no comando da seleção inglesa nos mundiais de 1986 e 1990, alcançando as fases de quartas e semifinais, respectivamente. Logo depois da Copa na Itália, encarou a tarefa de domar o PSV, com um elenco deveras difícil de lidar, em especial Romário, que lhe confrontou algumas vezes em seu tempo por Eindhoven. Com todos estes elementos, Robson ergueu o bicampeonato holandês.

Migrou então para Portugal, onde assinaria com o Sporting em 1992. A parte interessante da história vem quando você sabe quem era o intérprete de Bobby nos Leões. José Mourinho, que somava trabalhos como assistente no Estrela Amadora e nas camadas jovens do Vitória de Setúbal era o fiel escudeiro do inglês em Lisboa.

Passando em branco pelo clube lisboeta, Robson não obteve êxito ao tentar confrontar a diretoria sportinguista, que administrava mal a política interna. Derrotado nas oitavas de final da Copa UEFA de 1993/94 pelo Casino (atual Red Bull) Salzburg, acabou sacado do comando ao fim de 1993.

Dupla com Mourinho foi bem sucedida no Porto e no Barcelona
Foto: It's the football, that's the football
Foi aí que o Porto enxergou a grande chance de manter a hegemonia no cenário nacional. Bicampeões portugueses em 1995 e 1996, os Dragões contavam com uma defesa imponente, base da seleção lusa. Além do triunfo duplo na Liga,  A parceria entre Mou e Sir Bobby vingou e representava a harmonia entre as tendências táticas de cada um dos dois. Zé, que havia começado apenas como intérprete, se tornou vital no planejamento do chefe inglês. Neste intervalo, outra cria foi surgindo nos celeiros de manager em Portugal. André Villas-Boas, que morava no mesmo prédio que Robson, fez questão de mostrar a sua capacidade ao treinador do FCP.

Villas-Boas ganhou a condição de pupilo, aos 16 anos, tomando conta de times juniores do Porto na ocasião, já que era menor e não poderia assumir funções profissionais. Fez parte de sua preparação no Reino Unido e estágio no Ipswich, que consagrou o seu mentor. Anos depois viraria braço direito de Mourinho no mesmo Porto.

Mou, Sir Bobby e Ronaldo: mais sucesso no último ato da parceria
(Mourinho fans)
Não demorou a Sir Bobby ser chamado pela alta cúpula blaugrana. Ele colhia os frutos do sucesso por onde pisava e no Camp Nou não seria diferente. Responsável pela contratação de Ronaldo, o inglês desenvolveu um plantel eficiente e levantou uma Supercopa Europeia, uma Supercopa espanhola e uma Copa do Rei no período de dois anos, que também seria sua última honraria refletida em taças.

Retornou rapidamente ao PSV, por apenas uma época. Terceiro colocado na Eredivisie, garantiu apenas uma vaga europeia aos rapazes de Eindhoven antes de realizar o antigo sonho de ser treinador do Newcastle. Por quase cinco anos ficou à frente dos Magpies de St. James Park. De 1999 a 2004 sofreu com os altos e baixos do time que ainda enfrentaria nebulosa maior com o rebaixamento em 2008/09.

Condecorado com o ingresso ao Hall da fama do futebol inglês e muitas outras formas de reconhecimento pelo papel desempenhado em mais de 50 anos dedicados ao futebol, Sir Bobby Robson faleceu em 2009 aos 76 anos, vítima de um câncer no pulmão.

Lee Bowyer: veterano e referência no elenco dos Tractor Boys
(betting.stanjames.com)
Ipswich e os intermináveis anos de frustração
O Ipswich, por sua vez, desceu a ladeira. No mesmo efeito de Clough-Forest, provou do rebaixamento e a estagnação em divisões inferiores, poucos anos depois. Sem disputar a Premier League desde 2001, os Tractor Boys convivem com a sombra de um passado dourado e brilhante. Acostumados a ficarem na parte de baixo da classificação da Npower Championship, permanecem sem perspectiva alguma de crescimento ou recuperação nos próximos anos.

Enfrentando uma falência administrativa no início da década passada, quase conseguiram o retorno em 2004/05 à Premier League, sendo eliminados nos playoffs pelo West Ham. A compra do clube por Marcus Evans, empresário inglês, em 2007 ajudou a simpática agremiação a sobreviver. Entretanto, isso não significa que haja algum sucesso em âmbito nacional, tendo em vista a ineficácia do Ipswich de bater os piores competidores na segundona, longe de qualquer briga por título.

Carentes de holofotes e motivação, os Tractor Boys atualmente vivem apenas das memórias do que foi construído por Sir Bobby, já em outro plano. Outrora campeões nacionais e da Europa, fizeram o caminho dos decadentes que só podem lutar para sair do fundo do poço. Resta esperar que um novo guia os conduza rumo à redenção, o que seria perfeitamente plausível dentro do futebol, que sempre reserva grandes surpresas.

domingo, 11 de março de 2012

TF História: Petric, o multi homem do Basel

Petric teve seu momento épico durante a passagem pelo Basel (Welt.de)
Felipe Portes, @portesovic
De Novi Sad-SRB

Era novembro de 2006 e a Copa UEFA rodava a todo vapor para definir os classificados para a etapa de mata mata. O grupo E tinha Blackburn, Nancy, Feyenoord, Wisla Krakow e Basel. Os suíços, em dada jornada, lutavam para abocanhar a segunda vaga para o próximo round. Somando apenas um ponto, enfrentariam o Nancy no St. Jakob, na Basileia.

Pois bem, o Basel à época contava com um seleto pelotão estrangeiro. Apenas Zanni era natural da Suíça entre os onze iniciais, figurando num elenco com atletas já renomados como Kuzmanovic, Rakitic, Chipperfield, Ergic, Sterjovski e Petric, o protagonista dessa curta história de hoje. Não bastasse o amontoado eslavo escalado pelo então treinador Christian Gross, aquela partida em especial seria marcada pelas participações de australianos. 

Kim e um voleio na cara de Chipperfield (UEFA)
Truncado, o confronto teve os franceses saindo na frente, aos 32 pelos pés de Kim (sim, aquele mesmo, que hoje está no Vasco). Um minuto depois, Chipperfield empatou. Não satisfeitos, os visitantes desempataram novamente, com Berenguer. Só aos 12 da etapa complementar Sterjovski daria números iguais ao marcador. 

O Nancy tomou conta do segundo tempo e estava com a faca e o queijo nas mãos, quando Kim tabelou com Issiar Dia, disparando na esquerda. O senegalês cortou para o lado de fora e tentou o drible no arqueiro Costanzo, que saiu assaz atrapalhado para pegar a bola e acertou as pernas do rival, cometendo pênalti. Detalhe, o lance foi nos acréscimos. 

"Cara, e agora?", indagou o argentino, expulso de campo. "Sai que é minha, mano", respondeu sem pestanejar o croata Petric. "Como assim, véi?" tornou a indagar o guarda redes. "Deixa que eu vou resolver essa parada, senta lá no banco que é nois, irmão", completou o croata ao pegar as luvas e a camisa já suja do colega. "Firmeza, vai lá, brou", aceitou Costanzo.

Saindo de campo frustrado pela bobagem, o arqueiro já esperava pelo pior. A culpa pela derrota e virtual eliminação, a bronca do pofexô Gross, a cobrança da torcida do Basel. Parado debaixo das traves, Petric assumiria mais uma responsabilidade além da de ser craque do elenco. De ser um dos poucos jogadores de linha a quebrarem galho no gol e passarem sem ser vazados. 

Chretien, que havia ingressado na peleja já no segundo tempo se encarregou da cobrança. Petric abriu as asas e se preparou para escolher o canto. Na bola, o marroquino estava tenso com a importância da penalidade. Como dizem os antigos, correu e telegrafou o local do chute, facilitando a vida de Mladen, que deu um passo maroto à frente e acertou o lado. Em dois tempos (quase soltou a pelota) praticou a defesa e evitou a derrota, de forma heroica e inesperada. 

Em tempo, o embate terminou em 2-2, e por obra do destino, o Basel foi lanterna do grupo. Eliminado e perdendo seu último compromisso frente o Wisla, por 3-1 na derradeira ronda daquele certame que teve como campeão o Sevilla, em eletrizante final contra o Espanyol. 

O restante da história de Petric vocês já sabem. Peça essencial na seleção croata, já soma passagens por Borussia Dortmund e Hamburgo. No entanto, seus gols jamais chegarão ao tom épico daquele inusitado penal defendido na extinta Copa UEFA.


sexta-feira, 9 de março de 2012

Grandes Jogos: Palmeiras x Boca

Em era dourada, Palmeiras venceu o Boca com placar assaz elástico na Libertadores 1994
(A Tribuna Digital)
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
Há exatamente 18 anos o Palmeiras conseguia uma façanha histórica, ao aplicar inimagináveis 6 a 1 no Boca Juniors. A diferença de gols foi absolutamente surpreendente, mas a vitória alviverde era esperada. Naquele momento, as equipes viviam momentos muito distintos.
Dirigido por Vanderlei Luxemburgo, o Palmeiras vivia o auge da fase Parmalat. O dinheiro da multinacional possibilitou a chegada de grandes jogadores ao Parque Antártica, dois dos quais seriam titulares da seleção campeã mundial logo depois: Mazinho e Zinho. Naquele 1994 o Palmeiras repetiria o sucesso do ano anterior, se sagrando então bi campeão paulista e bi campeão brasileiro, uma façanha ainda inalcançada no futebol paulista (no Brasil apenas o Internacional conseguiu o mesmo resultado, em 1975/76);
Por outro lado, eram tempos duros para a tradicional equipe de La Boca. Os xeneizes conquistaram apenas um título entre 1981 e 1998, o Apertura 1992. Logo em seguida o clube faria pesados investimentos, trazendo grandes estrelas, como Maradona e Caniggia. A estratégia não deu resultado, e o Boca reencontraria o caminho dos títulos apenas com a chegada de Carlos Bianchi. Naquela Libertadores, os comandados de César Menotti ficaram na primeira fase, com 4 derrotas em seis jogos, e ocuparam a lanterna do grupo.
Mas nada naquela noite faria prever tamanho massacre. A partida era válida pela segunda rodada daquela Libertadores, e as duas equipes haviam estreado bem. O Palmeiras havia vencido o Cruzeiro por 2 a 0 em casa, enquanto o Boca conseguira um empate com o Vélez fora de casa, um resultado muitíssimo aceitável. Naquele dia os argentinos vinham para o Brasil enfrentar seus rivais: enquanto o verdão destruía os xeneizes, o Vélez conseguia um bom empate no Mineirão contra a Raposa.
Mas aquela partida teria um grande fator desequilibrante: Mazinho. O camisa 8 palmeirense fez a melhor partida de sua vida, em uma atuação que ninguém que tenha assistido à partida vai esquecer. Os muitos críticos do sistema tático da seleção brasileira da época, com Mauro Silva e Dunga como volantes, se desesperavam só de pensar que o Brasil deixaria tal craque no banco (ao fim aconteceu o inesperado, e Mazinho foi campeão mundial como titular, mas na vaga de Raí).
O primeiro tempo terminou com vantagem mínima para o Palmeiras, um gol marcado logo aos 15 minutos. Navarro Montoya conseguiu fazer duas grandes defesas no mesmo lance, mas finalmente Cléber conseguiu estufar a rede com um potente arremate. O goleiro colombiano certamente não imaginava ter de voltar tantas vezes para buscar a bola no fundo da meta.
E no segundo tempo veio o massacre. Aos 6 minutos Evair deu lindo passe de calcanhar para Roberto Carlos fuzilar Navarro Montoya. Três minutos depois Edílson marcou o terceiro. Aos 20 Mazinho fez grande jogada individual, só sendo parado por uma falta dentro da área. Evair cobrou o pênalti e marcou o quarto.
Aos 26 minutos Mazinho cobriu Navarro Montoya com um toque maravilhoso, deixando o colombiano imóvel, apenas torcendo para a bola não entrar. A trave salvou o Boca, mas no rebote Evair marcou mais um. Aos 33 Jean Carlo aproveitou uma jogada coletiva para marcar o sexto. Um minuto depois Martinez descontou de pênalti.
Em termos concretos aquela partida não teve muita relevância. Palmeiras e Boca Juniors fariam partidas muito mais importantes anos depois, chegando a decidir a Libertadores de 2000. Mas os palmeirenses têm razão em considera-la inesquecível. Primeiro: não é todo dia que o Boca leva seis gols. Mas o principal é que naquele dia o verdão fez um dos maiores jogos de sua história, colocando na roda e dando um baile em um clube que é uma superpotência mundial.
Palmeiras: Sérgio, Cláudio, Antonio Carlos, Cléber e Roberto Carlos; César Sampaio (Tonhão), Amaral, Mazinho (Jean Carlo) e Zinho; Edílson e Evair. Técnico: Vanderlei Luxemburgo.
Boca Jrs.: Montoya, Soñora, Noriega, Giuntini e MacAllister; Peralta, Mancuso, Márcico e Carranza; Martinez e Da Silva (Acosta). Técnico: César Menotti.
Gols: Cléber (15") no primeiro tempo; Roberto Carlos (06'), Edílson (09'), Evair (20'), Evair (26'), Jean Carlo (33'), Martinez (34') no segundo tempo.

terça-feira, 6 de março de 2012

Desafortunados: Hao Haidong


Hao sendo marcado por Lúcio na Copa de 2002

Caio Dellagiustina, @caio03
De Itu-SP

Aproveitando a onda Chen Zhi Zhao, ou Zizão, como queiram, o Desafortunados vem falar de uma das grandes esperanças chinesas em tempos passados.

Ele nunca foi famoso. Longe disso, pelo menos em âmbito internacional, mas teve uma grande responsabilidade em suas costas. No auge de seus 32 anos, Hao Haidong era o camisa 10 da seleção chinesa em sua primeira participação em Copas do Mundo, em 2002. Seria o primeiro mundial da seleção, a oportunidade da China se tornar uma potência mundial... mas não deu.

Muito além disso. Os asiáticos nem sequer passaram da primeira fase. Foram três decepcionantes derrotas, uma inclusive para o Brasil, por 5-0 e sem sequer um gol marcado. Nem o mítico e carismático técnico Bora Milutinovic deu jeito.

Ainda sim, Hao foi uma grande referência no futebol chinês. Apesar de ser camisa dez, jogava como atacante e é o maior artilheiro da seleção e da história da liga local, antes de seu profissionalismo, em 2004, considerado até hoje o melhor jogador, em termos técnicos, que os chineses tiveram.

Haidong começou sua carreira cedo, ainda com 16 anos no Bayi FC, time do Exército da Libertação que tinha sede em Pequim, após ser recrutado com apenas dez anos. Apesar de ter uma base militar no controle, a equipe nunca foi uma potência local. Despontando desde cedo, Hao ficou lá por incríveis onze anos, alternando entre o futebol e as atividades militares, até realmente pensar grande e se transferir ao Dalian Shide, que apesar de nova é uma das grandes forças da China.

Sua ida ao Sheffield só serviu para divulgar o nome do time no Oriente

Desde que aterrissou por lá, Hao ganhou sete títulos nos dez anos de Dalian, de 1996 à 2005. Já com 35 anos, ele teve a grande oportunidade de sua carreira, seria um dos primeiros chineses a jogar na terra da rainha, mais precisamente no Sheffield United. Comandado por Neil Warnock, os Blades, até então na segunda divisão buscavam uma maneira de expandir seu nome, principalmente no mundo asiático. Contudo,  Hao sofreu uma séria lesão  logo que chegou, que o impediu até de estrear pela equipe inglesa. Permaneceu então por dois anos treinando o time de reservas.

Haindong (ao centro) tem papel fundamental na busca de novos talentos para a seleção local

Embora não tenha pisado em campos europeus, Haidong pode se orgulhar de ainda ser o mais habilidoso jogador de seu país (não que isso seja muito difícil). Hao teve azar de jogar em uma época que a China não tinha nem metade do investimento atual, mas deixou seu legado. Aposentado, é o “manda-chuva” do Tianjin Songjiang, da terceira divisão local. Bem que sua história pode servir de inspiração para um novo goleador chinês. Quem sabe não é o Chen?


segunda-feira, 5 de março de 2012

TF História: O primeiro gol olímpico

Foto: marcelodieguez.com.br

Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

Provavelmente muito poucos sabem quem foi Cesáreo Onzari. Mas seguramente todos os fãs de futebol conhecem sua genial contribuição para a história do esporte: o gol olímpico.

É uma história que começa muito longe da Argentina, país natal do jogador. Na verdade, tudo teve sua origem em Paris, em 1924. Naquela edição dos jogos olímpicos, o mundo descobriu que na América do Sul havia quem soubesse jogar futebol em alto nível.

Naqueles jogos olímpicos, a seleção uruguaia chegou sem causar nenhuma comoção. Nem sequer se suspeitava que o pequeno país sul americano pudesse acrescentar algo a um esporte que se supunha europeu. Mas o mundo se assombrou com a Celeste Olímpica.

Com 20 gols marcados e apenas 2 sofridos em cinco partidas, o Uruguai encantou o mundo do futebol. Era uma equipe que praticava um futebol desconhecido dos europeus, com jogadores habilidosos, capazes de trocar passes de uma maneira que ninguém havia visto no velho continente. E com jogadores que faziam coisas jamais imaginadas, como o genial José Leandro Andrade (a “maravilha negra”) e o atacante Hector Scarone. Todos sob o comando do capitão José Nasazzi, vigoroso zagueiro.

A conquista uruguaia pareceu inaceitável aos argentinos, que não foram às olimpíadas. Grandes rivais dos charruas nas competições continentais e praticantes do futebol há meio século, os moradores do país vizinho se sentiram injustiçados. Acreditavam que o Uruguai só havia conquistado o mundo com tamanha facilidade pela ausência da albiceleste. E os desafiaram para um encontro.

Desafio aceito, argentinos e uruguaios se encontraram no dia 21 de setembro de 1924 em Montevidéu, em uma partida que terminou empatada em 1 a 1. Foi marcada uma revanche em Buenos Aires. Mas as coisas não terminaram bem. Na verdade, mal começaram: a partida, disputada no campo do Sportivo Barracas, teve por volta de 60 mil espectadores, quando as arquibancadas poderiam suportar no máximo 40 mil. Havia torcedores à beira da linha lateral, e a partida se encerrou antes dos 5 minutos de jogo, por razões de segurança.

E no dia 2 de outubro as equipes voltavam à mesma cancha, sob os olhares de “apenas” 30 mil pessoas, segundo os jornais da época, graças às medidas de segurança adotadas para a partida. E aos 15 minutos aconteceu o lance histórico. O ponteiro esquerdo Onzari foi encarregado de cobrar um escanteio para a seleção argentina. Para surpresa de todos, o tiro de esquina cobrado pelo jogador do Huracán terminou dentro do gol, sem que nenhum outro jogador tocasse na bola.

Era uma grande novidade. Até aquele ano, o gol marcado em cobrança de escanteio era ilegal, e a Internacional Board mal havia modificado a regra, permitindo o que passaria a ser conhecido como “gol olímpico”. Onzari nunca deixou de reconhecer que o lance foi fruto do acaso: “aconteceu porque tinha de acontecer. Talvez o goleiro tenha acordado com o pé esquerdo naquele dia, pois nunca mais voltei a marcar outro gol assim. Mas o certo é que quando vi a bola dentro do gol não pude acreditar”, disse o jogador muitos anos depois.

Ainda no primeiro tempo, o artilheiro uruguaio Cea empataria a partida, com Tarasconi marcando o gol da vitória argentina já no segundo tempo. Foi uma partida controversa, que sequer chegou ao final. A quatro minutos do fim os uruguaios se retiraram de campo, se queixando dos torcedores argentinos, e o craque Scarone chegou a trocar pontapés com um policial, indo parar na delegacia. O time da casa também tinha reclamações, principalmente da fratura sofrida por Adolfo Celli.

Aquela partida foi um típico confronto entre argentinos e uruguaios naquele tempo, com muita rivalidade e controvérsias. Mas naqueles noventa minutos aconteceu o primeiro gol olímpico da história. Um fato que tornaria a partida inesquecível. E nada mais justo que tal fato tenha ocorrido exatamente em uma partida disputada entre aquelas que naquele momento certamente eram as melhores seleções do planeta.

Onzari e Stábile, ídolos da Argentina e no Huracán
Foto: marcelodieguez.com.br
PS: Em diversas publicações há referência a um gol marcado diretamente de cobrança de escanteio que teria ocorrido antes da partida entre os vizinhos platinos. Supostamente, em 2 de agosto daquele ano Billy Alston teria marcado um gol dessa maneira em uma partida da segunda divisão escocesa. Mas o pesquisador uruguaio Jorge Gallego demonstrou claramente que essa informação provém de uma única fonte, e essa versão contém tantas inconsistências que é muitíssimo provável que de fato o primeiro gol diretamente marcado numa cobrança de escanteio tenha sido efetivamente o de Onzari.

Desafortunados: Daniel Zitka

Foto: Galleries.lalibre.com
Felipe Portes, @portesovic
De Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch-País de Gales

A série Desafortunados aqui na TF geralmente traz exemplos de atletas que prometiam ser astros do futebol, mas por alguma razão tomaram o caminho errado na carreira. Contudo, o exemplo de hoje é a personificação do azar, da zica, da urucubaca que vez ou outra entra em campo ao lado dos times que jogam.

Daniel Zitka tinha uma trajetória normal para um goleiro. O tcheco era seguro, quase nunca se atrapalhava debaixo das traves. Seu primeiro clube foi o Viktoria Zizkov, em 1994, onde ficou por um ano. Em 1995 foi para o Svit Zlin. Ambas as equipes eram de divisões inferiores na República Tcheca. Logo no seu segundo ano de Zlín chamou a atenção de times mais tradicionais. Optando por deixar o seu país, tentou a sorte na Eslováquia, pelo Tatran Presov.

Somente no ano de 1999 Daniel conseguiu sua primeira chance em uma equipe de primeira divisão respeitável. Assinando com o Lokeren, demorou a tomou o posto de arqueiro titular do selecionado belga e disputou apenas 59 partidas em cerca de três anos. Os olheiros do Anderlecht estavam sabendo que Zitka poderia ser um bom valor para os paars-wit. 

Em ação pela seleção tcheca, num amistoso contra a Eslováquia em Outubro/2008
Foto: Tn.nova.cz
Passando por boa fase, o goleiro reinou absoluto como guarda redes do Anderlecht. Foram oito anos tranquilos, sem nenhuma grande bobagem, três títulos nacionais (2004, 2006, 2007) e uma merecida convocação para fazer parte dos 23 atletas que embarcaram para a Suíça/Áustria na Euro 2008. Tudo era flores para Zitka, até que um dia a sorte o abandonou por completo.

Dender-Anderlecht, 28 de novembro de 2008, pela Jupiler League. Estava frio no Florent Beeckmannstadion, em Denderleeuw. A tarde de sexta-feira prometia ser aproveitável para os rapazes de Bruxelas, exceto para um deles, que amargaria o pior dia de sua existência. Logo aos quatro minutos do primeiro tempo, Gillet abriu o placar para os paars-wit. 

Pouco após a volta do intervalo, o argentino Frutos ampliou para o Anderlecht. A perspectiva era de uma vitória fácil, ja que o Dender não oferecia tanta resistência e possuía um plantel assaz inferior ao dos violetas. Num lance qualquer que pipocou na área de Zitka resultou numa das divididas mais inusitadas que o esporte já viu. Daniel subiu e foi atingido pela cabeça do atacante rival. No choque, perdeu um ou dois dentes. Ao cair no chão, de mau jeito, quebrou a perna e obviamente teve de ser substituído. 

Puta mundo injusto, meu! (hln.be)
Conduzido para os vestiários de maca, gravemente lesionado, sofreu mais uma peça do destino. Os maqueiros o derrubaram de cima do aparato, gerando risos à torcida local, que já julgava ter visto de tudo com o pobre goleiro tcheco. Ficou quase um ano fora e penou para voltar à titularidade. 

Em 2010, deixou o Anderlecht para ser negociado com o Sparta Praga. Com 36 anos, é titular no clube da capital tcheca e já estuda a aposentadoria nos próximos dois anos. Mas Zitka, meu querido, se você o tivesse feito naquele jogo contra o Dender, entenderíamos perfeitamente...



sábado, 3 de março de 2012

Descraques: René Higuita

Higuita na Copa de 1990: falharia vergonhosamente jogos depois (Spox)
Principal nome da escola de goleiros colombiana (mais por sua extravagância do que por talento, propriamente dito), René Higuita é uma das figuras mais irreverentes que o futebol já viu, e o melhor, dentro das quatro linhas.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Grandes jogos: Inglaterra x Argentina

Batistuta sob olhares atentos de Shearer e Southgate (UOL)

Allan Amarelo, @Allan_Amarelo
De São Paulo-SP

[Valendo muito mais do que as Malvinas]

Quando o sorteio da Copa do Mundo de 1998 cravou Inglaterra e Argentina nos grupos G e H respectivamente, não só duas das maiores potências futebolísticas pararam para analisar os rivais e os possíveis confrontos nas seguintes fases, mas dois povos, distintos e interligados por uma cultura outrora pacífica e até mesmo invejável.

A cultura britânica foi sempre muito forte pelas terras próximas ao Rio da Prata. Não é a toa que o primeiro campeonato de futebol no país vizinho tinha o nome de Argentine Assiciation Football League e o seu primeiro campeão foi o St. Andrew's Scots School. Não só o futebol interligava Argentina e Inglaterra, mas o rugby e até mesmo os colégios ingleses, onde muitos porteños (argentinos nascidos em Buenos Aires) sonhavam estudar.

A influência era forte em todos os lados, mas sendo os ingleses fundadores do mais famoso esporte-bretão, os argentinos e até mesmo italianos imigrantes no país que fundaram os primeiros clubes, tinham a necessidade de “homenagear” aos gênios que inventaram a maior paixão do homem depois da mulher (até hoje não temos certeza disso). Boca Juniors, River Plate, Newell’s Old Boys, All Boys, entre outros, foram alguns dos principais clubes argentinos que tiveram influência inglesa em seus nomes. E isso não era por ser uma moda de uma língua hoje muito falada onde cabelereiros, restaurantes, empresas de pequeno e médio porte colocam seus nomes na “língua global”. Não! Isso era simples e genuinamente cultural.

Tão historicamente ligados, Argentina e Inglaterra começaram a se dividir em 1966, quando o volante Antonio Rattin, do Boca Juniors e da seleção albiceleste, foi expulso do jogo entre as duas seleções no Mundial daquele ano. No meio da confusão que durou vários minutos, Rattin foi obrigado a sair de campo por policiais e, em protesto, amassou a bandeira inglesa, começando ali o que seria muito mais que uma guerra.

Dizem que a vingança é um prato que se come frio. Em 1982, a guerra pelas Ilhas Malvinas matou diversos argentinos e fez com que estes povos pensassem que aquele fato num longínquo mundial quase duas décadas antes, fosse um presságio do que viria. Na verdade, ninguém pode prever as maravilhas do futuro. Quatro anos depois, talvez Deus estivesse ao lado dos argentinos. E se ele não estava, certamente estava “D10S”, Diego Armando Maradona, fazendo um gol com a mão (dele mesmo?) e o mais lindo de todos os mundiais. Sim, a Argentina venceu e eliminou a Inglaterra da Copa do Mundo, mas este é um jogo para ser contado um outro dia.

Voltando ao que viemos falar, parece que o destino iria escrever – por linhas retas – que essa história ainda não podia acabar. O sorteio daquele Mundial de 1998, na França, mostrava que possivelmente Argentina e Inglaterra se enfrentariam nas oitavas-de-final. Uma festa era preparada como um banquete. A Argentina passou em seu grupo com 100% de aproveitamento e a Inglaterra cumpriu seu papel no destino. Perdeu seu segundo jogo para a Romênia e após vencer a Colômbia, classificou-se em segundo lugar e assim tudo seguia como deveria seguir.

Terça-feira, 30 de Junho de 1998, estádio Geoffroy-Guichard, Saint-Étienne. Diante de um público de 30.600 pessoas, começava mais uma batalha dessa história tão fascinante e por muitos, desconhecida. “Trapos” (faixas para os argentinos) diziam “As Malvinas são Argentinas”. A torcida gritava “Quem não pula é um inglês” e não adiantava falar que era um esporte, pois o clima definitivamente não era esse.

Com apenas seis minutos de jogo, Batistuta, de pênalti, colocava a Argentina na frente. Num chute que o goleiro David Seaman quase pegou e o camisa nove comemorou homenageando seu filho que acabara de nascer. A alegria dos argentinos era enorme, mas como tudo que é bom (dizem) dura pouco, Alan Shearer, o nove inglês, empatou, também cobrando pênalti. Um a um. E a alegria durou tão pouco, que apenas seis minutos depois, um garoto chamado Michael Owen, passa em velocidade pela defesa composta por Ayala e Chamot para acertar um lindo chute e marcar um dos mais belos gols daquele torneio. Era a virada inglesa.

Pancada de Zanetti no gol de empate argentino (Archivos de fútbol)
Porém, antes do intervalo, no último minuto do primeiro tempo, Javier Zanetti acerta um chute inesperado e empata a partida novamente. O jogo era um típico clássico entre estas duas seleções. A tensão da arquibancada ultrapassava os limites da linha do campo e penetrava em cada jogador que corria atrás da bola.

Logo no começo da segunda parte, um dos principais jogadores ingleses, David Beckham, cai na provocação do sempre vigoroso e violento, Diego Simeone e é expulso. A Argentina tinha um homem a mais e quase um tempo inteiro por se jogar. A verdade é que isso não mudou em nada, o time inglês era bravo e parecia jogar por sua rainha, os argentinos corriam, e pareciam, de novo, querer vencer pelo seu povo. E a vontade de ambos permaneceu intacta durante os noventa minutos, levando o jogo para a prorrogação.

Como é comum, o desgaste físico e mental fez com que o jogo perdesse ritmo e qualidade, e nos trinta minutos seguintes os arcos de David Seaman e Carlos Roa foram intransponíveis, levando a partida para a disputa de grandes penalidades.

A Argentina começou batendo e não tinha o seu batedor oficial, Batistura, substituído ainda na segunda parte do tempo regulamentar. Mesmo assim, Berti, com segurança, fez o um a zero. Em resposta, Shearer fez Roa de novo buscar um pênalti no fundo das redes. Seguindo, Crespo falhou e encheu de esperança os hooligans presentes no estádio. Mas o volante Paul Ince não fez muito melhor e, assim, tudo seguia igual.

Veron e Gallardo para a Argentina, Merson e Owen para a Inglaterra. A disputa estava em três a três e nem a “sorte” dos pênaltis parecia conseguir escolher um vencedor num dos mais equilibrados encontros da história das Copas.

Para as últimas batidas sobraram um zagueiro para o lado argentino e um volante daqueles bem marcador para o lado inglês. Nenhum deles parecia ter vantagem. Nenhum deles teria um craque para marcar o último. Ambas as torcidas parecia não confiar em nenhum de seus batedores, mas o destino teria que escolher um vencedor. Ayala, absolutamente aliviado, viu a bola ultrapassar a linha e balançar a rede. As esperanças inglesas estavam nos pés de David Batty, o camisa oito que havia entrado durante a prorrogação parecia ser um especialista no tiro de X metros. Mas não, a verdade é que Batty jamais havia estado numa disputa de pênaltis em toda sua carreira e ai, pela primeira vez, o destino parecia ter escolhido o seu favorito.

E como um sussurro no ouvido, este personagem - existente ou não - parecia ter falado com o goleiro argentino. Roa caiu para o lado certo e espalmou a bola chutada pelo inglês.

Os jogadores corriam, gritavam choravam. Ambos, a reação parecia a mesma, e nestes momentos vemos a diferença daquele que escorre lágrimas de alegria ou de tristeza. Mas com toda aquela rivalidade, com uma bandeira amassada, uma guerra, marcas na história, vimos que quem venceu foi o futebol, e aquela vitória, naquele momento, valeu muito mais que as Malvinas.

30 de junho de 1998 - Estádio Geoffroy Guichard, St. Étienne - Oitavas de final 

Argentina (2): Roa, Ayala, Chamot, Vivas, Almeyda, Simeone, Verón, Ortega, Zanetti, Batistuta (Gallardo), López (Crespo). Téc: Daniel Passarella

Inglaterra (2): Seaman, Campbell, Le Saux (Southgate), Adams, Neville, Ince, Beckham, Anderton (Batty), Scholes (Merson), Owen e Shearer. Téc: Glenn Hoddle

Gols: Batistuta, 5', Shearer, 9', Owen, 16', Zanetti, 45 +1

Cartões amarelos: Seaman, Ince, Verón, Simeone, Almeyda, Roa

Cartões vermelhos: Beckham


quinta-feira, 1 de março de 2012

Stojkovic, o filho mais ilustre de Nis

Foto: The Guardian
Capitão de uma geração, Dragan Stojkovic conciliou seu talento dentro de campo com o engajamento político fora dele, se tornando um ícone sérvio em tempos duros de separatismo e guerras civis na Iugoslávia