sábado, 30 de junho de 2012

Fomos campeões: Alemanha 1996

Foto: View Images
Felipe Portesovic, @portesovic
De Smederevo-SRB

O velho ditado que o futebol é jogado com onze atletas, uma bola, um juiz, dois bandeirinhas e a Alemanha vence no final não poderia ser mais verdadeiro durante a Eurocopa de 1996, na Inglaterra. Somando o seu terceiro título europeu, a Nationalelf derrubou a República Tcheca, novamente surpreendendo a todos e indo longe.

Agora com 16 competidores, a Euro invadiu o território inglês e se mostrou ser uma das mais emocionantes que os fãs do futebol já viram. Composto por quatro grupos de quatro times, o certame viu a Alemanha ser cabeça de chave no C, disputando uma das vagas com os tchecos, a Itália e a Rússia.

Pragmática, a formação ensaiada por Berti Vogts estreou no torneio jogando contra a República Tcheca, no Old Trafford em Manchester. Uma vitória por 2-0 com gols de Christian Ziege e Andreas Möller, com meia hora do primeiro tempo. Parecia que os eslavos não seriam grandes adversários no futuro. Só parecia. Chamou atenção o número de cartões amarelos distribuídos pelo sr. David Elleray: 10 (seis para os germânicos e quatro para os tchecos).

A mamata seguiu e na segunda jornada, uma fraca Rússia alinhava do outro lado, já tendo em conta uma derrota para a Itália. Jürgen Klinsmann brilhou e fez dois (o segundo, uma pintura) para demolir os soviéticos. Matthias Sammer completou o atropelamento. 3-0, vaga garantida nas quartas de final.

Köpke pega pênalti italiano e segura o empate em 0-0 (Foto: UEFA)
Os rivais italianos encerrariam a participação tedesca na fase de grupos. Precisando da vitória para avançar, a Squadra Azzurra terminou a rodada com saldo idêntico ao dos eslavos, mas no confronto direto uma derrota por 2-1 estava minando as chances de prosseguir. Com a expulsão de Thomas Strunz aos 59, a Itália teve nos pés de Roberto Donadoni a oportunidade ideal. Todavia, Andreas Köpke estragou as ambições de Arrigo Sacchi e seus pupilos, garantindo a igualdade. Itália fora.

Grandes duelos marcaram as quartas de final da Euro 96. França x Holanda, Espanha x Inglaterra, República Tcheca x Portugal e por último, Alemanha x Croácia. A tarefa germânica foi das mais ingratas, ao bater os axadrezados. Vivendo seus melhores tempos, os ex-iugoslavos faziam valer da grande fase de Davor Suker para tentar a sorte grande frente os alemães. Klinsmann inaugurou a contagem aos 20, de pênalti e os croatas não abaixaram a guarda. Sem nada a perder, encararam de igual pra igual os tricampeões mundiais e buscaram a igualdade. 

Suker empatou aos 51 e manteve viva a esperança. Cinco minutos depois, Igor Stimac estragou tudo e foi expulso, abrindo espaço para o perigosíssimo ataque formado por Klinsmann e Dieter Eilts. O equívoco bastou para Sammer colocar a Nationalelf na frente outra vez, de forma definitiva. 2-1, e rumo às semifinais.

Foto: BBC.co.uk
Drama para os donos da casa
A geração de Alan Shearer, monstro inglês, foi a das mais cobradas e menos sucedidas. Jogando no Wembley, palco da histórica final da Copa de 66, trinta anos antes, o English Team chegava com moral e um bom plantel. Logo com três minutos, o gênio Shearer abriu a contagem. 

Tomando conta do cotejo, os ingleses, trajando um curioso uniforme cinza, tentaram de n formas garantir o triunfo, mas não esperavam a aparição de Stefan Kuntz para empatar aos 26. Até o apito final aconteceu de tudo. Voleio na trave, pressão em cima da defesa tedesca, Teddy Sheringham perdendo gol crucial e claro, nada de novos gols. 

Persistindo a igualdade na prorrogação, foram necessários os temidos penais para que o primeiro finalista fosse revelado. Gary Southgate errou o alvo e foi o bode expiatório de mais uma queda da Inglaterra, que desde 1868 perde disputas de pênalti, mundo afora.
Foto: Abendblatt.de
Bierhoff, o testa de ouro
Renovados depois da derrota na primeira fase, Pavel Nedved, Karel Poborsky e Patrik Berger acharam uma forma convincente e vistosa de jogar futebol, indo longe no certame. Contudo, para tentar o bicampeonato para os tchecos, a Alemanha estava outra vez no caminho. Derrotada quatro anos antes pela surpreendente Dinamarca, Vogts e seus comandados não queriam titubear novamente com o caneco. 

Ousados, os eslavos peitaram os oponentes e traziam perigo nas descidas. Sammer cometeu seu primeiro erro grosseiro e derrubou Poborsky, que vinha embalado e livre na direita. Pênalti para os tchecos, que Berger converteu. 1-0. 76 passou na cabeça dos germânicos. Até os 69 minutos o resultado ainda era favorável aos eslavos, que já viam a taça se aproximar. Mehmet Scholl deu lugar a Oliver Bierhoff, matador do Milan. 

Quatro minutos em campo bastaram ao camisa 20, que se antecipou aos marcadores e testou forte para empatar a peleja. Cercado de tensão e ansiedade, o duelo foi para o tempo extra, onde a nova e controversa regra do gol de ouro seria um critério de desempate. Eram jogados redondos cinco minutos quando o mesmo Bierhoff girou dentro da área e chutou meio sem jeito. A pelota foi nas mãos do desafortunado Petr Kouba, que soltou para trás e frangou, decretando numa grande infelicidade o terceiro título alemão na Eurocopa.

Foto: UEFA
República Tcheca: Kouba, Suchoparek, Kadlec, Nemec, Nedved, Bejbl, Kuka, Berger, Poborsky (Smicer), Hornak e Rada. Téc: Dusan Uhrin

Alemanha: Köpke, Helmer, Ziege, Babbel, Sammer, Schöll (Bierhoff), Hässler, Strunz, Eilts (Bode), Klinsmann. Téc: Berti Vogts

Campanha: Seis jogos, quatro vitórias, dois empates. 10 gols marcados, três sofridos.

Jogos
Fase de grupos
Alemanha 2-0 República Tcheca
Rússia 0-3 Alemanha
Itália 0-0 Alemanha

Quartas de final
Alemanha 2-1 Croácia

Semifinal
Inglaterra 1-1 Alemanha (5-6 nos pênaltis)

Final - 30 de junho de 1996, Londres - Wembley
República Tcheca 1-2 Alemanha (Gol de ouro)


sexta-feira, 29 de junho de 2012

Fomos campeões: Dinamarca 1992

Foto: Fiebre bardanca
Felipe Portes, @portesovic
De Estocolmo-SUE

O roteiro da Eurocopa 1992 é talvez um dos mais inusitados de toda a história. Sediado na Suécia, com o mesmo formato das duas edições anteriores (dois grupos de quatro, classificam-se os dois primeiros para as semifinais), o torneio reservou uma grande surpresa para os amantes do futebol. 

Azar dos que esperavam uma Alemanha tão consistente quanto a que venceu a Copa de 1990 em cima da Argentina, aos que apostaram na Holanda e especialmente a grande parcela que duvidou da Dinamarca, que entrou de última hora na competição, substituindo a Iugoslávia, banida por crimes de guerra e conflitos civis contra a Croácia/Bósnia.

Integrando o grupo 1, Suécia, França, Dinamarca e Inglaterra duelavam pelas duas primeiras colocações sem que houvesse um amplo favorito na ocasião. Os ingleses poderiam até ter largado na frente, ao manter a base da formação semifinalista no Mundial de 1990, os suecos por demonstrar consistência e certa dose de talento. Todos os prognósticos foram derrubados rodada a rodada.

John Jensen desarma David Platt num empate duríssimo em Malmö (UEFA)
Segurando um empate em 0-0 na estreia contra o English Team, o esquete danês mostrou grande força defensiva com o paredão Peter Schmeichel, os beques Kent Nielsen e Lars Olsen, o volante/líbero Kim Christofte, sem falar na organização nos contragolpes, arquitetados por Fleming Povlsen e Brian Laudrup , concluídos por Kim Vilfort. (Michael Laudrup ficou de fora por divergências com o treinador Richard Moller-Nielsen). Com um jeitão dinâmico e focado na defesa, a ex-Dinamáquina seguiu sem alarde para a segunda jornada.

A opção pela defesa quase custou caro, desta vez contra os donos da casa. Em Solna, no lendário Rasunda, nascia uma estrela (que não brilharia por muito mais tempo adiante) sueca. Tomas Brolin, então no Parma, exibia grande fase e acertou um chutaço para vencer Schmeichel. 1-0 Suécia e as coisas haviam dificultado consideravelmente para Moller-Nielsen.

Encerrando a participação na fase de grupos, o adversário final seria a França de Eric Cantona, que empatou seus dois jogos e também precisava da vitória se quisesse continuar na luta. Enfraquecida, a seleção treinada por Michel Platini, responsável pelo título de oito anos antes, trazia um jovem Laurent Blanc, o determinado Didier Deschamps, o consagrado Luis Fernandez (no banco), a joia Jean-Pierre Papin além do problemático Cantona. O encontro foi rapidamente controlado pelos daneses, com gol de Henrik Larsen aos oito minutos.

Assustada, a França teve de se lançar ao ataque e tendo em vista a iminência da desclassificação, se enervou. Aos 60, Papin empatou e injetou motivação nos companheiros. Com contornos dramáticos, o confronto permaneceu com o placar de 1-1 até que Lars Elstrup, que entrou na vaga de Torben Frank minutos antes, recebeu assistência de Povlsen para desempatar e classificar a Dinamarca. 2-1.

Christofte marca o penal decisivo e elimina a Holanda (UEFA)
Grandes desafios, enorme superação
Agora não havia mais espaço para empates. A Dinamarca não poderia mais contar com a sorte se quisesse vencer os grandes e erguer a taça. Durante a semifinal contra a Holanda, contudo, o espírito do grupo foi maior do que a disparidade técnica entre os elencos. Repetindo a dose da vitória diante da França, Henrik Larsen marcou aos cinco minutos e despertou os laranjas, que demoraram a entrar no jogo. 

Dennis Bergkamp, atacante e promessa do Ajax, tratou de dar números iguais na semifinal, com 23 minutos jogados no primeiro tempo. A missão dinamarquesa era ingrata: conseguir marcar outra vez e segurar o ímpeto ofensivo dos comandados de Rinus Michels, então campeões da edição anterior. 10 minutos se passaram desde o gol de Bergkamp, até que Larsen duplicou seu feito e colocou os escandinavos na frente.

Dramático e dominado pela seleção dos Países baixos, a peleja seguiu em desvantagem para a Oranje, que graças a Frank Rijkaard, faltando quatro minutos para o fim, decretou o 2-2 e provocou a prorrogação. Nos trinta minutos que foi acionado, Schmeichel protegeu a sua meta de forma heróica, bloqueando todas as tentativas por parte de Marco Van Basten, Bergkamp e Bryan Roy. Nas penalidades, o goleiro ainda pegou um pênalti pelos pés de Van Basten. Restou a Christofte converter o último tiro e colocar os daneses em sua primeira final na história.

Foto: UEFA
Mandante na finalíssima realizada no Ullevi, em Goteburgo, a destemida Dinamarca se preparava para enfrentar a Alemanha, que derrotou a Suécia num elétrico 3-2 pela outra semifinal. Levando em conta o aproveitamento germânico em decisões, o professor Moller-Nielsen usou todos os agentes motivacionais possíveis para convencer os seus pupilos de que era sim possível obter êxito naquela memorável noite de 26 de julho de 1992.

Numa descida de Povlsen, Jürgen Köhler desarmou sem falta o meia e partiu para afastar a bola de qualquer perigo. O que ele não esperava era a chegada de Vilfort, que roubou sorrateiramente a posse de Andreas Brehme para carregar até a linha de fundo. O passe para trás encontrou Jensen, que acertou um petardo no alto de Bodo Illgner. 1-0. 

Schmeichel então passou a se comportar como um robô debaixo das traves dinamarquesas. Em tentativas de Stefan Effenberg, Jürgen Klinsmann, Matthias Sammer, o guarda metas defendeu até pensamento. A pressão germânica persistiu sem resultado e de tanto desperdiçar as chances, Vilfort fechou a conta se desvencilhando de dois marcadores e arrematando, quando a bola beijou a trave e venceu Illgner novamente. Os azarões venciam, tiravam a sorte grande. E provaram que mais uma vez, os mais fracos também tem chance. Inexplicavelmente, uma imensa parcela de pessoas não entende ou parece não apreciar um esporte que permite esse tipo de surpresa...

Laudrup com a taça Henry Delaunay
(Foto: Yotufutbol)
Dinamarca: Schmeichel, Sivebaek (Christiansen), Nielsen, Olsen, Christofte, Jensen, Povlsen, Brian Laudrup, Piechnik, Larsen e Vilfort. Téc: Moller-Nielsen

Alemanha: Illgner, Reuter, Brehme, Köhler, Buchwald, Hässler, Riedle, Helmer, Sammer (Doll), Effenberg (Thom) e Klinsmann. Téc: Berti Vogts

Campanha: Cinco jogos, duas vitórias, dois empates e uma derrota. Seis gols marcados, quatro sofridos.

Jogos
Fase de grupos
Dinamarca 0-0 Inglaterra
Suécia 1-0 Dinamarca
Dinamarca 2-1 França

Semifinal
Dinamarca 2-2 Holanda (5-4 nos pênaltis)

Final - 26 de julho de 1992, Goteburgo - Ullevi
Dinamarca 2-0 Alemanha


Fomos campeões: Holanda 1988

Foto: Futebol de camisas
Felipe Portes, @portesovic
De Berthierville-CAN 

Astros na década de 1970, os holandeses ganharam prestígio com a hegemonia europeia do Ajax de Johann Cruyff, vencendo três edições da Copa dos Campeões. Anos depois do auge de seus atletas, finalmente a Oranje atingiu o ponto máximo na Euro 1988, disputada na Alemanha. 

A base do elenco laranja era formada por quatro talentos inquestionáveis: Ronald Koeman, líbero/volante do PSV, Frank Rijkaard, o genial Ruud Gullit e o letal Marco Van Basten, sendo os três últimos do Milan. Sob o comando do saudoso Rinus Michels, uma vez mais o técnico conseguiu utilizar as suas táticas, famosas e reconhecidas mundialmente em forma daquela Laranja mecânica de Cruyff.

Mais decisivo e com a bagagem de duas finais de Copa perdidas, Michels soube adaptar cada peça no estilo de jogo e tirou o máximo do trio milanista para alçar um vôo mais alto na Alemanha. Tudo bem que na estreia as coisas não saíram como planejado, mas aquela Holanda soube recuperar o seu foco.

O debut no Grupo B foi contra a URSS de Rinat Dasayev, lenda debaixo das traves, que atravessava fase espetacular pela sua seleção e no Spartak Moscou. Com uma vitória simples, os soviéticos venceram com gol de Vasiliy Rats, preocupando a torcida laranja. Van Basten teve sua chance apenas em meados da segunda etapa, entrando na vaga de Gerald Vanenburg. Marco brilharia mesmo no segundo compromisso, contra a Inglaterra.

Marco e a centroavância moleque, de arte, chuto y me voy (abs, @achrispin)
Foto: UEFA
Em Dusseldorf, o Rheinstadion recebeu Inglaterra e Holanda para a segunda jornada e sediou um momento crucial naquela Euro. Peter Shilton, Tony Adams, Glenn Hoddle, John Barnes e Gary Lineker muito provavelmente ficaram se perguntando o que diabos aconteceu na tarde de 15 de junho. Todo o primeiro tempo transcorreu normalmente para o English Team, apesar da pressão laranja. 

Na penúltima volta dos ponteiros, aos 44, Van Basten fez o primeiro. Bryan Robson ainda empatou aos 53, mas o camisa 12 adversário ainda estava disposto a fazer mais estrago. Sedento por balançar as redes, o centroavante também marcou aos 71 e aos 75, eliminando os britânicos, que já haviam sido derrotados pela Irlanda. 3-0 e um amargo adeus para o lendário Bobby Robson, duramente criticado na imprensa ingkesa.

Afim de carimbar seu passaporte para as semifinais, os holandeses enfrentariam a força e a cadência dos irlandeses, em Gelsenkirschen, no já extinto Parkstadion, casa do Schalke. Com muito custo e graças a Wim Kieft, vitória por 1-0 sobre o esquete treinado por Jack Charlton. Pela outra chave, Alemanha Ocidental e Itália se classificaram. 

Jürgen Köhler, castigado pelo talento de Van Basten (Foto: UEFA)
Hora do troco
Relembrando 1974, a Oranje entrou em campo determinada a despachar a rival Alemanha. Em Hamburgo, os donos da casa encontraram um duro oponente em busca de mais uma participação na final. Equilibrado, o embate permaneceu em igualdade durante todo o primeiro tempo. Na volta do intervalo, quem marcou primeiro foram os germânicos, com o onipresente Lothar Matthäus, de pênalti, aos 55. 

Inconformada em estar atrás no placar e na iminência de perder mais um duelo para os tedescos, os onze laranjas ergueram a cabeça e reagiram. Novo pênalti, desta vez de Köhler em Van Basten, permitiu a Koeman ficar cara-a-cara com Eike Immel. Sem titubear, 1-1 e mais quinze minutos até o apito final.

Mais ofensiva do que nunca, a Laranja mecânica versão 2.0 de Michels foi à frente. Jan Wouters arriscou de longe e quase pegou Immel desprevenido. Minutos depois, o mesmo Wouters teve espaço e calma para lançar Van Basten, que deslizou para tocar de leve na bola e tirar Kohler e o arqueiro germânico do lance. 2-1, com 88 jogados. Só poderia ser a vitória. Quando o árbitro romeno Ioan Igna encerrou a partida, a euforia tomou conta da torcida visitante. Credenciada a disputar mais uma decisão, a Holanda sabia que não poderia mais deixar escapar o troféu, e agora o inimigo era o mesmo que os fez de vítima na primeira fase: a URSS.

Foto: AIC
Era hora de encontrar velhos fantasmas. Aqueles que assombravam pelas anteriores derrotas em finais e claro, o dos soviéticos que triunfaram por 1-0 lá na estreia do torneio. Para o capitão Gullit e seus colegas, a concentração era primordial na execução da vingança, que daria o tão esperado troféu Henry Delaunay aos herdeiros do futebol total.

Agressivos, os vermelhos abusaram das faltas na primeira etapa. Vagiz Khidiyatullin, Anatoliy Demianenko e Gennadiy Lytovchenko receberam cartões amarelos por entradas mais ríspidas nos holandeses. Aos 32, Erwin Koeman mandou um belo cruzamento para Van Basten, que tocou de cabeça para o meio da área, onde Gullit estava livre de marcação para fuzilar Dasayev. 

Tomando conta do ritmo determinando as ações, a Oranje seguiu com paciência o caminho até o segundo gol. Arnold Mühren dominou pela esquerda e enxergou boas condições para uma inversão. Com extrema felicidade, encontrou Van Basten para aquele que seria o seu gol mais célebre: pegou de primeira da ponta direita e encobriu Dasayev para sacramentar a conquista. 14 anos depois de perder sua primeira Copa, a Holanda entrava no seleto grupo de campeões europeus com uma geração tão brilhante quanto a que lhe tornou famosa na década de 1970.

Foto: UEFA
URSS: Dasayev, Khidiyatullin, Demianenko, Rats, Aleinikov, Lytovchenko, Zavarov, Protasov (Pasulko), Belanov, Mykhailychenko e Gotsmanov (Baltacha). Téc: Valeriy Lobanovskiy

Holanda: van Breukelen, van Tiggelen, Ronald Koeman, van Aerle, Vanenburg, Mühren, Gullit, Erwin Koeman, Rijkaard, Wouters e Van Basten. Téc: Rinus Michels

Campanha: Cinco jogos, quatro vitórias e uma derrota. Oito gols marcados, três sofridos.

Jogos
Fase de grupos
URSS 1-0 Holanda
Inglaterra 1-3 Holanda
Holanda 1-0 Irlanda

Semifinal
Alemanha 1-2 Holanda

Final - 25 de junho de 1988, Munique - Olympiastadion
URSS 0-2 Holanda


quinta-feira, 28 de junho de 2012

Fomos campeões: França 1984


Foto: L'Equipe
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

Tipicamente conhecida pelo seu hábito de vencer competições em casa (Eurocopa em 1984 e Copa de 1998), a França montou o primeiro de seus lendários esquadrões com Michel Platini, Jean Tigana, Maxime Bossis, Alain Giresse, Luis Fernandez e Bernard Lacombe. Sabendo da necessidade de se impor, Les Bleus  iniciaram a campanha contra a Dinamarca.

Era uma formação com a cara do futebol local. Estilo cadenciado, progressão lenta e fortíssima no contragolpe. O controle que a França exercia sobre os adversários foi algo notável durante a edição de 84 da Euro. 

Diante de um rival focado em permanecer na defensiva, les bleus passaram maus bocados para vazar a retaguarda danesa, comandada por Morten Olsen. A geração escandinava estava em transição. Outrora liderados pelo gênio Allan Simonsen, os torcedores viam em Michael Laudrup, Preben Elkjaer e Frank Arnesen uma esperança de dias melhores para uma seleção que nunca foi lá muito forte. 

Demolidora em fases anteriores, a dona da casa teve de se contentar com um mero 1-0, gol de Platini aos 78. Por pouco ou não, os dois pontos seriam importantes para a classificação e contra um dos oponentes mais difíceis da chave, o jeito era comemorar. 

Platini destroçou a Bélgica, finalista quatro anos antes (UEFA)
Toda a frustração pelo placar murcho da estreia foi dizimada no segundo compromisso francês pelo certame. A Bélgica, com grande parte do elenco derrotado na final de 80, reforçada por Enzo Scifo, Nico Claesen e René Verheyen. Mesmo demonstrando mais maturidade, os belgas foram vítimas de um atropelamento em La Beaujoire, Nantes. Com nova exibição impecável por parte de Platini, Jean Marie Pfaff foi obrigado a buscar a bola no fundo das redes em cinco oportunidades. Três delas em chutes do inspirado camisa 10 da Juventus. Fernandez e Giresse fecharam a conta e decretaram a classificação.

Novamente alterado, o regulamento consistia em semifinais envolvendo os dois vencedores de cada uma das chaves. A Dinamarca, no afã de remar para se recuperar da derrota inaugural, também fez 5-0 na Iugoslávia. Klaus Berggreen, Arnesen (duas vezes), Elkjaer e Jan Lauridsen foram os responsáveis pelo naufrágio dos eslavos, que contavam com nada mais nada menos que Srecko Katanec, astro da Sampdoria, que à época jogava pelo Olimpija Ljubljana. Dragan Stojkovic, ainda em início de carreira. 

Para o encerramento da fase de grupos, a França enfrentaria a já eliminada Iugoslávia para engordar o seu saldo e calibrar a pontaria para as semifinais. Com um pouco mais de dificuldade e sem alguns titulares, coube a Platini mais uma vez brilhar como a estrela maior da companhia. Mais três gols, barba, cabelo e bigode. Stojkovic e Milos Sestic diminuíram e encerraram menos envergonhados a sua participação. 3-2,  restando apenas dois jogos para o título

Platini, sempre ele, classificou Les Bleus para a final Foto: UEFA
Pela outra chave, Espanha e Portugal avançavam e deixavam a Alemanha Ocidental eSi Romênia pelo caminho. Os confrontos das semifinais envolveriam lusos e franceses, espanhóis e dinamarqueses. No Vélodrome, em Marseille, o duelo foi elétrico entre os homens de bigode e o pessoal do petit-gateau. Dominante, a dona da casa tratou de se lançar ao ataque para intimidar os portugueses. Com 24 minutos, Jean-François Domergue abriu o placar numa cobrança de falta quase supersônica no alto da meta de Bento. 

Rui Jordão foi o destaque lusitano na partida. Seu brilho apareceu pela primeira vez aos 74, em cruzamento de Fernando Chalana. O atacante do Sporting tocou de cabeça e venceu Joël Bats para empatar o duelo. O equilíbrio fez com que o placar persistisse até a prorrogação, onde grandes emoções estavam reservadas. Passados 98 minutos, oito da primeira etapa do tempo extra, novamente Jordão ferveu a caçarola francesa. Chalana achou o companheiro livre e cruzou da direita. Rui pegou de primeira e acertou o ângulo, numa pintura de gol. 2-1. 

Domergue não entregou os pontos e em lance chorado, empatou outra vez a peleja, completando ofensiva de Tigana e em brilhante proteção do arqueiro Bento. 2-2. Tigana, endiabrado, desceu sozinho pela direita e passou bola rasteira para alguém que já havia feito chover: Platini. Entre o goleiro rival e três zagueiros, o capitão francês acertou um pequeno espaço livre para sacramentar a vitória dos mandantes. 3-2 e fim de papo.

Camacho tenta desarmar Giresse na final (Foto: UEFA)
Arconada e o frango
Não foi tudo tão fácil na final contra a Espanha, que bateu a Dinamarca na outra semifinal. 20 anos após sua primeira conquista, os ibéricos queriam o bicampeonato fora de casa. Seguros e favoritos, Les bleus partiram destemidos para o embate final daquela Eurocopa. Devidamente ocupados os assentos e arquibancadas do Parc des Princes, a imponente dona da casa contava com todo o apoio da torcida local para seu primeiro título internacional.

45 minutos levando pressão da Fúria bastaram para que a conversa no vestiário azul fosse mais séria. Platini ainda não havia se apresentado para o confronto, colocando em xeque a real importância de seus oito tentos anteriores. 12 minutos depois, o maestro teve a oportunidade numa falta próxima à área espanhola. Batendo rasteiro e no canto do guarda metas Luis Arconada, contou com a eventualidade de um frangaço. A bola resvalou no peito do goleiro, escapou dos braços e bateu na trave antes de entrar. Primeiro passo concluído.

Quando todos imaginavam que a despedida daquela edição seria um magro 1-0 graças a Arconada, Bruno Bellone disparou na esquerda e assim que invadiu a área roja tocou com finesse para encobrir o malfadado guarda redes hispânico. Já adentrando os acréscimos, a festa francesa era garantida em Paris. Com contribuição bombástica de seu camisa 10, finalmente a taça Henry Delaunay ficou em casa. 14 anos depois da conquista, outro camisa 10 carregaria a bandeira de sua nação no topo do futebol mundial. Mas essa é outra história. Em 1984, Platini foi a Eurocopa, e a Eurocopa foi Platini.

Foto: UEFA
França: Bats, Battiston (Amoros), Bossis, Le Roux, Domergue, Tigana, Platini, Fernandez, Giresse, Lacombe (Genghini) e Bellone. Téc: Michel Hidalgo

Espanha: Arconada, Urquiaga, Salva, Gallego, Camacho, Alberto, Señor, Muñoz, López, Santillana e Carrasco. Téc: Miguel Muñoz Mozún

Campanha: Cinco jogos, cinco vitórias. 14 gols marcados, quatro sofridos.

Jogos: 
Fase de grupos
França 1-0 Dinamarca
França 5-0 Bélgica
França 3-2 Iugoslávia

Semifinal
França 3-2 Portugal

Final - 27 de junho de 1984, Paris - Parc des Princes
França 2-0 Espanha


Fomos campeões: Alemanha Ocidental 1980

Foto: Mirror.co.uk
Felipe Portes, @portesovic
Com colaboração de João Paulo Barreto, @joaopaulo87_

A década de 1980 viu a Alemanha Ocidental se notabilizar como time de chegada, sempre envolvido nas grandes decisões, seja na Eurocopa ou na Copa do Mundo, com destaque para as derrotas de 1982 e 1986. Mas nem tudo foi lamento para os alemães. A conquista veio em nova edição realizada na Itália, agora com formato de dois grupos com quatro equipes.

Classificaram-se para o certame na Velha Bota a Alemanha, Tchecoslováquia, Holanda e Grécia no Grupo A, Itália, Bélgica, Inglaterra e Espanha no B. A caminhada dos germânicos se mostrou tranquila com duas vitórias e um empate (contra a Grécia, por 0-0). Conseguindo a chance de se vingar dos tchecos pela derrota quatro anos antes, a National Mannschaft venceu por 1-0, com gol de Karl-Heinz Rummenigge, aos 57. Importante observar que grande parte do elenco eslavo estava em campo na final de 76 também.

Tal como 2012, a segunda jornada reservou um duelo entre os tedescos e os holandeses, em transição da fase Cruyff e com formação bastante modificada. Capitaneada pelo clássico Ruud Krol, a ex-Laranja mecânica contava com nomes como Huub Stevens (hoje no comando do Schalke), Arie Haan, Johnny Rep, Dick Nanninga (autor de um dos gols na final da Copa de 1978) e os irmãos Rene e Willy van de Kerkhof. 

Executando uma estratégia simples e eficaz, os comandados de Jupp Derwall não abusavam da posse de bola. Os passes rápidos, com objetividade, além da exímia visão do posicionamento adversário, foram valores que facilitaram e muito a trajetória da seleção germânica na competição.

Allofs comemora seu terceiro tento contra a Holanda (Bundesliga fanatic)
Duro adversário para os alemães, os laranjas tiveram de lidar com atuação de gala e hat-trick do possante Klaus Allofs, até então no Fortuna Düsseldorf. A superioridade dos bicampeões do mundo perante a Oranje era avassaladora e apenas nos minutos finais houve um princípio de reação. Rep diminuiu numa penalidade aos 79 e van de Kerkhof (Willy) deu esperança aos 85. Mas era só isso, não seria dessa vez que Krol e sua turma realizariam uma proeza de tal magnitude.

Para encarar a Grécia, já eliminada e atropelada pelos tchecos na rodada anterior, poupou alguns atletas e entrou em piloto automático, administrando empate por 0-0, no Delle Alpi em Turim. O regulamento visava que o primeiro colocado de cada chave estava qualificado para a decisão. A Bélgica de Jan Ceulemans seria a outra finalista.

Disputando a terceira colocação, os donos da casa enfrentavam os então campeões, para ao menos deixar o certame com honra. Lotando o San Paolo, em Nápoles, a Squadra Azzurra penou para empatar com os eslavos por 1-1, após gol de Ladislav Jurkemik. Não fosse por Francesco Graziani, bomber do Torino (e até onde sabemos, sem nenhuma relação com o amigo Fernando Graziani, @fgraziani) a história seria outra. Persistindo a igualdade no tempo normal e prorrogação, foi preciso uma disputa de penalidades. A contagem já estava em 9-8, quando Fulvio Collovati desperdiçou seu chute e sacramentou a derrota.

Ceulemans carrega a bola pela Bélgica (Foto: UEFA.com)
Presença certa em decisões
Como faria durante os anos 80 e início dos 90, a Alemanha participou de três grandes finais consecutivas. A da Euro na Itália era a terceira após a vitória em 72 e a derrota de 76 para a Tchecoslováquia. Anos depois, em 1982, perderia a Copa do Mundo para a Itália, em 1986 para a Argentina e em 1990 finalmente venceria os argentinos, vingando quatro anos antes.

Por sorte, a decisão contra os belgas resultou na segunda taça europeia em menos de 10 anos (sem falar na Copa de 1974). O Olimpico de Roma recebeu os finalistas na noite de 22 de junho de 1980. O selecionado dos Países baixos começava a crescer no âmbito mundial com nomes como Jean Marie Pfaff, Eric Gerets, François Van der Elst, Julien Cools, René Vandereycken e o explosivo Ceulemans. 

A partida foi imediatamente controlada pelos alemães, especialmente por Bernd Schuster, que estava inspirado na meia cancha da Nationalelf. O então atleta do Colônia foi que iniciou a descida do primeiro gol. Controlando a bola no círculo central, Schuster carregou até a intermediária e rolou para Horst Hrubesch, que dominou no peito e fuzilou Pfaff para inaugurar o marcador.

Intrigado, o treinador belga Guy Thys conseguiu fechar o sistema defensivo e dar menos espaço ao talentoso esquete adversário. Esfriando os ânimos, talvez fosse possível buscar uma reação. Ao fim da segunda etapa, num contragolpe venenoso, Van der Elst disparou sozinho pelo meio e ia vencer Harald Schumacher quando Uli Stielike cometeu um pênalti. Vandereycken foi para a bola e empatou a peleja.

No soar do gongo, aos 88, desmontando qualquer esperança de prorrogação, Hrubesch novamente apareceu. A jogada foi originada num escanteio cobrado por Schuster, que percorreu toda a área e achou o atacante do Hamburgo, que testou forte no alto da meta de Pfaff, adiantado. Dois zagueiros ainda estavam em cima da linha para evitar o pior, mas lá estava: 2-1.

Acostumada a grandes decisões, a Alemanha Ocidental traçou seu caminho (inglório) em grande parte das competições importantes que vieram nos anos seguintes. O percentual de conquistas de fato ainda é baixo se comparado ao número de decisões disputadas. Entretanto, nunca se deve subestimar uma camisa que sempre chega longe e mostra um futebol acima de tudo competente, como os germânicos...

Foto: UEFA
Alemanha: Schumacher, Kaltz, Förster, Stielike, Dietz, Schuster, Briegel (Cullmann), Hansi Müller, Rummenigge, Hrubesch e Allofs. Téc: Jupp Derwall

Bélgica: Pfaff, Gerets, Millecamps, Meeuws, Renquin, Van Moer, Vandereycken, Cools, Mommens, Van der Elst e Ceulemans. Téc: Guy Thys

Campanha: Quatro jogos, três vitórias e um empate. Seis gols marcados, três sofridos.

Jogos:
Fase de grupos
Tchecoslováquia 0-1 Alemanha Ocidental
Alemanha Ocidental 3-2 Holanda 
Grécia 0-0 Alemanha Ocidental

Final - 22 de junho de 1980, Roma - Olimpico
Alemanha 2-1 Bélgica

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Fomos campeões: Tchecoslováquia 1976

Foto: Total Pro Sports
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

Nos tempos em que o bigode ainda era um artigo quase que indispensável para os homens europeus, a primeira surpresa de todas as Eurocopas veio com a Tchecoslováquia em 1976. A fase final do torneio , realizada na Iugoslávia, reuniu os donos da casa juntamente com os tchecoslovacos, a Alemanha e a Holanda, duas das maiores sensações no cenário mundial. 

Chaveados os adversários, em 16 de junho daquele ano as semifinais teriam início. Os Tchecos enfrentaram a Holanda no Maksimir, em Zagreb, e suaram para levar a partida para a prorrogação. Detalhe: Anton Ondrus foi o responsável pelo 1-1, marcando pelas duas equipes. A favor, aos 19, e contra aos 73, desviando um cruzamento. Johann Cruyff, Johan Neeskens, Rob Rensenbrink e Johnny Rep bem que tentaram, mas não furaram o bloqueio defensivo.

A partida então foi para a prorrogação, já acumulando três expulsões. Duas do lado holandês (Neeskens e Wim Van Hanegem) e Jaroslav Pollák pelo lado tcheco, mostraram que o nervosismo estava marcando os passos de vários atletas em campo. 

Foi então que no segundo tempo da prorrogação que Zdenek Nehoda e Frantisek Vesely passaram a régua nas pretensões laranjas naquela Euro. Dois anos depois, eles perderiam a sua segunda final de Copa seguida, ganhando o rótulo de "amarelões".

Donos de um estilo aguerrido, técnico e cauteloso, os tchecos tiraram um grande rival na disputa pelo título. Na outra chave, a Alemanha passou por cima da Iugoslávia com certa dificuldade. Depois de ficar dois gols atrás no placar, os germânicos contaram com Heinz Flöhe e Dieter Müller (com um hat-trick) saindo do banco para resolver a peleja.

Antonin Panenka ganhou fama na final contra
a Alemanha, em Belgrado (Foto: Shave your style)
Panenka e a cavadinha
Era hora do lendário meio campo eslavo entrar em cena. Antonín Panenka, Joséf Moder, Marián Masny e Zdenek Nehoda se encarregaram de dificultar a tarefa alemã de levantar o caneco mais uma vez. Os presentes no Marakana (estádio do Estrela Vermelha) mal sabiam que estavam prestes a testemunhar uma travessura contra os tedescos.

Tudo começou a ruir para a Alemanha quando Jan Svehlik completou uma rebatida na área de Sepp Maier. A defesa germânica estava concentrada naquela parte do campo e mesmo assim não evitaram o passe rasteiro de Nehoda para o companheiro, que chutou forte no canto. 1-0.

Sofrendo com a ofensividade tcheca, Franz Beckenbauer e seus colegas de zaga já estavam ficando carecas de preocupação quando Karol Dobias mandou uma bomba com caminho certo: o fundo das redes de Maier. No mesmo panorama das semifinais contra a Iugoslávia, Helmut Schön já estava amassando sua boina no banco de reservas, em busca de uma solução que trouxesse o empate.

O mesmo Müller que havia marcado três no jogo anterior, apareceu bem para diminuir o placar. Com um belo voleio, o atacante deu a esperança necessária aos colegas, que agora buscavam como nunca balançar as redes novamente. Envolta em tensão, a finalíssima seguiu com vitória tcheca até os 89, quando Bernd Hölzenbein subiu de cabeça na área de Ivo Viktor e salvou a pele tedesca.

Ilustração do pênalti histórico cobrado por Panenka
Foto: Four Four Two
Mantida a igualdade durante a prorrogação, as penalidades seriam a forma escolhida para definir quem levantaria o troféu Henry Delaunay. Ampla favorita, a Alemanha tentava seu bicampeonato europeu. Contudo, a noite de 20 de junho de 1976 reservou duas grandes surpresas.

A Tchecoslováquia cobrava primeiro. Masny, Nehoda, Ondrus e Jurkemik converteram, e pelo lado alemão, Bonhof, Flohe e Bongartz também fizeram a sua parte. Era a vez de Hoeness, estrela do Bayern, fazer sua cobrança. Poucos esperavam que o atacante chutasse na lua. Ele mesmo comentou em entrevista, anos depois, que "felizmente já encontraram a bola daquele pênalti".

Encarregado de encerrar a série, Panenka caminhou até fora da área e esperou que Maier não ficasse na linha do gol, mas escolhesse um dos lados. Tomou a distância e correu, diminuindo a passada logo ao chegar na bola e tocando sem força, por cima, balançando as redes e dando o título aos eslavos.

O movimento, conhecido aqui no Brasil como cavadinha, e constantemente usada por Loco Abreu, foi executada inicialmente com o tcheco, justamente numa decisão europeia. 30 anos depois, Zinedine Zidane repetiu a façanha na final da Copa de 2010 contra a Itália. Importante lembrar que o francês ousou ainda mais, acertando o travessão de Gianluigi Buffon. O legado deixado por Panenka, que consiste na taça e na modalidade de chute, até hoje é lembrado pela façanha em Belgrado. 
Tchecos ganham dois prêmios: a taça Henry Delaunay e a camisa dos alemães
derrotados nas penalidades (Foto: UEFA)
Tchecoslováquia: Viktor, Dobias (Vesely), Capkovic, Ondrus, Pivarnik, Gögh, Panenka, Moder, Svehlik (Jukarnik), Masny e Nehoda. Téc: Václav Jezek

Alemanha: Maier, Beckenbauer, Schwarzenbeck, Vogts, Dietz, Wimmer (Flohe), Bonhof, Hoeness, Beer (Bongartz), Dieter Müller e Holzenbein. Téc: Helmut Schön

Campanha: Dois jogos, uma vitória e um empate. Cinco gols marcados, três sofridos.

Jogos:
Semifinal
Tchecoslováquia 3-1 Holanda

Final - 20 de junho de 1976, Belgrado - Marakana (Crvena Zvezda)
Tchecoslováquia 2-2 Alemanha (5-3 nos pênaltis)


terça-feira, 26 de junho de 2012

Fomos campeões: Alemanha Ocidental 1972

Foto: Imortais do futebol
Felipe Portes, @portesovic
De Belgrado-SRB

Dois anos antes de se consagrar bicampeã mundial jogando em casa, a Alemanha Ocidental já roubava a cena do futebol europeu, durante a Eurocopa na Bélgica, em 1972. Com a base da valente seleção que conquistou a terceira colocação no México, em 70, os germânicos superaram a derrota na Copa e partiram com tudo para tentar sua primeira conquista continental.

O mesmo poder de marcação, a mesma técnica, precisão e disciplina estavam delineando as principais estrelas do grupo alemão. A defesa era estupenda, com o lendário Sepp Maier debaixo das traves, Hans-Georg Schwarzenbeck na zaga, Franz Beckenbauer como líbero, Paul Breitner como lateral, Uli Hoeness como meia armador, Günter Netzer como responsável pela ligação entre o meio e o ataque, e na frente, Jupp Heynckes e o célebre Gerd Müller. 

Estreando no certame, assim como os belgas, a National Mannschaft teve como primeiro rival a dona da casa, a sempre carismática Bélgica na primeira semifinal. No Bosuil Stadium, na Antuérpia, a sorte foi lançada. Bem, soa um tanto arrogante dizer que a sorte foi lançada quando todos sabem que o futebol tem onze de cada lado, com uma bola, um juiz, dois bandeirinhas e a Alemanha na final.

Müller faz dois e elimina Bélgica (Foto: UEFA)
Dito isso, era de se esperar que os visitantes aprontassem das suas na abertura do torneio. Não houve muitas chances para Maurice Martens e Paul Van Himst marcarem seu nome na história daquela edição da Euro. A grande atuação foi do letal Müller, que anotou dois (aos 24 e 71'), desmoronando com a esperança local de disputar a final. Não tivesse a vaca belga deitado sem cerimônias após o 2-0, talvez o gol de Odilon Poulleunis teria adiantado de algo. 

Enquanto isso, no Émile Versé, em Bruxelas, Hungria e URSS duelavam para ver quem enfrentaria Beckenbauer e cia ltda. Completamente diferentes do grupo que esteve na Itália quatro anos antes, os soviéticos sofreram para vazar a retranca húngara e Anatoliy Konkov fez o tento único, aos 53, despachando Lajos Kocsis (sem relação com AQUELE Kocsis, Sándor) e seu bando.

Importante lembrar que antes do término do embate, Sándor Zambó cometeu o crime e perdeu uma penalidade, defendida com serenidade pelo sucessor imediato de Lev Yashin, Evgeni Rudakov. Perfeitamente aceitável, já que nenhum outro atleta com nome terminado em bó jamais marcou gols numa Eurocopa. 

Estava definido então que na noite de 18 de junho de 1972, o Heysel, em Bruxelas, (arrepios) receberia a finalíssima. Novamente a URSS tentaria a sorte, sendo a maior concorrente ao título (vencedora em 1960, vice em 1964). O destino mostrou ser cruel com os então comunistas, que fraquejaram perante a sempre forte Alemanha Ocidental. 

Müller inferniza os soviéticos marcando dois novamente (Foto: UEFA)
A marca do goleador
O que poderia sair de um encontro envolvendo os evoluídos germânicos e os enfraquecidos soviéticos? A tarde de Bruxelas tratou de revelar o enredo, repleta de bandeiras alemãs, que tremularam durante toda a partida. Comandados pelo tiozão da boina, Helmut Schön, os tedescos impuseram bom ritmo e controlaram logo de cara o adversário, nitidamente intimidados.

A superioridade causou estrago numa troca de passes que caiu nos pés de Heynckes, que mandou uma bomba. Rudakov voou e espalmou, mas para o seu lamento, Müller estava logo adiante para aproveitar o rebote e abrir os trabalhos. Com Heynckes inspirado, mais uma iniciativa terminava na área da URSS. Coube a Herbert Wimmer, tímido meio campista carimbar. Um chute rasteiro no canto, que ainda resvalou nos braços do guarda metas russo antes de entrar. 2-0, e novamente a vaca deitouvski. 

Percebendo que a defesa rival estava desnorteada, Schön ordenou que os ataques continuassem. A Avenida Vladimir Kaplichny seguia movimentada quando um passe atravessou a extensão da área e alcançou Heynckes. Um passe lateral serviu para acionar Müller, que livre completou e jogou seus braços ao alto, como de costume. Alemanha campeã, para quem quisesse provar da técnica que virou marca registrada da equipe nos anos que se seguiram. 

Franz Blackpower Beckenbauer recebe o caneco das mãos de Gustav Wiederkehr,
então presidente da UEFA (Foto: Süd Deutsche)
Alemanha: Maier, Schwarzenbeck, Beckenbauer, Breitner, Höttges, Wimmer, Hoeness, Netzer, Heynckes, Müller e Kremers. Téc: Helmut Schön

URSS: Rudakov, Dzodzuashvili, Khuartsilava, Kaplichny, Istomin, Kolotov, Troshkin, Konkov, Baidachny, e Onischchenko. Téc: Aleksandr Ponomarev

Campanha: Dois jogos, duas vitórias. Cinco gols marcados, um sofrido.

Jogos:
Semifinal
Bélgica 1-2 Alemanha

Final - 18 de junho de 1972, Bruxelas - Heysel
Alemanha 3-0 URSS


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Fomos campeões: Itália 1968

Foto: Museu virtual do futebol
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

No tempo em que o catenaccio ainda era tendência nas equipes europeias (vide Inter e Milan nos anos 1960), a Itália fez valer o domínio e o talento de uma era de ouro no seu futebol. Liderados pelo eterno capitão Giacinto Facchetti, os rapazes italianos ainda não eram o grupo consistente que disputaria a Copa de 1970, perdendo a final para o Brasil, mas ainda sim, souberam mostrar o seu valor diante de duros oponentes na Eurocopa 1968, disputada em seus domínios.

Pela primeira vez, Itália e Inglaterra participavam da competição, classificados para a fase final. As peculiaridades começaram logo na primeira partida entre os donos da casa e os soviéticos, presença constante e ameaçadora para seus adversários.

Grandes rivais, os homens de vermelho seguraram um empate com a Squadra Azzurra por 0-0. E acredite, a decisão foi para o cara ou coroa. Albert Shesternyov, capitão da URSS, perdeu a disputa e consequentemente a vaga na grande final. Sim, no cara ou coroa...

Inglaterra e Iugoslávia se digladiavam no Artemio Franchi na outra semifinal. O cotejo ficou marcado pela violência e pela expulsão de Alan Mullery. O inglês recebeu uma solada na canela e em certo lance e revidou um um chute na virilha. Recebeu o cartão vermelho e já esperava o pior, mas foi absolvido pelos companheiros e pelo treinador Alf Ramsey. 

"Cheguei ao vestiário e pedi desculpas aos meus colegas. Alf veio a mim com um semblante tranquilo e disse que estava contente que alguém havia retaliado aqueles bastardos", conta o próprio Mullery ao site da BBC. Apesar do ato de coragem e indisciplina, os eslavos venceram por 1-0, gol de Dragan Dzajic.

Foto: Football Archive
Novo empate e replay
A final teve o mesmo contorno de drama da fase anterior. Os italianos tinham todo um Olímpico para apoiar contra os iugoslavos, que oito anos antes ganharam a medalha de ouro nas Olimpíadas de Roma. O equilíbrio entre o futebol de força praticado pelos visitantes e pelo foco nos passes curtos por parte dos italianos refletiu no marcador. 

O mesmo Dzajic, que castigou os ingleses, agora entrava em cena contra a Itália. Aos 39 ele abriu o placar com certa facilidade. Dominou na área, levantou a bola e chutou. Antes de ser derrubado por Zoff, tocou de leve para inaugurar o marcador. 

Não era surpresa que a experiente formação eslava dominasse o talentoso futebol italiano. Por todos os 90 minutos iniciais, a Iugoslávia se colocou no ataque e forçou Zoff a praticar algumas grandes defesas, além dos zagueiros Ernesto Castano e Tarcisio Burgnich. 

Facchetti domina em primeiro jogo da decisão
Foto: O campo dos sonhos
Foi numa besteira de Blagoje Paunovic que a Itália conseguiu o empate. O beque subiu e cotovelou Giovanni Lodetti, volante milanista. Concedida a falta na marca de 22 metros, coube a Angelo Domenghini soltar o pé para deixar tudo igual, aos 80 minutos. O apito final soou como frustração aos italianos, que sentiam ter o poder de reagir. Tudo seria decidido dois dias depois, no mesmo estádio. Naquela edição, o regulamento não previa prorrogação ou penalidades, muito menos cara ou coroa na finalíssima.

Reforçada, a Squadra Azzurra voltou mais forte, com Roberto Rosato, Sandro Mazzola, Giancarlo De Sisti e Luigi Riva. Coube ao genial Riva receber passe e tocar com a perna esquerda para abrir o placar, aos 12 minutos. Para o treinador Ferruccio Valcareggi, a missão era resolver logo a situação, para não passar o mesmo aperto da primeira partida. A formação de 5-2-3 apresentava duas das principais armas daquele plantel: a solidez defensiva e a eficiência de Riva.

Quase vinte minutos depois, Pietro Anastasi levantou o passe de Domenghini e bateu com força. A bola percorreu o caminho com uma velocidade que nem de perto pode ser evitada pelo arqueiro Ilija Pantelic. 2-0, sem chance para mais um milagre por parte dos visitantes. Os fogos no céu de Roma contaram a quem não estava no Olímpico que a Itália era novamente campeã. 

Foto: Varienews.blogspot.com
Itália: Zoff, Burgnich, Rosato, Guarneri, Salvadore, Facchetti, De Sisti, Mazzola, Anastasi, Domenghini e Riva. Téc: Ferruccio Valcareggi

Iugoslávia: Pantelic, Fazlagic, Paunovic, Holcer, Damjanovic, Trivic, Pavlovic, Acimovic, Hosic, Musemic e Dzajic. Téc: Rajko Mitic

Campanha: Três jogos, uma vitória e dois empates. Três gols marcados, um sofrido.

Jogos:
Semifinal
Itália 0-0 URSS (Itália vence no cara ou coroa)

Final - 8 de junho de 1968, Roma - Olimpico
Itália 1-1 Iugoslávia

Replay - 10 de junho, Olimpico
Itália 2-0 Iugoslávia

Fomos campeões: Espanha 1964

Foto: O campo dos sonhos
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

Quatro anos depois de vencer a edição inaugural da Eurocopa, a União Soviética retornava com certo favoritismo para a disputa, que agora seria realizada na Espanha, em duas sedes. Como o formato havia mudado, e agora a competição tinha sua fase final consistindo apenas em semifinais/final, chegaram naquele verão espanhol a própria URSS, Dinamarca e Hungria, além dos donos da casa que boicotaram as quartas de final do certame anterior contra os soviéticos.

Treinados por Jose Villalonga Llorente, os espanhóis tinham em seu grupo o cerebral meia Luis Suarez, o mágico Amancio Amaro, o galopante Chus Pereda e o letal Marcelino. Com um plantel jovem, a Fúria era liderada em campo pelo já mundialmente reconhecido Suarez, que se encarregava de conduzir a batuta na meia cancha.

A URSS ainda contava com três dos astros presentes em 1960: Lev Yashin, Viktor Ponedelnik e Valentin Ivanov. A grande mudança nos convocados destruiu o entrosamento da equipe, que não teve boa atuação na final. 
Suarez: maestro no meio campo da Fúria
Foto: Quatro tiempos
Iniciada em Madrid, a fase final teve duelo inaugural entre Espanha x Hungria. Diante de um Santiago Bernabéu lotado, os mandantes sofreram para bater a forte seleção de Florian Álbert, Ferenc Bene e Lajos Tichy. O trabalho em equipe dos espanhóis foi crucial na batalha contra os húngaros. Pereda abriu o placar aos 35 iniciais, mas a Fúria se acomodou com a vitória parcial e concedeu espaço aos visitantes.

A pressão contra a defesa local surtiu efeito ao fim do segundo tempo, quando Bene estufou as redes e provocou o tempo extra para definir o primeiro finalista daquela edição da Euro. Tomando as rédeas do encontro, e empurrada pela torcida, a Espanha se lançou ao ataque. Amancio acabou com a agonia e desempatou, faltando cinco minutos para o apito final e as temidas penalidades.

Pela outra semifinal, os soviéticos faziam sua parte e atropelavam os daneses por 3-0, no Camp Nou. Voronin, Ponedelnik e Ivanov balançaram as redes e permitiram que a URSS disputasse sua segunda decisão seguida no certame.

Final entre Espanha e URSS seguiu o roteiro da semifinal
Foto: Forum biodiversity (???)
Mesmo roteiro, mesmo final
Em 21 de junho de 1964, diante de quase 80.000 pessoas no Santiago Bernabéu, a festa foi caseira. Novamente a determinação ibérica fez diferença no início. Pereda não demorou nem cinco minutos e castigou os oponentes com uma bomba, em grande iniciativa que saiu dos pés de Suarez. Duros na queda, os então comunistas ergueram a cabeça e não se entregaram logo na primeira dificuldade.

Galimzyan Khusainov deu números iguais ao marcador, num lance que puniu a frouxa marcação feita pela defesa espanhola. A tensão novamente predominou e o equilíbrio fez com que os rivais se recuassem, baseando a estratégia em passes curtos. Ligeiramente melhor na segunda etapa, a Fúria resolveu apostar nos seus jogadores de meio campo (que passaram os 45 minutos finais como homens de frente), mantendo a posse e acionando o mais avançado Marcelino, juntamente com os pontas Amancio e Lapetra.

A loucura ofensiva foi premiada aos 84 minutos, quando o impiedoso Marcelino completou de cabeça o cruzamento de Amancio. Lá atrás, Feliciano Rivilla recuperou a posse e lançou para Pereda, que levou para a ponta direita e cruzou. Tarde demais para mais uma reviravolta: Espanha campeã. E qualquer comparação desse selecionado atual com o de 1964 não é mera coincidência.

Foto: Dribles.com
Espanha: Iribar, Rivilla, Olivella, Calleja, Zoco, Fusté, Amancio, Pereda, Marcelino, Suarez e Lapetra. Téc: José Villalonga


URSS: Yashin, Voronin, Shesternyov, Mudrik, Shustikov, Ponedelnik, Chislenko, Ivanov, Anichkin, Korneev, Khusainov. Téc: Konstantin Beskov

Campanha: Dois jogos, duas vitórias. Quatro gols marcados, dois sofridos.

Jogos:
Semifinal
Hungria 1-2 Espanha

Final - 21 de junho de 1964, Madrid - Santiago Bernabéu
Espanha 2-1 URSS