quinta-feira, 17 de maio de 2012

Descraques: Dario Simic

Simic fazendo o que mais gostava: pancadas não intencionais (Zimbio)
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

100 jogos pela Croácia. Três Copas do Mundo, três Eurocopas e passagens por dois dos maiores clubes italianos: este é o currículo de Dario Simic, que para muitos, ainda ficou devendo como zagueiro/lateral/volante/gandula/garoto do suco.

Nascido em Zagreb, o lugar mais óbvio para se dar a luz a um croata futebolista, o menino Dario deu seus primeiros botes na categoria de base do Dinamo, o clube mais óbvio para formar um croata futebolista, em 1992. Lá encontrou seu lar dentro de campo, na defesa. Servia bem como lateral direito, mas também jogava de zagueiro, improvisava de volante, até de líbero. Versátil o rapaz, logo virou peça chave no esquema dos plavi e em especial do professor Miroslav Blazevic. 

Parceiro de figurinhas carimbadas como Tomislav Butina, Drazen Ladic, Mario Stanic e Goran Vlaovic, Simic conquistou cinco vezes o Croatão, que com muita justiça hoje deveria se chamar Liga Stana Katic de futebol profissional, ou Stanão, mas é só uma ideia idiota.

Com ou sem Stana Katic no nome, Dario e seus comparsas, os bad blue boys, ergueram o caneco da Liga em (anote aí também os números da Mega-sena): 1992-93, 1995-96, 1996-97, 1997-98 e 1998-99. 6-13-19-23-48-57. Um ganhador foi sorteado em Vilhena-RO. Da HNL Cup então, quatro vezes: em 1993-94, 1995-96, 1996-97, e 1997-98. E então, o ciclo do lateral se encerrou após o último troféu doméstico, com propostas da Internazionale. (Caceta, quase todos os dez últimos perfis que escrevi os caras passaram pela Inter, puta vida).

Foto: Posto Ipiranga (dãa)
Deveria ter ouvido aos suplícios de Mamãe Simic que dizia: Mas filho, cê vai pra Milão porcausdiquê? Qui em Zagreb cê ganha tudo, não tem pro Hajduk Split e nem pro Cibalia, num vai minino, num faz isso ca sua mãe. Entretanto, a gana de despontar como grande talento internacional seduziu o rapaz, que aos 24 anos, pegou mala e cuia e foi-se embora para o Giuseppe Meazza.

Reserva absoluto, o croata demorou a se adaptar ao estilo de jogo italiano e até apareceu bastante como substituto nos quatro primeiros anos de Inter. De marcação forte e bom desarme, pecava na saída de bola e constantemente deixava brechas na cobertura, ainda que não fosse um atleta muito ofensivo. Os passes também eram uma negação, talvez se só o encarregassem de evitar ataques do oponente, teria obtido mais êxito na equipe nerazzurri. Detalhe: jogou quase sempre como zagueiro.

Pela seleção croata ia bem, obrigado. Com participação discreta na Euro em 1996, realizando apenas um jogo, galgou sua posição como pilar defensivo dois anos depois, no Mundial da França. Somando seis aparições, incluindo a fatídica semifinal onde os donos da casa se beneficiaram de certa forma da arbitragem, e bateram os axadrezados por 2-1, com direito a tapa na cara por parte de Laurent Blanc e gol de Lilian Thuram. Parte da imprensa acredita que a Croácia é a campeã moral daquela competição (por parte da imprensa, entenda esse que vos escreve).

Ainda foi aos Mundiais de 2002 e 2006, sempre com a cota Simic na lateral, que só foi anulada em 2008, na Eurocopa, com a aparição de Vedran Corluka na ala direita. Dario foi mero coadjuvante no evento sediado na Áustria-Suíça. Mas voltando ao seu histórico por clubes, em 2002-03 virou a casaca em Milão para a indignação da torcida interista. (Mentira, ninguém fez nenhum tipo de objeção)

Ganhou espaço no Milan e era presença constante no segundo tempo, para
evitar maiores danos defensivos (Foto: football wallpapers)
No Milan mudou sua característica. Passou a jogar de lateral, como na seleção. Parte da campanha milanista vitoriosa na Liga dos Campeões de 2002-03 sobre a Juventus, nos penais, deu o azar de ser desfalque nas três derradeiras partidas. Machucado, não retomou a mesma forma nos anos seguintes e caiu de produção, servindo apenas para esquentar o banco de Cafu. (Xarope que só ele, passou a ficar incomodado com a situação e cornetou Carlo Ancelotti por ser esquecido nas profundezas da reserva). Até 2008 ficou num impasse e jamais conseguiu resgatar os velhos tempos de Dinamo, era agora o famoso gerente do banco rossonero

A insatisfação que estava evidente fez com que ele buscasse novos ares. Em 2008, quando também perdeu a regalia na seleção nacional, aos 33 anos, percebeu que era hora de sair da Itália. O Monaco, que já era apenas a sombra daquele bravo esquadrão vice campeão europeu em 2004, abriu as portas e lá foi Dario em busca de uma última razão para comemorar. Bicampeão europeu, campeão da Serie A, Coppa Italia e Supercoppa com o Milan, motivação não faltava. Faltava era um elenco decente para os monegascos, que tiveram de se contentar em chegar em décimo-primeiro e oitavo, respectivamente nas temporadas de 2008-09 e 2009-10.

Bateu saudade de casa e em 2010 Simic retornou à Zagreb com uma música na cabeça: no dia em que eu saí de casa/ minha mãe me disse/ filho vem cá/ passou a mão em meus cabelos/ olhou em meus olhos/ começou falar e então teria seu último ano como profissional no lugar onde se consagrou, ao menos para os locais. Devia ter ouvido Dona Simic e continuado em casa, mas a ambição falou mais alto. Encerrando com dignidade a sua caminhada, venceu a Super Copa da Croácia e pendurou as chuteiras. 

Desafortunados: Andy Van der Meyde

Foto: flickr/mitrasites
Felipe Portes, @portesovic
De ???

Nascido em Arnhem, o meia atacante Andy Van der Meyde começou sua trajetória no futebol em 1997-98, pelo Ajax. Sua boa movimentação e interação com o setor ofensivo eram seus pontos fortes. Impressionando os treinadores das categorias de base dos Godenzonen, o rapaz traçou bons passos e o fato de ser canhoto (característica bem vista por olheiros) facilitou esse avanço. 

Aparecendo constantemente entre os titulares numa fase complicada da equipe de Amsterdã, Andy foi emprestado ao Twente em 1999-00. Seu retorno ao Ajax em 2000-01 foi fundamental para consolidar sua posição como titular. Com as peças certas, conquistou o título da Eredivisie em 2001-02 sob comando do treinador Ronald Koeman.

Em ação contra o Valencia na LC de 2002-03 (NRC.nl)
Inicialmente como ponta direita, começou a fazer sucesso na Holanda, vivendo seu auge durante a Liga dos Campeões de 2002-03, quando os godenzonen alcançaram as quartas de final (última vez, inclusive), perdendo para o Milan, que viria a levantar o troféu contra a Juventus numa final com disputa de pênaltis.

Aquele foi o último grande elenco do Ajax, diga-se de passagem: Hatem Trabelsi, Christian Chivu, Maxwell, Petri Pasanen, Tomas Galásek, Steven Pienaar, Rafael Van der Vaart, Wesley Sneijder, Jari Litmanen, Nigel de Jong, Zlatan Ibrahimovic e Mido (tá, ok, o último foi só pra causar impacto). A boa fase de Andy refletiu no seu maior número de gols em uma só temporada: foram 11 tentos em 28 partidas.

Negociado com a Internazionale em 2003-04, foi logo mostrando que se tratava de um flop. O estilo decisivo dos tempos passados já não estava mais lá, os gols tampouco, restou só a promessa de que iria retomar a boa forma no futuro. Em dois anos na Inter, entrou em campo apenas 32 vezes, se tornando um reserva de luxo no esquema de Roberto Mancini, treinador nerazzurri em 2004-05.

Ainda sim ganhou uma chance de fazer parte da Holanda que disputou a Eurocopa de 2004, perdida nos penais para a República Tcheca nas quartas de final. Já ameaçando descer a ladeira daqueles que brilham e não mantém a performance, Van der Meyde decidiu se transferir para o Everton após mais um fiasco interista. A eliminação frente o Milan (também) nas quartas de final da LC de 2004-05 (aquele mesmo do sinalizador na cabeça do Dida, e tal) motivaram o meia a procurar sua reabilitação na Inglaterra.

Ligeiramente fora de forma e com problemas de comportamento,
Andy mostrou seu lado revoltadinho ao abdicar da cabeleira
e ficar completamente careca (Foto: Daily Mail)
Nos Toffees, piorou. Repetidas lesões e escassas atuações fizeram com que Andy passasse quase quatro temporadas só assistindo do banco de reservas. Jornais especulavam que ele agora tinha problemas com alcoolismo, o que sempre foi negado com veemência pelo holandês, muito embora meses depois ele tenha dado entrada num centro médico em Liverpool com certa quantidade de álcool no sangue. Fato é que ele raramente exercia seu ofício.

Cotado para voltar ao Ajax, afirmou várias vezes estar contente (claro, vamos tomar isso como verdade) no Goodison Park. As manchetes e a sua ausência na escalação do Everton diziam totalmente o contrário. Somente em 2008-09 desfez sua ligação com o clube, ficando alguns meses na geladeira até ser contratado junto ao PSV, onde lamentavelmente não faria nenhum jogo oficial. Detalhe: não marcou um gol sequer nas quatro temporadas em que esteve na Premier League.

Tiozão do churrasco no Emmen, Andy desfila a pança na terceirona holandesa
Foto: RTVDrenthe.nl
Chegou a se aposentar em 2009-10 após o fracasso no PSV. Aceitou o convite do WKE Emmen, que joga na terceira divisão holandesa e por lá joga até hoje, provavelmente se sentindo em casa e sem a vistosa cabeleira de outrora.


quarta-feira, 16 de maio de 2012

Farsa nossa: Tony Meola

Foto: ESPN.us
Felipe Portes, @portesovic
De Rosana-SP
[ATENÇÃO: este post contém informações biográficas inverídicas sobre o atleta em questão]

Ícone dos yankees na Copa de 1994 nos EUA, Tony Meola foi o capitão de uma geração que estava aprendendo a jogar futebol na terra do Tio Sam. Teve seu primeiro contato com o soccer na Universidade de Virginia, e de tão bem que se saiu foi convocado para o Mundial sub-20 de 1987, vencido pela Iugoslávia. Três anos depois disputou o Mundial de 1990 na Itália e sua participação segura garantiu um empréstimo ao Brighton & Hove Albion, que hoje disputa o Npower Championship. 

Sem sucesso, no mesmo ano ainda jogou pelo Watford, encerrando sua expedição pelo futebol britânico, por problemas na licença de trabalho. Depois de 1991, quando jogou pelo Fort Lauderdale Strikers, demorou três anos até retornar a defender alguma equipe que não fosse a seleção dos EUA. Somente em 1994, pouco antes da Copa, que assinou com o Buffalo Blizzard, de futsal. Em 1995, com moral após boa apresentação nos quatro jogos dos americanos (o último contra o Brasil em 4 de julho, dia da Independência), reiniciou sua trajetória clubística pelo Long Island Rough Riders (que não era um time de motoqueiros gays).

Grandalhão, teve de esperar até 1996 para ter uma chance na MLS. O NY Metrostars (hoje Red Bulls e com Thierry Henry) contou com os serviços do gordachão até 1998. A fase não era boa e ele não teve chances no Mundial da França. Bem, Meola se mudou para o Kansas City Wizards em 1999 e lá ficou até 2004, e em 2005, às vésperas de pendurar as luvas, voltou ao NY, que já passava por processo de transformação em Red Bulls. Ameaçou retornar ao futebol em 2008, pelo New Jersey Ironmen, novamente se aventurando no futsal, sem sucesso.

Uma curiosidade sobre Tony é que ele foi kicker do New York Jets na NFL em meados de 1994, e também jogava basquete e baseball antes de completar 20 anos, na Universidade de Virginia.

[Versão alternativa e não oficial]
Lawman: o último quase trabalho de Meola como dublê de Seagal (AETV.com)
Antonio Michael Meola é filho de italianos (até possui dupla cidadania) e ainda jovem aprendeu a lutar artes marciais. Com o sucesso de filmes estrelados por Steven Seagal, o ator, sempre lembrado por seu rabo de cavalo precisava de um dublê. A semelhança de porte físico entre os dois era tão grande que logo no primeiro teste que Meola fez para o papel, o próprio Seagal requisitou ao seu staff que ele fosse contratado.

Os infindáveis compromissos cinematográficos impediam Tony de jogar por clubes. A saída para que os fãs do atleta, e não do dublê não percebessem era justamente ele continuar vestindo a camisa da seleção. Foram mais de 100 atuações pelos EUA e mais de trinta filmes iguais com Seagal. Fora de forma, em 2011, foi cogitado para participar de Lawman, uma série estrelada pelo astro da pancadaria, mas acabou perdendo a vaga para um ator mais jovem.

Hoje, Tony é comentarista esportivo e nas horas vagas apresenta um programa de utensílios domésticos na tv fechada norte-americana. A Tonyshop vende tralhas que podem ser compradas por telefone por pessoas que ainda acreditam em tranqueiras tecnológicas multifuncionais, como escovas de dente com fio dental/espelho/aplicador de flúor, liquidificador/processador de alimentos/torradeira/grill e o incrível incinerador de lixo/purificador de marofa/aspirador de pó entorpecente.


terça-feira, 15 de maio de 2012

Descraques: Marco Materazzi

Foto: Greenobles.co.uk
Felipe Portes, @portesovic
De Helsinki-FIN (tá frio pra caraco aqui, mas tá bacana)

A arma secreta de um bom beque é a aptidão para descer o sarrafo e não levar cartão vermelho por isso. Outros diriam que é o bom desarme que faz um zagueiro ser reconhecido mundialmente. Para qualquer outro atleta as duas alternativas anteriores são válidas. Mas não para Marco Materazzi, que em seu momento mais célebre, conseguiu esquentar o temperamento de Zinedine Zidane a ponto do francês, já campeão do mundo e coroado como melhor da sua geração, lhe acertar uma cabeçada no peito, nos minutos finais de uma Copa.

Bem, a história de Marco é cheia de momentos inusitados. Como o futebol corria em suas veias (é filho de Giuseppe Materazzi, que jogou por Lecce, Reggina e Bari na década de 1970), logo foi se familiarizando com o esporte e aos 17 já integrava os elencos juvenis do Messina, em meados de 1990. Demorou até alcançar o profissional, em 1993, pelo Marsala. Tão logo demonstrou uma de suas principais características: o faro de gol. Aparecia bem na área adversária em bolas paradas para marcar. Vários foram os tentos providenciais que marcou de cabeça, de canela, salvando as equipes que defendeu.

Depois do período de Marsala, desfilou no Trapani por uma temporada e foi contratado em 1995 pelo Perugia, onde ganharia fama no cenário italiano. Com força incomum e talento para marcação (e anulação de adversários), virou referência defensiva no grifoni. Emprestado ao Carpi em 1998, retornou ao Perugia e passou uma época no Everton. Sua imagem de caneleiro foi construída a partir daí.

Cena comum de Marco em sua passagem pelo Goodison Park
Foto: The sun
Conhecido como "The Butcher" pelos ingleses (nenhuma referência ao zagueiro Terry Butcher, o termo no caso de Materazzi era açougueiro mesmo), foi expulso quatro vezes em menos de trinta jogos pelos Toffees. De volta à Itália, defendeu o Perugia por mais dois anos. Em 2001 selou seu destino ao acertar com a Internazionale. Todo aquele papo de fazer muitos gols e baixar o cacete nos atacantes ficou ainda mais sério: Marco agora era convocado pela Squadra Azzurra. Ou seja, um ranca toco internacional. 

Seu principal alvo na Serie A era sem dúvida Andriy Shevchenko. Rei da pancadaria nos clássicos contra o Milan, o beque sempre se desentendeu com o ucraniano dentro das quatro linhas. Evidente que não podemos classificar o camisa 23 como apenas um doido varrido e bom de briga. The Matrix também tinha certa técnica. Não era seu ponto forte, claro, mas enfim.

Presença constante na seleção italiana, disputou as Copas de 2002 e 2006, as Eurocopas de 2004 e 2008. Foi na Alemanha, em 2006, que ficou gravado na memória dos amantes do futebol como um dos maiores vilões (para todo o mundo, exceto para a Itália, que se beneficiou de sua peripécia). Assumiu a vaga de titular após a lesão de Alessandro Nesta e ficou no posto até a dramática decisão contra a França.  

Eram sete minutos do primeiro tempo, quando Marco derrubou Florent Malouda dentro da área. A imprudência resultou em pênalti, cobrado com extrema classe e ousadia por parte de Zidane. 1-0. 12 minutos depois, a redenção: Pirlo bate escanteio e Materazzi, que havia feito bobagem pouco antes, testa para vencer Fabien Barthez. 1-1. O clima tenso se seguiu e o empate prevaleceu até a prorrogação. Foi aí que a malandragem do zagueirão fez a diferença.

A famigerada cabeçada de Zidane (football wallpapers)
Provocando o capitão francês até o limite, o italiano em determinado lance levou uma cabeçada no peito e conseguiu causar a expulsão de Zidane, que se aposentadoria minutos depois, sem arrependimento algum pelo que fez. De acordo com Marco, o entrevero com Zizou aconteceu por causa de um simples pedido de  troca de camisas. Após recusa do capitão rival, ele então retrucou dizendo que "preferia a vadia da irmã" de Zinedine, que se enfezou e levou o cartão vermelho. A França teve de permanecer focada na partida por mais dez minutos, antes dos penais. O restante desse episódio todos sabem o final.

Conduzindo uma carreira cheia de botinadas e de títulos pela Inter, foi em 2010/11 que o zagueiro experimentou como era o outro lado da moeda. Em determinado clássico contra o Milan (no qual ele distribuía pontapés sem dó), ficou frente a frente com Zlatan Ibrahimovic, encrenqueiro mundialmente conhecido por também ter lutado taekwondo quando jovem. Seria uma dividida normal se o sueco não tivesse entrado com a sola por cima da pelota e acertado a cintura do adversário nerazzurri. Ironicamente, Ibra saiu só com um cartão amarelo.

Ídolo às avessas da torcida interista, Materazzi disputou sua última temporada justamente em 2010/11, quando o Milan saiu vencedor do scudetto, interrompendo o reinado da outra grande torcida milanesa. Aos 38 anos não se encontra aposentado, de acordo com o colega @arthurbarcelos_, que confirmou o fato do camisa 23 ainda estar ponderando sobre jogar mais uma ou duas temporadas, trabalhando com a possibilidade de assumir algum cargo técnico dentro da Inter.




segunda-feira, 14 de maio de 2012

TF História: O mais fraco também triunfa

Gol de Sparwasser derrubou por um dia a Alemanha que seria campeã do mundo
contra a Holanda de Johann Cruyff (Foto: Superillu.de)
Felipe Portes, @portesovic
De Belgrado-SRB

Um gol em Copas do Mundo significa mais do que uma medalha, um baú repleto de ouro para um jogador. Um gol em clássico de Mundiais, um tanto a mais. Um gol com significado libertador e que representou todo um conflito entre países irmãos, no caso duas partes do mesmo país, não há riqueza que se iguale.

É o caso de Jürgen Sparwasser, ex-atacante da Alemanha Oriental (parte comunista do país) e que marcou o gol de seu lado da pátria contra a poderosa irmã ocidental e futura bicampeã mundial em 1974. Numa época em que as mazelas políticas e a Guerra fria ecoavam em todos os cantos do globo, o tento marcado por Sparwasser (77 minutos) foi o marco de uma batalha travada dentro do gramado e fora dele.

Com a Revolta de 1953 em território germânico, milhares de alemães do lado oriental tiveram de se refugiar do outro lado do Muro de Berlim, para evitar a repressão que havia contra os ideais comunistas.  E é neste cenário de luta pela soberania que o duelo entre as duas irmãs ocorreu no mundial sediado em seu país.

Era 22 de junho de 1974, no Volkspark Stadion, em Hamburgo. Pelo selecionado azul oriental, alinhavam: Croy, Kurbjuweit, Bransch, Weise, Waetzlich, Kische, Kreische, Lauck, Irmscher, Sparwasser e Hoffmann.

A Alemanha Ocidental, de branco, escalou Meier, Vogts, Schwarzenbeck, Beckenbauer, Breitner, Cullmann, Overath, Hoeness, Grabowski, Müller e Flohe.

O domínio dos ocidentais era completo. Breitner passeava em campo, e Müller trazia muitas preocupações ao goleiro Croy. Um dos bons lances azuis na peleja, foi com Kreische, que desperdiçou chance vital debaixo das traves de Meier. A pressão se manteve até que o camisa 14, Sparwasser, recebeu passe pelo alto, matou no peito, tirou o marcador e entrou na área. Com espaço mínimo, ele fuzilou o arqueiro Meier, que nada pode fazer.

Com cambalhotas, Sparwasser não sabia ao certo como externar a sua alegria de ter marcado num jogo tão desigual. Antes de ser um confronto entre duas faces de uma Alemanha, era um jogo entre um gigante e uma equipe mais acanhada, sem brilho. Num dos raros casos em que a vontade sobrepõe ao talento, a DDR (denominação para o lado oriental germânico) viu o futebol como válvula de escape aos terríveis anos que se passaram por questões políticas e ideológicas.

O gol de Jürgen foi quase como um grito de liberdade. Contam os mitos do mundo da bola, que ele recebera prêmios do governo comunista da DDR, como um carro e uma propriedade. Os atos, vistos como manobra governamental para explorar o seu feito. Sensato e sem intenção de se alinhar ao movimento, Sparwasser sempre negou com veemência que tivesse sido “agraciado” pelos chefes de estado, tendo inclusive deixado o seu país em 1988, pouco antes da queda do Muro de Berlim. 


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Desafortunados: Massimo Taibi

Passagem de Taibi pelo todo poderoso United foi pífia, diria Mauro Cezar Pereira.
Foto: MUFC.net
Felipe Portes, @portesovic
De Spa-Francorchamps-BEL (ôo, o portes voltou, o portes voltoooo-ôooou)

Taibi e seu triste porém cômico destino no futebol tiveram seu primeiro capítulo lá em 1990-91, pelo Trento. Impulsionado por grandes gerações de arqueiros formados na Itália como Dino Zoff, Franco Tancredi, Walter Zenga, Gianluca Pagliuca, entre outros, Massimo se agarrava ao objetivo de sua carreira, que muito provavelmente deveria ser um grande guarda redes de nível internacional.

E então foi começando a ser uma barreira para os atacantes pelos lados do estádio Briamasco, quando em apenas uma simples temporada alertou os dirigentes do Milan. Com enormes dificuldades para se adaptar de forma tão rápida ao esquadrão rossonero, foi repassado ao Como, por empréstimo, sem ao menos entrar em campo. Fez sucesso na Serie C, quando os Lariani passaram perto de ascender à Serie B de 1992-93. A terceira colocação frustrou a rapazeada e especialmente Taibi, que sabia da dificuldade que era aparecer para o grande público jogando em divisões inferiores.

Perseverante, o jovem siciliano (nascido em Palermo) aceitou a oferta da Piacenza, que jogava na B, para poder então prestar seus serviços. Íntimo das traves, com bons reflexos e colocação ímpar na pequena área, Massimo trouxe mais confiabilidade para o setor defensivo dos biancorossi. A terceira posição na classificação final e o acesso à Serie A alavancou a popularidade do humilde rapaz, que agora já estava com boas condições para mostrar as suas cartas.

Cinco temporadas na Piacenza fizeram com que o goleiro voltasse a fazer parte dos planos do Milan, em 1997-98. Caindo no mesmo conto de anos antes, foi feito de mera peça do elenco, apenas participando de 17 compromissos. Com pompas de top 5 goleiros italianos da época, foi ao Venezia e lá jogou ao lado de atletas como Alessandro Pistone (aquele, 1), Fillippo Maniero (aquele, 2) Fabio Bilica (poltrona 36?), Álvaro Recoba e Tuta (aquele, 3), veja só você. 

O uniforme amarelo e a careta de E agora, Jesus? foram emblemáticos
na estadia de Taibi no Old Trafford (Tumblr)
Logo na sequência, em 1999-00, o siciliano resolveu então aceitar o maior convite de sua carreira, por parte do Manchester United, que se impressionara com as habilidades do guarda metas. Haviam duas possibilidades: ser reserva de uma das maiores forças da Europa ou enfim vingar como maior nome italiano na posição, sucedendo o genial Pagliuca. Entretanto, o inesperado não só aconteceu, como marcou Taibi por toda a sua trajetória profissional.

Fazendo míseras quatro aparições pelos Red Devils, estreou contra o Liverpool em 10 de setembro de 1999, no Anfield. O Manchester saiu na frente graças a uma falha clamorosa de Jamie Carragher, que cortou cruzamento e testou contra a própria meta, defendida pelo lendário Sander Westerveld. Sem chances, o holandês apenas pode lamentar o infortúnio. Andy Cole aumentaria a vantagem dos visitantes de cabeça, aproveitando um dos precisos cruzamentos de David Beckham. Estava tudo bem para Sir Alex Ferguson e sua intrépida trupe, parte 1.

Aos 23, falta cobrada na área do United e Taibi sai exatamente igual Marcos no Mundial Interclubes de 1999. Caçando borboletas, o italiano não achou a bola que vinha pelo alto e permitiu que Sami Hyypia testasse para o fundo das redes. Nada de grave. Com duas excelentes defesas logo em seguida, Massimo se redimia de sua falha inicial. Garantindo a vitória por 3-2 (Carragher marcou mais um gol contra aos 44'), estava seguro de que havia encontrado um porto seguro. Pois é, mas as coisas não caminharam tão bem assim. Duas partidas depois da glória, nosso Desafortunado passou por maus bocados.

O duelo era contra o Southampton do brilhante Matthew Le Tissier e assim de repente Marian Pahars marcou um gol de placa, dando uma caneta em Jaap Stam para inaugurar os trabalhos no Teatro dos sonhos. Teddy Sheringham empatou e Dwight Yorke colocou o United na frente. Estava tudo bem para Sir Alex e sua intrépida trupe, parte 2. Estava. Le Tissier dominou uma bola na faixa de 30 metros e carregou com dois toques até achar espaço. Resolveu arriscar e nessa chance contou com um frangaço clássico de Taibi. Por entre as pernas do siciliano foi a bola, traquina e cruel. Checando sua chuteira após o lance, Massimo deve ter pensado que demônios tiraram a pelota de seu controle. Demônios arteiros, diga-se.

Mikaël Silvestre fez bobeira na lateral, perdeu para Pahars que achou Le Tissier no meio da área. 3-3. Yorke havia deixado o seu minutos antes, mas aparentemente não teve a mesma sorte do que naquele dia contra o Liverpool. A nebulosa de Taibi não acabaria ali. O frangaço foi tratado com muitas piadas por parte da imprensa britânica, que não demorou a crucificar o rapaz de Palermo pelo erro crucial (e vexatório). Na rodada seguinte, contra o Chelsea, em Stamford Bridge, mais um duro golpe e o último que Massimo sofreria na Inglaterra. 

Vamos resumir o sofrimento: Dan Petrescu cruza, Taibi sai novamente caçando borboletas e Gustavo Poyet marca. 1-0; Chris Sutton cabeceia no ângulo, 2-0; Celestine Babayaro faz carnaval na defesa e só rola para Frank Leboeuf, que chuta, Taibi rebate mal e Poyet confere, 3-0; Gianfranco Zola faz uma jogada extremamente técnica e cruza para Sutton, mas Henning Berg chega antes e faz contra, 4-0; Jody Morris recebe sozinho na área e chuta rasteiro, entre as pernas de Taibi. Fim do show de horrores. 

Na Reggina, redenção e gol em escanteio. Great times revival?
Foto: Dio salvi la Reggina
Passado o pesadelo inglês, Massimo retornou à Itália para jogar pela Reggina, na Serie A, na temporada 2000-01. No primeiro de abril de 2001, confrontando a Udinese e perdendo por 1-0 até os 43 do segundo tempo, o goleiro que tanto foi apedrejado pela torcida vermelha de Manchester conseguia um afago após anos de duro trabalho. 

De cabeça marcou o gol de empate, para insana festa dos locais no Reggio Calabria. Somando mais passagens por Atalanta (2001-05), Torino (2005-07) e Ascoli (2007-09, se aposentou em 2009) Taibi seria mais um nome memorável de goleiro italiano, não fosse seu fiasco relâmpago no United. 



quarta-feira, 9 de maio de 2012

Craques: Felix Magath

Com a camisa do Hamburgo, Felix Magath se consagrou, chegando até mesmo 
a ser campeão da UEFA Champions League (Foto: Getty Images)
Felipe Ferreira, @felipepf13
De Araçatuba-SP

Nos dias de hoje, quem olha a carrancuda figura de Felix Magath, atual treinador do Wolfsburg, tem conhecimento dos seus métodos ditatoriais não consegue imaginar que o hoje mais do que exigente técnico já foi um dos principais jogadores da história do futebol alemão. Apresentando-se como um meio-campista de muita técnica e habilidade, marcou época nos anos '70.

Nascido na cidade de Aschaffenburg, Magath despontou no futebol profissional no futebol profissional em 1972. Até então com 19 anos, defendeu o modesto Viktoria Aschaffenburg, clube de sua cidade. Passados dois anos, a equipe de era pequena demais para um jovem que sonhava alto no futebol. Foi decretada sua transferência para o Saarbrücken que, na época, disputava a 2ª divisão da Bundesliga. Como já era esperado, ele conseguiu destaque na divisão de acesso e chamou a atenção do Hamburgo, que acabou o arrematando no ano de 1976. 

Passando por um período de calvário em sua história, os Rothosen buscavam se reerguer e logo em sua primeira temporada no clube, Magath mostrou que poderia ser uma peça fundamental para o HSV ao ser uma das peças-chaves do time no título da já extinta Taça das Taças UEFA. O meia inclusive marcou um dos gols da vitória por 2 a 0 sobre o Anderlecht na final da competição. Ainda naquela época, o Hamburgo acabou sendo vice-campeão da Supercopa da UEFA ao empatar com o Liverpool em 1 a 1 na partida de ida da decisão da competição e levar um acachapante 6 a 0 na volta.

Aos poucos, o talentoso jogador ia se consolidando cada vez mais na Alemanha, visto que já colecionava convocações para a seleção nacional. No Hamburgo, a temporada 1978-79 foi importantíssima graças ao fato de que com as chegadas de Branko Zebec e Ernst Happel, Magath teria outros companheiros de alto nível podendo auxiliar a levar o seu clube a um posto de alto nível. Logo na primeira temporada do trio dinâmico, o título da Bundesliga foi conquistado.

Em 1980, Magath compôs o elenco da Nationalelf que acabou sagrando-se campeã da Eurocopa, contudo, o foco do jogador estava mesmo era em seu clube e na temporada 1981-82 ele voltaria a erguer a salva de prata, o que ajudou a diminuir a lamentação pelo fato do Hamburgo ter ficado com o vice-campeonato da Copa da UEFA ao perder para os suecos do Göteborg na final.

Eis que podemos usar o clássico ditado: depois da tempestade vem a bonança. Após o tropeço na final da Copa da UEFA, a temporada 1982-83 marcaria a redenção daquele grande time do Hamburgo e do nosso personagem em destaque. Com grande ajuda do Craque de hoje, os alemães fizeram uma grande campanha na Liga dos Campeões e chegaram até a final contra a grande Juventus de Paolo Rossi, Platini e Boniek. Na grande decisão, onde os Rotthosen eram franco atiradores, Felix Magath acertou um grande chute de fora da área, marcando o único tento da partida e assegurando o título para sua equipe. De fato, a glória máxima na carreira do tão habilidoso meia, que ainda nessa temporada viria a conquistar mais uma Bundesliga.

Após o título da LC, Magath e seus companheiros acabaram por ficar com dois vice-campeonatos no ano de 1983. Na Supercopa da UEFA, após um empate de 0 a 0 na ida, os escoceses do Aberdeen venceram na volta por 2 a 0 e conquistaram o campeonato. Na Copa Intercontinental, o adversário era o Grêmio de Renato Gaúcho que venceu por 2 a 1, com direito a gol no último minuto do falastrão que já teria dormido com mais de 5 mil mulheres.

Felix seguiu jogando até o ano de 1986, sempre no Hamburgo. Até que até então com 33 anos, decidiu pendurar as chuteiras, partindo para a carreira de técnico e deixando um legado como um dos maiores jogadores da história dos Rothosen e do futebol alemão.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Craques: Iván Zamorano

A Copa Chile de 87, alavancou a carreira de Zamorano. (La Redó!)
Bruno Núñez, @BrunoNunez
De São Paulo-SP

Seus primeiros passos no mundo da bola se deram em campos de terra cheios de pedras em Maipú, um bairro de classe baixa de Santiago, poucos que jogavam com o menino franzino de origem humilde, poderiam apostar que naqueles campos estaria surgindo um dos maiores jogadores da história do futebol chileno. No mesmo patamar de lendas, como Elías Figueroa, Leonel Sanchez, George Robledo e seu contemporâneo Marcelo Salas.


Zamorano começou jogando como zagueiro central, mas logo demonstrou que seu ofício era o gol, e como atacante chamou a atenção de muitos, sendo o principal jogador do Benito Juárez, clube onde jogou durante sua infância. O menino já era um homem, tinha perdido seu pai com apenas 13 anos de idade, tendo que assumir a responsabilidades em casa, ajudando sua mãe e irmã. O sonho de ser jogador era uma obrigação, seu pai sempre o apoiou muito e antes de morrer sempre dizia a sua mulher – ‘’O menino vai ser muito bom’’.

O sonho de virar jogador profissional se tornou realidade em 1985, Iván desembarcou no acampamento mineiro de El Salvador, o Cobresal pagou uma merreca para ter o jovem em seu elenco. Logo chamou a atenção, mas o técnico Manuel Rodríguez preferiu emprestar o garoto para ganhar experiência em um clube de uma divisão inferior. Com isso Zamorano jogou em mais um time de mineiros, o Cobreandino (atual Trasandino de Los Andes). A passagem dele pelos gramados maltratados da segunda divisão do país andino foi mais do que positiva, foram 27 gols em 29 jogos no campeonato de 1986.

Após a temporada que mostrou ao Chile sua capacidade goleadora, Zamorano voltou ao Cobresal, que graças ao dinheiro vindo da mineração de cobre, conseguiu montar um time de respeito. Iván ajudou o clube a conquistar o troféu mais importante da história do clube, a Copa Chile de 1987, seus 14 gols em 14 jogos levaram o clube a final contra o Colo Colo, que foi derrotado por 2 a 0 pelo clube do acampamento mineiro.

Coroado rei na Suíça, Zamorano começou a chamar a atenção dos grandes da Europa (blick.ch)
Seus gols logo chegaram ao conhecimento do futebol europeu, 350 mil dólares foram suficientes para Zamorano chegar ao Bologna, aonde não chegou a jogar nenhum jogo, rapidamente sendo emprestado para o St. Gallen da Suíça. No pontual (?) futebol suíço, o franzino jogador ganhou força para enfrentar as duras marcações europeias, as três temporadas no St. Gallen (88-89, 89-90 e o começo de 90-91) foram prolíferas, o atacante se sagrou artilheiro da Liga Suíça com 23 gols na temporada 1989-90 e de quebra ganhou o prêmio o melhor estrangeiro daquela mesma temporada.

Zamorano ficou famoso pela Europa graças aos seus gols em terras suíças, principalmente pelos gols feitos de cabeça, a especialidade de Iván, o Terrível, apelido dado pelos jornais europeus. O técnico chileno-argentino Vicente Cantatore, que dirigia o Sevilla em 1990, precisava de um atacante para fazer dupla com o croata Davor Suker, tentando achar o jogador ideal para seu ataque, foi até a Suíça ver Zamorano jogar, e se decepcionou, já que o atacante não fez gols nos jogos em que esteve por lá. A sorte de Zamorano foi que seu companheiro de ataque no St. Gallen, o também chileno Hugo Rubio, conhecia muito bem Cantatore, ambos haviam estado juntos no Cobreloa, uma longa conversa entre os dois ajudou na decisão do técnico, que acabou requerendo Zamorano nos Sevillistas, que desembolsou 2.5 milhões de dólares para ter o atacante.

A mudança dos Alpes para a terra das touradas não foi fácil, Zamorano não começou nada bem no Sevilla, na primeira temporada fez apenas nove gols, nem perto dos seus números de costume, a titularidade não era garantida, e para piorar sua situação, se machucou e ficou de fora por uma boa parte da temporada 1990/91.

Na temporada seguinte, Zamorano evoluiu bastante, não foi um jogador fora de série, mas era bastante participativo, fez 12 tentos, mas jogava de uma maneira muito mais madura do que no seu início na Espanha. Seu futebol acabou interessando mais um, o técnico Benito Floro, que tinha acabado de chegar no Real Madrid em 1992 e não titubeou em desembolsar cinco milhões de dólares para ter o chileno, era o começo de uma bela história.

A raça de Zamorano no Real Madrid, deixava o sangue na camisa. (Real Madrid Fans)
Iván Zamorano chegava a um dos clubes mais importantes da história do futebol, era a solução para o problema do ataque madridista que sentia falta do mexicano Hugo Sanchez, que havia saído do clube na temporada anterior. Diferentemente do que pensaram, Zamorano não sentiu o peso da camisa, pelo contrário, nunca uma camisa tinha caído tão bem no chileno, 36 gols somando Campeonato Espanhol, Copas e Torneios Internacionais. Os gols mais importantes da primeira época de Zamorano foram contra o rival Barcelona, dois gols nos jogos da final da Supercopa Espanhola de 93, título que ficou com o Real Madrid. O mundo conhecia o salto imponente e o cabeceio mortal do chileno, que reinava soberano na grande área dos rivais dos merengues.

A temporada 1993-94 deveria ser esquecida, Iván Zamorano teve um péssimo desempenho, nem perto de sua temporada anterior que foi avassaladora. Foram meses sem marcar, os torcedores do Real davam todo tipo de amuleto para o chileno buscando uma solução para sua seca de gols. Só no fim do ano voltou ao encontro do gol, foi contra seu ex-clube, o Sevilla.

O péssimo desempenho em 1993-94 provocou a saída do técnico Benito Floro, que foi prontamente substituído por Jorge Valdano, jogador de passado glorioso no clube da capital espanhola. O futuro de Zamorano no clube madrilenho era incerto, Valdano declarou que achava o chileno dispensável no elenco, e sua saída era questão de tempo. Para alegria dos torcedores, Valdano teve engolir suas palavras a cada gol do centroavante chileno na decorrente época. O Terrível havia voltado, foram 28 gols no Campeonato Espanhol, o título da Liga Espanhola e o Trófeu de Pichichi (dado ao artilheiro do campeonato) eram seus.

Comemorando um gol, cena mais do que típica na temporada 1994/95 (Enchula el deporte)
Zamorano teve jogos memoráveis na temporada 1994-95, talvez o mais impactante foi a goleada do Real Madrid sobre o Barcelona por cinco a zero, o atacante chileno fez três gols no jogo e saiu aplaudido de pé. Outro jogo chave de Zamorano foi contra o Deportivo La Coruña, na antepenúltima rodada da Liga, ambos lutavam pelo título e uma vitória dava o título aos merengues, o jogo ganhou contornos dramáticos quando faltavam cinco minutos para acabar e o placar apontava um empate de um a um. Foi quando Amavisca viu Bam Bam livre de marcação, o cruzamento parou no peito do chileno, a bola se adiantou e o matador não perdoou o gol do Deportivo, uma bomba com o pé direito sacramentou o título merengue.

A última participação de Zamorano no Real Madrid foi modesta, 16 gols durante toda a competição, ainda assim, o cartel do jogador era vasto, e interessados não faltariam. Saiu como ídolo do Real Madrid, graças aos seus mais de 100 gols com a camisa merengue.

Massimo Moratti levou os gols de Bam Bam para o lado nerazurri de Milão. Zamorano não teve o mesmo protagonismo que teve no Real Madrid, e logo depois ganhou a companhia de um atacante que vinha em grande fase. Ronaldo chegou na Internazionale e o chileno teve que ceder a camisa 9 para ele. Não conseguia largar de vez sua camisa que lhe rendeu tantos gols e alegrias, deu um jeitinho pra continuar usando a 9, por isso passou a usar a camisa 18, ou melhor, a camisa 1+8. A maior glória de Iván na Inter veio na final da Copa UEFA de 1997-98 contra a Lazio, o primeiro gol da decisão foi seu, o jogo acabou em um estonteante 3 a 0 para os interistas.

Poucos gols na Inter, mas sua entrega em campo conquistou a torcida. (Daily Mail)
Foram cinco temporadas na Internazionale, Zamorano não foi o goleador dos tempos de Real Madrid, foram poucas vezes em que balançou as redes, o que ficou marcado foi sua entrega em campo e garra, aquele homem com feições indígenas conquistou a torcida graças a sua raça dentro das quatro linhas. Após 14 temporadas na Europa, Zamorano achou que era hora de voltar ao continente dos seus primeiros passos como jogador.

O jogador que dominava nas cabeçadas na área, graças a sua impulsão, encontrou uma cidade à sua altura, os 2.240 metros de altura da Cidade do México iriam albergar os gols do atacante chileno. O América do México era seu novo lar. Os gols surgiram rapidamente, assim como as lesões, que atrapalharam um pouco sua passagem pelas Águilas. No fim, sua passagem foi satisfatória, 36 gols em 3 temporadas, além do título do Torneio de Verão de 2002, que significou a nona estrela de campeão mexicano do América.

Em 2003, já com seus 36 anos, Zamorano resolveu atender um sonho do seu finado pai, vestir a camisa do Colo Colo, que também era seu time do coração. Zamorano chegou brincando, dizia que o índio do escudo parecia com ele, e era verdade, Bam Bam era a cara do clube, vindo da periferia, e vencendo com muita garra, raça e coragem, como eram os seus antepassados araucanos, inclusive o índio que deu inspiração ao nome do clube.
O jogador do povo, no time do povo, pena que durou pouco. (Tarapacá Online)
Todos acharam que Zamorano iria triunfar no albo, que preferiu não receber salário, já que o clube passava por uma grande crise econômica. Os 14 jogos e 8 gols foram trocados pela decepção da atitude do ídolo, que agrediu um árbitro e foi suspenso do campeonato, o atacante preferiu encerrar a carreira depois daquela atitude. Com o fim da sua carreira, Zamorano colecionou 327 gols, sendo o segundo maior artilheiro chileno da história, atrás apenas de Osvaldo ‘’Pata Bendita’’ Castro, com 358 gols. Acabava o jogador, mas nascia a lenda.

Capitão e ícone da seleção no caminho a Copa do Mundo de 1998 (AFP)
A camisa que mais caiu bem no atacante foi a da seleção chilena de futebol, pela Roja de Todos, Zamorano marcou época, principalmente na campanha rumo a Copa do Mundo de 1998. Fazia a dupla ‘’Za-Sa’’ com Marcelo Salas no ataque, que ficou famoso nas eliminatórias, impondo respeito e voltando a dar uma boa impressão do futebol chileno que tinha sido excluído das competições FIFA desde o escândalo no Maracanã protagonizado por Roberto Rojas. Inclusive não permitindo a seleção tentar a vaga para a Copa de 1994.

Na Copa de 1998, Zamorano era o grande ícone daquele elenco dirigido por Nelson Acosta, chamava muita atenção à intensidade com que o capitão da seleção cantava o hino nacional. A seleção chilena fez bonito, Zamorano também, o empate polêmico contra a Itália, mostrou que a seleção poderia vencer qualquer um, empates contra Áustria e Camarões abaixaram os ânimos, que foram pro espaço após a goleada contra o Brasil, nas oitavas de final da competição. Mas o povo ficou orgulhoso de todos, e principalmente do seu capitão, que não fez nenhum gol, mas impôs um espirito de liderança único, típico de um índio araucano.

Outra grande participação de Bam Bam pela seleção foi nas Olímpiadas de 2000, em Sydney, na Austrália. A seleção ganhou pela primeira vez uma medalha na competição olímpica, a medalha de bronze tinha grande participação de Zamorano, que fez 6 gols e se consagrou o artilheiro daqueles Jogos Olímpicos.

Sua despedida da seleção foi no dia 1º de setembro de 2001, no Estadio Nacional lotado, em um amistoso contra a França, vencido pelo Chile por 2 a 1, a Roja nunca mais seria vestido por aquele bravo homem, que botava tudo em campo pelo país, o capitão nunca mais vestiria vermelho.


sexta-feira, 4 de maio de 2012

Grandes jogos: Milan x Barcelona

Jogadores do Milan vibram com o título da Liga dos Campeões 1993-94 (Foto: Getty Images)

Por: Felipe Ferreira (@felipepf13)
De Araçatuba/SP

18 de maio de 1994. A data era marcada para fazer com que o Dream Team do Barcelona comandado por Cruyff e com atletas como Ronald Koeman, Pep Guardiola, Hristo Stoichkov, Romário, entre outros, entraria para a história como um time imortal, praticamente imbatível. No entanto, o destaque maior dessa noite é o fato da tão comentada equipe ter visto seu grande sonho e seu encanto terem sido "assassinados" pelo Milan, treinado por Fabio Capello, que em seu plantel tinha Paolo Maldini, Franco Baresi, Roberto Donadoni e Dejan Savicevic na final da Liga dos Campeões de 1993-94.

A campanha de ambos durante a competição havia sido excelente. Era notório que as duas equipes possuíam os melhores planteis da Europa e um confronto direto pelo título era questão de tempo. 

Dono de um estilo de jogo tipicamente italiano, baseado na forte marcação e na frieza em decidir confrontos em poucos lances, o Milan de Fabio Capello era um esquadrão com uma eficiência enorme. Enquanto isso o Barcelona de Johan Cruyff vinha cercado de alardes, visto que o Dream Team era considerado por muitos como uma das melhores equipes de todos os tempos e, de certa forma, imbatível.

Às vésperas da decisão, a imprensa europeia dava pleno favoritismo ao lado culé, condição que era considerada até mesmo entre a comissão técnica e os atletas blaugranas. A forma com o que tratavam o Barça mostrava que os títulos dos catalães eram apenas questão de tempo, ainda mais que o adversário da grande decisão não poderia contar com Franco Baresi e Alessandro Costacurta, tão importantes durante toda a competição e que acabaram por levar o terceiro cartão amarelo na semifinal contra o Monaco.

Até que chegou o épico dia 18 de maio. Os olhos estavam todos voltados para Atenas. Será que seria possível parar o Dream Team do Barcelona? Era o questionamento que todos faziam. Poucos colocavam fé naquele Milan de defesa desfalcada, e que já não podia contar mais com Marco Van Basten, além de ter uma das maiores sensações do futebol europeu, Gianluigi Lentini, no estaleiro.

1° tempo: O Dream Team para na barreira do Milan do oportunista Massaro

O início tenso evidenciava o clima de decisão. O Barcelona jogava com a marcação adiantada, pressionando fortemente a saída de bola do Milan e trabalhando bem a bola, bem ao estilo da equipe atual. Enquanto isso, os italianos buscavam marcar forte e surpreender nos contra-ataques, impulsionados pelos pontas (Zvonimir Boban e Donadoni), além do sérvio Savicevic condicionando as jogadas.

Com a figura de Romário bem anulada por Maldini, a válvula de escape dos blaugranas acabou por ser as boas jogadas de Stoichkov oriundas do lado direito do campo. Contudo, os rossoneros conseguiam criar ofensivas perigosas, deixando claro que o Dream Team não era tão superior como muitos pregaram nas vésperas do duelo.

Jogando de maneira brilhante, Savicevic era responsável pelas melhores iniciativas do Milan, que ditava bem o ritmo da partida e merecidamente conseguiu chegar ao gol. O craque da antiga Iugoslávia desceu pela direita, deixou Nadal no chão e tocou na medida para Daniele Massaro empurrar para as redes. Estava aberto o placar no Estádio Olímpico de Atenas.

Em desvantagem no marcador, o Barça saiu mais para o jogo, porém, os comandados de Fabio Capello seguiam marcando forte e ditando o ritmo do confronto, apesar de que nada estava decidido, mas, as coisas se colocaram de maneira ainda mais favorável aos italianos antes do intervalo. Nos acréscimos da etapa inicial, Donadoni caiu muito bem pela ponta direita, sempre nas costas de Nadal, e tocou para Massaro novamente aparecer, aumentando a vantagem dos rossoneros.

2° tempo: A surpresa se confirma
A metade final serviria para definir a grande surpresa ou a prova de tamanha eficácia do Barcelona comandado por Cruyff. Contudo, logo nos primeiros minutos o destino já desenhava sua escolha.

Pouco mais de dois minutos de jogo no segundo tempo, Nadal volta a dar mole, Savicevic se aproveita e, mesmo sem ângulo, finaliza de maneira espetacular, encobrindo Zubizarretta, confirmando sua tamanha genialidade e ressaltando que os deuses do futebol apontaram para o Milan, visto que tudo dava certo para os italianos, que se desdobravam em campo visando a glória máxima.

Perdido em campo, o Barcelona se rendia a espetacular atuação do rival, que avançava com facilidade e via Savicevic dar show a frente da defesa blaugrana. Ainda haveria mais um tento para aumentar a goleada e tornar a vitória ainda mais brilhante: a defesa catalã deu mole na linha de impedimento, Desalilly se aproveitou, saiu na cara do goleiro e fazia 4 a 0, deixando todos os fãs de futebol pasmos com a fabulosa atuação milanista.

Após o quarto tento, a partida esfriou. Não houveram mais tantas jogadas de efeito e muito menos qualquer lance que pudesse trazer maiores surpresas. Todos pararam e apenas aplaudiam aquela partida do Milan de Capello, atuação considerada por muitos como a melhor na história de uma Liga dos Campeões.

O que todos esperavam, passou longe de acontecer. Impiedosa goleada de 4 a 0 do Milan sobre o Barcelona e a taça da UEFA em San Siro.

Milan: Rossi; Tassotti, Galli, Maldini (Nava) e Panucci; Albertini, Desailly, Boban, Donadoni e Savicevic; Massaro. Técnico: Fabio Capello

Barcelona: Zubizarreta; Ferrer, Koeman, Nadal e Sergi (Estebaranz); Bakero, Guardiola e Amor; Stoichkovc, Romário e Begiristain (Estebaranz). Técnico: Johann Cruyff

Gols: Massaro, aos 22' e 47' do primeiro tempo; Savicevic, aos 2', Desailly, aos 13', do segundo tempo

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Farsa nossa: Marco Osio

Osio era ídolo do Parma quando veio jogar no Palmeiras
em meados da década de 1990, quando a Parmalat reinava
absoluta 
Felipe Portes, @portesovic
De Criciúma-SC
[ATENÇÃO: este post contém informações biográficas inverídicas sobre o atleta em questão]

Natural de Ancona, Marco Osio é o que a torcida do Parma pode chamar de ídolo. Campeão da Taça das Taças UEFA em 1992-93 pelos crociati, o cabeludo que ocupava a meia cancha gialloblù começou sua malfadada trajetória em 1983-84 pelo Torino. Três temporadas medianas fizeram com que a equipe grená negociasse o rapaz com o Empoli, em 1986-87. 

Em época de vacas magras, o Parma viu no meia um bom valor para 1987-88, que disputava a Serie B na ocasião. Lutando pelo acesso, a rapazeada do Ennio Tardini só conseguiu seu objetivo em 1990-91, quando o dinossauro Luca Bucci, o caneleiro Luigi Apolloni e Maurizio Ganz faziam parte do plantel. Na época seguinte, os dirigentes reforçaram consideravelmente o grupo, com as inclusões de Taffarel e Tomas Brolin. O investimento (e a entrada da Parmalat como patrocinadora master) impulsionou a equipe, que nos anos seguintes da década de 1990 figuraria entre as principais e mais simpáticas agremiações vindas da Itália. 

Vencedores da Taça das Taças UEFA em 1993, os nobres crociati deram início a anos dourados para o clube, que venceu duas vezes a Copa UEFA (1994-95 e 1998-99). Para Osio, que a cada ano perdia espaço entre os titulares, o crescimento parecia prejudicial. Voltou ao Torino em 1993-94 e por lá ficou quase dois anos, antes de receber um convite do novo parceiro da famosa leiteria: o Palmeiras. E é aí que a história fica interessante.

[Versão alternativa e não oficial]

Repare no cidadão de barba e chuteira verde na foto, ao lado de Júnior e
Djalminha: este é Osio, o célebre italiano que passou pelo Palmeiras em 1995
Foto: R7 (vem, Guardiola, vem pro Timão)
O Palmeiras vivia uma grande época. Bicampeão brasileiro em 1993 e 1994, o alviverde paulista agora buscava a glória internacional, com o título da Copa Libertadores. Foi em 1995 que alguém teve a ideia de contratar Osio, velha aposta do Parma, que por acaso também era patrocinado pela Parmalat, empresa que permitiu ao Verdão ser temido uma vez mais pelos adversários. O dinheiro dos italianos financiava a chegada de grandes craques e com eles a promessa de novos títulos. Neste intervalo, a alta cúpula da empresa arquitetou um plano maligno para a inclusão do mais ilustre filho de Ancona nas veias do Palestra.

A chegada do estrangeiro causou estranheza aos torcedores do Palmeiras, que desconheciam o talento e a finesse do cabeludo. Marco fez apenas vinte jogos em dois anos de Parque Antártica e certamente não deixou boa impressão, mas poucos sabiam a verdadeira missão dele pelos lados da Barra Funda. O italiano revelou aos colegas um plano de iniciar uma peruqueria em São Paulo.

Evidente que Osio levou em conta a magnitude que a metrópole tem no quesito moda, e iniciar o seu ramo num momento de crescimento de sua fortuna e claro, da equipe que o abrigou (termo ideal para definir a passagem do rapaz pelo Palestra Itália). O que ninguém sabia é que desde os tempos de juvenil, Marco usava peruca para disfarçar a sua calvície. Vaidoso, constantemente era visto usando roupas de marca e impecável, se comparado aos companheiros de plantel. Logo deu toques ao professor Wanderley, que começou seu costume de vestir ternos e smokings justamente nesta época.

Marco em sua recente passagem como treinador do Ancona
(Foto: Quelliche)
Marco escolheu a Vila Olímpia para ser o bairro sede de sua peruqueria, que por sua vez levaria o nome de Tutti Capelli (em tradução livre, todos os cabelos). O novo empreendimento chamou a atenção de vários boleiros que se ligavam no seu visual. Gonçalves, Paulinho Criciúma e especialmente o astro colombiano Carlos Valderrama. Tendo uma vasta e célebre clientela, a Tutti Capelli prosperou e virou referência no ramo. Exemplos mais recentes como Ozéas, Denis Marques e o importado Patrick Owomoyela são figuras constantes na loja fundada pelo meia. Ou você pensa que aqueles penteados são naturais?






quarta-feira, 2 de maio de 2012

Fomos campeões: Athletic Bilbao 1983-84


Victor Ferreira, @v_maedhros
De Bilbao-ESP

Um título épico, disputado ponto a ponto, com direito a sofrimento até os últimos segundos. Esse foi o trajeto do Athletic Bilbao da temporada 1983/84. Um Athletic que venceu os prognósticos de início de temporada. Jornais espanhóis davam como impossível o clube bizkaino ganhar novamente a Liga. Pois bem, a esquadra de Javier Clemente foi capaz.

O campeonato viria a ser disputado entre Athletic, Real Madrid de Emilio Butragueño e o Barcelona de Don Diego Maradona. Porém quem largou na frente no campeonato foi o Atlético Madrid. O primeiro grande jogo, e cheio de polêmica, foi a dura derrota do então campeão frente ao Barcelona, da dura entrada de Andoni Goikoetxea sobre Maradona, que saiu de campo com o tornozelo quebrado. Na oportunidade o jogador recebeu apenas o cartão amarelo, porém o Comitê acabou por sentenciá-lo a 18 jogos de suspensão (que com apelos foi diminuído para 7 partidas). 

Essa derrota desestabilizou a equipe rojiblanca, que perdeu frente ao Sevilla. O Real Madrid, que começara a Liga de maneira confusa perdendo de 6-2 para o Málaga, se recuperou frente ao Barcelona em pleno Camp Nou e dando ânimo para o Derby Madrileño, que foi vencido pelo Real por 5-0. Durou pouco, na rodada seguinte perdeu de 4-1 para o Sevilla no Sanchez-Pizjuán.

O primeiro turno acabou com o Real Madrid a frente do Athletic, em segundo, Barcelona e Zaragoza. No entanto, o segundo turno começaria com um Athletic arrasador. Tomaram a frente do conjunto madridista com 4 vitórias seguidas por 1-0, roubando-lhes a ponta.

Na 21ª rodada, o Athletic se viu surpreendido novamente pelo Barcelona, perdendo a primeira posição e dando chances de título ao Barcelona e o Atlético de Madrid. Essa liderança merengue durou até o jogaço em San Mamés. Os merengues saíram na frente na Catedral de San Mamés com gol de Stielike, porém os leões conseguiram remontar, com gol de Andoni Goikoetxea e Dani no finalzinho. 2-1 e a liderança voltou para Bizkaia. A disputa seguiria acirrada até a última rodada. Athletic decidiria o título frente seus rivais da Real Sociedad e o Real Madrid frente o Espanyol. Segue então os relatos, quase em tempo real da rodada.

Aos 18' do primeiro tempo, San Mamés rugiu em festa: Gol do zagueiro Licenrazu. O resultado daria o título ao Athletic. Em um momento inesperado, Orejuella do Espanyol abriu o placar contra o Real Madrid no Sarriá. Espanyol 1-0 Real Madrid. A torcida do Athletic já comemorava o título, até os 23' do segundo tempo, quando Uralde empatou em San Mamés para a Real Sociedad.

O resultado dava o título ao Barcelona. Porém dois minutos depois, a alegria culé acabou. Pênalti para o Real Madrid, cobrado por Butragueño. Gol, Espanyol 1-1 Real Madrid. Essa combinação de resultados fazia os merengues serem campeões. Aos 34' do segundo tempo, o momento histórico: Licenrazu, ele de novo, de cabeça, balança as redes dos txuri-urdin da Sociedad. O tento número 3.000 do clube bizkaino na Liga, e ao que indicava, o que representaria o título. Athletic 2-1 Real Sociedad. Nem o gol de Butragueño, novamente de pênalti no Sarriá adiantou. O Athletic se sagra campeão em cima do Real Madrid, por meio do saldo de gols, quesito de desempate.

Alirón, Alirón. El Athletic campeón. 

Athletic: 34 jogos, 20 vitórias, 9 empates, 5 derrotas. 53 gols pró, 30 sofridos. Saldo 23. 49 pontos.
Real Madrid: 34 jogos, 22 vitórias, 5 empates, 7 derrotas. 59 gols pró, 37 contra. Saldo 22. 49 pontos.

O último título dos Leões havia de ser assim. Com muita batalha, raça até o último segundo. E a Gabarra partiu. Toda Bilbao passou. Um momento que jamais será esquecido por esse clube que se apega às tradições e diz "Se é pra ganhar, que ganhemos do nosso jeito."

Athletic: Zubizarreta; Urkiaga, Licenrazu, Goikoetxea, de la Fuente; De Andrés, Sola, Urtubi, Dani; Noriega, Argote. Técnico: Javier Clemente